quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 4


3 
     Na primeira sexta-feira após da morte de Isaac, Adriano reencontrou Lázaro em seu pequeno apartamento. Lázaro ainda usufruía da licença de uma semana pela morte do pai. 
     Você herdou tudo, Lázaro?perguntou Adriano. 
     Sim. Tudo. Com exceção de uma borduna que meu pai deixa num cofre lá no antiquário. Ele deixou para minha prima, Sara. Ah, o Abner trouxe para mim esse celular que era do meu pai. 
     Nossa, um Startac! – Adriano pegou o pequeno celular preto das mãos de Lázaro para olhar.O que é uma borduna? 
     Uma arma indígena. A que ela herdou parece uma espada.
     Ah, sim... e você vai reabrir a loja?
     Eu não quero, mas... não sei. – respondeu, incomodado.
     – Como eu disse no funeral, posso avaliar a lucratividade dela, ver se ela se sustenta sozinha. Se ela for lucrativa, eu poderia administrá-la para você.
     Mas, e seu emprego?
     Se for lucrativa, será um emprego que garante minhas necessidades, assim como o que tenho hoje.
    Lázaro estava desconfortável com a proposta. Ele não queria ter qualquer relação com a loja ou com qualquer coisa que seu pai deixara. Com o pai morto, sentia que usufruir da herança deixada era agir como um animal carniceiro, se aproveitando de forma covarde da morte. Desde muito jovem, Lázaro já buscava construir sua autonomia e, após sair de casa, o contato com o pai ocorrera poucas vezes, sempre de forma não planejada. Ter que se responsabilizar sobre a loja era algo que ele não queria. Contudo, Lázaro sentia que tinha uma dívida com o pai de quase duas décadas de erros e fechar a loja seria o erro final. Por isso, não poderia arriscar tomar outra decisão errada. Pensou bem e acabou concluindo que se Adriano fosse administrare o amigo faria tão bem quanto Isaacele não teria que se envolver e não precisaria vender a loja que sua mãe também ajudara a construir. Se deixar a loja aberta fosse mais um erro, seria reversível.
     Você vai administrar sozinho. Eu não quero saber de nada.
     Okay.Adriano sorriu. – E se tudo der certo, parte dos lucros serão seus. Okay? Mudando de assunto...  O que você fará com a casa?
     Seu Emílio está vigiando a casa para não entrar nenhum estranho. Se Sara voltar, e eu imagino que volte, ela pode morar lá.
     Morar sozinha? Você não tem medo? – Adriano desfez o sorriso e ficou sério.
     Medo? Quem tentar mexer com ela vai se arrepender amargamente. Hoje, ela deve saber manusear aquela borduna tão bem quanto qualquer guerreiro indígena. Bem, está no sangue dela, né? Por parte de pai, ela tem sangue de índio.
            Adriano riu. Imaginar uma mulher lutando, para ele, era algo muito difícil. A última mulher que ele tinha visto empunhando uma arma deveria ser a personagem da série Xena e, como ele sabia, era tudo interpretação. Após uma conversa amigável, Adriano se despediu do amigo, deixou o celular sobre o sofá, pegou as chaves da loja e foi embora. Já era tarde e Lázaro preferiu dormir a ter que arrumar o apartamento.

5 

Nenhum comentário:

Postar um comentário