22
Na madrugada de quarta para quinta-feira, Lázaro sonhou com Beatriz novamente. Parecia um sonho muito real e não era uma lembrança. Beatriz parecia um pouco mais velha, mas era quase a mesma mulher que ele conhecera na universidade. Sua antiga amiga não o reconhecera em um primeiro momento, mas ele, insistindo e relembrando coisas pessoais dos dois, conseguiu fazê-la se lembrar. Eles se abraçaram e ela disse que estava com saudade dele, e ficou claro que era um sentimento mútuo. Lázaro disse com sinceridade todo o sentimento que nunca dissera a ela quando ambos estudavam juntos e, sendo um sonho mais real, havia uma mistura de sentimentos que davam liberdade e coragem para tirar as amarras da sua mente. Beatriz, para sua surpresa, disse que também o amava e sentia muito que precisasse ter se afastado dele, sendo uma das poucas coisas que fez até então com peso no coração, assim como quando precisou deixar a família no Brasil na mesma época. Lázaro acordou do sonho, mas ainda sentia a presença dela, sensação que lhe causou sentimentos intensos de dolorosos.
Na madrugada de quarta para quinta-feira, Lázaro sonhou com Beatriz novamente. Parecia um sonho muito real e não era uma lembrança. Beatriz parecia um pouco mais velha, mas era quase a mesma mulher que ele conhecera na universidade. Sua antiga amiga não o reconhecera em um primeiro momento, mas ele, insistindo e relembrando coisas pessoais dos dois, conseguiu fazê-la se lembrar. Eles se abraçaram e ela disse que estava com saudade dele, e ficou claro que era um sentimento mútuo. Lázaro disse com sinceridade todo o sentimento que nunca dissera a ela quando ambos estudavam juntos e, sendo um sonho mais real, havia uma mistura de sentimentos que davam liberdade e coragem para tirar as amarras da sua mente. Beatriz, para sua surpresa, disse que também o amava e sentia muito que precisasse ter se afastado dele, sendo uma das poucas coisas que fez até então com peso no coração, assim como quando precisou deixar a família no Brasil na mesma época. Lázaro acordou do sonho, mas ainda sentia a presença dela, sensação que lhe causou sentimentos intensos de dolorosos.
As declarações mútuas entre ambos fizeram
Lázaro sentir que deveria ir até onde estava Beatriz, tentar mais uma vez
sentir a felicidade que não sentia desde o tempo de faculdade. Tinha convicção
de que o amor que sentia por Adriano e Sara não seria empecilho para deixá-los
e recomeçar em outro país se fosse necessário, ainda mais com todo discurso
apaixonado de Adriano sobre como os computadores e a internet iam se tornar
algo tão comum nas casas quanto um televisor com uma antena devido a difusão da
tecnologia, e isso ia aproximar as famílias que vivessem em outros estados e
até em países diferentes. Para usufruir desse novo mundo, Lázaro só precisaria
aprender a usar um computador e tudo se resolveria.
O sentimento incômodo causado pelo sonho
terminado de forma abrupta perdurou por mais tempo do que Lázaro gostaria. Nem
mesmo o banho e um café quente diminuíram o sentimento de saudade, de nostalgia
e de pequenez que ele sentia. Restava sentar-se perto de pessoas conhecidas
para fugir da lembrança viva e agridoce que estava em seu âmago e Lázaro
decidiu que deveria ir a todo custo para o antiquário. Ao sair, sentiu o
silêncio do andar, provável resultado da surra que Andreia recebera de Ieda na
noite anterior. Provavelmente, a moça já estaria acordada e, de esguelha, viu
que ela não estava nem mesmo escondida por detrás da cortina da janela ao lado
da porta.
Ao sair do portão, uma coisa que nunca
havia presenciado o deixou desconfiado. Sentiu que alguém o observava e
percebeu que Anahí estava sentada em um ponto de ônibus que ficava do outro
lado da rua, quase em frente ao portão de entrada do seu condomínio. Ela olhou
para ele e fez um aceno com a mão tão falso quanto o de uma candidata a
concurso de beleza. Lázaro retribuiu com um aceno de cabeça e foi para o
terminal. Por um instante, ele pensou que Andreia havia pedido que a moça
ficasse de vigia em seu lugar, mas seria uma ideia descarada demais. Anahí
estava ali porque também deveria morar na região, fato que explicaria também a
frequência de vê-la sentada com Andreia nos degraus que levavam ao segundo
andar. Preferiu supor que era uma mera coincidência e continuou seu caminho.
Quando chegou a entrada da viela que dava acesso à rua cardeal dom Agnello
Rossi, ele se escondeu atrás do muro e olhou para o ponto, aonde Anahí ainda
estava sentada. Lázaro se sentiu estúpido pela suspeita e decidiu continuar seu
caminho.
