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Como imaginou, Lázaro estava novamente no sonho, parado ao lado do batente da porta. Os pais conversavam, sérios, enquanto Isaac segurava a esfera dourada. Era possível ver linhas em alto relevo, imagens de animais, e em toda superfície não se viam encaixes ou emendas. Isaac ajoelhou-se ao lado da cristaleira da cozinha e, sob o móvel, desencaixou um taco de madeira do chão, inseriu a esfera embrulhada em um pano e recolocou o taco. Após limpar o chão, Isaac levantou os olhos para a direção do portal de entrada da cozinha e olhou diretamente para Lázaro, fazendo sinal para que o filho não falasse nada. Lázaro meneou a cabeça positivamente e fez o mesmo gesto de colocar o indicador na frente da boca. Um acordo cumprido com perfeição, pois o evento foi esquecido por duas décadas.
O sol estava se pondo quando Lázaro acordou, sentindo uma mistura de satisfação e estranheza que o deixaram sem reação sobre a cama. Após alguns minutos contemplando a pouca claridade que ainda iluminava a sala e a cozinha, levantou-se para tomar um banho e refletir sob a água quente. Ficou em dúvida se deveria ou não ir até a casa do pai buscar o objeto. Se chamasse Adriano, o cliente estaria com seu produto no dia seguinte e a loja reabriria com sua primeira venda, porém, preferiu ir sem fazer alarde, de ônibus, até a casa do pai. Se tudo desse certo, em menos de três horas estaria de volta e, só aí, chamaria Adriano para fazer-lhe surpresa e mostrar boa vontade em relação à loja.
Lázaro saiu do apartamento, tomou um ônibus até o centro da cidade e outro até o bairro em que o pai morava. Ao chegar ao local, viu que Isaac não havia feito muitas mudanças na fachada da casa desde que Lázaro se mudou: era térrea, fronteada por um jardim com roseiras descuidadas. Do belo portão na entrada até a varanda, havia um passeio de piso de pedra portuguesa. A varanda recebera um piso novo, mais áspero, provavelmente para evitar quedas. Com exceção desta mudança, quase tudo ali era antigo, do tempo da construção e mantido com muito cuidado por pelo pai.
Ainda na calçada, Lázaro percebeu que havia uma luz acesa dentro da casa, algo impensável para alguém austero como Isaac. Antes que pudesse retroceder para perguntar para o vizinho Emílio se ele mesmo tinha deixado a lâmpada acesa, este apareceu sobre o próprio muro, assustando Lázaro.
– Boa noite, seu Emílio.
– Boa noite, Lázaro. Meus pêsames. – Emílio estendeu a mão por sobre o muro, cumprimentando Lázaro – Eu gostava muito do seu pai.
– Obrigado... eu vou aproveitar que o senhor está aqui e perguntar da luz ali na casa. Está acesa desde quando?
– Luz? – Emílio olhou para a casa. – Nossa! Desde agora. Quando o amigo do seu pai veio aqui, olhamos tudo e deixamos tudo apagado, gás desligado... – Emílio fez um muxoxo – Vou chamar a polícia. Espere aí.
Quando Emílio desapareceu atrás do muro, Lázaro caminhou até a casa, pensando que a luz acesa poderia ser sinal de um invasor. Apesar de nunca ter se deparado com uma situação assim, seu interior dizia para fazer algo. Até antes da morte da mãe, Lázaro seguiu as ordens do pai e aprendeu tudo que lhe foi ordenado, inclusive autodefesa. Seus pais sempre diziam que ele não deveria se aproveitar dos mais fracos com o que aprendesse, e a vida lhe favoreceu em nunca precisar se defender realmente. Mas naquele instante, percebendo o perigo, sentiu-se preparado. É como se a memória muscular adquirida nos treinos antes dos catorze anos nunca tivesse desaparecido.
Lázaro arrancou um cabo de madeira maciça do chão do jardim para usar como bastão. Olhou para o batente da porta onde estava a mezuzá e, por instinto, tocou o objeto com as pontas dos dedos e as beijou em seguida. Destrancou a porta da sala tentando fazer pouco barulho e espiou. De onde olhava, via a sala toda revirada, mas não se ouvia nenhum som vindo de dentro.
