quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 7


6 
     Durante os últimos anos, Lázaro só falava com o pai o essencial e Isaac não o forçava. Comprava-lhe presentes de aniversário que ele não usava e não aceitava o dinheiro oferecido. Após o resultado do vestibular, prometeu ao pai que nunca mais voltaria para casa e que não queria nada dele. Saiu com uma mochila de roupas, o anel que sua mãe lhe dera antes de morrer, uma caixa com livros e discos e as suas economias. Quando Isaac morreu, já havia se passado doze anos desde sua partida e Lázaro sabia que cometera um erro. Por isso mesmo que ele tinha certeza que não teria nenhuma parte da herança, e nem almejava, mas não foi isso o que aconteceu. “Meu pai tinha esperança de que eu pedisse perdão? E a carta? Será que ele sabia que ia morrer e, mesmo assim, não disse nada? Preferiu deixar uma carta?A sensação de vergonha era muito intensa e Lázaro não conseguiu abrir a carta naquele momento. Sentia que haveria algo ali que o levaria a se sentir mais estúpido ainda.
     Durante a noite, Lázaro teve o mesmo sonho: Um pouco além de onde começou o sonho da noite anterior, Lázaro ouviu novamente o burburinho incompreensível dos pais na cozinha. Ele foi andando até a porta que dava para a cozinha e, parado ao lado do batente, tentou olhar sem ser visto. Os pais conversavam, sérios, enquanto Isaac tinha algo em suas mãos, algo que lembrava uma bola de natal dourada. Ela reluzia como se fosse totalmente nova e bem polida, como se o material de que era feito tivesse uma luz natural.
     Antes de ver mais alguma coisa, o celular tocou. Acordado novamente pelo som do telefone, Lázaro olhou o relógio e viu que era oito horas e trinta minutos.
     – Alô. Oi Lázaro. É o Adriano.
     – O que aconteceu? Você está aonde?
     – Eu estava aqui vendo os livros de contabilidade e aquele cliente do seu pai que encontramos no enterro apareceu. Ele disse que encomendou com seu pai uma peça, mas ela não consta no inventário.
     – No domingo? Caramba... o que você quer que eu faça? – perguntou Lázaro, confuso.
     – Ele disse que é uma peça que seu pai tem há muitos anos. Disse que lembra um Ovo Fabergé… Você sabe, né?
     – Sei. Aqueles ovos chiques de mentira. Aliás, é uma coincidência muito estranha... eu sonhei com isso hoje, mas não faço ideia de onde esteja... pode ser que esteja na casa do meu pai, mas se é uma peça cara, deveria estar no cofre.
     – Foi o que conversamos aqui, mas não está... vou falar com ele. Obrigado.
     Após desligar o telefone, Lázaro tentou completar aquela memória vívida do sonho, mas que, acordado, parecia bloqueada. Era estranha a coincidência de lembrar de um fato da infância no mesmo dia em que alguém procurava um objeto que ele não via há mais de duas décadas. Lázaro levantou da cama e foi preparar um café. Sem nenhuma obrigação imediata, Lázaro tentava lembrar do resto da memória, mas sem sucesso. Era possivelmente uma das poucas memórias que lhe restara da infância e era tão providencial que ela viesse naquele momento que se tornou incômoda a sensação de que não era mera coincidência. “Já tenho muitas coisas para me preocupar, não quero enlouquecer dando espaço para misticismo”, pensou.
     Após o almoço, a monotonia do domingo deu força ao sono. Aproveitando-se da situação, Lázaro tinha expectativa de continuar o sonho pois, apesar da descrença no sobrenatural, estava muito curioso. Além disso, tinha um cliente esperando. Poderia lembrar por meio do sonho onde o pai guardou a peça, agradar o cliente e manter o compromisso de não errar mais com Isaac. 
8
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário