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Após algumas horas de trabalho, eles pararam para o almoço. O feijão estava cozinhando há algum tempo e o arroz estava quase pronto. Para não se restringirem a só isso, Lázaro foi até a padaria e comprou ovos e queijo. Ao voltar, começou a preparar uma grande omelete para todos.
– Pode fazer menor. A Lilly não come ovo.
Após algumas horas de trabalho, eles pararam para o almoço. O feijão estava cozinhando há algum tempo e o arroz estava quase pronto. Para não se restringirem a só isso, Lázaro foi até a padaria e comprou ovos e queijo. Ao voltar, começou a preparar uma grande omelete para todos.
– Pode fazer menor. A Lilly não come ovo.
– Não come? Por quê?
– Ela tem alergia.
– Bem... vou deixar queijo para ela comer
então.
– Ela também não come queijo. É intolerante
ao leite.
– E o que ela vai comer? – Lázaro já demonstrava
preocupação.
– Arroz e feijão.
– Só isso?
A geladeira não tinha nenhum tipo
de carne. Era uma coisa a menos para estragar, como os vários legumes que se
tornaram líquidos malcheirosos no fundo da gaveta de vegetais. Apesar disso,
Sara prometera ir ao mercado no fim da tarde e o jantar teria uma variedade
maior de alimentos. O suco em pó preparado com a água da geladeira também tinha
corantes que Elisabeth era alérgica, deixando Lázaro com pena da mulher. Não
consumia leite e derivados, nem sucos, nem ovo e provavelmente bolos. Pensou
que, uma dieta restrita em que cada item tem que ser analisado com cuidado
deveria ser algo bem triste.
Ao se sentarem à mesa para comer, Lázaro se
surpreendeu com a cena: enquanto Sara comia com um semblante de desgosto, como
se comesse papel, Elisabeth parecia estar se deliciando de um prato
maravilhoso, como se houvesse sabores muito além dos possibilitados por uma
mera composição de dois grãos e temperados apenas com sal, evitando o alho que
ela também era alérgica.
Tentando trazer um pouco de
animação à mesa, Sara perguntou sobre a loja. Lázaro explicou que Adriano era o
administrador e ele ia receber parte dos lucros, mas ambos não tinham discutido
quanto seria essa parte. Apesar de Lázaro ter ido na loja por dois dias e
ajudado a identificar alguns itens que ele conhecia, o acordo era que ele não
precisaria trabalhar lá. As visitas seriam temporárias, pois Lázaro tinha o
próprio emprego como professor e não tinha interesse em dividir as tarefas
permanentemente. Quando terminasse a licença de Lázaro, Adriano voltaria a
ficar sozinho e era fundamental que ele estivesse totalmente acostumado com as
funções necessárias para manter o funcionamento do local. Sara deu um breve
sorriso e começou a organizar suas próprias ideias e pretensões.
– Se precisar de alguém para
ficar em tempo integral, eu aceito.
Assim como Lázaro, Sara também trabalhou na loja e estava a menos tempo
afastada das atividades. Poderia ajudar mais do que ele, principalmente por ser
muito mais sociável e animada.
– Mas você ficará no Brasil
depois do tratamento?
– Ah, Lázaro. Depois de tudo
que aconteceu, acho que não saio de novo do Brasil. Hoje eu estou onde me sinto
mais completa. Além disso, posso trabalhar como professora de inglês, como
professora de esgrima e ainda trabalhar na loja. É um mundo de possibilidades
que eu posso construir aqui.
Lázaro pensou como uma moça
como ela deveria ter sofrido preconceitos em outros países. Com ascendência
indígena, a pele parda deve ter sido malvista por qualquer um que olhasse para
ela e a visse como uma invasora, uma diferente dos demais. Apesar de haver
algum risco de ser discriminada em seu próprio País, Lázaro tinha certeza que
era diferente: assim como Scarlett O’Hara tirava sua força da terra de sua
fazenda, Sara tiraria força da sua terra para vencer qualquer problema. Então, Sara
continuou a falar.
– Bem, e lá fora as pessoas
não tem essa alegria que nós temos aqui, apesar das dificuldades que o País
passa... ao menos passava quando eu saí.
– É... não tem tanta diferença de quando você saiu... – Lázaro tateou o
bolso. – Ah, a moeda mudou desde que você se mudou.