Lázaro chegou poucas horas após a
loja ser aberta e encontrou Adriano, Sara e Elisabeth percorrendo os corredores
da loja enquanto o amigo explicava em português o que ele fizera nessas quase
duas semanas em que a loja estava reaberta. Os móveis mais bonitos estavam ao
fundo, enquanto os menos interessantes estavam à frente, juntamente com objetos
mais sensíveis. Era uma tática de Isaac para vender e para evitar prejuízos: Um
cliente compulsivo levaria um móvel menos interessante por que teria que passar
por ele antes de ver um móvel cobiçado, enquanto um curioso evitaria mexer e,
quem sabe, quebrar, um objeto frágil debaixo dos olhos dele. Era uma suposição
que Adriano tinha e que Sara confirmou. Precisou de um tempo para chegar àquela
conclusão e não tinha falado ainda sobre o assunto com Lázaro.
Sara confidenciou uma memória da
infância sobre o depósito, onde Lázaro cochilou dias antes, que era usada
também como sala de brincadeiras de Lázaro e dela em épocas de férias. Enquanto
Ruth estava viva e Lázaro ainda não havia começado a trabalhar, era ali que
ambos passavam o tempo quando não estavam em casa. Porém, tão logo começou a
falar da memória, ficou em silêncio. Apesar de ter sido criada como uma filha
pelos tios, havia um passado doloroso que ela ainda lembrava às vezes e que
Lázaro havia contado superficialmente para Adriano, e este mudou rapidamente de
assunto. Somente Lázaro sabia o motivo que levou Sara a se afastar da mãe, mas
era um segredo que guardaria até a morte. Da família paterna, Sara perdeu o
vínculo quando os pais se separaram e todos eles cortaram contato
simultaneamente, não restando nada além de pequenos fragmentos de memória que
poderiam ser também invenções de sua mente.
Quando chegou a adolescência, Sara passou a
dividir as obrigações da loja com Lázaro, apesar de ficar muitas vezes em casa,
assumindo as funções da falecida tia. Quando Lázaro foi embora, ela dividia a
semana entre a escola, as tarefas domésticas e ainda ajudava o tio na loja.
Sara tinha uma força de vontade muito grande e dava conta de tudo sem reclamar,
e Adriano sabia que seria essa experiência que teria com ela até mesmo agora,
em que as forças da mulher evanesciam pouco a pouco, dia após dia.
– Bom dia, pessoal. – disse
Lázaro, ao entrar na loja.
– Bom dia. – Todos
responderam, inclusive Elisabeth.
– Aprendendo umas palavras novas
em português, Lilly?
– Aprendendo, for sure... sim.
Tentando, mas é ainda difícil.
– “Ainda é difícil”. Se você trocar a ordem das palavras, vai parecer o
mestre Yoda. – Sara disse e abraçou levemente de lado a amiga acanhada.
– É assim mesmo, Lilly.
Aprender outro idioma é difícil. – Lázaro tentou ser consolador.
– Para os outros sim, mas eu me lembro que você aprendia fácil. – Sara disse
para o primo e se voltou para Adriano. – Ontem, o Lázaro chegou falando com
alguma dificuldade lá em casa. Passados alguns minutos, já estava nadando de
braçada, falando como se fosse um nativo.
Lázaro não discordou. Na verdade,
pensou que era somente impressão aquilo que Sara confirmava naquele momento.
Anos e anos ouvindo que ele era inteligente deixaram-no preguiçoso em buscar
alguma causa para sua capacidade incomum. Lázaro fez um muxoxo e continuou.
– Vamos falar do que
interessa. Como está a casa?
– Está quase tudo perfeito,
mas a casa é muito grande para limpar! A geladeira estava muito suja, com muitas coisas estragadas... mas foi
bom, foi uma viagem no tempo. Quase tudo estava como quando eu saí. Uma
coisinha ou outra que foi mudada de lugar, mas a tevê é a mesma, a geladeira é
a mesma. Coisas que não quebram fácil.
A casa trazia aos primos
sentimentos nostálgicos. Era uma cápsula do tempo, fechada para receber os
visitantes do futuro e lhes dizer que ali eles poderiam viver aquele momento da
infância em que suas vidas eram mais fáceis e simples. Era claro que as coisas
não seriam simples e fáceis de novo, mas eles estavam juntos como no passado e
isso era o mais importante.
– Mude o que quiser para deixá-la
confortável. – disse Lázaro para Sara.
– Ah, não. Eu acho que está bem do jeito
que está. A tevê ainda pega bem e o cheiro que está na geladeira vai sair.
Fomos ao mercado ontem e uma senhora disse para colocarmos carvão que, em
alguns dias, o cheiro terá sumido. Ela vai
ficar novinha em folha, assim como era quando chegou.
Enquanto Adriano atendia um cliente que chegara, os três continuaram a
conversa, passeando pela loja.
– De resto, estão bem? Já se
acostumaram com o clima?
