quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 41


40 
     Na manhã seguinte, às seis horas, a casa de Adriano acordou. A família deixou Sara tomar banho primeiro, mas ela achou melhor fazer isso em casa, quando reencontrasse Lázaro, possibilitando que eles saíssem mais cedo. Adriano tomou banho, se arrumou para trabalhar e ambos se despediram de Edna e Aline antes de partirem para Campinas. 
     A viagem foi silenciosa e rápida. Sara mordia as pontas dos dedos, mas tentava evitar roer as unhas. Adriano, mais tranquilo, murmurava a canção que tocava no rádio do carro e, trinta minutos depois, estacionou em frente à casa. Quando Sara se aproximou do portão, percebeu que este estava destrancado.
     – Olha, Adriano. – Sara empurrou o portão. – Já estava assim.
     Adriano foi até o carro e pegou o tubo de papelão que continha a borduna e entregou para Sara.
     – Vamos entrar. Com cuidado. – disse ele.
     Os dois entraram tentando fazer pouco barulho, e perceberam que, ao contrário do portão, a porta estava trancada. Sara voltou até a janela e tentou olhar por ela. Tudo estava calmo e as chaves de Lázaro estavam sobre o sofá. Ela voltou e destrancou a porta, beijou a mezuzá e entrou. Bem devagar, Adriano examinou a sala e não encontrou nada de estranho, exceto o telefone, que estava mudo. Ambos puderam ver com mais atenção que o corredor tinha fuligem que ia até o teto. Sara, que não tinha visto ainda o que tinha acontecido, ficou paralisada na entrada do corredor por alguns instantes. Boquiaberta, olhou atentamente a tudo, do chão ao teto.
     – O Lázaro disse que ela queimou como pólvora. – Adriano cochichou para Sara.
     Sara cobriu a boca aberta de terror e uma lágrima escorreu de seus olhos.
     – O que ela era?
     – Quem sabe... não pense nela. Pense em você e no seu primo.
     Adriano seguiu pelo corredor e, antes de olhar o quarto de Lázaro, se deparou com uma cena de luta na cozinha. A cristaleira tinha um vidro quebrado e a mesa estava fora de lugar. No chão estava espalhado o vidro quebrado da cristaleira e de uma garrafa de cerveja. Parte do líquido tinha se espalhado e estava seco, deixando o chão grudento. Além dos objetos caídos ou quebrados, havia uma quantidade considerável de sangue no chão. Do local onde havia a poça, um rastro seguia para o antigo quarto de Sara, enquanto seguiam para lá, Adriano aproveitou para verificar se a porta dos fundos da casa estava aberta, mas ela também estava trancada. Continuando a seguir o sangue, ambos viram que este cessava exatamente em um grande espelho que estava ao lado da penteadeira. Enquanto Adriano se agachou para examinar, Sara correu nos outros cômodos gritando por Lázaro: não havia sinal dele no próprio quarto, na suíte ou nos banheiros. Desesperada, ela voltou ao antigo quarto.
     – Tem sangue na moldura, mas não tem sangue no vidro do espelho. – Adriano ainda estava agachado, olhando para seu próprio reflexo no espelho.
     – Tá, mas cadê o meu primo? – O tom de voz de Sara estava mais alto.
     Adriano não soube responder e sentiu sua consciência ficar pesada. Pensou que Sara poderia ter algum poder como o primo e sentiu que havia algo de errado. Então, começou a falar.
     – Só pode ser coisa do Luis. O Lázaro me chamou quando invadiram a casa e foi do mesmo jeito: alguém entrou com as portas trancadas. Ele tinha certeza de que era coisa desse senhor, aliás, tudo que tem ocorrido é coisa do Luis.
     – E quem é esse Luis? Onde ele mora?
     Era possível ver nos olhos de Sara seu desejo de agir misturado ao seu medo e vontade de chorar.
     – Não sei. Ele disse que era cliente do seu tio, mas não encontrei nada nos registros. Ele veio atrás apenas da esfera dourada.
     – Mas que esfera dourada? – Sara subiu mais o tom de voz.
