20
Lázaro acordou com a claridade do dia e percebeu que o único som no seu andar era do motor da geladeira do próprio apartamento – toca-discos estava desligado por causa do temporizador. As cortinas abertas possibilitaram que a luz indireta preenchesse todos os cômodos e trouxesse calor para o ambiente, garantindo o estímulo necessário para ele se levantar e começar mais um dia. Antes de sair definitivamente ele fez barulho na porta, como se a abrisse, mas continuou dentro do apartamento. No mesmo instante, ouviu a porta do lado se abrir e, após alguns segundos, fechar novamente. Andreia estava lá, esperando. Pensou que, se tivesse acordado às seis horas, como no dia anterior, provavelmente ela estaria dormindo ainda e ele não precisaria ter que começar o dia irritado. Considerou que deveria tentar algo absurdo, mas que poderia funcionar: ligou o toca-discos novamente, reposicionou o disco na primeira música, aumentou o volume e colocou o temporizador para desligar em vinte minutos. Se desse certo, Andreia não saberia que ele saiu até que estivesse no ônibus.
A primeira música tocava quando Lázaro destrancou a porta e esperou o momento certo para sair. Na transição para a próxima, abriu a porta com cuidado, saiu e encostou próximo ao batente. Começou a segunda música e Lázaro terminou de fechar a porta e trancá-la. A porta da vizinha não abriu. Sentindo que havia funcionado, desceu as escadas, com cuidado, enquanto a porta continuava trancada. Andou calmamente pelo estacionamento e saiu pelo pequeno portão que dava acesso à rua São Bartolomeu. Tranquilamente, ele caminhou até a viela, cruzou-a e ganhou a avenida cardeal Dom Agnello Rossi, de onde podia ver o terminal do lado oposto à praça Paulo Egídio Martins. Enquanto caminhava, pensou que seria uma atitude estúpida sua saída às escondidas, pois ele não devia nada para Andreia. Porém, avaliou melhor a situação e concluiu que foi tão bom sair de casa sem ser importunado que valia sim a pena. Seria melhor visitar Sara sem estar com raiva, deixando esse problema para quando voltasse.
Durante a viagem, Lázaro ligou para a prima. Enquanto falava poucas palavras para situá-la onde ele estava, as pessoas em seu entorno o encaravam – ele era o único ali com um telefone celular. Lázaro era apenas um professor e ainda não sabia quanto teria que pagar pelas ligações através do aparelho. Ao olhar para pessoas como ele, que não eram ricas, se deu conta que não poderia ficar com o aparelho, e nem sabia muito bem por que ficara com ele quando Abner o entregou. Desde os dezoito anos, ele não sabia o que era ter um telefone fixo e vivia bem com isso, então, decidiu que o celular poderia ser mais bem usado por Adriano e que o entregaria para o amigo.
A distância do ponto de ônibus que Lázaro desceu até a casa de seu pai era curta e o movimento de carros e pessoas era quase inexistente. Diferente de onde morava, a vila Lemos era um bairro com menos jovens e, consequentemente, menos barulho. Por esse mesmo motivo, era possível perceber que havia vida jovem dentro da antiga casa de Isaac, espalhando pela vizinhança, através de portas e janelas abertas, um inconfundível hit de eurodance.
Sara veio receber o primo sorrindo e conseguiu acalmar as preocupações dele. Com roupas mais simples e mais adaptadas ao calor que ainda fazia no outono, ele percebeu a magreza da prima em seus braços finos e as bochechas côncavas, destacando as maçãs do rosto. Lázaro retribuiu o sorriso de Sara e lhe deu um longo e forte abraço. Sara retribuiu o abraço intenso, mas não conseguiu manter a força por muito tempo.
Ao entrar na casa, estava claro o trabalho de limpeza e arrumação das duas mulheres que começara há menos de duas horas: os objetos quebrados estavam em uma caixa e os objetos inteiros estavam de volta às estantes e armários, dispostos sem harmonia. O cheiro de limpeza era intenso, algo que Lázaro não sentiu na última visita, e Elisabeth colocara alguns móveis pesados novamente no lugar. Ao contrário de Sara, baixa e quase esquelética, Elisabeth era alta e forte.