Lázaro tirou uma nota de um real do bolso e entregou para a prima. Ela
teve poucas oportunidades de colocar a mão naquele dinheiro. Na Inglaterra,
tudo era pago em libras ou dólares. Nas viagens fora da Inglaterra, tinha que
trocar pela moeda local. Acabava guardando as moedas de vários países que
visitara, sendo que alguns já não as tinham mais por substituí-las pelo Euro,
que vinha aos poucos substituindo as moedas tradicionais de países da União
Europeia. Essas moedas que sairiam de circulação eram tão bonitas que deram a
Sara uma pequena e bela memorabilia que poderia ser disposta na parede em uma
moldura. Sara gostou da ideia e iria buscar alguma forma de expô-las com
anotações de eventos de sua vida ocorridos quando ela recebera aquelas moedas.
Lázaro retomou a conversa
sobre a permanência de Sara no Brasil. Decidiu que a prima poderia trabalhar
com Adriano, mesmo sem ter combinado nada. Elisabeth ficou empolgada com a
proposta e perguntou se poderia ficar lá com Sara, para conviver com nativos e
aprofundar seu conhecimento em português. Ela não sabia quanto tempo ficaria no
País mas, por enquanto, não tinha data para ir. A mulher tinha suas próprias
economias e, como hóspede, conseguiria se sustentar sem trabalhar por um bom
tempo.
– Você não precisa voltar para
o seu emprego? – Lázaro perguntou para Elisabeth.
– Não. Eu estava na Inglaterra
para estudar inglês. Para mim, neste
momento, ficar aqui com minha gir...
amiga é muito mais importante. –
disse Elisabeth, mesclando português com inglês, mas sendo entendida.
Elisabeth sorriu para Sara,
que retribuiu o sorriso.
– Então está combinado. –
Lázaro bateu de leve com as mãos na mesa e se levantou. – Eu vou falar com o
Adriano e acredito que dará tudo certo para você começar amanhã. Vamos terminar
a faxina e eu vou embora.
Depois do almoço, enquanto ajudava na faxina, Lázaro percebeu que Sara ainda
apresentava cansaço. Ela perdera peso e força, e ele temia que perdesse as unhas, o cabelo e
até os dentes nessa doença que parecia anorexia. A cantora Karen Carpenter
definhou por anos até morrer aos trinta e dois anos, vítima das complicações de
saúde decorrentes da anorexia nervosa. Porém, foram oito longos anos, enquanto
Sara estava desse jeito havia menos de um. Estava claro que não era a mesma
doença, mas poderia ser algum outro distúrbio alimentar. Em outra oportunidade,
tentaria se aproximar de Elisabeth e pedir para que ela vigiasse a prima, para
ter certeza que Sara não estava sabotando a sua própria saúde.
Antes de ir embora, Lázaro
ligou para Adriano e combinou que Sara passaria a trabalhar no antiquário,
garantindo que de maneira nenhuma isso prejudicaria a saúde financeira da
empresa. Lázaro também ajudaria no que fosse possível durante o tempo da
licença, mas deixou claro que era temporário. Após desligar o telefone, ele
lembrou do celular e preferiu deixá-lo com Sara para que fosse entregue à
Adriano no dia seguinte. O carregador do aparelho ele devolveria outro dia,
pois não tinha pretensão de aparecer na quinta-feira no antiquário.
Ao se despedir das duas, deu
um longo abraço em Sara e, ao cumprimentar Elisabeth, sentiu novamente aquela
sensação de “fome”. Retornando para seu apartamento, pensou que aquela sensação
inexplicável o estava causando desconforto e medo, e Lázaro sentia que
enlouquecera um pouco naquelas duas últimas semanas difíceis.
***
Lázaro fez o caminho de volta para o apartamento tentando retomar a
tranquilidade e passar pela última prova de paciência que Andreia promoveria.
Subindo as escadas, não viu a moça em lugar algum, mas ela o aguardava. Assim
que ele pisou no patamar do primeiro andar, Andreia abriu a porta de seu
apartamento para confrontá-lo.
– Olá,
Lázaro... chegou cedo. Algum problema na loja? – disse Andreia, sarcástica.
