quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 39


38 
     Lázaro cumprimentou Salatiel, tirou o cinto de segurança e se posicionou para um salto no meio da rua. O carro foi em velocidade baixa, com os faróis altos ligados. Quando o padre começou a reduzir mais a velocidade e a virar para entrar na rua à esquerda, o passageiro abriu a porta e se jogou para cair rolando sobre o asfalto. O chão estava cheio de pequenas britas e era irregular, causando uma queda dolorosa, mas ele conseguiu se levantar após rolar sobre o próprio corpo uma vez. Antes de se levantar, ainda ouviu a batida da porta da Belina e o som de pneus derrapando com a aceleração. A última coisa a fazer era correr para casa.
     Sem olhar para os lados e verificar se era esperado ou era vigiado, ele direcionou suas forças para correr o mais rápido que pudesse. Por sorte, Emílio deixara o portão destrancado, possibilitando que Lázaro passasse sem ao menos encostá-lo. Correu pelo pequeno passeio antes de chegar à soleira da porta, tocar a mezuzá, beijar a mão e entrar. Após trancar a porta, ele olhou pela janela e viu o portão aberto.
     – Que burrice! Preciso ir fechar o portão.
     No mesmo instante que fez a afirmação em voz alta, o portão começou a se fechar devagar, batendo levemente. Ele pensou que o objeto estava ouvindo suas ordens.
     – Eu só quero que Sara e Adriano consigam entrar nesta casa. Esta é a lei até segunda ordem.
     Não houve nenhuma resposta. Provavelmente não aconteceria nada perceptível. Como ainda estava com uma sensação de perigo pelo medo que passara, Lázaro voltou a abrir a porta e olhar a mezuzá. Tanto a relíquia quanto todo o chão do quintal possuía uma luminescência. Olhando naquele instante com mais atenção, percebeu que não era a luz do poste da rua, então, supôs que a luz pulsante no chão deveria ser o que protegeria a casa. Ao olhar a soleira, viu que a luminescência ia apenas até o batente, como um cão treinado que não entrava em casa. Mais tranquilo, trancou novamente a porta e jogou o molho de chaves sobre o sofá.
     A casa cheirava a fumaça e apenas a luz da sala estava acesa, a qual ele apagou e ficou no escuro. Examinou a rua pela janela e não encontrou nada que fosse estranho. Pensou que ou seus inimigos estavam se escondendo bem ou sua chegada cinematográfica foi uma ação inútil. Após vários minutos olhando para todos os lados, Lázaro começou a se sentir estúpido. Seu ombro doía e suas costas ardiam com a pressão que fizera sobre as britas. No banheiro, acendeu a lâmpada para tentar olhar no espelho se estava ferido e, sem a camisa, viu o baixo relevo produzido por algumas pedras, além de dois pontos vermelhos onde a pele se rompeu e sangrou. Enquanto examinava melhor, Lázaro teve aquela sensação de que era vigiado – desde a noite anterior, não se lembrava de ter sentido. Havia alguma coisa dentro da casa causando aquela sensação, mas ele não sabia o que era.
     Ele voltou à sala e pegou o telefone para avisar Adriano e Sara que chegara bem, mas o aparelho estava mudo. Com o fone do aparelho pressionado entre a orelha e o ombro, Lázaro mexeu nos fios, bateu no botão do gancho e nada. O silêncio era absoluto. Parou um instante para pensar e se lembrou que na noite anterior o telefone funcionou, pois foi assim que ele ligou para a emergência. Apenas da situação ser desagradável, ele se sentia protegido, e sabia que Sara ainda poderia ligar para Emílio. Preferiu ignorar o problema do telefone e ir tomar banho.
     Enquanto tomava banho no escuro, Lázaro conseguia sentir o cheiro da fumaça misturado ao cheiro do sabonete. Começou a pensar sobre o cheiro que, afinal, não era apenas um cheiro. Ele entendia que estava inspirando pequenas doses daquela fumaça oriunda do corpo queimado de Elisabeth e teve nojo de sua conclusão, mas não tinha o que fazer a respeito.