Como imaginou, Lázaro estava novamente no sonho, parado ao lado do batente da porta. Os pais conversavam, sérios, enquanto Isaac segurava a esfera dourada. Era possível ver linhas em alto relevo, imagens de animais, e em toda superfície não se viam encaixes ou emendas. Isaac ajoelhou-se ao lado da cristaleira da cozinha e, sob o móvel, desencaixou um taco de madeira do chão, inseriu a esfera embrulhada em um pano e recolocou o taco. Após limpar o chão, Isaac levantou os olhos para a direção do portal de entrada da cozinha e olhou diretamente para Lázaro, fazendo sinal para que o filho não falasse nada. Lázaro meneou a cabeça positivamente e fez o mesmo gesto de colocar o indicador na frente da boca. Um acordo cumprido com perfeição, pois o evento foi esquecido por duas décadas.
O sol estava se pondo quando Lázaro acordou, sentindo uma mistura de satisfação e estranheza que o deixaram sem reação sobre a cama. Após alguns minutos contemplando a pouca claridade que ainda iluminava a sala e a cozinha, levantou-se para tomar um banho e refletir sob a água quente. Ficou em dúvida se deveria ou não ir até a casa do pai buscar o objeto. Se chamasse Adriano, o cliente estaria com seu produto no dia seguinte e a loja reabriria com sua primeira venda, porém, preferiu ir sem fazer alarde, de ônibus, até a casa do pai. Se tudo desse certo, em menos de três horas estaria de volta e, só aí, chamaria Adriano para fazer-lhe surpresa e mostrar boa vontade em relação à loja.
Lázaro saiu do apartamento, tomou um ônibus até o centro da cidade e outro até o bairro em que o pai morava. Ao chegar ao local, viu que Isaac não havia feito muitas mudanças na fachada da casa desde que Lázaro se mudou: era térrea, fronteada por um jardim com roseiras descuidadas. Do belo portão na entrada até a varanda, havia um passeio de piso de pedra portuguesa. A varanda recebera um piso novo, mais áspero, provavelmente para evitar quedas. Com exceção desta mudança, quase tudo ali era antigo, do tempo da construção e mantido com muito cuidado por pelo pai.
Ainda na calçada, Lázaro percebeu que havia uma luz acesa dentro da casa, algo impensável para alguém austero como Isaac. Antes que pudesse retroceder para perguntar para o vizinho Emílio se ele mesmo tinha deixado a lâmpada acesa, este apareceu sobre o próprio muro, assustando Lázaro.
– Boa noite, seu Emílio.
– Boa noite, Lázaro. Meus pêsames. – Emílio estendeu a mão por sobre o muro, cumprimentando Lázaro – Eu gostava muito do seu pai.
– Obrigado... eu vou aproveitar que o senhor está aqui e perguntar da luz ali na casa. Está acesa desde quando?
– Luz? – Emílio olhou para a casa. – Nossa! Desde agora. Quando o amigo do seu pai veio aqui, olhamos tudo e deixamos tudo apagado, gás desligado... – Emílio fez um muxoxo – Vou chamar a polícia. Espere aí.
Quando Emílio desapareceu atrás do muro, Lázaro caminhou até a casa, pensando que a luz acesa poderia ser sinal de um invasor. Apesar de nunca ter se deparado com uma situação assim, seu interior dizia para fazer algo. Até antes da morte da mãe, Lázaro seguiu as ordens do pai e aprendeu tudo que lhe foi ordenado, inclusive autodefesa. Seus pais sempre diziam que ele não deveria se aproveitar dos mais fracos com o que aprendesse, e a vida lhe favoreceu em nunca precisar se defender realmente. Mas naquele instante, percebendo o perigo, sentiu-se preparado. É como se a memória muscular adquirida nos treinos antes dos catorze anos nunca tivesse desaparecido.
Lázaro arrancou um cabo de madeira maciça do chão do jardim para usar como bastão. Olhou para o batente da porta onde estava a mezuzá e, por instinto, tocou o objeto com as pontas dos dedos e as beijou em seguida. Destrancou a porta da sala tentando fazer pouco barulho e espiou. De onde olhava, via a sala toda revirada, mas não se ouvia nenhum som vindo de dentro.
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