Lázaro começou a recolocar os últimos e mais pesados móveis que estavam fora de lugar enquanto contava para Sara mais detalhadamente sobre o que ocorrera na casa. A conversa acabou se estendendo e Lázaro acabou contando também sobre a morte do pai, demonstrando como fora resiliente até aquele momento e conseguiu levar tudo com racionalidade e sem desespero. Ele explicou que fora Abner e outros amigos que organizaram toda parte importante do funeral, cabendo a Lázaro apenas a liberação para os ritos. Quanto à casa, o invasor não levou nada e não apareceria de novo e, apesar de Lázaro e Adriano saberem quem cometera o crime, ninguém seria preso porque não era possível provar quem era de fato o criminoso. Assim, o crime ficaria sem solução, exceto se a polícia conseguisse alguma prova que passou desapercebida ou se o criminoso declarasse em juízo que foi ele.
Conseguindo deixar a prima mais tranquila em relação ao crime, mas triste em relação a morte do tio, Lázaro a incentivou a contar a própria história e que ele ouviu contada de forma animada e em inglês, para que Elisabeth pudesse participar. Alguns momentos foram difíceis para Lázaro, tanto por não ser fluente quanto imaginava ser, quanto por ser um inglês com muitas expressões que ele nunca ouvira.
Sara passou anos vivendo como au pair em países falantes de inglês. Primeiro foi na Nova Zelândia, depois Escócia e, por fim, Inglaterra. Neste período, trabalhou para duas famílias cuidando das crianças como babá. No tempo livre, estudava e treinava o uso de espadas. Ela tinha um desejo que não sabia explicar de onde vinha, mas estava lá, todos os dias, levando-a a empunhar todo tipo de arma branca de lâmina longa. Nos dias de folga, passeava e ia a museus de guerra onde, por uma dessas coincidências da vida, Sara conheceu Elisabeth. A amiga também era au pair há alguns anos e vivia na mesma cidade na Inglaterra, Caslile. Elas se conheceram acidentalmente em Edimburgo, em um dia de visitas de Sara ao Museu de Guerra Nacional porque ela se ofereceu para sentar-se com Lilly na hora do almoço para dividirem a mesa do restaurante, que estava cheio. Elisabeth aceitou e elas começaram a conversar. Sara contou tudo sobre o Brasil e Elisabeth passou a tentar aprender português com ela. Elas começaram a se ver com mais frequência e se tornaram muito amigas.
Apesar do momento feliz que os três estavam passando, Lázaro quis saber sobre a perda de peso e perguntou na primeira oportunidade. Sara mudou o tom e tentou ser honesta, mas ficava claro que suas palavras eram medidas para tornar tudo mais leve. A perda de peso começou logo depois de retornar de Edimburgo. Nas duas primeiras semanas, nem percebeu a diferença. A perda ficou evidente no fim de novembro e ela decidiu ir ao médico, mas o resultado foi inconclusivo – exames e mais exames não diziam nada e davam a entender que ela não estava se alimentando direito, mas não explicava a perda de paladar. A única coisa que o médico pode fazer foi indicar suplementos vitamínicos. Foi com a perda do tio que ela desistiu de continuar trabalhando na Inglaterra e decidiu voltar para ficar perto do que lhe restou da própria família.
Além da falta de um diagnóstico, existia um limite do que o plano de saúde dela poderia oferecer até que precisasse pagar do próprio bolso e, bem ou mal, os hospitais do Brasil eram gratuitos. A doença piorando e ela perdendo o penúltimo parente o qual ainda mantinha contato soaram com um sinal vermelho de que não poderia ignorar. Era necessário voltar e ter seu primo, que nunca lhe decepcionou ao ponto que não conseguisse perdoar, ao seu lado. Para muitas pessoas, ter apenas um parente vivo era um quadro triste de se olhar, mas Sara ainda tinha paz de espírito para conseguir superar sua doença sem nome se sua atual grande amiga e seu primo estivessem com ela para apoiá-la.
Lázaro sabia que eles dois eram importantes para Sara porque eles eram as duas pessoas vivas que tinham recebido um apelido da prima: um apelido dado por Sara era o mesmo que receber uma declaração de amor. Ele sabia e faria questão de fazer Elisabeth entender que os dois, por serem igualmente amados pela mesma pessoa, poderiam e deveriam ajudá-la na recuperação assim que a doença fosse descoberta.
