quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 10


9 
     Lázaro olhava para si mesmo, adolescente, gritando e ofendendo. “Você deixou ela morrer. A culpa é sua, toda sua!”, dizia o adolescente que saiu batendo a porta. Lázaro olhou para o bolso e retirou de lá a esfera dourada e percebeu que não era sua mão, mas uma mão que ele lembrava ser do próprio pai, como se ele visse pelos olhos do falecido Isaac. Ele levantou-se da cadeira da cozinha e foi até o banheiro que ficava no corredor da casa e, olhando para o espelho, Lázaro viu seu próprio pai mais jovem do que quando falecera e que começou a falar consigo mesmo: "Lázaro, está vendo essa esfera dourada? Um dia, tentarão tirá-la de você, amigavelmente ou pela força. Quando você assumir minha função, proteja-a com a sua vida...". Bruscamente, a imagem cortou e Lázaro se viu segurando novamente a esfera, mas a aparência da mão demonstrava que eram muitos anos depois da primeira visão. Andando com mais dificuldade do que a primeira vez, Lázaro viu a imagem do pai, mais velho e apático, no espelho. Ele disse: “Ah meu filho, agora entendi tudo que sua mãe disse há dezesseis anos. Tudo faz sentido agora... uma carta, deixei uma carta para você no cofre. Leia ela com cuidado. Eu te amo, sempre te amei e...”
     Lázaro acordou confuso, com Adriano ao seu lado. A esfera estava no chão, arrancada de sua mão com um cabo de vassoura. Adriano estava desesperado por ter visto o amigo paralisado e, por quase dez minutos, forçou o cabo de vassoura entre a mão de Lázaro e a esfera, que pareciam coladas.
     Restabelecido após mais dez minutos, Lázaro contou para Adriano sobre sua experiência. Eles ficaram algum tempo sentados nas cadeiras da cozinha, discutindo se era algo real ou se Lázaro começava a enlouquecer. Adriano defendia de forma veemente que era uma experiência real. Para ele, havia ali uma questão pendente entre Isaac e Lázaro e o amigo deveria resolver. Lázaro embrulhou novamente os dois objetos e os guardou em uma valise que pegara no quarto do pai – preferiu levar ambos para sua casa, onde ele poderia cuidar dos objetos. Acabara o período de licença pela morte do pai e começaria mais uma outra licença-prêmio que ele tinha direito e, para se adaptar à nova realidade, preferiu usar todos os três meses que tinha direito de uma única vez. Há anos não sentia que estava fazendo algo certo como quando foi até a escola e pediu a licença que, aliás, já era um desejo seu há algum tempo e, por esse motivo, havia solicitado a liberação de todos os três meses para serem usufruídos ainda naquele ano.
     Ambos voltaram para o apartamento de Lázaro. Apesar de ser quase madrugada de quinta, ambos entraram para ver o que dizia a carta. Ela ainda repousava sobre a mesa, intocada. Ao abrir, Lázaro encontrou uma carta e duas outras folhas em branco que a recobriam. Na carta, estava escrito:

“Meu querido filho Lázaro,
     Se você estiver lendo esta carta, é porque eu morri. Já não me sentia bem há algum tempo e preferi deixar tudo organizado para minha partida. Por isso, adiantei o testamento e deixei tudo para você, de modo que não houvesse problemas para você manter o funcionamento do antiquário e poder continuar sua vida.
     Por anos, ficamos distantes. Queria ter lhe contado muitas coisas mas, infelizmente, não tive oportunidade. Queria dizer que sempre te amei e que sei que sua partida se deu pela morte de sua mãe, evento que você sempre acreditou ter sido minha culpa. Porém, sua mãe descobriu o câncer já tardiamente e nada pudemos fazer. Você era jovem e o trauma foi muito grande. Não lhe culpo, mas espero que, com o amadurecimento e o conhecimento adquirido até este momento, você me perdoe e possa viver sua vida tranquilamente.
     Sua prima Sara disse que você tem um grande amigo. Espero que ele possa te ajudar nesse momento difícil. Espero que tudo se clareie como a chama de uma vela.

     Do seu pai que sempre te amou,

Isaac Shlock

     Lázaro olhou para a carta e passou para Adriano, que também a leu. Ambos concordaram que a carta não dizia nada. Parecia ser somente uma carta de despedida de um moribundo.
     – Mas se seu pai sabia que ia morrer, por que ele não escreveu uma carta com mais coisas?
     Lázaro ficou parado, pressionando os lábios em claro sinal de dúvida e, meneando a cabeça, negativamente, disse:
      – Não sei. Não faz sentido. – Suspirou. 
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