– Está quente. – Elisabeth
abanou-se com a mão como se esta fosse um leque.
– Para mim está bom. Só à
noite eu sinto um pouco mais de frio, mas uma boa blusa resolve tudo. Aliás –
Sara estalou os dedos –, quando eu estava procurando uma blusa mais levinha lá
em casa, eu achei uma coisa.
Sara foi até o balcão, pegou a sua mochila e tirou de dentro um grande
caderno de capa preta e dura, como um livro de ata. Na capa, estava escrito
“Lázaro”.
– Achei
jogado no chão, mas não tem nada escrito nele. – Sara começou a folear enquanto
se aproximava de Lázaro, mostrando-lhe todas as folhas em branco. – A letra é do tio, mas tem seu nome.
Lázaro lembrou-se imediatamente da
carta que o pai deixara para ele escrito com tinta invisível. Sem levantar
suspeitas, ele agradeceu e, com semblante despreocupado, colocou o caderno
debaixo do braço. Eles ainda passaram algum tempo
conversando sobre a viagem, sobre os locais divertidos que Sara e Elisabeth
poderiam visitar na cidade após tanto tempo distantes. Lázaro lembrou que
domingo era dia da Feira de Artesanato na praça Carlos Gomes. Apesar de terem o
carro de Isaac na garagem, Sara e Elisabeth estavam acostumadas a usarem
transporte público e sua prima completou: “aproveite o destino, mas aproveite
também o caminho”.
No primeiro dia de trabalho, Sara
assumiu a função de acompanhar possíveis vendas na internet. Adriano anunciava
ao menos dois produtos a mais por dia no cadastro feito em um site de
vendas. Era possível dar detalhes sobre o produto e ele fazia isso com muito
cuidado, tentando acrescentar todas as qualidades que conseguisse ao anúncio.
Se Isaac tivesse convivido com Adriano, provavelmente teria admirado o tino
para negócios. Estava anunciando havia menos de uma semana e fizera apenas uma
venda, mas que ele comemorou como a abertura de um novo meio de se comunicar
com os clientes. Olhava várias vezes por dia o e-mail para verificar uma nova
venda ou as escassas perguntas feitas. Quando questionado, respondeu que a
internet era o futuro, sendo apoiado por Sara que estava acostumada com lojas
online há pelo menos três anos.
Adriano deixava claro que não era
ingênuo em acreditar que poderia simplesmente fechar as portas e passar a
anunciar todos os móveis online e as
vendas pela internet seriam suficientes. A maioria dos clientes
apareciam de corpo e alma na loja para olhar, testar e fazer muitas perguntas.
Isaac também sabia disso e fazia fichas de papel para cada produto, onde
descrevia o item da loja e tinham o mesmo número que estava
na etiqueta pendurada no próprio móvel. Era possível ver na etiqueta o ano de
fabricação, um grande “R” para
itens restaurados e o preço de venda. Outros detalhes estavam nas fichas
acondicionadas em um estojo. Adriano buscava encontrar uma forma de ampliar as
informações da etiqueta, oferecendo de forma mais dinâmica as informações sobre
o produto e tratando os itens como se fossem tão procurados que ele sabia de
cor tudo que era possível saber: se um cliente indeciso achasse que o produto
era muito procurado, poderia querer comprá-lo antes dos outros.
A realidade do antiquário sempre
foi mostrar uma aura de requinte, organização e beleza, garantindo que as peças
fossem estrategicamente colocadas para serem agradáveis aos olhos e cobiçadas.
Porém, por trás da beleza, havia um mundo de papeis e mais papeis, grandes
pastas cheias de documentos referentes às compras, vendas e serviços de
restauração de móveis. Os armários com essa papelada ficavam no depósito e eram
responsabilidade de Adriano, enquanto a parte contábil ficava com Antônio, o
contador. Ele era um homem de meia-idade que tinha um escritório pequeno, com
alguns funcionários, mas muitos clientes que o respeitavam por seu zelo e
esmero. Além disso, gostava de trabalhar e dava conta sem precisar contratar
mais pessoal, tanto que continuava trabalhando sozinho mesmo depois do
expediente, até mesmo nos fins de semana, quando todos seus funcionários
estavam em casa, apesar dos mesmos se disponibilizarem para ajudá-lo quando
Antônio precisava, mesmo que não pedisse.
Isaac fora amigo da família de Antônio por
muitos anos e um de seus primeiros clientes, possibilitando que Isaac deixasse
sob a responsabilidade de Antônio muitas obrigações que seriam dele, como pagar
os impostos. Isaac entregou nas mãos do contador os cheques para cada imposto
até que os caixas eletrônicos facilitassem as movimentações financeiras e o
valor integral fosse transferido para a conta do amigo. Sabendo dessa
facilidade oferecida pelo contador, Adriano ia fazer o mesmo, mas um imprevisto
mudou os planos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário