quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 44


43 
     O ar da cozinha daquela realidade foi pressionado pelo corredor, arremessando Alexandre e Anahí ao chão. Ele foi arremessado sobre o sofá e se chocou contra a parede, enquanto a moça foi arremessada para fora da sala e não se machucou. Os seres de luz que circulavam pelo ambiente explodiram em uma reação em cadeia que começou na cozinha e desestabilizou a estrutura de todos eles em um raio de alguns metros. Todos os seres, sem exceção, se converteram em fagulhas que dissiparam no ar. Algum tempo depois da explosão, Ele se levantou e procurou por sua adversária, mas estava sozinho na sala – a moça fugiu e ainda levou o canivete. A borduna parecia ter desaparecido também. Novamente de pé, ele encontrou Lázaro sangrando pelo nariz e Luis caído, com a roupa chamuscada na altura do peito.
     Aos poucos, Alexandre arrastou os dois homens para o mundo real, dando mais atenção para Luis pela necessidade de amarrá-lo, usando para isso os restos do cordão que haviam sido usados para prender Lázaro no dia anterior. Ambos os homens foram deixados pertos um do outro, desacordados. Por último, o guardião pegou o livro de capa preta de Lázaro e partiu pelos fundos da casa no mundo real, pulando o muro que dava acesso à rua atrás da casa de Isaac.
     Após o incidente, o que houve foi uma reação bem atípica naquela rua. Todos os homens, mulheres e crianças sentiram a explosão como uma mudança na sensação da realidade, como uma oscilação em suas mentes. Era como se, por um segundo, todos tivessem adormecido e despertado. Dentro de suas casas, famílias se entreolhavam sem entender o que havia acontecido a ponto de sentirem todos juntos um efeito que causava estranheza sobre quem eles eram.
     Quando Emílio saiu para a rua, viu um homem saindo pela porta dos fundos da casa vizinha, preferindo ligar para a polícia e para o antiquário. Sara chegou antes dos policiais e fez questão de que ninguém entrasse, nem mesmo ela. A mulher precisou esperar mais alguns minutos até que viaturas e ambulâncias aparecessem na Vila Lemos. Apesar do atendimento médico para muitas pessoas que desmaiaram ou sofreram com problemas psicológicos temporários, os dois homens caídos dentro da residência foram o centro das atenções: Lázaro, o dono do imóvel, e Luis, um homem procurado por alguns crimes que seu semblante agradável conseguia esconder com muita facilidade. Ambos foram levados para o pronto-socorro da Universidade Estadual de Campinas com lesões estranhas. Os socorristas e policiais olharam a casa e suspeitaram que havia alguma relação entre o estado dos dois e o incêndio, mas Sara explicou que não havia e tudo ficou mais confuso.
     Em meio a toda a movimentação daquele início de noite, uma moça franzina e desconhecida pelos moradores fora ignorada por todos e sumiu em total silêncio. O outro homem desconhecido foi procurado pelos policiais, em vão – Alexandre era tão habilidoso em desaparecer quanto Anahí. No caminho de volta para seu último esconderijo, ele pensou que, se não tivessem em lados opostos, ela e ele poderiam formar uma bela dupla.

***

     No hospital, os médicos atenderam Luis como se a marca em seu peito fosse uma queimadura de segundo grau em um formato que lembrava uma queimadura de pólvora. Lázaro parecia ter parte da pele carbonizada, perdendo a derme e epiderme. A lesão era do tamanho de um punho e, curiosamente, não doía muito. Contudo, seria uma marca perpétua que ele conseguiria lembrar a causa, apesar de dizer para os médicos que não tinha a mínima ideia de como aquilo se formou. Foram muitas as perguntas feitas pelos médicos, pelo delegado de polícia que cuidava do caso e pelo advogado. Foi ainda no hospital que Lázaro ficou sabendo que seu adversário queria processá-lo, acusando-o de cárcere privado e lesão corporal dolosa. Convencido que o processo poderia demorar meses ou até anos, ele não se preocupou.
     Após algum tempo, a pele perdida na luta e que não queria cicatrizar se tornou um assunto recorrente. Os médicos acreditaram que era a perda de um pedaço muito grande de tecido para esperar uma reconstrução natural. Fizeram uma biopsia e não conseguiram explicar por que havia uma camada preta como carvão no lugar da pele e por que, mesmo sem o tecido, não havia sangramento e nem necrose.
