42
Para saírem daquele lugar dentro do espelho, Alexandre fez Sara segurar o espelho enquanto ele mesmo carregava Lázaro para fora, segurando-o por trás e na altura do tronco. Logo em seguida, Sara pegou a borduna e saiu também, percebendo pela primeira vez como era difícil a passagem de um lado para o outro, como se uma força invisível empurrasse de volta até o último fio de seu cabelo. Após tantas horas preso, as mãos e pés de Lázaro estavam arroxeados e dormentes, mas ele finalmente conseguia respirar, deitado dentro do banheiro do mundo real. Conforme a dormência passava, o formigamento deixava qualquer movimento ou toque dolorosos. Neste período, Sara e Alexandre preferiram não fazer nada além de se proteger de invasores que pudessem entrar na casa pelo espelho e o apoiaram contra a parede, atrás do antigo guarda roupa de Sara. Ambos concordavam que não haveria espaço para alguém passar por ali e atacá-los de surpresa. Combinaram de não falar nada naquele dia para Adriano, exceto se ele os visitasse. Adriano ligou, mas a única informação que ela passou foi que o amigo tivesse fé e ele entendeu aquela mensagem como positiva.
Lázaro começou a sentir menos dores no corpo após uma hora deitado na mesma posição e, então, foi ajudado por Alexandre a deitar na própria cama onde ele ficou o resto da tarde. Não queria levantar-se e estava abatido. Sara tentou convencê-lo a comer algo, mas Lázaro negou. A única coisa que ele pediu foi um de seus cigarros e, para ela, era sinal de que algo não estava bem no primo. Não era a ocasião que estava habituado e não fumava há alguns dias, porém, ele queria fazer algo habitual que o aproximasse aos dias de monotonia, de vida simples – o cigarro era algo apartado de tudo que acontecera desde a morte de Isaac. Alexandre e Sara deixaram Lázaro no quarto e caminharam pela casa reanalisando todos os espelhos. Nenhum outro tinha a luz que se percebia no espelho-portal, mas preferiram cobrir a todos com panos grossos.
O fim da tarde foi marcado por um crepúsculo arroxeado, tão bonito que Sara ficou contemplando seu fim com todas as luzes da casa apagadas. Quando os últimos raios deixaram toda a casa escura, Sara fechou as cortinas e acendeu as luzes. O ser que vira dentro do espelho ainda lhe vinha a memória e causava medo e, para tentar esquecê-lo, ela foi para a cozinha preparar o jantar junto com Alexandre. Pouco tempo depois, Lázaro se levantou. Ao olhar no corredor, ela viu o primo caminhando ainda a passos lentos em direção ao banheiro. Sara pensou em ir ver como ele estava, mas Alexandre a segurou pelo braço.
– Deixa ele. Provavelmente ele foi pego quando chegou ontem à noite e ficou a noite toda achando que ia morrer ali.
– E quanto tempo tínhamos antes de...?
– Tudo depende. Com sorte, o estresse ia causar um infarto em uns dois dias.
– Mas ele tem só trinta anos?!
Sara ficou horrorizada com a frieza de Alexandre.
– E está bem acima do peso e não deve correr nem um quilômetro. Fica fácil parar um coração fraco e que deve estar cansado.
Sara piscou rapidamente, um sinal de que não queria pensar na possibilidade da morte. Preferiu focar-se no jantar. Apesar do silêncio dela, o visitante continuou a falar.
– Por isso que meu mestre me dizia que se o mal não dorme, nós não podemos esmorecer. É treinar a mente e o corpo.
– Eu vou ajudá-lo com esse negócio do peso, eu prometo.
– Não só o peso. Tudo que ele precisar, ajude-o. Ele entrou num mundo este mês que eu, que estou há anos envolvido e preparado, não vi nada igual.
– Como aquela sombra de criança?
– Essas relíquias, a sombra, o espelho... nunca vi nada disso. O que sei da minha missão eu li em livros ou ouvi do meu mestre. Então, mesmo com medo, que eu não nego que senti, fico feliz em ver essas coisas. Bem ou mal, elas fortalecem minha certeza de que estou no caminho certo. Deus vult.
Alexandre fez um sinal da cruz e, assim como Sara, ficou o silêncio. Ambos ainda preparavam o jantar quando Lázaro reapareceu na cozinha e se sentou, em silêncio. Ambos olharam para ele, de soslaio, e continuaram em seus afazeres. Enquanto os alimentos cozinhavam em suas panelas, todos se sentaram à mesa para esperar e mantiveram o silêncio fúnebre. Até que Lázaro falou:
– Vou matá-lo.
– Quê? – Sara se surpreendeu com a afirmação do primo.
– Você quer matar o Luis? – Alexandre estava mais atento ao comentário.
– Sim. Quando ele voltar, eu vou matá-lo. Acabou. Agora é “olho por olho”.
Lázaro sabia que seus pais não gostariam de vingança, mas ele não se importava naquele instante.
– Seu pai sempre foi muito pacífico para aceitar que alguém morresse em seu nome. – Retorquiu Sara.
– Como você sabe o que ele iria querer?
– Enquanto eu pude, conversei com ele. Mesmo depois que você foi embora, seu pai sempre teve esperanças de que você voltasse. Além disso, ele deixou tudo para você, que demonstra que ele não guardou rancor e, veja bem, ele nunca tentou matar o Luis, apesar de tudo. Duvido que sua mãe tenha sido menos benevolente que ele.
– Mas...
– Mas, nada. E tome aqui. – Sara retirou o anel de Ruth que estava em seu dedo e colocou sobre a mesa. – O anel de sua mãe.
