quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 9


8 
     Em todos os cômodos da casa, era possível ver o caos: quem invadiu, revirou todos os móveis, arrancou do lugar todas as gavetas, quadros, espelhos, até mesmo as placas dos interruptores e tomadas. Estava claro que não era um furto comum, pois a ou as pessoas envolvidas foram minuciosas. A certeza de que era um crime por dinheiro foi por terra quando, ao chegar ao quarto dos pais, Lázaro percebeu que alguns objetos valiosos não foram levados, como relógios, cordões de ouro e anéis. Não teria como um ladrão que fora tão minucioso com a procura não ter visto as joias no quarto, porém, não era possível entender o que procurava. 
     De dentro do imóvel, Lázaro viu as luzes giratórias das viaturas se aproximando. Enquanto colocava os objetos de valor novamente no porta-joias que fora avariado com a queda ao chão, Lázaro teve a impressão de que estava sendo vigiado, mesmo não havendo ninguém além dele no cômodo. Enquanto voltava para a varanda, ligou para Adriano e pediu para que viesse ao seu encontro. 
     Para a polícia, Lázaro descreveu o que presenciou, mas evitou fazer especulações. Apresentou todos os cômodos. As portas e as janelas estavam trancadas e parecia que nada havia sido roubado. A convicção de que nada fora subtraído se dava pela casa ser essencialmente a mesma de quando ele partiu doze anos antes. Os policiais ficaram confusos com a estranheza de um crime em que alguém entra em uma casa, revira tudo, não leva nada e não deixa nenhuma porta ou janela destrancada ao sair. Assim, sem ter por onde começar, eles registraram a ocorrência e foram embora, cruzando com Adriano em seu carro que acabava de chegar. 
     Após a saída da polícia, Lázaro confidenciou para Adriano o que tinha visto e que não conseguia entender como o ladrão entrara na casa sem ter aberto qualquer porta ou janela. Além disso, deduziu que o invasor viera buscar algo específico, mas que Lázaro não tinha a mínima ideia do que seria. A destruição era sinal de que o objeto estava bem guardado, então, poderia ainda estar na casa. 
     Seguiram os dois para a cozinha e analisaram a cena. Apesar de alguns móveis estarem fora do lugar, a cristaleira estava um pouco arrastada para frente. O móvel tinha pés altos, de um palmo de altura, e era a mesma do sonho que Lázaro tivera por duas vezes. Ele se ajoelhou ao lado da cristaleira e, com uma faca que estava no chão, começou a bater sobre os tacos de madeira do chão. O taco do canto, encostado ao rodapé, ressoou oco. Com um movimento de alavanca da faca, ele cedeu e subiu, apresentando um pequeno nicho onde estavam dois itens armazenados, envoltos em lenços. 
     Será que o Ovo está aí dentro? – perguntou Adriano. 
     Lázaro retirou o menor deles e viu que era uma lupa de metal, com uma lente de vidro simples e imperfeito. Os amigos consideraram uma peça inútil, pois a lente era levemente opaca e não era biconvexa como as lentes de lupas são. Enquanto examinava a lupa, Adriano passou a olhar os móveis da cozinha por meio dela para ver os pequenos efeitos causados pela dispersão da luz. Enquanto isso, Lázaro pegou o segundo objeto que, ao ter seu lenço aberto, chamou a atenção de Adriano. O homem viu por meio da lupa que o ambiente se iluminou com um tom dourado, uma claridade que vinha diretamente da esfera na mão do amigo. 
     – Olha aí o Ovo Fabergé... nossa, essa lupa é estranha. Deve converter luz invisível em visível. Olha para o Ovo com ela. 
     Adriano entregou a lupa para Lázaro, que passou a olhar o Ovo Fabergé por meio dela, tal qual um joalheiro. Examinou o espectro de luz da lâmpada no teto e não percebeu nada de estranho. A única estranheza era a esfera, emitindo a luz que vira no sonho e que havia dado importância. Devolvendo a lupa para Adriano, Lázaro desejou tocar o objeto. Se fosse de ouro, o suor de sua mão não causaria problemas, pois não oxidaria. Além disso, ele queria ver os outros desenhos da joia que, ao contrário de um Ovo Fabergé, tinha imagens em alto relevo – símbolos, imagens de animais e algo que poderia ser o Sol. Porém, ao segurá-lo com delicadeza, sentiu que o objeto grudou em seus dedos. Tudo ficou branco e silencioso. 
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