41
Quando Sara tentou levantar o balde de água cheio, não conseguiu devido ao peso que há um ano não seria um problema. Virou-o de lado e retirou metade e, mesmo assim, levou-o com dificuldade até a cozinha. Primeiro, ela retirou os cacos de vidro e os embrulhou em alguns jornais guardados na despensa para essas ocasiões. Uma olhada rápida sobre eles, Sara viu que eram recentes, coisa de quatro semanas, pouco antes da morte de seu tio. Ela olhou e deu um soluço de choro, mas se segurou e voltou ao trabalho.
A poça de sangue coagulada atraía moscas e deixava tudo mais nojento. Com dificuldade, ela limpou o chão, trocando a água do balde inúmeras vezes que ela desistiu de contar. No fim, jogou desinfetante em tudo e passou o pano de chão. Nesse processo, gastara quase a manhã toda e já sentia muita fome e cansaço, então, supondo que ninguém mais apareceria, preferiu tomar banho para poder se arrumar e almoçar em algum restaurante ali perto. Ao entrar na suíte de Isaac, ela viu os objetos pessoais de Elisabeth espalhados por todos os lados e sentiu um arrepio, preferindo ir usar o outro banheiro.
Mal entrara no banheiro e Sara sentiu como se tivesse alguém com ela e, olhando para os lados, não viu nada – a sensação era mais incômoda do que assustadora. Por precaução, ela voltou ao quarto, pegou a borduna e trancou a porta do banheiro e, mesmo com a sensação de estar com mais alguém, achou melhor tomar banho ali mesmo. Há muito tempo não se sentia bem em tomar um banho, sentindo-se disposta como há semanas não se sentia e conseguindo fazer tudo sozinha, sem precisar de um banco para ficar sentada ou de alguém ajudando. Ainda estava muito magra, mas se sentia viva.
Após o banho, Sara se vestiu no quarto de Isaac, trancou as portas e saiu, porém, mal colocara os pés na rua, ela começou a sentir como se fosse seguida enquanto se dirigia a um restaurante que havia perto da casa. Acreditando que seria alguém do grupo de Luis, ela apertou o passo, buscando chegar logo aonde havia uma concentração de pessoas. O caminho até o restaurante era curto e Sara, ao entrar no local, sentiu-se mais aliviada, protegida pela presença dos clientes do local. A variedade de cheiros a tranquilizou mais ainda – sentia-se acolhida por aquele lugar, com seus vários aromas diferentes e que ela não sentia há muitos anos. Por alguns segundos, esquecera de que pouco tempo antes estava fugindo de algo que não chegara a ver.
Sara caminhou até o bufê e começou a se servir de tudo um pouco. Até a carne de porco, algo que não estava habituada a comer, recebeu seu espaço especial no prato. Enquanto se servia, olhou para entrada e viu um homem jovem e atlético caminhar de forma desconfiada até o bufê, mas ela ainda confiava na sua segurança dentro de um local cheio. Continuou se servindo e se sentou em uma área movimentada do restaurante. De soslaio, viu o homem terminar de pôr a comida no prato e se dirigir em sua direção. Sem dizer nada, o homem sentou-se em sua mesa e Sara, atônita com a audácia do homem, não disse nada.
– Preciso falar com o Lázaro. – Alexandre cochichou, tentando ser discreto.
– Quem é você?
– Alexandre. Você é o quê do Lázaro?
– Eu não sei quem você é. O que você quer?
– Fala baixo. Eu sou conhecido do Lázaro. Preciso falar com ele.
– Eu vou gritar.
– Calma, calma. – Alexandre pediu calma também com o gesto da mão estendida para Sara. – O Lázaro não falou sobre mim? Não citou meu nome?
– Meu primo não... – Sara pensou por alguns instantes – Adriano...
– O japonês da loja?
– Sim, ele me falou esse nome: Alexandre. Mas Alexandre é nome comum. Como eu vou saber que você é o mesmo?
Alexandre colocou as duas mãos em volta do prato e apontou com o indicador direito o anel na outra mão.
– Seu tio tinha um igual.
Sara se abaixou levemente e olhou com atenção. Não lembrava bem de qual anel Isaac usava além da aliança de casamento, mas tinha uma lembrança vaga de um anel parecido com um anel de formatura em sua mão.
– Não sei, pode ser que usasse.
– Ligue para o Adriano e ele vai te confirmar.
Sara pegou o celular e ligou. Quando Adriano atendeu, Alexandre pediu o telefone e disse apenas uma frase: “Como um jovem manterá pura a sua vida?”
Após as devidas explicações, Adriano confirmou que o homem era Alexandre e desligou o telefone, pedindo, antes, que fosse informado sobre a conversa. Sara desligou o telefone e encarou Alexandre, que comia olhando para os lados, despreocupado.
– Então, você quer falar com meu primo. Infelizmente eu não poderei ajudá-lo.
– Ele não está em casa?
– Não. Ele sumiu de ontem à noite para hoje. Achamos que ele foi sequestrado. – A voz de Sara ficou embargada.
– Mas ninguém saiu daquela casa desde ontem. Eu estou tentando entrar na casa de vocês faz quase uma semana. Você saia com sua amiga e eu tentava entrar, mas nunca conseguia. Aí eu vi o Lázaro. Tentei falar com ele, mas aquela noite que vocês saíram de ambulância... bem, ontem à noite eu o vi chegar, mas foi tão rápido que preferi não me expor. Quando eu vi vocês chegando hoje de manhã, eu pretendia abordar, mas com polícia no meio... em resumo, não consegui. Achei que ele estava lá e você havia saído para fazer qualquer coisa.
Sara parou por um instante tentando entender a divergência de informações, mas não faziam sentido.
– Não. Alguém o feriu e o levou, mas se você ficou vigiando e não viu nada, eu posso lhe garantir que sei menos ainda que você.
– Não pode ser. Ele está lá. Eu o vi lá, na verdade, eu não vi claramente seu primo como tenho visto em outras ocasiões, mas eu sei que ele está lá. Eu garanto que não estou errado porque a Bússola não erra. Aliás, eu vi outras coisas também. A Bússola me avisou de três coisas na casa de vocês: uma espada preta, um cilindro de bronze e o seu primo. Essas três coisas são especiais de acordo com a Bússola.
Sara começou a pensar sobre o que Alexandre estava falando. A espada era a borduna, mas ela não sabia o que era o cilindro.
– Eu tenho uma noção do que você está falando, mas não sei como isso pode te ajudar.
– Primeiro, eu quero falar com o Lázaro e depois falamos dos outros objetos que seu tio guardou para serem entregues para a Irmandade.
Sara pensou na borduna. Essa arma era sua e não de uma Irmandade que ela nunca ouvira falar.
– Não sei... vou perguntar para o Adriano.
Sara ligou para Adriano, mas a conversa ficou muito confusa. Por isso, pediu para que ambos aguardassem até o fim do dia, quando ele apareceria para conversarem. Sara desligou e explicou tudo para Alexandre.
– Aquele carro que está lá não funciona? – Alexandre perguntava a respeito do carro de Isaac que estava na garagem.
– Não sei. Imagino que sim.
– Vamos ver.
Após o almoço, ambos voltaram para a casa de Isaac. Sara atravessou o portão e seguiu o passeio em direção a casa. Quando Alexandre pigarreou, ela olhou para trás e o viu parado no portão fechado, olhando para ela, decepcionado. Sara acenou com mão, o ordenando a entrar e, quando Alexandre tentou mostrar que não conseguia, foi surpreendido com a perda da força que resistia a sua entrada. “Está maluco?”, perguntou ela, enquanto continuava caminhando em direção à porta. Ao entrarem, Alexandre sentiu de imediato o cheiro de fumaça e Sara desconversou, afirmando apenas que algo queimara na casa, e ambos continuaram caminhando até o quarto de Isaac. Por um momento, Sara ficou envergonhada com a bagunça que estava o quarto, mas Alexandre não se preocupou. Antes de sair, Sara pegou o tubo que guardava a borduna e o levou para o carro. Ao vê-la, Alexandre ficou desconfiado.
– O que é isso? – perguntou Alexandre.
– Minha bengala. – respondeu Sara.
Ambos seguiram viagem e, ao pararem o carro na frente do antiquário, Adriano não reconheceu de imediato e ficou parado à porta esperando ambos saírem, acreditando serem clientes. Após a surpresa da visita, já dentro da loja, Adriano retirou do bolso a lupa e entregou para Alexandre, que ficou confuso com o item.
– Esse objeto te ajuda a ver o que você não consegue ver naturalmente. O Lázaro pediu para eu usar todo dia, caso alguém estranho aparecesse novamente.
– Se o Lázaro estava em perigo, por que deixou com você? – Sara perguntou, enquanto tentava pegar o objeto da mão de Alexandre.
– Ele não precisava. – Adriano respondeu com olhar sério, mas de admiração.
– Como não precisava? – perguntaram Alexandre e Sara, curiosos.
– Ele descobriu como enxergar, sozinho.
Sara e Alexandre ficaram em silêncio, mas seus rostos demonstravam um misto de perplexidade e incredulidade. Alexandre preferiu não perder mais tempo e afirmou antes de partir que, se Lázaro era importante para a Bússola de Acre, ele precisava saber o motivo e, se a lupa tinha o poder de ver o invisível, ela poderia ajudá-los a encontrar algum rastro. Sara pensou que não fazia diferença se a lupa ficasse com Alexandre se ele ajudasse a encontrar o primo, mas não tinha nenhum interesse de que sua borduna fosse levada para a Irmandade e faria questão de esconder seu paradeiro tanto quanto fosse necessário.
Ambos se despediram de Adriano e partiram para começarem o mais rápido possível a procura. Antes de estacionar em frente à casa de Isaac, Alexandre olhou em volta e não percebeu nada de estranho, e disse que provavelmente os raptores de Lázaro deveriam tê-lo levado para longe. Ao atravessarem o portão, Alexandre levantou a lupa em frente ao olho esquerdo e começou a olhar tudo. Ali, naquele instante, levou um susto: uma luz no chão pulsava, como se estivesse viva. Sara foi notificada da informação e olhou pela lupa também e, ao devolver o objeto para Alexandre, ela ficou olhando para o chão, tentando enxergar sem o uso da lupa, mas sem sucesso.
Alexandre caminhou em direção à casa, mas não enxergou nada de novo. Ao parar em frente à porta, percebeu um pequeno veio dourado subindo do chão até a mezuzá, o cilindro de cobre de suas visões, e se lembrou que, em seus estudos, o objeto era mencionado como um símbolo de proteção para uma casa judia. Porém, as outras eram objetos feitos em nome da fé. Esta, por ser um artefato místico, deveria realmente proteger a casa, de forma deliberada. Alexandre continuou sua vistoria com a lupa dentro da casa e Sara ficou para trás, aproveitando a distância para fazer algo que sentiu ser estúpido, mas poderia funcionar: ela disse para a mezuzá se proteger e impedir que qualquer um tentasse retirá-la daquele local.
Ao entrar na sala, Alexandre achou tudo tão normal quanto estava a olho nu. Ele abriu as gavetas, puxou livros, olhou debaixo do sofá e não enxergou nada de interessante. O corredor, ao contrário, tinha algo mesclado a fuligem. Enquanto a olho nu, ela era totalmente preta, com a lupa, era possível ver um tom leve de vermelho escuro. Sara o reencontrou naquele local e a informação nova a incomodou, levando-a a pensar que ainda haveria algo de Elisabeth no chão, algo que pudesse atacá-la de alguma maneira.
Enquanto examinava a suíte de Isaac, Sara se lembrou que no outro banheiro ela tivera uma sensação estranha. Alexandre deixou a desinteressante suíte de lado e foi ao outro banheiro. No chão, de maneira bem sutil, ele viu um líquido amarelado que ambos concluíram ser urina. Ao começar a contornar a urina e usar a lupa, ele percebeu que havia algo além no chão. Agachando-se em frente ao local, viu uma silhueta levemente pálida, como se tivesse algo grande parado ali.