     O cadáver de Elisabeth estava em todas as partes, impregnando os móveis, as roupas e até mesmo ele. Para algumas tribos, comer a carne ou até mesmo as cinzas era sinal de respeito ao morto, mantendo seu espírito com a tribo. Pensando daquela forma, Elisabeth, como fumaça, teria sido incorporada ao corpo dele, mesmo que em pequenos fragmentos. Porém, ela não era amiga dele, ao contrário, Lázaro conseguia nutrir muito ódio em relação à mulher, mesmo que até um dia antes, acreditasse não ter motivo para tal. Em sinal de repulsa à mulher, ele inalou um pouco de água em cada narina e aspirou com toda força que pode. Queria sentir que tinha o mínimo possível da presença física da mulher que quase levou a morte sua última parente viva, ao menos, a última que Lázaro tinha alguma preocupação e afeição.
     Ainda no escuro, Lázaro se enxugou e caminhou nu até o quarto e vestiu-se usando apenas a pequena luz do abajur, optando por uma calça jeans e camiseta escura, como se esperasse ser acordado no meio da noite e tivesse que estar preparando para sair rápido. Por fim, deitou-se, concentrando-se em Luis.
     Rapidamente, ele percebeu que estava do outro lado da rua e havia em todos os lugares uma claridade incomum. Não era a luz dos postes e nem a luz do Sol. A luz parecia estar ali, sem uma fonte específica. Ao seu lado, estava Luis, de pé. Sua aparência estava um pouco diferente de quando Lázaro o tocou pela última vez, dias antes. Possuía um pequeno enxame de pontos pretos que pareciam se desprender de seu corpo vez ou outra, mas também tinha uma aparência borrada, como se uma película levemente fosca encobrisse seus olhos apenas no contorno do corpo do homem à sua frente. Antes que pudesse evitar, ele disse “Mah’daham”. Luis voltou seus olhos parcialmente encobertos de preto e disse algo ininteligível, como se falasse por detrás de um vidro grosso.
     Quando Lázaro se afastou do homem, este começou a caminhar em direção a casa de Isaac. Em passos apressados, o homem cruzou a rua e caminhou em direção ao portão. Lázaro ficou feliz e pensou que o homem não poderia entrar enquanto a mezuzá protegesse a casa, porém, Luis facilmente no espaço do quintal. Aquela situação desesperou Lázaro no mesmo instante e o fez acordar. De pé, ele olhou pela janela e tudo parecia normal. O chão ainda brilhava e pulsava levemente. O susto o deixara um pouco atordoado, mas ele tinha certeza que em breve estaria bem de novo. Foi até a cozinha, abriu uma garrafa de cerveja e sentou-se, tomou um gole e disse para si mesmo: 
     – Foi um sonho. Eu não durmo há mais de um dia.
     Lázaro sabia que a bebida não o revigoraria, mas poderia ajudá-lo a ter um sono tranquilo e sem sonhos estranhos, se aproveitando da falta de hábito em ingerir álcool para relaxá-lo rapidamente. Após o segundo copo, Lázaro começava a perceber claramente a luminescência que vinha do quintal. A luz fraca entrava pela janela da cozinha e ele resolveu apreciar aquela visão. Com as mãos apoiadas na pia, era possível ver a luz pulsante e bonita que dava a sensação de que o chão do quintal era vivo. Outro efeito sentido foi que o álcool o deixou mais lento física e mentalmente, o que o prejudicou em ouvir os passos leves que se aproximaram da cozinha. Uma perturbação nas luzes do quintal aumentou seu senso de perigo, mas em vão. Uma pessoa leve e baixa pulou em suas costas e, no escuro, encobriu a sua boca com um pano de cheiro adocicado. A última ação de Lázaro foi tentar tirar seu inimigo de suas costas, puxando-o por cima dos ombros e, depois, batendo-o contra os móveis, mas sem sucesso. As luzes do quintal perderam gradativamente sua intensidade até a escuridão completa. 
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