quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 23


22 
     Na madrugada de quarta para quinta-feira, Lázaro sonhou com Beatriz novamente. Parecia um sonho muito real e não era uma lembrança. Beatriz parecia um pouco mais velha, mas era quase a mesma mulher que ele conhecera na universidade. Sua antiga amiga não o reconhecera em um primeiro momento, mas ele, insistindo e relembrando coisas pessoais dos dois, conseguiu fazê-la se lembrar. Eles se abraçaram e ela disse que estava com saudade dele, e ficou claro que era um sentimento mútuo. Lázaro disse com sinceridade todo o sentimento que nunca dissera a ela quando ambos estudavam juntos e, sendo um sonho mais real, havia uma mistura de sentimentos que davam liberdade e coragem para tirar as amarras da sua mente. Beatriz, para sua surpresa, disse que também o amava e sentia muito que precisasse ter se afastado dele, sendo uma das poucas coisas que fez até então com peso no coração, assim como quando precisou deixar a família no Brasil na mesma época. Lázaro acordou do sonho, mas ainda sentia a presença dela, sensação que lhe causou sentimentos intensos de dolorosos.

     As declarações mútuas entre ambos fizeram Lázaro sentir que deveria ir até onde estava Beatriz, tentar mais uma vez sentir a felicidade que não sentia desde o tempo de faculdade. Tinha convicção de que o amor que sentia por Adriano e Sara não seria empecilho para deixá-los e recomeçar em outro país se fosse necessário, ainda mais com todo discurso apaixonado de Adriano sobre como os computadores e a internet iam se tornar algo tão comum nas casas quanto um televisor com uma antena devido a difusão da tecnologia, e isso ia aproximar as famílias que vivessem em outros estados e até em países diferentes. Para usufruir desse novo mundo, Lázaro só precisaria aprender a usar um computador e tudo se resolveria.

     O sentimento incômodo causado pelo sonho terminado de forma abrupta perdurou por mais tempo do que Lázaro gostaria. Nem mesmo o banho e um café quente diminuíram o sentimento de saudade, de nostalgia e de pequenez que ele sentia. Restava sentar-se perto de pessoas conhecidas para fugir da lembrança viva e agridoce que estava em seu âmago e Lázaro decidiu que deveria ir a todo custo para o antiquário. Ao sair, sentiu o silêncio do andar, provável resultado da surra que Andreia recebera de Ieda na noite anterior. Provavelmente, a moça já estaria acordada e, de esguelha, viu que ela não estava nem mesmo escondida por detrás da cortina da janela ao lado da porta.

     Ao sair do portão, uma coisa que nunca havia presenciado o deixou desconfiado. Sentiu que alguém o observava e percebeu que Anahí estava sentada em um ponto de ônibus que ficava do outro lado da rua, quase em frente ao portão de entrada do seu condomínio. Ela olhou para ele e fez um aceno com a mão tão falso quanto o de uma candidata a concurso de beleza. Lázaro retribuiu com um aceno de cabeça e foi para o terminal. Por um instante, ele pensou que Andreia havia pedido que a moça ficasse de vigia em seu lugar, mas seria uma ideia descarada demais. Anahí estava ali porque também deveria morar na região, fato que explicaria também a frequência de vê-la sentada com Andreia nos degraus que levavam ao segundo andar. Preferiu supor que era uma mera coincidência e continuou seu caminho. Quando chegou a entrada da viela que dava acesso à rua cardeal dom Agnello Rossi, ele se escondeu atrás do muro e olhou para o ponto, aonde Anahí ainda estava sentada. Lázaro se sentiu estúpido pela suspeita e decidiu continuar seu caminho.

     Lázaro chegou poucas horas após a loja ser aberta e encontrou Adriano, Sara e Elisabeth percorrendo os corredores da loja enquanto o amigo explicava em português o que ele fizera nessas quase duas semanas em que a loja estava reaberta. Os móveis mais bonitos estavam ao fundo, enquanto os menos interessantes estavam à frente, juntamente com objetos mais sensíveis. Era uma tática de Isaac para vender e para evitar prejuízos: Um cliente compulsivo levaria um móvel menos interessante por que teria que passar por ele antes de ver um móvel cobiçado, enquanto um curioso evitaria mexer e, quem sabe, quebrar, um objeto frágil debaixo dos olhos dele. Era uma suposição que Adriano tinha e que Sara confirmou. Precisou de um tempo para chegar àquela conclusão e não tinha falado ainda sobre o assunto com Lázaro.