Lázaro acordou com a claridade do dia e percebeu que o único som no seu andar era do motor da geladeira do próprio apartamento – toca-discos estava desligado por causa do temporizador. As cortinas abertas possibilitaram que a luz indireta preenchesse todos os cômodos e trouxesse calor para o ambiente, garantindo o estímulo necessário para ele se levantar e começar mais um dia. Antes de sair definitivamente ele fez barulho na porta, como se a abrisse, mas continuou dentro do apartamento. No mesmo instante, ouviu a porta do lado se abrir e, após alguns segundos, fechar novamente. Andreia estava lá, esperando. Pensou que, se tivesse acordado às seis horas, como no dia anterior, provavelmente ela estaria dormindo ainda e ele não precisaria ter que começar o dia irritado. Considerou que deveria tentar algo absurdo, mas que poderia funcionar: ligou o toca-discos novamente, reposicionou o disco na primeira música, aumentou o volume e colocou o temporizador para desligar em vinte minutos. Se desse certo, Andreia não saberia que ele saiu até que estivesse no ônibus.
A primeira música tocava quando Lázaro destrancou a porta e esperou o momento certo para sair. Na transição para a próxima, abriu a porta com cuidado, saiu e encostou próximo ao batente. Começou a segunda música e Lázaro terminou de fechar a porta e trancá-la. A porta da vizinha não abriu. Sentindo que havia funcionado, desceu as escadas, com cuidado, enquanto a porta continuava trancada. Andou calmamente pelo estacionamento e saiu pelo pequeno portão que dava acesso à rua São Bartolomeu. Tranquilamente, ele caminhou até a viela, cruzou-a e ganhou a avenida cardeal Dom Agnello Rossi, de onde podia ver o terminal do lado oposto à praça Paulo Egídio Martins. Enquanto caminhava, pensou que seria uma atitude estúpida sua saída às escondidas, pois ele não devia nada para Andreia. Porém, avaliou melhor a situação e concluiu que foi tão bom sair de casa sem ser importunado que valia sim a pena. Seria melhor visitar Sara sem estar com raiva, deixando esse problema para quando voltasse.
Durante a viagem, Lázaro ligou para a prima. Enquanto falava poucas palavras para situá-la onde ele estava, as pessoas em seu entorno o encaravam – ele era o único ali com um telefone celular. Lázaro era apenas um professor e ainda não sabia quanto teria que pagar pelas ligações através do aparelho. Ao olhar para pessoas como ele, que não eram ricas, se deu conta que não poderia ficar com o aparelho, e nem sabia muito bem por que ficara com ele quando Abner o entregou. Desde os dezoito anos, ele não sabia o que era ter um telefone fixo e vivia bem com isso, então, decidiu que o celular poderia ser mais bem usado por Adriano e que o entregaria para o amigo.
A distância do ponto de ônibus que Lázaro desceu até a casa de seu pai era curta e o movimento de carros e pessoas era quase inexistente. Diferente de onde morava, a vila Lemos era um bairro com menos jovens e, consequentemente, menos barulho. Por esse mesmo motivo, era possível perceber que havia vida jovem dentro da antiga casa de Isaac, espalhando pela vizinhança, através de portas e janelas abertas, um inconfundível hit de eurodance.
Sara veio receber o primo sorrindo e conseguiu acalmar as preocupações dele. Com roupas mais simples e mais adaptadas ao calor que ainda fazia no outono, ele percebeu a magreza da prima em seus braços finos e as bochechas côncavas, destacando as maçãs do rosto. Lázaro retribuiu o sorriso de Sara e lhe deu um longo e forte abraço. Sara retribuiu o abraço intenso, mas não conseguiu manter a força por muito tempo.
Ao entrar na casa, estava claro o trabalho de limpeza e arrumação das duas mulheres que começara há menos de duas horas: os objetos quebrados estavam em uma caixa e os objetos inteiros estavam de volta às estantes e armários, dispostos sem harmonia. O cheiro de limpeza era intenso, algo que Lázaro não sentiu na última visita, e Elisabeth colocara alguns móveis pesados novamente no lugar. Ao contrário de Sara, baixa e quase esquelética, Elisabeth era alta e forte.
Lázaro começou a recolocar os últimos e mais pesados móveis que estavam fora de lugar enquanto contava para Sara mais detalhadamente sobre o que ocorrera na casa. A conversa acabou se estendendo e Lázaro acabou contando também sobre a morte do pai, demonstrando como fora resiliente até aquele momento e conseguiu levar tudo com racionalidade e sem desespero. Ele explicou que fora Abner e outros amigos que organizaram toda parte importante do funeral, cabendo a Lázaro apenas a liberação para os ritos. Quanto à casa, o invasor não levou nada e não apareceria de novo e, apesar de Lázaro e Adriano saberem quem cometera o crime, ninguém seria preso porque não era possível provar quem era de fato o criminoso. Assim, o crime ficaria sem solução, exceto se a polícia conseguisse alguma prova que passou desapercebida ou se o criminoso declarasse em juízo que foi ele.
Conseguindo deixar a prima mais tranquila em relação ao crime, mas triste em relação a morte do tio, Lázaro a incentivou a contar a própria história e que ele ouviu contada de forma animada e em inglês, para que Elisabeth pudesse participar. Alguns momentos foram difíceis para Lázaro, tanto por não ser fluente quanto imaginava ser, quanto por ser um inglês com muitas expressões que ele nunca ouvira.
Sara passou anos vivendo como au pair em países falantes de inglês. Primeiro foi na Nova Zelândia, depois Escócia e, por fim, Inglaterra. Neste período, trabalhou para duas famílias cuidando das crianças como babá. No tempo livre, estudava e treinava o uso de espadas. Ela tinha um desejo que não sabia explicar de onde vinha, mas estava lá, todos os dias, levando-a a empunhar todo tipo de arma branca de lâmina longa. Nos dias de folga, passeava e ia a museus de guerra onde, por uma dessas coincidências da vida, Sara conheceu Elisabeth. A amiga também era au pair há alguns anos e vivia na mesma cidade na Inglaterra, Caslile. Elas se conheceram acidentalmente em Edimburgo, em um dia de visitas de Sara ao Museu de Guerra Nacional porque ela se ofereceu para sentar-se com Lilly na hora do almoço para dividirem a mesa do restaurante, que estava cheio. Elisabeth aceitou e elas começaram a conversar. Sara contou tudo sobre o Brasil e Elisabeth passou a tentar aprender português com ela. Elas começaram a se ver com mais frequência e se tornaram muito amigas.
Apesar do momento feliz que os três estavam passando, Lázaro quis saber sobre a perda de peso e perguntou na primeira oportunidade. Sara mudou o tom e tentou ser honesta, mas ficava claro que suas palavras eram medidas para tornar tudo mais leve. A perda de peso começou logo depois de retornar de Edimburgo. Nas duas primeiras semanas, nem percebeu a diferença. A perda ficou evidente no fim de novembro e ela decidiu ir ao médico, mas o resultado foi inconclusivo – exames e mais exames não diziam nada e davam a entender que ela não estava se alimentando direito, mas não explicava a perda de paladar. A única coisa que o médico pode fazer foi indicar suplementos vitamínicos. Foi com a perda do tio que ela desistiu de continuar trabalhando na Inglaterra e decidiu voltar para ficar perto do que lhe restou da própria família.
Além da falta de um diagnóstico, existia um limite do que o plano de saúde dela poderia oferecer até que precisasse pagar do próprio bolso e, bem ou mal, os hospitais do Brasil eram gratuitos. A doença piorando e ela perdendo o penúltimo parente o qual ainda mantinha contato soaram com um sinal vermelho de que não poderia ignorar. Era necessário voltar e ter seu primo, que nunca lhe decepcionou ao ponto que não conseguisse perdoar, ao seu lado. Para muitas pessoas, ter apenas um parente vivo era um quadro triste de se olhar, mas Sara ainda tinha paz de espírito para conseguir superar sua doença sem nome se sua atual grande amiga e seu primo estivessem com ela para apoiá-la.
Lázaro sabia que eles dois eram importantes para Sara porque eles eram as duas pessoas vivas que tinham recebido um apelido da prima: um apelido dado por Sara era o mesmo que receber uma declaração de amor. Ele sabia e faria questão de fazer Elisabeth entender que os dois, por serem igualmente amados pela mesma pessoa, poderiam e deveriam ajudá-la na recuperação assim que a doença fosse descoberta.
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