Sem entender o que era o objeto invisível intangível e de onde veio a urina, ambos continuaram a investigação. A procura parecia não render nenhum fruto até ele optar em passar no último quarto antes de voltar para o quarto em frente à suíte. Ao olhar pelo antigo quarto de Sara, o sangue que restou na moldura do espelho tinha uma pequena luminescência vermelha que não era natural do sangue. O espelho em si, por sua vez, tinha algo semelhante a uma película esbranquiçada que só era possível ver com a lupa.
– Sara, o espelho. De quem é esse sangue no espelho?
– Não sei. O rastro de sangue vinha da cozinha até aqui e acabava.
Alexandre parou por um momento. Quando sua mente se iluminou, ele sorriu e disse:
– Um portal.
Alexandre explicou para Sara que os portais eram uma vontade de muitos antigos feiticeiros. Alguns alegavam falar com mortos pelos espelhos, outros, com divindades ancestrais. Para cada ritual, eles faziam um espelho de algum metal que conseguisse garantir um bom reflexo da luz. Contudo, os espelhos eram somente isso. A maioria dos casos de feiticeiros, magos ou bruxos que conseguiam atravessar espelhos eram apenas lendas, ao menos, até aquele momento.
– Então... foi assim que sumiram com meu primo daqui sem usar as portas?
– Acredito que sim. E outra: a mezuzá da porta deve proteger todo quintal e deve ser o que me impediu várias vezes possíveis invasores. Então, quem sequestrou seu primo não passou pelo quintal. Seria impossível. Agora precisamos saber se esse espelho ainda está funcionando. Você tem alguma coisa para tentarmos passar por ele?
Sara pegou uma folha de papel na penteadeira e fez uma bola, Alexandre a pegou e arremessou na direção do espelho, mas ela quicou e caiu no chão. Ambos ficaram decepcionados.
– Seria muito fácil. Eu não sei o que fazer agora. Você tem alguma ideia, Sara?
– Por que não colocamos a mão?
– Lembre-se sempre dessa dica para a sua vida: não coloque sua mão onde não conhece. Em todo caso, estamos indo bem. Só precisamos pensar em como testar o espelho sem precisar colocar nossas vidas em risco.
– Não seria bom usar um objeto como a lupa para isso? – Sara apontou para a mão de Alexandre. – Não uma coisa qualquer, como o papel.
Alexandre olhou para a lupa e sentiu-se tentando em não usar um objeto tão precioso para tal experiência, porém, fazia sentido a observação de Sara. Parado em frente ao espelho e Sara ao seu lado, Alexandre tentou inserir a lupa no vidro. Ao tocar, percebeu uma leve deformação na sua imagem. A lupa atravessou o limite do espelho e começou a desvanecer a imagem de Sara e Alexandre, restando apenas uma imagem não espelhada e levemente esbranquiçada da casa e a parte da lupa inserida dentro do espelho. A pergunta que eles fizeram era se ela estava indo para algum lugar e que lugar era esse. Alexandre retirou a lupa e o espelho começou a voltar a sua forma original até ficar novamente liso, mas sem a imagem de ambos.
– Vamos tentar a minha borduna. Aí você usa a lupa para ver o que acontece. Fique aí, já volto.
Alexandre concordou e Sara retirou a borduna do tubo de papelão que estava na sala. Segurando a arma pelo cabo, começou a inseri-la devagar no espelho. O objeto entrou com facilidade e Alexandre aproveitou para olhar o que acontecia através da lupa. Para sua surpresa, era possível ver que a borduna não saía atrás, mas sim na frente do espelho, e era visível apenas uma forma leitosa e brilhante. Por um momento, Alexandre imaginou que era algum reflexo de luz.
– Sara, mexa levemente a borduna, como se fosse uma alavanca.
Sara mexeu e Alexandre entendeu que era realmente a borduna. Terminada a experiência, Sara retirou a borduna e eles começaram a discutir o que tinham visto. Alexandre explicou que por intermédio da lupa, era possível ver que objetos mágicos emitiam uma luz. A borduna emitia uma luz esbranquiçada, mas fraca e, quando inserida no espelho, ainda era possível ver a mesma luz, mas sem a borduna. O curioso era terem visto pelo espelho o mesmo local onde eles estavam, como se olhassem por uma janela. Isso poderia significar que existia um mundo semelhante ao mundo que eles estavam e sobrepostos um no outro, e que poderia ser acessado através do espelho por pessoas aptas. Para perceber essa sobreposição, deveriam entender que do outro lado também deveria haver um espelho e, se estivessem do outro lado, estariam vendo o mundo real cento e oitenta graus fora de lugar.
Após as divagações dos dois, Alexandre pensou que seria importante usar o espelho para tentar ver o que era a mancha pálida que estava no chão do banheiro. Sara concordou e ele levantou o espelho pela moldura até a porta do banheiro, enquanto ela esperava com a borduna pelo lado de dentro ver a coisa no chão. Quando o espelho mostrou o banheiro, Sara viu, ao chão, a figura de Lázaro amarrado em uma posição torturante, como se ele fosse um animal que fora caçado. Ao seu lado, coisas pequenas como silhuetas de crianças quase invisíveis pareciam o atacar. Espantada, a mulher deu um inspiro forte que parecia um grito, mas não ficou paralisada: seu primo em aparente agonia a fez se jogar através do espelho para salvá-lo.
Lázaro cochilou por alguns minutos e a dor no corpo o despertou. A posição dificultava respirar ou falar. Para diminuir a dor intensificada pelo alongamento forçado dos músculos, ele tentou ficar em silêncio e imóvel. Começou a repensar a vida, pois era a única coisa que lhe restava. Tinha certeza que todas as pistas deixadas pelo grupo de Luis foram bem usadas por ele, exceto uma: Luis entrara na casa sem passar pelo quintal. Não sabia se havia sido falha sua ou que não havia como saber que ele seria capaz de entrar na casa usando daquela realidade semelhante ao mundo real. Um artefato que abre portais pelos espelhos era algo inimaginável para uma pessoa como Lázaro, assim com os outros objetos. Ele tinha certeza que, mesmo que imaginasse que existisse algo do tipo, não o colocaria como uma possibilidade.
Tantas coisas estranhas acontecendo em tão pouco tempo era muita coisa para pensar, principalmente com a vida de Sara correndo risco. Se a prima estava salva, como o discurso de Luis deixou transparecer, Lázaro ficava satisfeito. Como ele dissera para Elisabeth, ele mataria por ela. O que não saiu de sua boca, mas estava em sua mente, era que ele também morreria pela prima. A parte difícil de assimilar era o risco de não ter sido totalmente prudente, como a possibilidade de alguma pista deixada ter sido ignorada, porém, pensou que ali era o momento de começar a aceitar a morte. Sentia raiva de Luis e de si mesmo: “mas se...” seguido de “e se...”. Muitas possibilidades naquele momento de sofrimento físico e que nunca foram parte dos planos de vida Lázaro.
Após algumas horas, Lázaro sentira que os braços e as pernas adormeciam. Poderia ser que um coágulo o matasse antes de Luis reaparecer e o último gozo do invasor fosse frustrado. “Quem sabe essa seria a única sorte possível”, pensou ele naquele momento de desgosto. Fizera tudo razoavelmente certo, mas, mesmo assim, perdera. Perdera uma luta que ele não imaginava que a própria vida era o prêmio final. O cansaço começou a voltar, enquanto a mente ainda estava alerta. O ódio e a resignação se misturaram em um grande caldeirão de sentimentos conflitantes. Os sentimentos, a perda gradativa do tato e o som contínuo daquele lugar colocaram Lázaro em um transe. “Preciso de mais uma chance, só mais uma”, pensou.
Os pensamentos de Lázaro foram perturbados por um vulto que se encaminhou para o onde estava o chuveiro no mundo real. Tinha certeza que era Sara, apesar de não conseguir ver nada além do seu vulto. A prima ligou o chuveiro e o som da água sobressaiu ao som contínuo que aquele lugar infligia em seus ouvidos e, enquanto ouvia o som do longo banho da prima, ele começou a sentir mais vontade de beber água e de urinar. No começo, era uma vontade tolerável, mas naquele momento a bexiga doía. Em respeito à prima, Lázaro a esperou sair, mas não suportou por muito mais tempo. Sua vergonha se misturou a sua surpresa quando sentiu que ficara apenas parcialmente molhado, enquanto o restante parecia ter desaparecido no nada.
Ter visto Sara tão perto e incapaz de salvá-lo foi um golpe doloroso às últimas forças de Lázaro. Enquanto tentava focar-se em algo que o ajudasse a não sentir as novas dores que vinham substituir àquelas que a dormência o poupava, ele ouviu um assovio. Era um claro assovio muito bem feito, limpo e alto, mas distante. Aos poucos, algo distorcia o som contínuo em seus ouvidos, algo que se aproximava de algum lugar dentro da casa. Pouco a pouco, o assovio se aproximou até a coisa que o produzia parar ao seu lado e começar a inspirar.
A infelicidade começou a dar lugar a uma angústia e a mente de Lázaro começou a criar ideias horríveis: começou a achar que ia ser comido vivo por parasitas por dias antes de conseguir finalmente morrer e ninguém estaria com ele no último momento. Depois, começou a pensar que não iria reencontrar o pai ou a mãe, mas sim que iria para algum lugar sombrio e miserável; que não seria merecedor nem de habitar o Sheol ou ser destruído ao fim de sua punição. Ele começou a acreditar que viveria para sempre em algum lugar onde o nada e o eterno se juntariam para enlouquecer qualquer mente imortal.
Lázaro não sabia a quanto tempo estava preso aqueles pensamentos negativos, mas ficara por muito tempo. Por um instante ele voltou a si e viu dois vultos caminhando perto de si, mas não tinha esperança alguma sobre aquela situação e voltou a pensar sobre o fim, até ser puxado novamente de seus pensamentos por um baque forte e a visão de Sara olhando para ele, horrorizada.
Quando Alexandre viu Sara sumindo pelo espelho empunhando a borduna, ele empurrou o espelho para o lado e entrou no banheiro para ver o que Sara vira. Foi então que viu uma criatura como a leve silhueta de uma criança e fez o sinal da cruz como proteção. Ao fundo, viu Sara que, desesperada, perdeu o equilíbrio ao atravessar o espelho e caiu sentada sob o chuveiro mas, por sorte, não se feriu. Alexandre reposicionou o espelho em frente à Lázaro e o viu ter movimentos vacilantes da cabeça. Sara se levantou e olhou para o primo que agora olhava para ela, mas não falava. Ao lado, ela viu que as criaturas sugavam de seu primo algo semelhante a um gás preto que saia de seu nariz e boca.
Enquanto Sara hesitou em reagir, Alexandre entrou pelo espelho e tentou chutar as pequenas criaturas, mas seu pé passou por dentro delas como se fossem fumaça. Os dois seres de sombras se assustaram como ataque, mas voltaram a drenar Lázaro logo que perceberam que nada ia acontecer. Ao ver que Lázaro ainda estava em perigo apesar do ataque de Alexandre, Sara resgatou sua coragem em favor do primo, gritou de raiva e estocou o ser com a borduna no que seria o abdômen, puxando a arma até a altura da cabeça dele e o deixando em formato de um xis com braços. O ser continuou vivo, mas fugiu fazendo um assovio agonizante.
O som do monstro perturbou Sara, que ficou paralisada novamente. Alexandre, que vira a tudo e estava admirado com a coragem e a loucura da mulher, gritou “ataque, Sara!”, e ela reagiu, acertando um corte transversal que cortou o outro ser onde deveria ficar o pescoço e, mesmo sem cabeça, a criatura fugiu. Quando tudo parecia estar seguro, Alexandre retirou um pequeno canivete do bolso e começou a cortar as cordas que amarravam Lázaro pelos pulsos e tornozelos. Sara, exausta, caiu de joelhos e começou a chorar.
