quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 24


23 
     Na sexta-feira, o segundo dia de trabalho de Sara, Adriano a deixaria com Elisabeth na loja para ele fazer a transferência bancária para Antonio. Porém, ela ligou logo de manhã avisando que não iria, pois estava no hospital recebendo soro intravenoso e ficaria em observação durante aquele dia. A sexta era o dia da semana mais movimentado na loja, com clientes aproveitando a proximidade com o fim de semana para comprar e receber quando estivessem em casa. Por uma infeliz coincidência, aquele era o dia mais movimentado no escritório e ninguém poderia ir buscar os cheques assinados. Sabendo disso, Adriano saiu mais cedo de casa e passou no apartamento de Lázaro para levá-lo ao hospital, mas pediu que, se possível, o amigo assinasse os cheques e os levasse ao contador. 
     Tudo seria feito ainda de manhã. Lázaro foi até o antiquário, assinou os cheques e prometeu ao amigo, antes de sair que, em breve, que conseguiria junto ao banco que Adriano assinasse os cheques também. Do antiquário, Lázaro seguiu de ônibus até o hospital e falou brevemente com Sara e com o médico, que explicou que a causa do mal-estar era provavelmente má nutrição. Elisabeth defendeu Sara, afirmando em um misto de inglês, alemão e português, que ela comeu corretamente no almoço e no jantar e, por isso, deveria ser outra coisa. Sem poder fazer nada além de desejar melhoras, Lázaro seguiu, preocupado, para o escritório do contador. Era quase meio dia quando Lázaro chegou ao pequeno escritório afastado do centro da cidade, local escolhido por ter um aluguel mais barato.
     Com exceção de um ar mais pesado no ambiente e do uso de computadores para muitas tarefas, tudo parecia semelhante ao que Lázaro lembrava. Os funcionários eram novos e tinham um semblante abatido, exceto um, mais velho que Antônio e que se sentava ao fundo, trabalhando em uma máquina de escrever e que Lázaro supunha se chamar Ary, mas não tinha certeza. Alguns acenaram com a cabeça, outros nem notaram sua presença. Quem o atendeu foi uma mulher um pouco mais jovem que ele, de cabelo tingido em tom acobreado e de olhar blasé. Ela se vestia tão bem que Lázaro suspeitou que fosse sócia de Antônio, apesar de lembrar que ele não tinha sócios. Poderia ter mudado de ideia, mas dizia no passado que o escritório com dois sócios seria “muito cacique para pouca tribo”. 
     – Olá… senhor Lázaro?disse a mulher, se aproximando. 
     – Oi, sou eu. – Lázaro estendeu a mão. – E você é? 
     – Rebeca. – A mulher o cumprimentou. – O senhor Adriano nos avisou de sua visita. O senhor já tinha vindo aqui?
     Ao tocar a mão da mulher, Lázaro sentiu algo. Não era como a “fome” que ele sentira pouco antes, no hospital, ao cumprimentar Elisabeth. A sensação ao tocar a mulher era como um fogo, não por que o fogo ilumina, mas porque esquenta, queima e destrói. 
     – Algum problema?
     Rebeca, com olhar inexpressivo, puxou levemente a mão presa por Lázaro, que a soltou.
     – O quê? Ah, desculpe... acho que tive um lapso. Estava pensando na minha prima, que está no hospital. 
     Rebeca fez apenas um som de compreensão, mas deixou claro que não se importou com a resposta. Aliás, parecia não se importar com nada. 
     – O senhor trouxe os cheques? 
     – Sim, estão aqui. 
     – Obrigada. – Rebeca pegou os cheques de dentro do envelope e começou a examiná-los, mas continuou. – É só isso. 
     Mal Rebeca terminou de falar e se virou, sem rodeios, seguindo para a sala de Antônio e fechando a porta. Lázaro ficou confuso por um instante, mas fez o mesmo. Quando chegou à calçada ouviu o sibilo de alguém o chamando e, ao se voltar para trás, viu o homem do escritório, caminhando ligeiro, mas tentando não fazer barulho. Cochichando, ele começou a falar.
     – Você é aquele rapaz, o filho do Isaac? Depois preciso falar com você. Agora não dá, tá muito complicado. Vai que depois a gente conversa.
