quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 5


4 
     Durante a noite, Lázaro sonhou com um momento há tempos esquecido de seu passado: Ele, ainda criança, ouve os pais conversando na cozinha. A conversa parece um burburinho incompreensível. Lázaro caminhou devagar para ouvir a conversa, pé ante pé, para saber qual era o assunto, um hábito que cultivara até a adolescência pois, era muito curioso e tentava descobrir as coisas que os outros pareciam esconder. Porém, enquanto se aproximava da cozinha no sonho, foi acordado por uma ligação no celular.
     – Alô? – disse Lázaro, ainda confuso.
    – Olá, Lázaro. Te acordei? – Adriano parecia preocupado com o possível incômodo causado.
     – Acordou. Nossa... que horas são?
     – Quase dez horas.
     – Nossa. Dormi muito… O que foi, Adriano?
     – Eu estou lendo os livros contábeis do seu pai.
     – Mas você pegou a chave ontem.
     – Cheguei aqui às sete da manhã para ver tudo ainda hoje.
     – Não sabia que você estava tão empenhado... bem, eu acho que você vai encontrar tudo bem organizado mesmo. Ele sentia falta de dez centavos do caixa no fim do dia.
     – É mesmo? 
     Sim. Quando eu era criança, apanhei por causa de uma moeda que eu roubei. Ele nem tinha visto, mas percebeu a diferença no fim do dia.
     – Isso é um bom sinal. Pelo que tenho visto aqui, dá lucro. Mesmo com as reformas que ele faz nos móveis comprados, o saldo sempre é positivo. Claro que estou vendo aqui que ele era austero. Ele recebia somente por meio de pró-labore e nem era um valor alto. Não tem dívidas, nem devedores...  É até estranho.
     – Estranho? Achei que fosse bom.
     – Sim, é bom, mas... não sei. Vou terminar de analisar aqui, mas creio que o antiquário pode reabrir sem problemas.
     – E você ligou para falar isso?
     – Sim, e para perguntar a senha do cofre e onde ele fica.
     Lázaro passou a data de nascimento da mãe, a senha desde que ele era criança, e desligou o telefone celular. Adriano conseguiu encontrá-lo escondido atrás de uma parede falsa. Ao abrir, encontrou a borduna, algumas moedas antigas, joias, documentos da loja e pessoais de Isaac. As peças do cofre faziam parte do inventário da loja e tinham um asterisco que as identificavam como guardadas, então, Adriano se voltou para os documentos. Havia cartas, extratos bancários, os títulos imobiliários da loja e da casa e uma carta endereçada à Lázaro. Adriano achou muito estranha a carta: se Lázaro e Isaac não conversavam, não fazia sentido escrever uma carta, a menos que não tivesse tempo de tê-la postado. Contudo, a carta não tinha endereço, mas o nome do amigo somente, como se a intenção fosse entrega-la em mãos. Adriano guardou a carta no bolso para leva-la ao amigo e continuou a leitura dos livros contábeis da loja.
     Quando Lázaro pensava em começar a arrumar o apartamento, alguém bateu na porta. Ele fez um muxoxo, se levantou e viu Andreia pelo olho-mágico da porta. Por educação, abriu.
     – Olá Lázaro. Nossa, eu fiquei sabendo ontem a noite da sua perda. Meus pêsames.
     Sem demora, Andreia abraçou Lázaro, que ficou visivelmente desconfortável e não retribuiu o abraço.
     – Como você ficou sabendo?
     – Seu amigo me contou.
     Lázaro pensou como Andreia era invasiva. Deve ter esperado Adriano no portão e, quando ele passou, ela fingiu preocupação. Como Adriano não consegue mentir, tentou explicar a grosseria do sábado anterior.
     – Obrigado. Não precisa se preocupar.Lázaro respondeu, enquanto se desvencilhava da garota.Está tudo bem. Eu não conversava com ele há mais de dez anos.
     – Mas, mesmo assim. Eu, se perdesse meu pai, faria de tudo para ter um ombro amigo para chorar.Andreia se esforçava para manter o abraço.
     – Mas, para mim está tudo bem.Lázaro conseguiu se desvencilhar de Andreia e a segurou pelos braços. – Desculpe a minha pressa, mas eu preciso trabalhar. Depois a gente conversa, okay?
     – Mas...? Okay. 
     Andreia era mais baixa e fraca que Lázaro e não conseguia competir para manter aquela situação constrangedora no patamar do primeiro andar, onde vizinhos maledicentes poderiam ver. A garota voltou para seu apartamento e ele trancou a porta, constrangido e pressentindo o pior. Não fazia sentido tudo aquilo que ela vinha fazendo desde o fim do relacionamento com o rapaz no ano anterior. Parecia tudo resolvido entre ele e ela, com um afastamento que poderia ter causado feridas no ego dela, mas que, para Lázaro, não era importante. “O que teria acontecido para começar toda essa perturbação de novo?”, perguntava ele em silêncio, mas sem resposta. 
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