Quando Sara tentou levantar o balde de água cheio, não conseguiu devido ao peso que há um ano não seria um problema. Virou-o de lado e retirou metade e, mesmo assim, levou-o com dificuldade até a cozinha. Primeiro, ela retirou os cacos de vidro e os embrulhou em alguns jornais guardados na despensa para essas ocasiões. Uma olhada rápida sobre eles, Sara viu que eram recentes, coisa de quatro semanas, pouco antes da morte de seu tio. Ela olhou e deu um soluço de choro, mas se segurou e voltou ao trabalho.
A poça de sangue coagulada atraía moscas e deixava tudo mais nojento. Com dificuldade, ela limpou o chão, trocando a água do balde inúmeras vezes que ela desistiu de contar. No fim, jogou desinfetante em tudo e passou o pano de chão. Nesse processo, gastara quase a manhã toda e já sentia muita fome e cansaço, então, supondo que ninguém mais apareceria, preferiu tomar banho para poder se arrumar e almoçar em algum restaurante ali perto. Ao entrar na suíte de Isaac, ela viu os objetos pessoais de Elisabeth espalhados por todos os lados e sentiu um arrepio, preferindo ir usar o outro banheiro.
Mal entrara no banheiro e Sara sentiu como se tivesse alguém com ela e, olhando para os lados, não viu nada – a sensação era mais incômoda do que assustadora. Por precaução, ela voltou ao quarto, pegou a borduna e trancou a porta do banheiro e, mesmo com a sensação de estar com mais alguém, achou melhor tomar banho ali mesmo. Há muito tempo não se sentia bem em tomar um banho, sentindo-se disposta como há semanas não se sentia e conseguindo fazer tudo sozinha, sem precisar de um banco para ficar sentada ou de alguém ajudando. Ainda estava muito magra, mas se sentia viva.
Após o banho, Sara se vestiu no quarto de Isaac, trancou as portas e saiu, porém, mal colocara os pés na rua, ela começou a sentir como se fosse seguida enquanto se dirigia a um restaurante que havia perto da casa. Acreditando que seria alguém do grupo de Luis, ela apertou o passo, buscando chegar logo aonde havia uma concentração de pessoas. O caminho até o restaurante era curto e Sara, ao entrar no local, sentiu-se mais aliviada, protegida pela presença dos clientes do local. A variedade de cheiros a tranquilizou mais ainda – sentia-se acolhida por aquele lugar, com seus vários aromas diferentes e que ela não sentia há muitos anos. Por alguns segundos, esquecera de que pouco tempo antes estava fugindo de algo que não chegara a ver.
Sara caminhou até o bufê e começou a se servir de tudo um pouco. Até a carne de porco, algo que não estava habituada a comer, recebeu seu espaço especial no prato. Enquanto se servia, olhou para entrada e viu um homem jovem e atlético caminhar de forma desconfiada até o bufê, mas ela ainda confiava na sua segurança dentro de um local cheio. Continuou se servindo e se sentou em uma área movimentada do restaurante. De soslaio, viu o homem terminar de pôr a comida no prato e se dirigir em sua direção. Sem dizer nada, o homem sentou-se em sua mesa e Sara, atônita com a audácia do homem, não disse nada.
– Preciso falar com o Lázaro. – Alexandre cochichou, tentando ser discreto.
– Quem é você?
– Alexandre. Você é o quê do Lázaro?
– Eu não sei quem você é. O que você quer?
– Fala baixo. Eu sou conhecido do Lázaro. Preciso falar com ele.
– Eu vou gritar.
– Calma, calma. – Alexandre pediu calma também com o gesto da mão estendida para Sara. – O Lázaro não falou sobre mim? Não citou meu nome?
– Meu primo não... – Sara pensou por alguns instantes – Adriano...
– O japonês da loja?
– Sim, ele me falou esse nome: Alexandre. Mas Alexandre é nome comum. Como eu vou saber que você é o mesmo?
Alexandre colocou as duas mãos em volta do prato e apontou com o indicador direito o anel na outra mão.
– Seu tio tinha um igual.
Sara se abaixou levemente e olhou com atenção. Não lembrava bem de qual anel Isaac usava além da aliança de casamento, mas tinha uma lembrança vaga de um anel parecido com um anel de formatura em sua mão.
– Não sei, pode ser que usasse.
– Ligue para o Adriano e ele vai te confirmar.
Sara pegou o celular e ligou. Quando Adriano atendeu, Alexandre pediu o telefone e disse apenas uma frase: “Como um jovem manterá pura a sua vida?”
Após as devidas explicações, Adriano confirmou que o homem era Alexandre e desligou o telefone, pedindo, antes, que fosse informado sobre a conversa. Sara desligou o telefone e encarou Alexandre, que comia olhando para os lados, despreocupado.
– Então, você quer falar com meu primo. Infelizmente eu não poderei ajudá-lo.
– Ele não está em casa?
– Não. Ele sumiu de ontem à noite para hoje. Achamos que ele foi sequestrado. – A voz de Sara ficou embargada.
– Mas ninguém saiu daquela casa desde ontem. Eu estou tentando entrar na casa de vocês faz quase uma semana. Você saia com sua amiga e eu tentava entrar, mas nunca conseguia. Aí eu vi o Lázaro. Tentei falar com ele, mas aquela noite que vocês saíram de ambulância... bem, ontem à noite eu o vi chegar, mas foi tão rápido que preferi não me expor. Quando eu vi vocês chegando hoje de manhã, eu pretendia abordar, mas com polícia no meio... em resumo, não consegui. Achei que ele estava lá e você havia saído para fazer qualquer coisa.
Sara parou por um instante tentando entender a divergência de informações, mas não faziam sentido.
– Não. Alguém o feriu e o levou, mas se você ficou vigiando e não viu nada, eu posso lhe garantir que sei menos ainda que você.
– Não pode ser. Ele está lá. Eu o vi lá, na verdade, eu não vi claramente seu primo como tenho visto em outras ocasiões, mas eu sei que ele está lá. Eu garanto que não estou errado porque a Bússola não erra. Aliás, eu vi outras coisas também. A Bússola me avisou de três coisas na casa de vocês: uma espada preta, um cilindro de bronze e o seu primo. Essas três coisas são especiais de acordo com a Bússola.