     O homem entregou a Lázaro um papel com um nome e um número de telefone escrito às pressas e voltou para o escritório. Lendo o nome no papel, confirmou ser Ary, um outro contador que trabalhava com Antônio há anos e já estava lá quando Lázaro fazia o trabalho esporádico de office-boy para o pai na adolescência. Enquanto caminhava pela rua, guardou o papel na carteira e começou a pensar o que poderia ser de tão sério para que aquele funcionário precisasse falar na surdina. Desejava que não fosse mais um problema, mas era difícil supor que não fosse.
     Dentro do ônibus, enquanto voltava para o apartamento, a preocupação de Lázaro deu lugar a uma alegria inexplicável. Ele passou a se sentir mais leve, mais esperançoso com a realidade, como se uma pessoa querida lhe abraçasse e deixasse claro que os ventos da mudança sopravam, mesmo que ele mesmo não conseguisse vê-la. Poderia ser apenas uma resposta da própria mente resignada, concluindo que não poderia ficar pior do que uma prima com uma doença sem explicação, uma vizinha perseguidora e um pai morto, tudo isso em menos de três semanas.
     Já passava das catorze horas quando Lázaro saiu do terminal Padre Anchieta e começou seu caminho até o apartamento. Naquele momento, a coisa que ele mais pensava era em comer, e nem se lembrava se tinha alguma coisa pronta e guardada na geladeira. Caminhou o mais rápido que pode e viu do térreo as sombras de duas pessoas no seu andar. Não havia dúvidas de quem era e ele deu um breve suspiro, mas tinha esperança de que a surra que Andreia recebera dois dias antes ainda era sentida na pele e manteria a moça obediente.
     Ao passar e cumprimentá-las com um “boa tarde” monótono, as moças apenas o encararam, em silêncio. Retribuindo o silêncio, Lázaro entrou no apartamento, percebendo que uma das duas começou a cochichar tão logo ele girou a chave. Ele suspeitou que ambas estava falando mal dele, mas preferiu priorizar sua refeição e se sentou na sala para tirar o sapato. Ao inclinar o corpo para alcançar os pés, seu campo de visão periférico percebeu um ponto mais claro de luz no chão, próximo a soleira da porta. Era um pequeno retângulo branco que ele suspeitou ser um cartão de visitas. Ao se levantar, a mudança do ângulo da luz viu um nome muito conhecido, citado mil vezes e, nas mil vezes, com o mesmo amor: Beatriz.
     Lázaro quase caiu de joelhos por causa do cartão, mas conseguiu se agachar devagar para pegá-lo com muito cuidado e examiná-lo. Estava certo que era a letra de Beatriz, inconfundível para Lázaro mesmo após tantos anos afastados. Ao reabrir a porta, percebeu que Andreia ainda estava sentada no mesmo lugar e o olhava com desdém. 
     – Você viu quando deixaram o cartão debaixo da porta? – perguntou Lázaro.
     – Achei que você tinha dito para minha mãe que eu estava cuidado da sua vida. – Andreia mantinha o olhar de desdém.
     – Okay... você estava sentada aqui quando a pessoa deixou esse cartão debaixo da minha porta?
     – Não sei de nada. – disse Andreia, em tom de desprezo.
     Andreia deu de ombros e se levantou, entrando no próprio apartamento com Anahí. Lázaro inspirou forte, trancou a porta do apartamento e desceu às escadas para ir até o telefone público que ficava na rua. Apesar de ter certeza de que a letra era de Beatriz, preferiu ligar antes para o antiquário, pois ela já havia partido para Portugal quando ele se mudou e não teria como saber onde ele morava, porém, ela sabia onde era o antiquário e ele suspeitava que ela poderia ter passado antes por lá.
     Adriano confirmou a suspeita de Lázaro e explicou que Beatriz chegou na loja de táxi, ambos conversaram rapidamente e ela pegou o endereço do apartamento, mas ele avisou que provavelmente o amigo não estaria no local. Antes de ir, Beatriz deixou o número de telefone da casa dos pais com Adriano, o mesmo número que ela deixou sob a porta de Lázaro. Lázaro agradeceu e desligou, sentindo uma mistura de sentimentos bons e ruins que o preencheram dos pés à cabeça.