     Adriano acreditava que não era mais possível esconder os segredos das últimas semanas que Lázaro e ele confidenciavam. Ele contou tudo, esperando que Sara assimilasse tudo rapidamente, porém, para cada nova informação, ela movia a cabeça em sinal de negação.
     – Não consigo acreditar nessa história. Não porque eu estou sendo cética, mas porque essa história é sem pé e nem cabeça. Parece coisa de livro.
     – A intenção era que não contássemos para você, mas olha o corredor. – Adriano apontou para as marcas de queimado – Elisabeth queimou até o último fio de cabelo e agora seu primo sumiu em uma casa trancada. Entenda que é isso, soando absurdo ou não.
     Sara se sentou na cama, fechou os olhos e inspirou profundamente. Sentia que precisava se acalmar para poder pensar melhor. Conseguiu, após alguns minutos, e voltou a falar.
     – Só vocês dois sabem disso tudo?
     – Tudo, tudo, acho que sim. Algumas outras descobrimos aos poucos e outras coisas seu tio deixou anotado para o Lázaro.
     – Por que meu tio era um guardião de uma bola de ouro?
     – Chama Bússola de Acre.
     – Adriano..., – Sara ficou em silêncio enquanto meneava a cabeça, negativamente – não consigo. Não faz sentido.
     – Vamos fazer o que precisamos fazer. Quem sabe o tempo te ajuda a assimilar essas informações.
     Adriano ligou com o seu celular para a polícia e afirmou que a casa havia sido invadida. A viatura demorou trinta minutos para chegar e, enquanto esperava, Adriano constatou que o fio da linha telefônica estava cortado, explicando por que Lázaro ficou incomunicável. Quando viram as luzes do carro, Sara falou:
     – Pode ir que eu fico aqui com eles. Eu sou moradora e parente e acho que é o melhor a fazer ao invés de segurar nós dois aqui.
     – Mas... okay. – Adriano não insistiu após ver o olhar de Sara o obrigado a partir. – Bem, vocês estão sem telefone aqui. Tome o celular. Vou tentar consegui outro fio e depois eu trago.
     Adriano abraçou Sara, abriu o portão para os policiais e foi embora. Sara os recebeu e começou a explicar a partir dos eventos da noite anterior, quando ela tentou ligar para o primo e não conseguiu. Depois, a ligação para Emílio, a chegada na casa com o portão aberto e as portas trancadas, a cena de luta na cozinha e o rastro de sangue que ia para lugar nenhum.
     – O sangue acaba aqui, senhora? Como se a pessoa arrastada tivesse sido levada para dentro do espelho?
     – É, como se fosse isso.
     Os policiais recolheram o depoimento de Sara, de Emílio e foram embora. Alegaram que uma cena de crime com sangue, mas sem outras evidências ou um corpo não seria suficiente para a perícia. Estava claro que houve uma luta corporal entre Lázaro e uma pessoa de pés pequenos que deixou uma pegada no chão da cozinha. Antes de irem embora, prometeram que seu primo seria procurado em hospitais, postos de saúde e qualquer outro lugar que pudesse estar. Ela acompanhou os homens até o portão, o trancou e voltou para dentro da casa para limpar a sujeira que estava na cozinha – “dane-se a perícia”, pensou. No tanque de lavar roupas que ficava no fundo da casa, pegou um balde e encheu de água. Quando colocou a mão sobre a torneira, parou por um instante e contemplou a mão com o anel de Lázaro. Naquele momento, ela entendeu que Lázaro poderia até estar morto e, então, ela sentiu-se fraca e se ajoelhou, chorando.

***

     Lázaro acordou assustado e sentiu seus braços e pernas doloridos devido a desconfortável posição que se encontrava. Estava apoiado sobre a barriga e não conseguia respirar com facilidade. Parecia que era dia, mas a luz era estranha, como se fosse um branco artificial, e um som baixo e contínuo incomodava seus ouvidos. Ao tentar olhar o seu entorno, não era possível ver muita coisa mais alta que um metro. Percebeu que aquela era a casa de seu pai, mas tinha algo de diferente, como se seus olhos enxergassem por meio de lentes sujas. Tentou se mexer e não conseguiu: quando mexia as pernas, sentia os braços serem puxados. Percebeu que estava amarrado com os braços para trás e estes presos às pernas e que não era possível se soltar ou fazer muitos movimentos. Sua situação era tão dolorosa que não ouviu o som do que acontecia à sua volta. 