Sara começou a pensar sobre o que Alexandre estava falando. A espada era a borduna, mas ela não sabia o que era o cilindro.
– Eu tenho uma noção do que você está falando, mas não sei como isso pode te ajudar.
– Primeiro, eu quero falar com o Lázaro e depois falamos dos outros objetos que seu tio guardou para serem entregues para a Irmandade.
Sara pensou na borduna. Essa arma era sua e não de uma Irmandade que ela nunca ouvira falar.
– Não sei... vou perguntar para o Adriano.
Sara ligou para Adriano, mas a conversa ficou muito confusa. Por isso, pediu para que ambos aguardassem até o fim do dia, quando ele apareceria para conversarem. Sara desligou e explicou tudo para Alexandre.
– Aquele carro que está lá não funciona? – Alexandre perguntava a respeito do carro de Isaac que estava na garagem.
– Não sei. Imagino que sim.
– Vamos ver.
Após o almoço, ambos voltaram para a casa de Isaac. Sara atravessou o portão e seguiu o passeio em direção a casa. Quando Alexandre pigarreou, ela olhou para trás e o viu parado no portão fechado, olhando para ela, decepcionado. Sara acenou com mão, o ordenando a entrar e, quando Alexandre tentou mostrar que não conseguia, foi surpreendido com a perda da força que resistia a sua entrada. “Está maluco?”, perguntou ela, enquanto continuava caminhando em direção à porta. Ao entrarem, Alexandre sentiu de imediato o cheiro de fumaça e Sara desconversou, afirmando apenas que algo queimara na casa, e ambos continuaram caminhando até o quarto de Isaac. Por um momento, Sara ficou envergonhada com a bagunça que estava o quarto, mas Alexandre não se preocupou. Antes de sair, Sara pegou o tubo que guardava a borduna e o levou para o carro. Ao vê-la, Alexandre ficou desconfiado.
– O que é isso? – perguntou Alexandre.
– Minha bengala. – respondeu Sara.
Ambos seguiram viagem e, ao pararem o carro na frente do antiquário, Adriano não reconheceu de imediato e ficou parado à porta esperando ambos saírem, acreditando serem clientes. Após a surpresa da visita, já dentro da loja, Adriano retirou do bolso a lupa e entregou para Alexandre, que ficou confuso com o item.
– Esse objeto te ajuda a ver o que você não consegue ver naturalmente. O Lázaro pediu para eu usar todo dia, caso alguém estranho aparecesse novamente.
– Se o Lázaro estava em perigo, por que deixou com você? – Sara perguntou, enquanto tentava pegar o objeto da mão de Alexandre.
– Ele não precisava. – Adriano respondeu com olhar sério, mas de admiração.
– Como não precisava? – perguntaram Alexandre e Sara, curiosos.
– Ele descobriu como enxergar, sozinho.
Sara e Alexandre ficaram em silêncio, mas seus rostos demonstravam um misto de perplexidade e incredulidade. Alexandre preferiu não perder mais tempo e afirmou antes de partir que, se Lázaro era importante para a Bússola de Acre, ele precisava saber o motivo e, se a lupa tinha o poder de ver o invisível, ela poderia ajudá-los a encontrar algum rastro. Sara pensou que não fazia diferença se a lupa ficasse com Alexandre se ele ajudasse a encontrar o primo, mas não tinha nenhum interesse de que sua borduna fosse levada para a Irmandade e faria questão de esconder seu paradeiro tanto quanto fosse necessário.
Ambos se despediram de Adriano e partiram para começarem o mais rápido possível a procura. Antes de estacionar em frente à casa de Isaac, Alexandre olhou em volta e não percebeu nada de estranho, e disse que provavelmente os raptores de Lázaro deveriam tê-lo levado para longe. Ao atravessarem o portão, Alexandre levantou a lupa em frente ao olho esquerdo e começou a olhar tudo. Ali, naquele instante, levou um susto: uma luz no chão pulsava, como se estivesse viva. Sara foi notificada da informação e olhou pela lupa também e, ao devolver o objeto para Alexandre, ela ficou olhando para o chão, tentando enxergar sem o uso da lupa, mas sem sucesso.
Alexandre caminhou em direção à casa, mas não enxergou nada de novo. Ao parar em frente à porta, percebeu um pequeno veio dourado subindo do chão até a mezuzá, o cilindro de cobre de suas visões, e se lembrou que, em seus estudos, o objeto era mencionado como um símbolo de proteção para uma casa judia. Porém, as outras eram objetos feitos em nome da fé. Esta, por ser um artefato místico, deveria realmente proteger a casa, de forma deliberada. Alexandre continuou sua vistoria com a lupa dentro da casa e Sara ficou para trás, aproveitando a distância para fazer algo que sentiu ser estúpido, mas poderia funcionar: ela disse para a mezuzá se proteger e impedir que qualquer um tentasse retirá-la daquele local.
Ao entrar na sala, Alexandre achou tudo tão normal quanto estava a olho nu. Ele abriu as gavetas, puxou livros, olhou debaixo do sofá e não enxergou nada de interessante. O corredor, ao contrário, tinha algo mesclado a fuligem. Enquanto a olho nu, ela era totalmente preta, com a lupa, era possível ver um tom leve de vermelho escuro. Sara o reencontrou naquele local e a informação nova a incomodou, levando-a a pensar que ainda haveria algo de Elisabeth no chão, algo que pudesse atacá-la de alguma maneira.
Enquanto examinava a suíte de Isaac, Sara se lembrou que no outro banheiro ela tivera uma sensação estranha. Alexandre deixou a desinteressante suíte de lado e foi ao outro banheiro. No chão, de maneira bem sutil, ele viu um líquido amarelado que ambos concluíram ser urina. Ao começar a contornar a urina e usar a lupa, ele percebeu que havia algo além no chão. Agachando-se em frente ao local, viu uma silhueta levemente pálida, como se tivesse algo grande parado ali.