     Enquanto não descobriam o que Lázaro tinha, ele ficou hospitalizado por algumas semanas e perdeu peso. Com o excesso de pele no abdômen, os médicos tentaram fazer enxerto no braço, esperando que o tecido enxertado irrigasse a área lesionada e o próprio corpo regenerasse as lesões, mas não obtiveram sucesso. Na primeira troca de bandagens, os enfermeiros perceberam que o tecido enxertado havia desaparecido. Os estudantes de medicina começaram a visitar periodicamente Lázaro durante as trocas de bandagens para verem o seu caso. Ninguém colocou como opção um segundo enxerto e tinham certeza de que ninguém havia arrancado o primeiro. A doença desconhecida de Lázaro era um caso que gerava burburinhos pelos corredores.
     Sara e Adriano não conversavam com ele frequentemente. A lesão atraia muitos curiosos e, por isso, era muito difícil conversarem a sós. Quando a oportunidade aparecia, eles tentavam falar a respeito do dia em que ele lutou contra Luis e das coisas que aconteceram depois. Em uma dessas ocasiões, Adriano falou que Beatriz ligou de Portugal procurando por Lázaro. Sara mentiu pelo primo, dizendo que ele havia voltado ao trabalho na escola e estava muito atarefado com toda a papelada atrasada, mas prometeu à angolana que Lázaro ligaria assim que fosse possível. Este ficou em silêncio durante o resto daquele dia e passou várias horas pensando a respeito. Sabia que falar sobre sua condição médica para uma pessoa que estava além-mar serviria apenas para gerar um sofrimento desnecessário. Enquanto pudessem, a história seria a falta de tempo para ligar, apesar de seu íntimo ter um desejo de pedir que ela voltasse para vê-lo ou, com coragem, que ela ficasse.
     Enquanto os dias passavam, a única novidade era que Sara ganhava peso a olhos vistos. Apesar de nunca ter pesado mais do que sessenta quilos, a aparência era outra desde a morte de Elisabeth: mais saudável e que deixava o primo feliz para tolerar a monotonia. Além de ajudá-lo a ficar todos os outros dias em sua maca desconfortável, o novo fôlego de vida da mulher a ajudou a rever sua afirmação de que não voltaria a morar fora do Brasil: nada era de fato certo mas, como dizia Beatriz “só se vive uma vez, meu camba”. Sara sabia que ficar perto do primo a deixava feliz, mas não era ali que ela se sentia totalmente completa como imaginava. Sentia que uma vida sem arrependimento de coisas que queria fazer e não fez era pior do que uma vida de arrependimentos por escolhas ruins. Lázaro exigia da prima que ela desfrutasse de toda a liberdade de viver uma vida plena, ainda que ele não pensasse o mesmo para si. Adriano, assim como ele, tinha vida relativamente tranquila, e ambos estavam bem com isso. Enquanto Sara e Beatriz eram pessoas do mundo e deveriam se manter desta forma, apesar de isso lhe causar sofrimento.
     Durante o tempo em que ficou sozinho e mesmo durante suas divagações, Lázaro ouvia os médicos falarem sobre quais procedimentos poderiam ser usados, quais já haviam usado, mas ele se preocupava mesmo era com seus próprios pensamentos, como com sua análise diária do próprio braço: estava claro que a mancha crescia devagar e os próprios médicos não sabiam o que fazer. Ele, sem confessar a ninguém, pensou na luta e nos tentáculos de Luis. De alguma maneira, aquele poder de seu inimigo ainda o parasitava e possivelmente estava conseguindo consumir seu corpo aos poucos. Pensou se não se tornaria em pouco tempo um conjunto de partículas que sairiam em um enxame amorfo para se encontrarem com o seu senhor. Se a mancha crescia, significava que os poderes dele ainda existiam.
     Após muitas discussões entre o grupo de médicos que estudava o caso e via o problema aumentar sem uma solução, Lázaro disse a todos que queimassem o local. Nenhum médico aceitou a proposta e tentaram outra biopsia, mas sem resultados. Lázaro ouvia as negativas dos médicos como um sinal de que estava servindo como um experimento, uma cobaia. Após tantos dias esperando uma solução e sem poder ir embora, ele tentou uma abordagem mais invasiva.
     Havia semanas que Lázaro não fumava um único cigarro e sabia que fumantes são solidários uns com os outros. Ebenezer, o técnico em enfermagem da noite, sempre tinha um leve cheiro de tabaco e acabou sendo a melhor escolha para ele.
     – Olha o jantar, Laza.
     – Obrigado, Ebenezer... sabe... eu nem estou com fome. Sabe o que eu sinto mais falta desde que vim para cá? Um cigarro.
     – E você fuma?
     Ebenezer ficou surpreso com a informação. Ele colocou a bandeja do jantar de lado e ficou olhando para Lázaro, que continuou a falar.
