quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 40


39 
     Adriano esperou por duas horas antes de ligar para Lázaro, que era o tempo de viagem estimado pelo amigo entre as duas casas. O telefone tocou uma, duas, dez vezes e Lázaro não atendeu.
     – Deve estar no banho. – disse Adriano para as três mulheres.
     Adriano sempre tentava buscar um lado bom para as coisas, ou pensava em coisas positivas. Todos na casa aguardaram mais trinta minutos e Adriano ligou novamente, mas Lázaro não atendeu.
     – Sara, você não tem o número de telefone de algum vizinho?
     Sara mexeu na bolsa, procurando qualquer informação, mas não tinha. Após anos fora do Brasil, ela descartou quase todos os números de telefone que possuía, mantendo somente o do tio e da loja. Nem mesmo o telefone de Adélia, sua mãe, ela possuía.
     – Você tem uma lista telefônica? – perguntou Sara.
     Aline foi até a estante e pegou um grande livro e entregou para Sara. Sara, preocupada, esfregou as mãos no rosto. Não lembrava o nome completo do vizinho. Por tentativa e erro, testaram sobrenomes comuns que poderiam ser de Emílio. O processo demorou mais quase trinta minutos. Já passava das vinte horas quando Sara encontrou Emílio na lista: Emílio dos Santos Rocha. Ligaram, apreensivos.
     – Boa noite, quem fala?
     – Boa noite, aqui é a Sara Bayit. É o seu Emílio?
     – Olá, Sara. Sou eu. Aconteceu alguma coisa?
     – Eu liguei agora para o meu primo e ele não atendeu. O senhor sabe se ele está em casa?
     – Ah, está sim. Ele pediu há uma hora, mais ou menos, para eu deixar a casa destrancada. Aí, uns minutos depois, eu ouvi um carro cantando pneu aqui na frente. Fui ver o que era e eu vi seu primo apagando a luz de casa.
     – Ah, então ele está em casa. – Sara repetiu a informação em voz alta para todos da casa de Adriano ouvirem e ficarem tranquilos. – Obrigada pela informação.
     – De nada. Quer que eu vá lá falar com ele?
     Sara pôs a mão sobre o microfone do aparelho e olhou para Adriano.
     – O vizinho perguntou se eu quero que ele vá lá?
     Adriano acenou negativamente com a cabeça.
     – Não precisa, seu Emílio. Ele deve ter ido dormir. Obrigada e boa noite para o senhor.
     – Disponha. Boa noite.
     Sara desligou o telefone e ficou em silêncio por alguns segundos, mas não conseguiu esconder seu medo.
     – E agora, Adriano? Vamos lá?
     – Se ele viu seu primo, é um bom sinal. Eu creio que ele está bem e, se você for, ele vai ficar com raiva. A ideia é você ficar aqui, bem protegida.
     – Eu sei, mas isso soa como se eu fosse indefesa.
     – Sabemos que você não é. Amanhã, antes de ir para a loja, eu passo lá para conversar com ele.
     – Amanhã, antes de irmos para a loja, passamos lá. Eu não estou convalescendo. Já estou ótima e amanhã estarei melhor ainda.
     Adriano concordou. Não era possível tratar Sara como uma peça de cristal. Apesar dela ainda não ter força para correr e pular, ela mostrava uma capacidade incomum de resiliência. Era evidente que ela estava com medo pela incerteza de que tudo estivesse bem, mas também demonstrava grande coragem. Assim, não havia o que discutir e todos foram dormir mais cedo aquela noite, ou ao menos tentaram. Com a luz fraca que vinha da rua, Aline viu que Sara estava com os olhos abertos, olhando para o teto.
     – Está pensando no seu primo?
     – Também. Mas estava pensando nos meus pais.
     – Onde eles estão?
     – Por aí, no mundo. Cada um deles quis viver a sua vida e me deixaram com os meus tios.
     Aline fez uma pausa e pensou no próprio pai, mas continuou a falar.
     – Você sente falta deles?
     – Só sinto dos meus tios. Quando falam sobre família, é deles que eu lembro. A família do Lázaro foi a minha família... – Sara suspirou, entristecida. – Eu nem lembro dos meus pais.
     – Meu pai também. Quando ele foi embora, eu era pequena. Minha mãe disse que eu perguntava muito dele, mas fui deixando para lá, esquecendo...
     – Com os meus pais foi tipo isso. A minha mãe é irmã da mãe do Lázaro, mas eu lembro mais da minha tia do que da minha mãe. Ela se casou de novo e sumiu. Meu pai foi embora antes dela, e a única coisa que eu vi dele foi a pensão.
     – Sumiram sem falar nada?
     – Quase isso. Até onde sei, meu pai sumiu. A minha mãe, não, mas nós perdemos qualquer vínculo. O problema era quando ela ligava. Eu até me sentia mal de tão estranho que era.
     – Meu pai também ligava. Ele falava como se fôssemos muito íntimos, mas não éramos. Eu atendi umas duas vezes e, depois, não atendi mais. Mandava minha mãe falar que eu não estava. Foi passando o tempo e ele parou. Não liga nem para o Adriano, e olha que o Adriano trata todo mundo bem, inclusive ele.
     – Vai ver ele sentia que tinha dívida com você e não com o Adriano.
     – Eu sou a última pessoa que ele deve alguma coisa. O Adriano e minha mãe comeram o pão que o diabo amassou por anos. As coisas melhoraram quando o Adriano conseguiu o último emprego antes do antiquário. 
     – E o que o Adriano fala sobre isso?
     – Nada. Ele não reclama, não fala absolutamente nada. E se minha mãe começa a reclamar, ele a censura.
     – Ele teria sido um bom conselheiro para o Lázaro quinze anos atrás. Teria colocado juízo na cabeça dele.
     – O Lázaro não é ajuizado?
     – Acho que pode ter melhorado, mas não era, não. Ele tem muitas qualidades: é inteligente, esforçado, solidário... não sei. E ele era bem impaciente também, virava o bicho quando estava irritado. Exceto comigo, comigo ele sempre é um amorzinho. Eu chamo ele de ursão, mas comigo é um cachorrinho.
     Aline riu. No mesmo instante, ambas ouviram passos no corredor. Edna bateu na porta, mandou as duas dormirem e voltou para o próprio quarto. As mulheres abafaram os risos. Apesar de ambas serem adultas, se sentiram, por alguns instantes, adolescentes em uma noite só de garotas. Por alguns instantes, os problemas da vida pareciam menores, suprimidos pelo riso espontâneo e pela sensação de que tudo daria certo. Isso era uma qualidade da casa de Adriano: um lugar onde as pessoas se sentiam bem, um ótimo lugar para pessoas como Sara se refugiarem antes de encararem novamente seus problemas. 
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