     Ao se afastar do telefone público, uma mulher começou a usá-lo. Então, Lázaro se deu conta de que ainda tinha que ligar para o telefone deixado por Beatriz. Um suspiro prolongado de descontentamento o fez refletir e Lázaro decidiu em ligar depois, após almoçar. Caminhou e parou ao lado do portão, pensando na coincidência de sentir tanta alegria quanto quando estava dentro do ônibus após sair do escritório de Antônio. Beatriz era uma das poucas memórias vívidas que Lázaro guardou durante a vida e era ela que tinha aparecido em seus sonhos como se fosse real. Era ela, aquela que ele amou e que fez ele se odiar por ter amado.
     Durante suas divagações, Lázaro sentiu uma mão leve e carinhosa tocando o seu ombro. “Oi, Lás”, disse uma voz feminina e de sotaque angolano. A mente de Lázaro se esvaziou completamente quando a voz a preencheu, ele se virou rapidamente para ver a dona da voz enquanto seu peito palpitava de alegria com a certeza de quem era: Beatriz.
     Beatriz era uma mulher animada que sempre conseguiu levar Lázaro às festas da faculdade que ele não queria ir e aos cursos que ele não queria fazer. Ela dizia que ele sentiria falta daquelas experiências e, com essa ideia, aproveitou ao máximo o tempo que ficou na graduação, fazendo inúmeras disciplinas extras e aulas particulares de inglês com ele, possibilitando maior proximidade entre ambos. Ela sempre dava a entender que não tinha tempo a perder e viveu os quatro anos da graduação como se fosse uma vida toda. Ainda durante este tempo, fez muitos amigos e muitos contatos profissionais que a possibilitaram fazer o mestrado fora do Brasil. A oportunidade de ouro não foi perdida, causando grande dor em Lázaro que, aos vinte e um anos, vivia sua primeira e única paixão.
     Na noite em que todos comemoravam o fim do curso de graduação, o grupo, que tinha Beatriz como líder por instinto, também comemorava a aceitação da amiga em uma pós-graduação. Ela recebeu uma carta de uma professora de universidade portuguesa – conhecida durante um intercâmbio de seis meses – convidando-a para fazer o mestrado em antropologia. Ela foi, Lázaro ficou, e a comunicação entre ambos cessou porque ele se fechou em si mesmo por semanas até conseguir aceitar tardiamente que ela não estava mais ali. Durante os nove anos que ficaram afastados, um novo Lázaro surgiu e uma nova Beatriz também. Porém, ao olhar para ela, ele sabia que seu o amor por ela ainda era o mesmo.
     Lázaro abraçou Beatriz com força, fazendo-a expirar. Ao se afastarem um pouco, um segurando as mãos do outro, com dedos entrecruzados, ambos deram um intenso e natural sorriso. 
     – Vejo que andas comendo bem, Lás. Estás forte. – Beatriz o examinava da cabeça aos pés.
     Beatriz sempre foi sincera em suas observações e Lázaro ainda lembrava do hábito.
     – E eu vejo que você continua igualzinha. Alguma receita para não envelhecer nem um dia em quase dez anos? 
     – Viver, Lás, viver tudo que puder. Como sabes, “pedra que rola não cria limo”.
     Lázaro acompanhou Beatriz até o seu apartamento e ela explicou como foi parar ali de novo se já estava voltando para a casa da família: “senti que deveria voltar”. Após descer do táxi, foi até o terminal de ônibus e perguntou sobre Lázaro, se havia passado por ali alguém com suas características. Depois do funcionário do terminal perguntar para alguns motoristas que estavam parados esperando o horário de saída, o cobrador de um dos ônibus lembrou de ter visto alguém com alguma semelhança à descrição, mas poderia não ser ele. Beatriz preferiu arriscar mesmo assim e foi direto para o prédio.
     Lázaro e Beatriz subiram conversando, despreocupados com o mundo, e ele nem lembrou de examinar se a vizinha poderia estar fiscalizando seus passos. Foi somente chegando no patamar que ele percebeu a presença de Andreia e Anahí sentadas no mesmo lugar de sempre, apoiadas sobre os cotovelos enquanto o encaravam e a Beatriz à porta. Percebendo que Lázaro as ignorava por completo, Andreia pigarreou, chamando a atenção do casal. Enquanto Lázaro se calou, Beatriz se virou rapidamente para cumprimentá-las.
     – Olá novamente, meninas.