Lázaro pegou o anel e o examinou por alguns instantes. Enquanto isso, Sara se levantou e para revolver a comida nas panelas. Alexandre Aproveitou do momento de meditação de Lázaro e levantou a lupa, olhou para o anel e sua suspeita se confirmou: o objeto era mais um artefato místico.
– Lázaro... como seu pai juntou tantos artefatos se a Irmandade sempre vai na casa do guardião buscá-los?
Lázaro parou sua meditação e olhou para Alexandre.
– Imagino que por ser herança de família... – Lázaro falou, mas sem certeza. – A borduna é herança da Sara. A única coisa que era para você era a lupa e a Bússola, mas eu esqueci de entregar tudo naquele dia. Só peço que antes de ir, você me ajude.
– Com o quê?
Lázaro parou por um instante, levantou de seu lugar e colocou o anel na mão de Sara.
– Esse anel foi dado por minha mãe antes dela morrer. Eu especulo que ela sabia do risco de algum de nós morrermos e escolheu usá-lo para me proteger. Ela deu a vida por mim, assim como creio que meu pai também o fez. Então, em respeito ao sacrifício deles, eu vou fazer o que a Sara diz e não vou matar o Luis. Nós dois vamos pegá-lo e eu o acusarei de invasão de domicílio. Se eu conseguir que ele fique preso um ou dois meses, será tempo suficiente para sairmos daqui sem deixar rastros. Você toma o seu rumo e minha prima e eu tomamos o nosso.
– Então você só precisa que eu o ajude a capturá-lo?
– Dizer “só” dá a impressão de que será fácil... – Lázaro fez uma pausa. – Porém, como a borduna da minha prima conseguiu subjugar a Elisabeth, temos ao menos a possibilidade de conseguir o mesmo com Luis. Contudo, já deixo avisado de que Luis pode nos ferir e até nos matar, bem como Anahí. Eu os subestimei porque pareciam ser os mais frágeis, mas creio que podem ser os piores.
Ao dizer isso, Sara arregalou os olhos, mas Alexandre se manteve impassível.
– Você tem certeza? – perguntou o guardião.
– O que eu digo é mais sobre termos prudência do que eu ter certeza.
– Então, seremos prudentes. Deus está do lado dos justos, Lázaro. Eu sei disso. No momento certo, esse Luis vai se arrepender de ter escolhido o lado do diabo.
Alexandre selou o acordo com um aperto de mão.
Durante o jantar, Lázaro contou o que se lembrava da noite anterior e a promessa de Luis de que em dois dias retornaria. Sem ter certeza do momento certo do retorno de seu inimigo, Lázaro atravessaria o espelho ainda aquela noite e ficaria aguardando o quanto fosse necessário. Alexandre concordou em ambos esperarem juntos e armados, porém, Lázaro queria que ambos tivessem a altura de uma luta sobrenatural. Para isso, ele entrou no espelho e tentou fazer o mesmo que fizeram nas lutas contra as mentes de Elisabeth e Rebeca. Seus olhos brilharam de alegria ao perceber que era possível invocar as luzes em suas mãos naquele lugar. Era quase certeza que conseguiria se defender de Luis e poderia, assim, deixar a borduna com Alexandre.
– Sabe usar isso? – perguntou Lázaro ao entregar a borduna nas mãos de Alexandre.
– Já treinei sabre, espadim e até facão. Se esse negócio cortar algo ou ao menos servir como um taco, eu me viro.
– Você treinava uso de armas? – Sara ficou curiosa.
– É uma tradição dos guardiões serem hábeis com espada e escudo, mas eu prefiro improvisar as minhas armas com o que eu encontro no local que eu estiver. É mais prático e não chama a atenção. Já imaginou andar com um sabre na rua?!
– Inteligente. – disse Lázaro, meneando a cabeça positivamente.
Sara não conseguiu esconder no rosto o seu desagrado. Para ela, era uma afronta à história dos espadachins.
– Falei algo errado, Sara? – perguntou Alexandre.
– Não gosto de improvisação. Não é certo.
– Pode parecer errado no começo, mas quando só existe um caco de vidro pontiagudo entre você e o seu adversário, é melhor que ele esteja na sua mão e não na dele.
– Pode ser, mas... não sei. Nunca precisei adaptar nada.
– Eu já. Quase não saí de um galpão numa cidade vizinha daqui se não fosse o improviso.
– Sumaré? – perguntou Lázaro.
– Isso mesmo. No fim, tive que neutralizar alguns caras, mas consegui escapar ileso.
Lázaro vocalizou um som de que entendeu, mas preferiu não falar mais nada. Parecia que Alexandre precisava mais do livro preto que Isaac deixara do que ele para evitar confusões futuras, principalmente sendo jovem e impulsivo, como é comum entre pessoas de sua idade. Após a conversa, os três acabaram voltando para o mundo dentro do espelho. Daquele lado, começaram a analisar tudo. Uma coisa que estava clara era que tudo ali parecia uma reprodução da realidade, como se alguém tivesse feito parede por parede com um cenário, tentando copiar os objetos. Alguns objetos não existiam ali, como portas e janelas, exceto a porta que dava para os fundos do quintal. Os três caminharam agachados pela casa, evitando serem vistos através das janelas caso houvesse alguém do lado de fora. Tudo estava claro como o dia naquele lugar, mas não era uma luz natural como a do Sol – até a luz ali parecia uma grande farsa. Lázaro ficou curioso sobre do que tudo aquilo era feito e tocou a parede. A sensação era de que sua mão era impedida de ir para além do limite da parede, mas não parecia haver uma parede de verdade. Ao bater para ouvir o som que produzia, não ouviu nada. Era uma sensação muito desagradável. Em todo o ambiente, a única coisa que se ouvia era o ininterrupto som que ressoava de todos os lugares ao mesmo tempo, como uma fábrica.