     Sara confidenciou uma memória da infância sobre o depósito, onde Lázaro cochilou dias antes, que era usada também como sala de brincadeiras de Lázaro e dela em épocas de férias. Enquanto Ruth estava viva e Lázaro ainda não havia começado a trabalhar, era ali que ambos passavam o tempo quando não estavam em casa. Porém, tão logo começou a falar da memória, ficou em silêncio. Apesar de ter sido criada como uma filha pelos tios, havia um passado doloroso que ela ainda lembrava às vezes e que Lázaro havia contado superficialmente para Adriano, e este mudou rapidamente de assunto. Somente Lázaro sabia o motivo que levou Sara a se afastar da mãe, mas era um segredo que guardaria até a morte. Da família paterna, Sara perdeu o vínculo quando os pais se separaram e todos eles cortaram contato simultaneamente, não restando nada além de pequenos fragmentos de memória que poderiam ser também invenções de sua mente.

     Quando chegou a adolescência, Sara passou a dividir as obrigações da loja com Lázaro, apesar de ficar muitas vezes em casa, assumindo as funções da falecida tia. Quando Lázaro foi embora, ela dividia a semana entre a escola, as tarefas domésticas e ainda ajudava o tio na loja. Sara tinha uma força de vontade muito grande e dava conta de tudo sem reclamar, e Adriano sabia que seria essa experiência que teria com ela até mesmo agora, em que as forças da mulher evanesciam pouco a pouco, dia após dia.

     – Bom dia, pessoal. – disse Lázaro, ao entrar na loja.

     – Bom dia. – Todos responderam, inclusive Elisabeth.

     – Aprendendo umas palavras novas em português, Lilly?

     – Aprendendo, for sure... sim. Tentando, mas é ainda difícil.

     – “Ainda é difícil”. Se você trocar a ordem das palavras, vai parecer o mestre Yoda. – Sara disse e abraçou levemente de lado a amiga acanhada.

     – É assim mesmo, Lilly. Aprender outro idioma é difícil. – Lázaro tentou ser consolador.

     – Para os outros sim, mas eu me lembro que você aprendia fácil. – Sara disse para o primo e se voltou para Adriano. – Ontem, o Lázaro chegou falando com alguma dificuldade lá em casa. Passados alguns minutos, já estava nadando de braçada, falando como se fosse um nativo.

     Lázaro não discordou. Na verdade, pensou que era somente impressão aquilo que Sara confirmava naquele momento. Anos e anos ouvindo que ele era inteligente deixaram-no preguiçoso em buscar alguma causa para sua capacidade incomum. Lázaro fez um muxoxo e continuou.

     – Vamos falar do que interessa. Como está a casa?

     – Está quase tudo perfeito, mas a casa é muito grande para limpar! A geladeira estava muito suja, com muitas coisas estragadas... mas foi bom, foi uma viagem no tempo. Quase tudo estava como quando eu saí. Uma coisinha ou outra que foi mudada de lugar, mas a tevê é a mesma, a geladeira é a mesma. Coisas que não quebram fácil.

     A casa trazia aos primos sentimentos nostálgicos. Era uma cápsula do tempo, fechada para receber os visitantes do futuro e lhes dizer que ali eles poderiam viver aquele momento da infância em que suas vidas eram mais fáceis e simples. Era claro que as coisas não seriam simples e fáceis de novo, mas eles estavam juntos como no passado e isso era o mais importante.

     – Mude o que quiser para deixá-la confortável. – disse Lázaro para Sara.

     – Ah, não. Eu acho que está bem do jeito que está. A tevê ainda pega bem e o cheiro que está na geladeira vai sair. Fomos ao mercado ontem e uma senhora disse para colocarmos carvão que, em alguns dias, o cheiro terá sumido. Ela vai ficar novinha em folha, assim como era quando chegou.

     Enquanto Adriano atendia um cliente que chegara, os três continuaram a conversa, passeando pela loja.

     – De resto, estão bem? Já se acostumaram com o clima?

     – Está quente. – Elisabeth abanou-se com a mão como se esta fosse um leque.

     – Para mim está bom. Só à noite eu sinto um pouco mais de frio, mas uma boa blusa resolve tudo. Aliás – Sara estalou os dedos –, quando eu estava procurando uma blusa mais levinha lá em casa, eu achei uma coisa.