     Andreia não respondeu. De esguelha, olhava os dois enquanto chupava os dentes e intercalava o som nojento com um muxoxo. Anahí olhava para baixo, em silêncio. 
     – Não sabe responder, Andreia? – Lázaro disse, enquanto destrancava a porta.
     – Oi... – Andreia esperou Lázaro voltar-se para a porta e continuou – ...E a branquela que mora com sua prima? Você já descartou?
     No mesmo instante, Lázaro parou. Seu olhar, antes tranquilo, crispava em ódio olhando para Andreia. A moça tentou conter seu regozijo, mas foi em vão – seu olhar era de satisfação, como se tivesse vencido um jogo decisivo. Porém, no mesmo instante, Beatriz passou o braço esquerdo por detrás das costas de Lázaro e o braço direito pela frente, entrelaçando os dedos em sua cintura, enquanto aproximava o rosto dela ao dele. 
     – Não existe branquela que possa concorrer comigo, ô rapariga. – Beatriz deu uma piscadela para Andreia. 
     – Quem você chamou de rapariga? – Andreia se levantou, enfurecida.
     Lázaro abriu a porta e conduziu Beatriz para dentro, ficando entre ela e Andreia, e a moça demonstrava em todo o seu corpo que queria brigar. Lázaro se voltou para a vizinha e gritou:
     – Larga de ser idiota, menina. Rapariga quer dizer moça em Portugal. Não reconhece um sotaque português?
     – Na verdade, o sotaque é angolano. – De dentro do apartamento, Beatriz fez a ressalva, sorrindo.
     Para evitar maiores problemas, Lázaro entrou e fechou a porta. Do lado de fora, Andreia começou a conversar com a amiga. Anahí parecia estar apoiando Andreia, como se Lázaro e Beatriz tivessem começando a discussão toda, porém, não era possível ouvir sua voz. Quem não soubesse que havia duas pessoas do lado de fora ia acreditar que era apenas uma e estava louca. Quando Beatriz se sentou no sofá, estava mais séria, apesar de não apresentar raiva.
     – Quem é esta insolente? 
     – A filha da vizinha. 
     – As duas? 
     – Não, só a que começou a gritar. A outra se chama Anahí, eu já a vi muitas vezes, mas não sei onde mora. Só sei que ambas estudaram juntas.
     – E é colérica como a sua vizinha?
     Lázaro lembrou que Anahí nunca apresentava qualquer emoção além de um sorriso comedido e olhar escarnecedor. As duas moças eram bem diferentes em tudo e era difícil entender como elas eram amigas. 
     Sentados na sala, Beatriz deixou de lado a cena insólita que acabara de presenciar e perguntou sobre quem era Elisabeth e por que ela era relevante para Andreia. Lázaro preferiu contar sobre as últimas três semanas, desde a morte do pai. Contou sobre o retorno de sua prima da Inglaterra, da amiga dela, Elisabeth e o sobre o estado de saúde de Sara. O único ponto estranho e incômodo para os dois era o fato de Andreia saber da existência de Elisabeth se ela nunca fora até o apartamento, nem Elisabeth e nem Sara. Lázaro desconversou e pediu para Beatriz contar sobre a própria história, mas registrou mentalmente mais esse mistério.
     Beatriz começou a contar tudo que aconteceu logo após a colação de grau. Após aquele dia, Beatriz foi para Portugal, fez um mestrado e um doutorado em antropologia. Acabou ficando no país, apesar de ter ido até Angola procurar a família após o cessar fogo no ano de mil, novecentos e noventa e quatro. Muitos parentes fugiram de Huambo, onde ela nascera, e se dispersaram. Alguns atravessaram a fronteira com o Zaire, rebatizado de Congo havia três anos, perdendo contato com os que se mantiveram em Angola. Com muito esforço, Beatriz conseguiu o status de refugiado para um tio que vivia em Luanda e o enviou para Portugal com outros parentes que estavam lá há cerca de vinte anos. Os pais de Beatriz ainda moravam em Campinas e ela mantivera contato todos esses anos por meio de cartas e telefonemas.