Alexandre perguntou sobre o espelho que servia de portal e Lázaro explicou que ele fora inserido há pouco tempo na casa, enviado por Luis para servir como um Cavalo de Tróia. Com o portal aberto, Isaac foi morto sem chance de se defender. Naquele momento, eles poderiam usar tudo que sabiam como efeito surpresa para atacar o adversário e acabar de uma vez por todas com aquela guerra silenciosa. Para isso, os três voltaram para a o mundo real e combinaram o que fazer para a manhã seguinte. Logo cedo, Sara iria para a loja, como se fosse trabalhar, enquanto Alexandre e Lázaro esperariam armados por quem aparecesse.
Durante aquela noite, Luis e Alexandre se revezaram a proteção da casa como vigias do lado de dentro do espelho. Alexandre ficou primeiro, das vinte e três horas até as três. Lázaro o rendeu e ficou até as sete, horário que Sara começaria a se arrumar, ficando os três juntos na mesa de café da manhã.
– Eu vou explicar tudo para que o Adriano fique mais tranquilo e vamos rezar por você. – disse Sara a Lázaro.
– Lembre-se que não estarei sozinho. Temos um guardião treinado aqui. – Lázaro respondeu, tentando tranquilizá-la.
– Seu pai também era um guardião. – Sara replicou, imediatamente.
– São situações bem diferentes. Meu pai não esperava ser atacado dentro de casa, assim como eu não esperava. Agora, estamos preparados para nos defender.
– E estaremos bem posicionados, Sara. – Alexandre complementou, convicto. – Se vierem muitos, eles serão afunilados pelo corredor. Aqui quem ganhará é quem aguentar por mais tempo e tiver mais perícia.
– É isso que me assusta. Meu primo não treina há anos.
– Mas se você me visse há quatro dias, não diria isso. Pensando com mais clareza logo depois, eu fiquei surpreso com que ainda sabia. E essa cara roxa é porque fui socado enquanto dormia. – Lázaro sorriu. – Acordado, teria saído ileso.
– Espero que você esteja certo. – Sara se levantou, colocou a cadeira no lugar e pegou sua bolsa. – Eu vou indo. Boa sorte para vocês.
– Deus está conosco. – respondeu Alexandre, batendo o punho fechado no peito. – Ele protege os justos.
Sara deu um sorriso modesto e saiu. Trancou a porta e o portão, como de praxe, e saiu caminhando apressadamente pela calçada. Sem ao menos esperar Sara trancar o portão, os dois voltaram a atravessar o espelho para esperar Luis. O espelho foi posto no quarto de Sara, longe de onde eles pudessem acertar um golpe e quebrá-lo. Combinaram que Lázaro ficaria dentro do banheiro e Alexandre ficaria na suíte, que era em frente.
– Como saberemos que ele está vindo? – perguntou Alexandre.
– É possível ouvir. Creio que ele faz questão de caminhar fazendo barulho, porém, a Anahí não faz barulho algum. Até o momento, ela parece ser mais ágil do que ele, então, você cuida dela e eu dele.
Alexandre concordou. Parecia ser o mais justo, mesmo após Lázaro ter se vangloriado que ainda sabia lutar.
Os dois homens se sentaram no corredor pelo resto do dia, aguardando o momento da luta final. Enquanto Alexandre meditava, Lázaro ficava pensando em acender um cigarro. Para evitar ter que fumar, roeu todas as unhas das mãos.
– Por que não reza? Ao menos foca sua atenção em algo bom. – comentou Alexandre.
– Não parece racional para mim.
– É essa porcaria de racionalidade que tem matado a fé. Vocês, céticos, levaram as pessoas a pensarem demais e deixarem o poder da fé de lado. Se não fosse isso, ainda teríamos homens santos para todos os lados, curando doenças sem precisarmos de remédios caros e sem a negação de Deus.
– Alexandre, eu realmente não quero entrar nessa discussão.
– Porque é uma discussão encerrada há séculos. Eu estou apenas lembrando que sua racionalidade é prejudicial. Você estaria sentindo a presença de Deus consigo se tivesse fé. É o melhor amparo que você pode ter. Nada de cigarros, dedos mutilados. Somente Deus.
– Está bem, vou tentar.
Alexandre voltou a rezar e Lázaro ficou em silêncio, no banheiro, pensando: “Cara chato do inferno. Parece aqueles religiosos que batiam aqui na porta de domingo de manhã quando eu era adolescente”. Para ele, era realmente irracional rezar. Seu pai era crente, sua mãe também, e a fé não salvou nenhum dos dois. Não acreditava que ambos haviam rezado pouco, ou incorretamente. A única explicação era que, mesmo havendo o sobrenatural, ou deus estava morto ou, pior, não estava mais preocupado com ninguém. Nos dois casos, rezar só serviria para reproduzir o que Adriano fizera por Antônio, o protegendo das criaturas que não estavam ali naquele momento e, mesmo que estivessem, ele tinha certeza de que não seria capaz de invocar as criaturas de luz para repeli-las.
– Como é fácil perder a noção do tempo aqui. – Alexandre disse após olhar seu relógio de bolso.
Lázaro olhou para o relógio e, por um instante, teve a impressão de que já vira aquele aparelho.