Sem entender o que era o objeto invisível intangível e de onde veio a urina, ambos continuaram a investigação. A procura parecia não render nenhum fruto até ele optar em passar no último quarto antes de voltar para o quarto em frente à suíte. Ao olhar pelo antigo quarto de Sara, o sangue que restou na moldura do espelho tinha uma pequena luminescência vermelha que não era natural do sangue. O espelho em si, por sua vez, tinha algo semelhante a uma película esbranquiçada que só era possível ver com a lupa.
– Sara, o espelho. De quem é esse sangue no espelho?
– Não sei. O rastro de sangue vinha da cozinha até aqui e acabava.
Alexandre parou por um momento. Quando sua mente se iluminou, ele sorriu e disse:
– Um portal.
Alexandre explicou para Sara que os portais eram uma vontade de muitos antigos feiticeiros. Alguns alegavam falar com mortos pelos espelhos, outros, com divindades ancestrais. Para cada ritual, eles faziam um espelho de algum metal que conseguisse garantir um bom reflexo da luz. Contudo, os espelhos eram somente isso. A maioria dos casos de feiticeiros, magos ou bruxos que conseguiam atravessar espelhos eram apenas lendas, ao menos, até aquele momento.
– Então... foi assim que sumiram com meu primo daqui sem usar as portas?
– Acredito que sim. E outra: a mezuzá da porta deve proteger todo quintal e deve ser o que me impediu várias vezes possíveis invasores. Então, quem sequestrou seu primo não passou pelo quintal. Seria impossível. Agora precisamos saber se esse espelho ainda está funcionando. Você tem alguma coisa para tentarmos passar por ele?
Sara pegou uma folha de papel na penteadeira e fez uma bola, Alexandre a pegou e arremessou na direção do espelho, mas ela quicou e caiu no chão. Ambos ficaram decepcionados.
– Seria muito fácil. Eu não sei o que fazer agora. Você tem alguma ideia, Sara?
– Por que não colocamos a mão?
– Lembre-se sempre dessa dica para a sua vida: não coloque sua mão onde não conhece. Em todo caso, estamos indo bem. Só precisamos pensar em como testar o espelho sem precisar colocar nossas vidas em risco.
– Não seria bom usar um objeto como a lupa para isso? – Sara apontou para a mão de Alexandre. – Não uma coisa qualquer, como o papel.
Alexandre olhou para a lupa e sentiu-se tentando em não usar um objeto tão precioso para tal experiência, porém, fazia sentido a observação de Sara. Parado em frente ao espelho e Sara ao seu lado, Alexandre tentou inserir a lupa no vidro. Ao tocar, percebeu uma leve deformação na sua imagem. A lupa atravessou o limite do espelho e começou a desvanecer a imagem de Sara e Alexandre, restando apenas uma imagem não espelhada e levemente esbranquiçada da casa e a parte da lupa inserida dentro do espelho. A pergunta que eles fizeram era se ela estava indo para algum lugar e que lugar era esse. Alexandre retirou a lupa e o espelho começou a voltar a sua forma original até ficar novamente liso, mas sem a imagem de ambos.
– Vamos tentar a minha borduna. Aí você usa a lupa para ver o que acontece. Fique aí, já volto.
Alexandre concordou e Sara retirou a borduna do tubo de papelão que estava na sala. Segurando a arma pelo cabo, começou a inseri-la devagar no espelho. O objeto entrou com facilidade e Alexandre aproveitou para olhar o que acontecia através da lupa. Para sua surpresa, era possível ver que a borduna não saía atrás, mas sim na frente do espelho, e era visível apenas uma forma leitosa e brilhante. Por um momento, Alexandre imaginou que era algum reflexo de luz.
– Sara, mexa levemente a borduna, como se fosse uma alavanca.
Sara mexeu e Alexandre entendeu que era realmente a borduna. Terminada a experiência, Sara retirou a borduna e eles começaram a discutir o que tinham visto. Alexandre explicou que por intermédio da lupa, era possível ver que objetos mágicos emitiam uma luz. A borduna emitia uma luz esbranquiçada, mas fraca e, quando inserida no espelho, ainda era possível ver a mesma luz, mas sem a borduna. O curioso era terem visto pelo espelho o mesmo local onde eles estavam, como se olhassem por uma janela. Isso poderia significar que existia um mundo semelhante ao mundo que eles estavam e sobrepostos um no outro, e que poderia ser acessado através do espelho por pessoas aptas. Para perceber essa sobreposição, deveriam entender que do outro lado também deveria haver um espelho e, se estivessem do outro lado, estariam vendo o mundo real cento e oitenta graus fora de lugar.
Após as divagações dos dois, Alexandre pensou que seria importante usar o espelho para tentar ver o que era a mancha pálida que estava no chão do banheiro. Sara concordou e ele levantou o espelho pela moldura até a porta do banheiro, enquanto ela esperava com a borduna pelo lado de dentro ver a coisa no chão. Quando o espelho mostrou o banheiro, Sara viu, ao chão, a figura de Lázaro amarrado em uma posição torturante, como se ele fosse um animal que fora caçado. Ao seu lado, coisas pequenas como silhuetas de crianças quase invisíveis pareciam o atacar. Espantada, a mulher deu um inspiro forte que parecia um grito, mas não ficou paralisada: seu primo em aparente agonia a fez se jogar através do espelho para salvá-lo.
***
Lázaro cochilou por alguns minutos e a dor no corpo o despertou. A posição dificultava respirar ou falar. Para diminuir a dor intensificada pelo alongamento forçado dos músculos, ele tentou ficar em silêncio e imóvel. Começou a repensar a vida, pois era a única coisa que lhe restava. Tinha certeza que todas as pistas deixadas pelo grupo de Luis foram bem usadas por ele, exceto uma: Luis entrara na casa sem passar pelo quintal. Não sabia se havia sido falha sua ou que não havia como saber que ele seria capaz de entrar na casa usando daquela realidade semelhante ao mundo real. Um artefato que abre portais pelos espelhos era algo inimaginável para uma pessoa como Lázaro, assim com os outros objetos. Ele tinha certeza que, mesmo que imaginasse que existisse algo do tipo, não o colocaria como uma possibilidade.