     – E não é que deu tempo, Anahí. Nosso leitão está acordado. – Luis falava em tom de sarcasmo.
     – Luis. – Lázaro tentava falar, mas com dificuldade. – Você ficou louco?
     – Não entendi. – Luis se aproximou e agachou perto de Lázaro. – Você perguntou se estou louco?
     – Claro.
     – Não estou. Claro que não. Estou apenas liberando minha raiva de forma produtiva. Produtiva para mim, claro. – Luis riu rapidamente, voltando a um tom sério. – Eu cansei dessa brincadeira toda. Seu pai foi um estorvo na minha vida, você foi um estorvo na minha vida e, para quê...? Para serem heróis? É isso? Ah, só pode ser. Todo esse senso de “bem maior” ... “Ai, a Bússola de Acre não pode cair em mãos erradas!” Que idiotice. Foi tão idiota essa postura de vocês que seus pais morreram por nada e sua prima quase morreu por nada também.
     – Mas você não ganhou. – Lázaro sentia muita dor ao tentar falar.
     – Quem falou em ganhar aqui? Não fui eu. Além disso, eu já ganhei. Ganhei faz anos, quando Lucio me salvou da minha vidinha besta de homem de família, pai honrado e temente à deus. Agora, eu sou meu deus
     – A Bússola não é sua... – Lázaro inspirou com dor – Era isso que você queria e não conseguiu.
     – Ah, isso é verdade. Lucio disse que se a Bússola era minha meta, eu fui idiota por não fazer tudo rapidamente. Aí seu pai descobriu quem eu era e bloqueou o meu acesso à sua casa. Depois, foram anos e anos tentando encontrar uma forma de entrar aqui de novo. Ainda bem que eu achei. – Luis esticou a mão com um anel e mostrou para Lázaro. – Eu chamo esse anel de chave dos espelhos. Foi um pouco difícil aprender a usá-lo, mas eu consegui. E quando eu vi seu pai recebendo o espelho enviado por mim em nome de Antônio, que dia lindo foi aquele. Naquela noite mesmo eu tirei seu pai do caminho. Resolvido isso, eu achei que só precisava conversar com você e o dinheiro compraria tudo. Que engano... fique quieto. – Luis chutou de leve a boca de Lázaro, que tentava falar. – Não interrompa os mais velhos. Quando tudo parecia finalmente se encaminhar para meu triunfo, seu pai conseguiu esconder aquela porcaria dourada não se sabe onde. O pior é que tentei comprar e não consegui... vocês são judeus e não gostam de dinheiro, que piada... eu queria saber por que a família Shlock tem esse péssimo hábito de querer salvar o dia se não consegue salvar a própria vida. 
     – Seu lixo...
     – Quieto. Se não ficar quieto, eu chuto sua boca com força... bem, aqui estamos nós, sem a esfera, mas com alguma diversão. Eu vou poder ver o último Shlock definhar até a morte. Ou melhor, enquanto definha, será parasitado por aqueles meninos de sombras, e como eles fazem um bom trabalho. A agonia da pessoa é muito maior quando eles estão sugando. Aliás...
     Luis pegou em um dos braços de Lázaro e Anahí pegou o outro e o arrastaram até um local que se parecia muito com o banheiro do corredor da casa de Isaac. Enquanto era arrastado, ele sofria com a dor intensa.
     – Aqui é um bom lugar para você ficar. Sua prima vai voltar para cá e vai viver a vidinha medíocre dela. Em algum momento, ela vai tomar banho ou escovar os dentes. Você vai ficar dois dias ouvindo o som da pia e do chuveiro sem poder beber água e, quando eu voltar, vai ser divertido ver você gritando de dor e sede. Eu sei que agora você está ouvindo um barulhinho contínuo nos ouvidos, mas o som da água caindo é inconfundível. Vamos, Anahí.
     Luis e Anahí saíram andando pela casa até o som dos passos dele serem abafados pelo barulho contínuo. Lázaro ficou sozinho. Aos poucos, o cansaço o dominou e ele adormeceu novamente. 
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