– Não. Tudo na santa paz. – disse Lázaro,
em tom tranquilo.
Lázaro estava destrancando a porta quando
Andreia continuou.
– Não mesmo? Mas você saiu tarde para
trabalhar.
– Às vezes acontece.
Quando tudo parecia ir bem e Lázaro se
preparava para entrar, Andreia começou a gritar.
– Você é um sem-vergonha. Não
tem um pingo de vergonha na cara de mentir assim? Você não foi trabalhar que eu
sei.
Lázaro parou com o cenho franzido olhando para a porta e, segundos
depois, se virou para a vizinha, em silêncio.
– Ah, fica até sem palavras,
né? Foi na casa de alguma vagabunda?
Lázaro sacudiu a cabeça levemente
e piscou, aturdido, e entrou no apartamento, trancando a porta com duas voltas
na fechadura, para garantir. Parecia que Andreia estava pior que no dia
anterior, principalmente porque parecia ter seguido Lázaro até a casa do pai ou
pedido para alguém fazê-lo, usando a informação da forma que achasse melhor. A
moça ainda ficou alguns minutos gritando com Lázaro pela porta, batendo e
xingando. Aos poucos, o barulho foi diminuindo, até parar, porém, enquanto não
cessava, Lázaro sentiu vontade de sair e bater em Andreia, mas se conteve.
Pela ofensa gratuita e sem interrupções,
Lázaro entendeu que Andreia aproveitara da ausência da mãe para fazer
escândalo. Naquele dia, Ieda deveria estar em algum serviço de faxina, um
serviço esporádico, mas que consumia quase o dia todo. Em todo caso, precisava
fazer algo e tinha esperança que, ao falar com a vizinha, ela faria alguma
coisa a respeito, fosse censurar ou surrar a filha como já fizera em outras
ocasiões. Com a raiva que sentia, ele gostaria que fosse a surra, assim a moça
ficaria com vergonha de sair por alguns dias.
Às dezoito horas, alguém subia com passos
pesados a escadaria do prédio. Lázaro ficou o resto da tarde esperando Ieda
sentado no sofá e, ao olhar pela janela, viu que a espera tinha acabado.
Aliviado com a presença da mulher, ele abriu a porta para conversar.
– Boa noite, dona Ieda.
Lázaro deu um meio-sorriso e
Ieda o retribuiu, apesar de estar visivelmente cansada.
– Boa noite, Lázaro. Tudo bem?
Lázaro coçou o pescoço e titubeou,
mas contou tudo que Andreia estava fazendo. Contudo, como a raiva tinha
passado, ele tentou apresentar os fatos de forma mais amena para evitar um
conflito entre mãe e filha. Além de ser a pessoa em que Lázaro tinha mais
respeito naquele prédio, Ieda era quem resolvia os problemas da família dela,
principalmente por que Andreia não tinha maturidade e Gerson não tinha
paciência. Ieda ouviu tudo com atenção, apesar de perder o sorriso no rosto e
começar a demonstrar sua raiva em relação aos desatinos da filha. Ela mesma
sabia que houve um tempo de paz entre Andreia e Lázaro e que resultou até em
uma filha mais prestativa. Porém, pelo que narrava o vizinho, a trégua fora
substituída por um conflito mais devastador e que poderia acabar com uma boa
convivência entre vizinhos de quase dez anos.
Lázaro agradeceu a atenção de
Ieda e se despediu com um aperto de mão. Ao se virar e antes de entrar em casa,
Lázaro, de soslaio, viu Andreia olhando pela janela. Preferiu não dar a
entender que a tinha visto e apenas entrou no apartamento. Pouco tempo depois,
sentado em seu sofá, ele ouviu os gritos de Andreia. Parecia que os eufemismos
não tinham surtido efeito e a garota estava apanhando como não apanhava há
muitos anos. Lázaro decidiu ignorar o evento, apesar de sentir-se vingado.
Após a tribulação, ele parou
para pensar que havia sentido algo ao cumprimentar Ieda, algo que não sabia
como descrever, mas algo poderoso. Provavelmente o aperto de mão firme e que
não deixava dúvidas sobre a índole dela, talvez algo a mais. Não sabia dizer
realmente, mas parecia ter sentido algo como a sensação de ser protegido entre
muralhas.
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