– Esse relógio é antigo?
– Sim. Era do meu mestre. Ele me deu.
Lázaro ficou curioso para saber se esse mestre já tinha aparecido em sua casa. O relógio resgatava uma memória muito antiga, fragmentada...
– Vozes! – cochichou Alexandre.
– Vieram antes. – Cochichou Lázaro.
A sensação de urgência ampliou a capacidade de Lázaro enxergar e ele conseguiu ver o resultado das orações de Alexandre: havia seres de luz circulando o lugar, como cães de guarda. Se tivessem sorte, seriam uma ajuda extra, enquanto as mãos de Lázaro pulsavam uma luz fraca e serviriam como armas contra Luis. Por fim, ele sentiu que a sorte sorria para os anfitriões.
– Bem, Anahí, vamos ver como está o nosso porquinho... não, não, não, n...!
Lázaro recebeu Luis à porta com um empurrão com o pé, jogando o homem pequeno contra a mesa sobrenatural na cozinha. As cadeiras e a mesa saíram do lugar sem fazer barulho, mas Luis se machucou com a queda. Anahí recuou para trás com o golpe e foi atacada por Alexandre em um giro com a borduna em um arco de baixo para cima no meio do corredor. A moça recuou o corpo para trás e, antes que caísse de costas no chão, aproveitou o impulso para rolar para a sala. Alexandre percebeu que o movimento da adversária foi mais difícil porque ela estava com um pé enfaixado mas, mesmo assim, demonstrava sua habilidade. Avançando contra seu alvo ainda no chão, ele girou a borduna em um corte vertical que poderia ter acertado Anahí se ela não tivesse saído pouco antes e, ao desviar do golpe, fez com que ele afundasse a arma no chão. Aproveitando-se do problema do guardião, a moça recuou e tentou desferir uma voadora. Porém, ao se apoiar no sofá para ganhar impulso, o ferimento no pé a impediu ganhar impulso, possibilitando que Alexandre soltasse a borduna, a pegasse pela perna e pelo tronco e arremessasse seu pequeno corpo no chão. Anahí ficou caída, sem fôlego.
Lázaro avançou em fúria, mas viu que os pontos pretos que Luis apresentara dias atrás haviam aumentado em quantidade e começavam a formar uma mancha única em seu peito. Em uma luta equilibrada, Luis sabia que seu adversário, mais pesado e forte, o nocautearia rapidamente, mas com aquela arma invisível aos olhos de pessoas comuns, ele se sentia letal. O que ele não sabia era que Lázaro estava a enxergando claramente à sua frente e desviaria no momento oportuno.
Em uma tentativa de se aproximar de Luis para nocauteá-lo, o tentáculo do inimigo avançou contra seu abdômen. Lázaro, em um ato-reflexo, o desviou com sua mão, gerando fagulhas como as de uma fogueira, que subiram e desapareceram. Ambos se afastaram e entreolharam-se.
– Mah’daham! – gritou Lázaro.
– O que...?
Lázaro levantou os braços e, com os punhos brilhando, avançou em posição de luta. Luis tentou acertar Lázaro, inutilmente. O tentáculo avançava como uma serpente dando botes. Cada ataque era repelido com um soco de Lázaro e, a cada ataque frustrado, Luis gritava “não”, mais e mais intenso, mais e mais incrédulo.
Alexandre achou que tinha vencido e se aproximou de Anahí, mas ela tinha um canivete. Ao tentar tirar dela, a garota fez um corte no braço dele, deixando claro para o guardião que não deveria ter piedade. Enquanto ele se afastava, ela se levantou e ficou em posição de combate e, vendo que seria mais difícil do que parecia, ele voltou-se para a borduna e a puxou, retirando do chão com dificuldade pouco antes de precisar desviar do segundo ataque de sua adversária. Aos poucos, o chão parecia se regenerar.
Anahí não conseguia cortar os móveis e as paredes como Alexandre fazia com a borduna. O canivete não interagia com nada, enquanto a borduna cortava qualquer coisa que batesse como se tivesse atingindo argila. Durante a luta, nenhum dos dois perceberam os efeitos sobrenaturais no ambiente, focando toda atenção em subjugar o oponente. As criaturas de luz eram invisíveis para eles e a luta de Luis e Lázaro estava fora do campo de visão de ambos. Foi uma luta quase empatada entre Anahí e Alexandre até o desfecho inesperado.
Lázaro se aproximou mais e mais de Luis que, desesperado, tentou se afastar. Em uma última tentativa, o tentáculo dele se dividiu e tentou golpear Lázaro em dois lugares ao mesmo tempo. Lázaro, sem pensar, desviou de somente um deles. O segundo acertou seu antebraço, logo acima do ponto onde a luz saía. Aos poucos, o ponto tocado começou a formar uma mancha preta que começou a crescer, consumindo o braço aos poucos e tornando-o fuligem. Luis pressupôs que sairia vitorioso com o golpe que fora fatal para outros inimigos, enquanto olhava a pele de seu inimigo se decompondo em pontos pretos que soltavam ao leve movimento do braço. Parado por alguns segundos e contemplando a marca do ataque, Lázaro sentiu uma mistura de raiva e desejo de sobreviver e que, para isso, o seu inimigo deveria ser derrotado para sempre.
Furioso, Lázaro avançou até se aproximar de seu inimigo e, a menos de um braço de distância, segurou os tentáculos pela base, focando toda sua força de vontade para gerar uma única explosão com a mão, a maior que pudesse gerar, e assim aconteceu.