     Sara foi até o balcão, pegou a sua mochila e tirou de dentro um grande caderno de capa preta e dura, como um livro de ata. Na capa, estava escrito “Lázaro”.

     – Achei jogado no chão, mas não tem nada escrito nele. – Sara começou a folear enquanto se aproximava de Lázaro, mostrando-lhe todas as folhas em branco. – A letra é do tio, mas tem seu nome.

     Lázaro lembrou-se imediatamente da carta que o pai deixara para ele escrito com tinta invisível. Sem levantar suspeitas, ele agradeceu e, com semblante despreocupado, colocou o caderno debaixo do braço. Eles ainda passaram algum tempo conversando sobre a viagem, sobre os locais divertidos que Sara e Elisabeth poderiam visitar na cidade após tanto tempo distantes. Lázaro lembrou que domingo era dia da Feira de Artesanato na praça Carlos Gomes. Apesar de terem o carro de Isaac na garagem, Sara e Elisabeth estavam acostumadas a usarem transporte público e sua prima completou: “aproveite o destino, mas aproveite também o caminho”.

     No primeiro dia de trabalho, Sara assumiu a função de acompanhar possíveis vendas na internet. Adriano anunciava ao menos dois produtos a mais por dia no cadastro feito em um site de vendas. Era possível dar detalhes sobre o produto e ele fazia isso com muito cuidado, tentando acrescentar todas as qualidades que conseguisse ao anúncio. Se Isaac tivesse convivido com Adriano, provavelmente teria admirado o tino para negócios. Estava anunciando havia menos de uma semana e fizera apenas uma venda, mas que ele comemorou como a abertura de um novo meio de se comunicar com os clientes. Olhava várias vezes por dia o e-mail para verificar uma nova venda ou as escassas perguntas feitas. Quando questionado, respondeu que a internet era o futuro, sendo apoiado por Sara que estava acostumada com lojas online há pelo menos três anos.

     Adriano deixava claro que não era ingênuo em acreditar que poderia simplesmente fechar as portas e passar a anunciar todos os móveis online e as vendas pela internet seriam suficientes. A maioria dos clientes apareciam de corpo e alma na loja para olhar, testar e fazer muitas perguntas. Isaac também sabia disso e fazia fichas de papel para cada produto, onde descrevia o item da loja e tinham o mesmo número que estava na etiqueta pendurada no próprio móvel. Era possível ver na etiqueta o ano de fabricação, um grande R para itens restaurados e o preço de venda. Outros detalhes estavam nas fichas acondicionadas em um estojo. Adriano buscava encontrar uma forma de ampliar as informações da etiqueta, oferecendo de forma mais dinâmica as informações sobre o produto e tratando os itens como se fossem tão procurados que ele sabia de cor tudo que era possível saber: se um cliente indeciso achasse que o produto era muito procurado, poderia querer comprá-lo antes dos outros.

     A realidade do antiquário sempre foi mostrar uma aura de requinte, organização e beleza, garantindo que as peças fossem estrategicamente colocadas para serem agradáveis aos olhos e cobiçadas. Porém, por trás da beleza, havia um mundo de papeis e mais papeis, grandes pastas cheias de documentos referentes às compras, vendas e serviços de restauração de móveis. Os armários com essa papelada ficavam no depósito e eram responsabilidade de Adriano, enquanto a parte contábil ficava com Antônio, o contador. Ele era um homem de meia-idade que tinha um escritório pequeno, com alguns funcionários, mas muitos clientes que o respeitavam por seu zelo e esmero. Além disso, gostava de trabalhar e dava conta sem precisar contratar mais pessoal, tanto que continuava trabalhando sozinho mesmo depois do expediente, até mesmo nos fins de semana, quando todos seus funcionários estavam em casa, apesar dos mesmos se disponibilizarem para ajudá-lo quando Antônio precisava, mesmo que não pedisse.

     Isaac fora amigo da família de Antônio por muitos anos e um de seus primeiros clientes, possibilitando que Isaac deixasse sob a responsabilidade de Antônio muitas obrigações que seriam dele, como pagar os impostos. Isaac entregou nas mãos do contador os cheques para cada imposto até que os caixas eletrônicos facilitassem as movimentações financeiras e o valor integral fosse transferido para a conta do amigo. Sabendo dessa facilidade oferecida pelo contador, Adriano ia fazer o mesmo, mas um imprevisto mudou os planos.
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