     Após Beatriz contar um resumo sobre seus nove anos fora do Brasil, Lázaro contou a própria história, mais resumida ainda: Mudou-se para aquele apartamento e tornou-se professor, e era isso. Não fizera nada de extraordinário como ela, e viveu sua vida com simplicidade. Por isso, ao comparar mentalmente as duas histórias, Lázaro sentiu muita vergonha porque, mesmo sendo incentivado por quatro anos a viver a vida, ele sentia que não tinha vivido. Beatriz percebeu o sentimento de inferioridade de Lázaro e mudou de assunto, relembrando o tempo na faculdade, de como os amigos se distanciaram por causa de seus empregos, casamentos ou por se mudarem. Assim como Beatriz, outros se enveredaram pela pós-graduação e foram lecionar em universidades. Lázaro foi um dos vários que não tentou esse caminho, mas um dos poucos que foi lecionar em uma escola pública em uma disciplina que nem era sua formação.
     O que salvou Lázaro de se endividar com uma renda baixa foi ter aprendido a ser austero com o pai, não contraindo dívidas com a compra da casa própria ou pior, de um carro financiado até a velhice. A vida de professor pagava as contas, mas contrair dívidas não parecia ser uma ideia inteligente, promovendo uma vida razoavelmente tranquila, mas sem luxos. A virada ocorreu com a morte do pai em que ele herdou tudo o que não queria. Até aquele momento, preferiu não aproveitar da herança, que era mantida no banco. A única extravagância fora pedir demissão de um dos dois empregos porque poderia suprir a perda de renda com os lucros que receberia da loja administrada por Adriano. Pensou que até poderia mudar-se para a casa herdada do pai no ano seguinte, caso conseguisse aulas em alguma escola próxima, mas não tinha se informado ainda se conseguiria ou não. Em todo caso, se conseguisse, não teria mais a despesa com aluguel.
     Beatriz e Lázaro conversaram sobre coisas mais sérias relacionadas à vida, mas também banalidades, até anoitecer. Lázaro suportou a fome até a hora do jantar, quando se prontificou em cozinhar algo simples, mas que estivesse ao gosto da amiga, e Beatriz tinha uma preferência: arroz, feijão e um bife, se possível, uma salada. Sentados à mesa, Beatriz comeu com um sorriso no rosto, elogiando com gestos e sons de prazer, deixando Lázaro feliz e envergonhado. Há muitos anos Lázaro não preparava comida para mais do que para si, então, estava preocupado em agradá-la, tanto por ser quem era, quanto por ser a primeira pessoa que se sentava naquela mesa além dele mesmo. Para acompanhar, a garrafa de vinho, que estava aberta sobre a mesa, havia sido comprada semanas antes em uma promoção e seria bebida nas férias, mas a ocasião pedia algo além de água. Enquanto comiam, os elogios e a presença de Beatriz trouxeram acalanto para ele em um dia que começara cinza pelo estado de saúde de Sara e que, àquela altura, Lázaro mal lembrava.
     Após o jantar, Lázaro empilhou de maneira organizada a louça dentro da pia, enquanto Beatriz olhava a pilha de documentos e a máquina de escrever que estava sobre a mesa de trabalho de Lázaro no segundo quarto do apartamento. 
     – Uma máquina de escrever elétrica. Usaste isto para trabalhar ou tens um computador? – Beatriz examinava com atenção a máquina. 
     – Faço tudo nela mesmo. Essa aí já tem mais de dez anos e continua funcionando perfeitamente. Mesmo que eu tivesse dinheiro para comprar um computador, não sei usar. Então, é inútil. 
     – Entendo... mas é muito complicado trabalhar desta forma. E tu usas este livro de atas para rascunhar? Ah... não, está em branco.
     Lázaro se esquecera do livro ata. Colocou-o no quarto que ele usava de escritório e não tocou mais, desde o dia anterior. Ao chegar no quarto, viu Beatriz com o livro aberto, examinando as folhas em branco. Lázaro foi prudente e não retirou o livro das mãos da amiga, e apenas respondeu “Pretendo usar como rascunho”. Não havia nada de mais no livro, então Beatriz o colocou novamente na mesa. Voltando-se para Lázaro, ela pegou suas mãos e entrelaçou os seus dedos nos dele e disse, entristecida: 
     – Está tarde. Preciso fazer uma longa viagem até a casa de minha família. 
     – Está tarde mesmo… Eu acho que você deveria dormir aqui hoje. Ainda temos um vinho para terminar de beber.
     Não foram as palavras de Lázaro que pediram, mas seus olhos, e eles convenceram Beatriz. 
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