Para saírem daquele lugar dentro do espelho, Alexandre fez Sara segurar o espelho enquanto ele mesmo carregava Lázaro para fora, segurando-o por trás e na altura do tronco. Logo em seguida, Sara pegou a borduna e saiu também, percebendo pela primeira vez como era difícil a passagem de um lado para o outro, como se uma força invisível empurrasse de volta até o último fio de seu cabelo. Após tantas horas preso, as mãos e pés de Lázaro estavam arroxeados e dormentes, mas ele finalmente conseguia respirar, deitado dentro do banheiro do mundo real. Conforme a dormência passava, o formigamento deixava qualquer movimento ou toque dolorosos. Neste período, Sara e Alexandre preferiram não fazer nada além de se proteger de invasores que pudessem entrar na casa pelo espelho e o apoiaram contra a parede, atrás do antigo guarda roupa de Sara. Ambos concordavam que não haveria espaço para alguém passar por ali e atacá-los de surpresa. Combinaram de não falar nada naquele dia para Adriano, exceto se ele os visitasse. Adriano ligou, mas a única informação que ela passou foi que o amigo tivesse fé e ele entendeu aquela mensagem como positiva.
Lázaro começou a sentir menos dores no corpo após uma hora deitado na mesma posição e, então, foi ajudado por Alexandre a deitar na própria cama onde ele ficou o resto da tarde. Não queria levantar-se e estava abatido. Sara tentou convencê-lo a comer algo, mas Lázaro negou. A única coisa que ele pediu foi um de seus cigarros e, para ela, era sinal de que algo não estava bem no primo. Não era a ocasião que estava habituado e não fumava há alguns dias, porém, ele queria fazer algo habitual que o aproximasse aos dias de monotonia, de vida simples – o cigarro era algo apartado de tudo que acontecera desde a morte de Isaac. Alexandre e Sara deixaram Lázaro no quarto e caminharam pela casa reanalisando todos os espelhos. Nenhum outro tinha a luz que se percebia no espelho-portal, mas preferiram cobrir a todos com panos grossos.
O fim da tarde foi marcado por um crepúsculo arroxeado, tão bonito que Sara ficou contemplando seu fim com todas as luzes da casa apagadas. Quando os últimos raios deixaram toda a casa escura, Sara fechou as cortinas e acendeu as luzes. O ser que vira dentro do espelho ainda lhe vinha a memória e causava medo e, para tentar esquecê-lo, ela foi para a cozinha preparar o jantar junto com Alexandre. Pouco tempo depois, Lázaro se levantou. Ao olhar no corredor, ela viu o primo caminhando ainda a passos lentos em direção ao banheiro. Sara pensou em ir ver como ele estava, mas Alexandre a segurou pelo braço.
– Deixa ele. Provavelmente ele foi pego quando chegou ontem à noite e ficou a noite toda achando que ia morrer ali.
– E quanto tempo tínhamos antes de...?
– Tudo depende. Com sorte, o estresse ia causar um infarto em uns dois dias.
– Mas ele tem só trinta anos?!
Sara ficou horrorizada com a frieza de Alexandre.
– E está bem acima do peso e não deve correr nem um quilômetro. Fica fácil parar um coração fraco e que deve estar cansado.
Sara piscou rapidamente, um sinal de que não queria pensar na possibilidade da morte. Preferiu focar-se no jantar. Apesar do silêncio dela, o visitante continuou a falar.
– Por isso que meu mestre me dizia que se o mal não dorme, nós não podemos esmorecer. É treinar a mente e o corpo.
– Eu vou ajudá-lo com esse negócio do peso, eu prometo.
– Não só o peso. Tudo que ele precisar, ajude-o. Ele entrou num mundo este mês que eu, que estou há anos envolvido e preparado, não vi nada igual.
– Como aquela sombra de criança?
– Essas relíquias, a sombra, o espelho... nunca vi nada disso. O que sei da minha missão eu li em livros ou ouvi do meu mestre. Então, mesmo com medo, que eu não nego que senti, fico feliz em ver essas coisas. Bem ou mal, elas fortalecem minha certeza de que estou no caminho certo. Deus vult.
Alexandre fez um sinal da cruz e, assim como Sara, ficou o silêncio. Ambos ainda preparavam o jantar quando Lázaro reapareceu na cozinha e se sentou, em silêncio. Ambos olharam para ele, de soslaio, e continuaram em seus afazeres. Enquanto os alimentos cozinhavam em suas panelas, todos se sentaram à mesa para esperar e mantiveram o silêncio fúnebre. Até que Lázaro falou:
– Vou matá-lo.
– Quê? – Sara se surpreendeu com a afirmação do primo.
– Você quer matar o Luis? – Alexandre estava mais atento ao comentário.
– Sim. Quando ele voltar, eu vou matá-lo. Acabou. Agora é “olho por olho”.
Lázaro sabia que seus pais não gostariam de vingança, mas ele não se importava naquele instante.
– Seu pai sempre foi muito pacífico para aceitar que alguém morresse em seu nome. – Retorquiu Sara.
– Como você sabe o que ele iria querer?
– Enquanto eu pude, conversei com ele. Mesmo depois que você foi embora, seu pai sempre teve esperanças de que você voltasse. Além disso, ele deixou tudo para você, que demonstra que ele não guardou rancor e, veja bem, ele nunca tentou matar o Luis, apesar de tudo. Duvido que sua mãe tenha sido menos benevolente que ele.
– Mas...
– Mas, nada. E tome aqui. – Sara retirou o anel de Ruth que estava em seu dedo e colocou sobre a mesa. – O anel de sua mãe.