     – Não muito, mas nunca fiquei tanto tempo sem um cigarro. Eu não dou nem um trago desde que pus os pés aqui no hospital e, você sabe, né? Dias atrás eu consegui um café e faltava o cigarro. Sabe, quando você acaba de tomar um cafezinho e...
     Ebenezer meneava com a cabeça, positivamente. Sabia bem o que era a experiência ritual do café e cigarro.
     – É isso. Nada. Nem um cigarro. E eu nem estou doente de verdade. Os médicos só me seguram aqui para ficar me estudando como a um rato no laboratório. – Lázaro fez uma pausa. – Ebenezer, você poderia me levar lá fora.
     Ebenezer ficou alguns segundos parado, pensando na proposta.
     – É... acho que sim. Vou pegar uma cadeira de rodas.
     Ebenezer deu uma piscadela e saiu do quarto, retornando com uma cadeira de rodas para levar Lázaro até o estacionamento. Era um local comum para fumantes e, como esperado, havia alguns, em pequenos grupos e espalhados para que uma conversa não atrapalhasse as dos demais. Vendo os dois chegarem, um médico chamado apenas de “Doutor Atrani” se aproximou.
     – Veio pegar um ar, Senhor Shlock?
     – Para quem não está doente, é o mínimo para manter a sanidade.
     Ebenezer acendeu o próprio cigarro e um para Lázaro, que agradeceu.
     – Já descobriram o que eu tenho, doutor?
     – Ainda não, mas achamos que pode ser algum tipo de fungo. – respondeu o médico.
     – Não é... vocês verão meu corpo ficar todo preto e nunca saberão. – Lázaro deu uma longa tragada e soltou devagar, enquanto falava. – Sabe, eu acho que ainda sou uma pessoa cética. Não aceito qualquer resposta, doutor. Se fosse algo que aparecesse na minha pele há, não sei, três meses, aceitaria de bom grado as suspeitas de vocês. Porém, hoje eu não posso falar isso. Vocês estão tateando o escuro procurando algo que não sabem.
     Lázaro deu uma segunda grande tragada.
     – Respeito sua opinião, Senhor Shlock, mas como bem sabemos, é Shlock, e não Sherlock – disse o médico, rindo sozinho. – Nós somos profissionais na área de saúde e, o senhor, não. E não quero ser chato mas, já estamos cansados de opinião de paciente.
     Lázaro riu, mas de maneira breve. Ele sabia que aquela noite seria interessante para os três ali parados.
     – Também respeito a opinião dos médicos, mas, infelizmente, as coisas estão ruins para vocês. Eu posso dizer isso pois sei o que é. Creio que a literatura médica não tenha outro caso, e nem teria como. Isso não é um ser vivo, ao menos, não creio que seja.
     – E o que é? – o médico começava a demonstrar curiosidade no discurso do paciente.
     Lázaro pegou o molho de chaves do médico e esfregou levemente sobre a mancha, mostrando que nada acontecia. A chave não ficava suja e a mancha não ficava marcada. Devolveu o molho de chaves para o médico.
     – É como se você passasse sobre um pedaço de vidro negro, liso, mas que não reflete luz. – comentou o plantonista. – E daí?
     – E daí que com uma coisa ele reage. Quer ver? – Lázaro perguntou, fomentando a curiosidade dos homens.
     Ebenezer e Atrani menearam a cabeça e disseram “sim”. No mesmo instante, Lázaro tragou mais uma vez, pegou o cigarro pelo filtro e pressionou a brasa ainda brilhante sobre a mancha. Mal tocara e a coisa preta estalou e soltou fagulhas, como as fagulhas incandescentes de uma fogueira, mas que sumiam centímetros acima do braço. Era possível ouvir um leve assovio também, como da madeira úmida secando ao fogo. Ele só tirou o cigarro do braço quando a mancha sumiu a ponto de expor o músculo e esse, em contato com a brasa, doeu intensamente. Os dois homens ficaram olhando para o braço onde, do furo feito no meio da mancha preta, era possível ver a musculatura avermelhada começando a brotar sangue. Contudo, mal começou a sangrar, o furo diminuiu e fechou-se por completo.
     – Cauterização, doutor. É a única solução para o meu braço. Depois, o enxerto.
     – Mas... o que...? – Doutor Atrani coçava a cabeça, confuso.
     – Então doutor, contente-se com a experiência e o tratamento; a explicação eu fico te devendo.