Tantas coisas estranhas acontecendo em tão pouco tempo era muita coisa para pensar, principalmente com a vida de Sara correndo risco. Se a prima estava salva, como o discurso de Luis deixou transparecer, Lázaro ficava satisfeito. Como ele dissera para Elisabeth, ele mataria por ela. O que não saiu de sua boca, mas estava em sua mente, era que ele também morreria pela prima. A parte difícil de assimilar era o risco de não ter sido totalmente prudente, como a possibilidade de alguma pista deixada ter sido ignorada, porém, pensou que ali era o momento de começar a aceitar a morte. Sentia raiva de Luis e de si mesmo: “mas se...” seguido de “e se...”. Muitas possibilidades naquele momento de sofrimento físico e que nunca foram parte dos planos de vida Lázaro.
Após algumas horas, Lázaro sentira que os braços e as pernas adormeciam. Poderia ser que um coágulo o matasse antes de Luis reaparecer e o último gozo do invasor fosse frustrado. “Quem sabe essa seria a única sorte possível”, pensou ele naquele momento de desgosto. Fizera tudo razoavelmente certo, mas, mesmo assim, perdera. Perdera uma luta que ele não imaginava que a própria vida era o prêmio final. O cansaço começou a voltar, enquanto a mente ainda estava alerta. O ódio e a resignação se misturaram em um grande caldeirão de sentimentos conflitantes. Os sentimentos, a perda gradativa do tato e o som contínuo daquele lugar colocaram Lázaro em um transe. “Preciso de mais uma chance, só mais uma”, pensou.
Os pensamentos de Lázaro foram perturbados por um vulto que se encaminhou para o onde estava o chuveiro no mundo real. Tinha certeza que era Sara, apesar de não conseguir ver nada além do seu vulto. A prima ligou o chuveiro e o som da água sobressaiu ao som contínuo que aquele lugar infligia em seus ouvidos e, enquanto ouvia o som do longo banho da prima, ele começou a sentir mais vontade de beber água e de urinar. No começo, era uma vontade tolerável, mas naquele momento a bexiga doía. Em respeito à prima, Lázaro a esperou sair, mas não suportou por muito mais tempo. Sua vergonha se misturou a sua surpresa quando sentiu que ficara apenas parcialmente molhado, enquanto o restante parecia ter desaparecido no nada.
Ter visto Sara tão perto e incapaz de salvá-lo foi um golpe doloroso às últimas forças de Lázaro. Enquanto tentava focar-se em algo que o ajudasse a não sentir as novas dores que vinham substituir àquelas que a dormência o poupava, ele ouviu um assovio. Era um claro assovio muito bem feito, limpo e alto, mas distante. Aos poucos, algo distorcia o som contínuo em seus ouvidos, algo que se aproximava de algum lugar dentro da casa. Pouco a pouco, o assovio se aproximou até a coisa que o produzia parar ao seu lado e começar a inspirar.
A infelicidade começou a dar lugar a uma angústia e a mente de Lázaro começou a criar ideias horríveis: começou a achar que ia ser comido vivo por parasitas por dias antes de conseguir finalmente morrer e ninguém estaria com ele no último momento. Depois, começou a pensar que não iria reencontrar o pai ou a mãe, mas sim que iria para algum lugar sombrio e miserável; que não seria merecedor nem de habitar o Sheol ou ser destruído ao fim de sua punição. Ele começou a acreditar que viveria para sempre em algum lugar onde o nada e o eterno se juntariam para enlouquecer qualquer mente imortal.
Lázaro não sabia a quanto tempo estava preso aqueles pensamentos negativos, mas ficara por muito tempo. Por um instante ele voltou a si e viu dois vultos caminhando perto de si, mas não tinha esperança alguma sobre aquela situação e voltou a pensar sobre o fim, até ser puxado novamente de seus pensamentos por um baque forte e a visão de Sara olhando para ele, horrorizada.
***
Quando Alexandre viu Sara sumindo pelo espelho empunhando a borduna, ele empurrou o espelho para o lado e entrou no banheiro para ver o que Sara vira. Foi então que viu uma criatura como a leve silhueta de uma criança e fez o sinal da cruz como proteção. Ao fundo, viu Sara que, desesperada, perdeu o equilíbrio ao atravessar o espelho e caiu sentada sob o chuveiro mas, por sorte, não se feriu. Alexandre reposicionou o espelho em frente à Lázaro e o viu ter movimentos vacilantes da cabeça. Sara se levantou e olhou para o primo que agora olhava para ela, mas não falava. Ao lado, ela viu que as criaturas sugavam de seu primo algo semelhante a um gás preto que saia de seu nariz e boca.
Enquanto Sara hesitou em reagir, Alexandre entrou pelo espelho e tentou chutar as pequenas criaturas, mas seu pé passou por dentro delas como se fossem fumaça. Os dois seres de sombras se assustaram como ataque, mas voltaram a drenar Lázaro logo que perceberam que nada ia acontecer. Ao ver que Lázaro ainda estava em perigo apesar do ataque de Alexandre, Sara resgatou sua coragem em favor do primo, gritou de raiva e estocou o ser com a borduna no que seria o abdômen, puxando a arma até a altura da cabeça dele e o deixando em formato de um xis com braços. O ser continuou vivo, mas fugiu fazendo um assovio agonizante.
O som do monstro perturbou Sara, que ficou paralisada novamente. Alexandre, que vira a tudo e estava admirado com a coragem e a loucura da mulher, gritou “ataque, Sara!”, e ela reagiu, acertando um corte transversal que cortou o outro ser onde deveria ficar o pescoço e, mesmo sem cabeça, a criatura fugiu. Quando tudo parecia estar seguro, Alexandre retirou um pequeno canivete do bolso e começou a cortar as cordas que amarravam Lázaro pelos pulsos e tornozelos. Sara, exausta, caiu de joelhos e começou a chorar.
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