Lázaro pegou o anel e o examinou por alguns instantes. Enquanto isso, Sara se levantou e para revolver a comida nas panelas. Alexandre Aproveitou do momento de meditação de Lázaro e levantou a lupa, olhou para o anel e sua suspeita se confirmou: o objeto era mais um artefato místico.
– Lázaro... como seu pai juntou tantos artefatos se a Irmandade sempre vai na casa do guardião buscá-los?
Lázaro parou sua meditação e olhou para Alexandre.
– Imagino que por ser herança de família... – Lázaro falou, mas sem certeza. – A borduna é herança da Sara. A única coisa que era para você era a lupa e a Bússola, mas eu esqueci de entregar tudo naquele dia. Só peço que antes de ir, você me ajude.
– Com o quê?
Lázaro parou por um instante, levantou de seu lugar e colocou o anel na mão de Sara.
– Esse anel foi dado por minha mãe antes dela morrer. Eu especulo que ela sabia do risco de algum de nós morrermos e escolheu usá-lo para me proteger. Ela deu a vida por mim, assim como creio que meu pai também o fez. Então, em respeito ao sacrifício deles, eu vou fazer o que a Sara diz e não vou matar o Luis. Nós dois vamos pegá-lo e eu o acusarei de invasão de domicílio. Se eu conseguir que ele fique preso um ou dois meses, será tempo suficiente para sairmos daqui sem deixar rastros. Você toma o seu rumo e minha prima e eu tomamos o nosso.
– Então você só precisa que eu o ajude a capturá-lo?
– Dizer “só” dá a impressão de que será fácil... – Lázaro fez uma pausa. – Porém, como a borduna da minha prima conseguiu subjugar a Elisabeth, temos ao menos a possibilidade de conseguir o mesmo com Luis. Contudo, já deixo avisado de que Luis pode nos ferir e até nos matar, bem como Anahí. Eu os subestimei porque pareciam ser os mais frágeis, mas creio que podem ser os piores.
Ao dizer isso, Sara arregalou os olhos, mas Alexandre se manteve impassível.
– Você tem certeza? – perguntou o guardião.
– O que eu digo é mais sobre termos prudência do que eu ter certeza.
– Então, seremos prudentes. Deus está do lado dos justos, Lázaro. Eu sei disso. No momento certo, esse Luis vai se arrepender de ter escolhido o lado do diabo.
Alexandre selou o acordo com um aperto de mão.
Durante o jantar, Lázaro contou o que se lembrava da noite anterior e a promessa de Luis de que em dois dias retornaria. Sem ter certeza do momento certo do retorno de seu inimigo, Lázaro atravessaria o espelho ainda aquela noite e ficaria aguardando o quanto fosse necessário. Alexandre concordou em ambos esperarem juntos e armados, porém, Lázaro queria que ambos tivessem a altura de uma luta sobrenatural. Para isso, ele entrou no espelho e tentou fazer o mesmo que fizeram nas lutas contra as mentes de Elisabeth e Rebeca. Seus olhos brilharam de alegria ao perceber que era possível invocar as luzes em suas mãos naquele lugar. Era quase certeza que conseguiria se defender de Luis e poderia, assim, deixar a borduna com Alexandre.
– Sabe usar isso? – perguntou Lázaro ao entregar a borduna nas mãos de Alexandre.
– Já treinei sabre, espadim e até facão. Se esse negócio cortar algo ou ao menos servir como um taco, eu me viro.
– Você treinava uso de armas? – Sara ficou curiosa.
– É uma tradição dos guardiões serem hábeis com espada e escudo, mas eu prefiro improvisar as minhas armas com o que eu encontro no local que eu estiver. É mais prático e não chama a atenção. Já imaginou andar com um sabre na rua?!
– Inteligente. – disse Lázaro, meneando a cabeça positivamente.
Sara não conseguiu esconder no rosto o seu desagrado. Para ela, era uma afronta à história dos espadachins.
– Falei algo errado, Sara? – perguntou Alexandre.
– Não gosto de improvisação. Não é certo.
– Pode parecer errado no começo, mas quando só existe um caco de vidro pontiagudo entre você e o seu adversário, é melhor que ele esteja na sua mão e não na dele.
– Pode ser, mas... não sei. Nunca precisei adaptar nada.
– Eu já. Quase não saí de um galpão numa cidade vizinha daqui se não fosse o improviso.
– Sumaré? – perguntou Lázaro.
– Isso mesmo. No fim, tive que neutralizar alguns caras, mas consegui escapar ileso.
Lázaro vocalizou um som de que entendeu, mas preferiu não falar mais nada. Parecia que Alexandre precisava mais do livro preto que Isaac deixara do que ele para evitar confusões futuras, principalmente sendo jovem e impulsivo, como é comum entre pessoas de sua idade. Após a conversa, os três acabaram voltando para o mundo dentro do espelho. Daquele lado, começaram a analisar tudo. Uma coisa que estava clara era que tudo ali parecia uma reprodução da realidade, como se alguém tivesse feito parede por parede com um cenário, tentando copiar os objetos. Alguns objetos não existiam ali, como portas e janelas, exceto a porta que dava para os fundos do quintal. Os três caminharam agachados pela casa, evitando serem vistos através das janelas caso houvesse alguém do lado de fora. Tudo estava claro como o dia naquele lugar, mas não era uma luz natural como a do Sol – até a luz ali parecia uma grande farsa. Lázaro ficou curioso sobre do que tudo aquilo era feito e tocou a parede. A sensação era de que sua mão era impedida de ir para além do limite da parede, mas não parecia haver uma parede de verdade. Ao bater para ouvir o som que produzia, não ouviu nada. Era uma sensação muito desagradável. Em todo o ambiente, a única coisa que se ouvia era o ininterrupto som que ressoava de todos os lugares ao mesmo tempo, como uma fábrica.