     Lázaro tinha a explicação, mas seria seu segredo. Aproveitou para contemplar o ambiente e pensar na sua vida e nos mistérios que eram aos poucos desvendados. Naquele momento, até mesmo a morte ganhara outros significados, deixando de lado o sentido sombrio que estava acostumado para parecer algo mais poderoso do que simplesmente uma marcação do fim de tudo. Ainda era um fim, mas não o fim definitivo. Adriano dissera em uma das visitas a ele no hospital que o som da palavra morte e do número quatro eram semelhantes em japonês. Em um raro momento de análise sombria, o amigo destacou a relação simbólica entre os quatro membros do grupo de Luis e o risco da morte que os dois primos passaram, bem como a morte dos outros dois membros da família: quatro e quatro, shi e morte. Lázaro não negava que havia algo de interessante ali, mas não parecia mais importante do que seu próprio ponto de vista.
     Nos períodos ociosos em sua cama de hospital, Lázaro se lembrou de outro significado para o quatro, que tinha um valor muito especial em hebraico, mais complexo e cheio de mistérios, bem como seu próprio nome que, nas religiões cristãs, era o nome de alguém que morreu e foi ressuscitado. Talvez, sua mãe previra esses eventos ainda quando ele era bebê e escolheu aquele nome, prevendo a longa cadeia de eventos improváveis que o levaram da “morte” para a “vida”, ou talvez fosse coincidência.
     Refletindo sobre a letra hebraica dalet, que também representa o número quatro, fez com que ela reverberasse na sua mente com todo seu poder e simbolismo. Lázaro podia vê-la em sua frente, convertendo-se de um pictograma para uma bela e iluminada entrada de uma convidativa tenda, de onde se ouvia uma voz agradável que dizia “eu sou a porta”. O homem acamado guardou bem aquela imagem em sua memória, resgatando-a vez ou outra para reexaminá-la e tentar descobrir se havia algo além do seu próprio significado. Pensou que poderia ter algo a ver com Jesus, que dissera aos seus seguidores que ele era a porta, mas todos que conheciam sua história sabia que ele fora muito mais do que isso e morreu e ressuscitou por sua missão na Terra. Lázaro pensou se não teria corrido o mesmo risco de morrer se tivesse aceitado ser guardião, um destino não previsto pela mãe. Contudo, também imaginou que poderia ter sido o melhor na função em séculos se usasse os poderes que descobriu possuir e, por essa possibilidade, sentiu que não ter se tornado guardião poderia ser também o seu maior erro até aquele momento. Fazendo um retrospecto de sua vida tediosa, sentia que havia uma contradição, pois o erro comum para muitas pessoas era optar por caminhos bem conhecidos e demarcados no chão por seus pais, o tão conhecido “caminho das pedras” que sempre levam aos mesmos lugares conhecidos. Enquanto isso, Alexandre desbravava o mundo no lugar de Lázaro, com incertezas diárias e um propósito que o faria seguir adiante, em uma função que Lázaro não poderia mais ocupar e nunca saberia se era o caminho certo a seguir.
     Lázaro ponderou que todos estavam livres para poder trilhar o seu próprio caminho, começando apenas por um único passo. Ele sabia que tinha uma vantagem se quisesse recomeçar e que o atual guardião não possuía: tinha um poder e um conhecimento real sobre o mundo e o além-mundo, algo que excedia em muito tudo que aprendera na universidade e, como soubera por Alexandre, excedia até mesmo o conhecimento de um guardião. Sabia que não era uma regra geral ter algo extraordinário como ele tinha para fazer mudanças radicais na própria vida; Adriano, mesmo sendo sempre avesso a grandes mudanças, havia saído de um ótimo emprego para assumir a responsabilidade de um antiquário sem ter conhecimento na área. Ficava claro que o mais importante era ter coragem de ser senhor ou guardião de seu próprio destino.
     Enquanto Ebenezer e o doutor Atrani fumavam seus cigarros, Lázaro voltou seus olhos para o estacionamento quase vazio. Terminou de fumar o seu cigarro pensando que, mesmo com a prisão de Luis, nada seria mais como era antes da morte de Isaac. Ele sabia coisas que não conseguia explicar e percebia as mudanças em sua percepção do mundo – as cores das luzes dos postes de vapor de sódio amareladas, dos faróis dos carros, o cheiro do ar. Seu corpo estava diferente e doía, resultado de dias e dias deitado sobre uma cama que nem era a sua, comendo algo que ele não preparou. Estava fora de seu mundo habitual, local onde todas as coisas estavam sob seu controle, mas eram inegavelmente enfadonhas e vazias. Estava em paz, com incertezas sobre a vida que nunca tivera, porém, certo de que deveria mudar sua realidade. Dali em diante, tinha dúvidas, mas não se sentia mais vazio. Sentia-se em paz e vivo, finalmente vivo. 

Fim.


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