Alexandre perguntou sobre o espelho que servia de portal e Lázaro explicou que ele fora inserido há pouco tempo na casa, enviado por Luis para servir como um Cavalo de Tróia. Com o portal aberto, Isaac foi morto sem chance de se defender. Naquele momento, eles poderiam usar tudo que sabiam como efeito surpresa para atacar o adversário e acabar de uma vez por todas com aquela guerra silenciosa. Para isso, os três voltaram para a o mundo real e combinaram o que fazer para a manhã seguinte. Logo cedo, Sara iria para a loja, como se fosse trabalhar, enquanto Alexandre e Lázaro esperariam armados por quem aparecesse.
Durante aquela noite, Luis e Alexandre se revezaram a proteção da casa como vigias do lado de dentro do espelho. Alexandre ficou primeiro, das vinte e três horas até as três. Lázaro o rendeu e ficou até as sete, horário que Sara começaria a se arrumar, ficando os três juntos na mesa de café da manhã.
– Eu vou explicar tudo para que o Adriano fique mais tranquilo e vamos rezar por você. – disse Sara a Lázaro.
– Lembre-se que não estarei sozinho. Temos um guardião treinado aqui. – Lázaro respondeu, tentando tranquilizá-la.
– Seu pai também era um guardião. – Sara replicou, imediatamente.
– São situações bem diferentes. Meu pai não esperava ser atacado dentro de casa, assim como eu não esperava. Agora, estamos preparados para nos defender.
– E estaremos bem posicionados, Sara. – Alexandre complementou, convicto. – Se vierem muitos, eles serão afunilados pelo corredor. Aqui quem ganhará é quem aguentar por mais tempo e tiver mais perícia.
– É isso que me assusta. Meu primo não treina há anos.
– Mas se você me visse há quatro dias, não diria isso. Pensando com mais clareza logo depois, eu fiquei surpreso com que ainda sabia. E essa cara roxa é porque fui socado enquanto dormia. – Lázaro sorriu. – Acordado, teria saído ileso.
– Espero que você esteja certo. – Sara se levantou, colocou a cadeira no lugar e pegou sua bolsa. – Eu vou indo. Boa sorte para vocês.
– Deus está conosco. – respondeu Alexandre, batendo o punho fechado no peito. – Ele protege os justos.
Sara deu um sorriso modesto e saiu. Trancou a porta e o portão, como de praxe, e saiu caminhando apressadamente pela calçada. Sem ao menos esperar Sara trancar o portão, os dois voltaram a atravessar o espelho para esperar Luis. O espelho foi posto no quarto de Sara, longe de onde eles pudessem acertar um golpe e quebrá-lo. Combinaram que Lázaro ficaria dentro do banheiro e Alexandre ficaria na suíte, que era em frente.
– Como saberemos que ele está vindo? – perguntou Alexandre.
– É possível ouvir. Creio que ele faz questão de caminhar fazendo barulho, porém, a Anahí não faz barulho algum. Até o momento, ela parece ser mais ágil do que ele, então, você cuida dela e eu dele.
Alexandre concordou. Parecia ser o mais justo, mesmo após Lázaro ter se vangloriado que ainda sabia lutar.
Os dois homens se sentaram no corredor pelo resto do dia, aguardando o momento da luta final. Enquanto Alexandre meditava, Lázaro ficava pensando em acender um cigarro. Para evitar ter que fumar, roeu todas as unhas das mãos.
– Por que não reza? Ao menos foca sua atenção em algo bom. – comentou Alexandre.
– Não parece racional para mim.
– É essa porcaria de racionalidade que tem matado a fé. Vocês, céticos, levaram as pessoas a pensarem demais e deixarem o poder da fé de lado. Se não fosse isso, ainda teríamos homens santos para todos os lados, curando doenças sem precisarmos de remédios caros e sem a negação de Deus.
– Alexandre, eu realmente não quero entrar nessa discussão.
– Porque é uma discussão encerrada há séculos. Eu estou apenas lembrando que sua racionalidade é prejudicial. Você estaria sentindo a presença de Deus consigo se tivesse fé. É o melhor amparo que você pode ter. Nada de cigarros, dedos mutilados. Somente Deus.
– Está bem, vou tentar.
Alexandre voltou a rezar e Lázaro ficou em silêncio, no banheiro, pensando: “Cara chato do inferno. Parece aqueles religiosos que batiam aqui na porta de domingo de manhã quando eu era adolescente”. Para ele, era realmente irracional rezar. Seu pai era crente, sua mãe também, e a fé não salvou nenhum dos dois. Não acreditava que ambos haviam rezado pouco, ou incorretamente. A única explicação era que, mesmo havendo o sobrenatural, ou deus estava morto ou, pior, não estava mais preocupado com ninguém. Nos dois casos, rezar só serviria para reproduzir o que Adriano fizera por Antônio, o protegendo das criaturas que não estavam ali naquele momento e, mesmo que estivessem, ele tinha certeza de que não seria capaz de invocar as criaturas de luz para repeli-las.
– Como é fácil perder a noção do tempo aqui. – Alexandre disse após olhar seu relógio de bolso.
Lázaro olhou para o relógio e, por um instante, teve a impressão de que já vira aquele aparelho.
– Esse relógio é antigo?
– Sim. Era do meu mestre. Ele me deu.
Lázaro ficou curioso para saber se esse mestre já tinha aparecido em sua casa. O relógio resgatava uma memória muito antiga, fragmentada...
– Vozes! – cochichou Alexandre.
– Vieram antes. – Cochichou Lázaro.
A sensação de urgência ampliou a capacidade de Lázaro enxergar e ele conseguiu ver o resultado das orações de Alexandre: havia seres de luz circulando o lugar, como cães de guarda. Se tivessem sorte, seriam uma ajuda extra, enquanto as mãos de Lázaro pulsavam uma luz fraca e serviriam como armas contra Luis. Por fim, ele sentiu que a sorte sorria para os anfitriões.
– Bem, Anahí, vamos ver como está o nosso porquinho... não, não, não, n...!
Lázaro recebeu Luis à porta com um empurrão com o pé, jogando o homem pequeno contra a mesa sobrenatural na cozinha. As cadeiras e a mesa saíram do lugar sem fazer barulho, mas Luis se machucou com a queda. Anahí recuou para trás com o golpe e foi atacada por Alexandre em um giro com a borduna em um arco de baixo para cima no meio do corredor. A moça recuou o corpo para trás e, antes que caísse de costas no chão, aproveitou o impulso para rolar para a sala. Alexandre percebeu que o movimento da adversária foi mais difícil porque ela estava com um pé enfaixado mas, mesmo assim, demonstrava sua habilidade. Avançando contra seu alvo ainda no chão, ele girou a borduna em um corte vertical que poderia ter acertado Anahí se ela não tivesse saído pouco antes e, ao desviar do golpe, fez com que ele afundasse a arma no chão. Aproveitando-se do problema do guardião, a moça recuou e tentou desferir uma voadora. Porém, ao se apoiar no sofá para ganhar impulso, o ferimento no pé a impediu ganhar impulso, possibilitando que Alexandre soltasse a borduna, a pegasse pela perna e pelo tronco e arremessasse seu pequeno corpo no chão. Anahí ficou caída, sem fôlego.
Lázaro avançou em fúria, mas viu que os pontos pretos que Luis apresentara dias atrás haviam aumentado em quantidade e começavam a formar uma mancha única em seu peito. Em uma luta equilibrada, Luis sabia que seu adversário, mais pesado e forte, o nocautearia rapidamente, mas com aquela arma invisível aos olhos de pessoas comuns, ele se sentia letal. O que ele não sabia era que Lázaro estava a enxergando claramente à sua frente e desviaria no momento oportuno.
Em uma tentativa de se aproximar de Luis para nocauteá-lo, o tentáculo do inimigo avançou contra seu abdômen. Lázaro, em um ato-reflexo, o desviou com sua mão, gerando fagulhas como as de uma fogueira, que subiram e desapareceram. Ambos se afastaram e entreolharam-se.
– Mah’daham! – gritou Lázaro.
– O que...?
Lázaro levantou os braços e, com os punhos brilhando, avançou em posição de luta. Luis tentou acertar Lázaro, inutilmente. O tentáculo avançava como uma serpente dando botes. Cada ataque era repelido com um soco de Lázaro e, a cada ataque frustrado, Luis gritava “não”, mais e mais intenso, mais e mais incrédulo.
Alexandre achou que tinha vencido e se aproximou de Anahí, mas ela tinha um canivete. Ao tentar tirar dela, a garota fez um corte no braço dele, deixando claro para o guardião que não deveria ter piedade. Enquanto ele se afastava, ela se levantou e ficou em posição de combate e, vendo que seria mais difícil do que parecia, ele voltou-se para a borduna e a puxou, retirando do chão com dificuldade pouco antes de precisar desviar do segundo ataque de sua adversária. Aos poucos, o chão parecia se regenerar.
Anahí não conseguia cortar os móveis e as paredes como Alexandre fazia com a borduna. O canivete não interagia com nada, enquanto a borduna cortava qualquer coisa que batesse como se tivesse atingindo argila. Durante a luta, nenhum dos dois perceberam os efeitos sobrenaturais no ambiente, focando toda atenção em subjugar o oponente. As criaturas de luz eram invisíveis para eles e a luta de Luis e Lázaro estava fora do campo de visão de ambos. Foi uma luta quase empatada entre Anahí e Alexandre até o desfecho inesperado.
Lázaro se aproximou mais e mais de Luis que, desesperado, tentou se afastar. Em uma última tentativa, o tentáculo dele se dividiu e tentou golpear Lázaro em dois lugares ao mesmo tempo. Lázaro, sem pensar, desviou de somente um deles. O segundo acertou seu antebraço, logo acima do ponto onde a luz saía. Aos poucos, o ponto tocado começou a formar uma mancha preta que começou a crescer, consumindo o braço aos poucos e tornando-o fuligem. Luis pressupôs que sairia vitorioso com o golpe que fora fatal para outros inimigos, enquanto olhava a pele de seu inimigo se decompondo em pontos pretos que soltavam ao leve movimento do braço. Parado por alguns segundos e contemplando a marca do ataque, Lázaro sentiu uma mistura de raiva e desejo de sobreviver e que, para isso, o seu inimigo deveria ser derrotado para sempre.
Furioso, Lázaro avançou até se aproximar de seu inimigo e, a menos de um braço de distância, segurou os tentáculos pela base, focando toda sua força de vontade para gerar uma única explosão com a mão, a maior que pudesse gerar, e assim aconteceu.
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