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No domingo de manhã, Lázaro acordou às seis. Fez café e tomou banho enquanto tentava entender o sonho daquela noite, vívido como o da madrugada anterior. No segundo sonho, Lázaro estendia a mão, como se cumprimentasse alguém, enquanto uma voz dizia “não confie em serpentes”. Lázaro olhou para o lado para ver quem dizia, mas não havia ninguém. Ao voltar os olhos para frente, onde também não havia nada em um primeiro momento, havia uma serpente preta que tentou morder a sua mão antes dele desviar do bote. A cobra rearmou o bote e, da sua boca semiaberta, saiu uma fumaça vermelha e densa que seguiu na direção dele. Com o susto, Lázaro acordou. A voz era semelhante à de seu pai, mas parecia vir do nada.
Após o banho, Lázaro vestiu-se com um simples jeans e camiseta, mas as melhores peças que tinha. O dia não estava frio, mas optou em usar um blazer preto, uma peça que ele quase nunca usava, mas que ajudaria a passar um pouco de seriedade. Procurou no guarda roupa dois antigos solidéus – um para ele e um para Adriano. Achou melhor usá-los porque, mesmo não tendo mais o hábito, demonstrava algum respeito. Após encontrar três enfiados no fundo de uma gaveta, pegou o mais escuro para si, pois ficaria discreto sobre seus cabelos pretos.
Antes das sete horas, Lázaro estava esperando Adriano na calçada em frente ao prédio. Quando chegou, recebeu do amigo um solidéu para usar durante o enterro e ambos seguiram em uma viagem em quase total silêncio. Lázaro pensava ainda em tudo, tentando encontrar motivos para ficar com raiva do pai e sentir menos a sua morte, mas a certeza que o levou a sair de casa aos dezoito anos não existia mais: a culpa do pai na morte da mãe. “Se os médicos não conseguiram salvá-la, o que meu pai poderia fazer?” Para seguir em frente, deveria aceitar que suas atitudes de adolescente foram imbecis, mas a omissão que se seguiu até aquele momento foi pior – um adulto não tem o mesmo direito de errar, principalmente um adulto consciente.
Ao chegar ao local do enterro, estava tudo preparado. O rabino fez a leitura da Torá e o grupo cantou canções em hebraico. Enquanto isso, Lázaro cochichava ao pé do ouvido de Adriano.
– Meu pai dizia que não deveríamos lamentar pelos mortos. Acho que o que ele tinha era um grande respeito pela morte.
Lázaro olhava para o caixão simples e fechado, feito de pinho, onde estava o corpo de seu pai. Seria enterrado como viveu: de forma modesta.
– Você concordava com ele? – perguntou Adriano.
– Não sei. Só sei que morte é uma porcaria. Eu só enterrei duas pessoas e as duas eram meus pais. Eu nunca fui em outro enterro e, se pudesse, não iria em mais nenhum. Prefiro morrer antes que tenha que enterrar mais alguém e ter que passar por essa sensação de novo.
Após o sepultamento, Lázaro, o filho unigênito de Isaac, tomou a pá em suas mãos e colocou a primeira terra no caixão. Depois, teve a camisa rasgada por Abner em sinal de sofrimento pela morte. Outros seis amigos de Isaac também fizeram a mesma coisa, entre eles Abner, pois não havia mais nenhum parente presente. Ao final do sepultamento, todos lavaram as mãos antes de partirem como parte do ritual e em sinal de que não tinham participação na morte.
Antes de chegarem ao carro, Adriano e Lázaro foram abordados por um homem branco com semblante agradável, com cerca de quarenta anos.
– Olá, rapazes.
– Olá. – responderam, em uníssono.
– Você é o Lázaro? – Perguntou o homem, estendendo a mão.
– Sou eu. E você é...? – disse Lázaro, apertando a mão do homem, enquanto segurava o solidéu na outra.
– Meu nome é Luis. Eu era um cliente do seu pai. Meus pêsames.
– Obrigado.
– Você estava no enterro? – perguntou Adriano.
– Não… – disse Luis, demonstrando decepção. – Acabei de chegar. Como você está, Lázaro?
– Sei lá... bem, eu acho. – respondeu Lázaro dando de ombros.
– Espero que sim. Eu sei como é, perdi meu pai também.
– Meus pêsames. – respondeu Lázaro, fingindo compaixão ao desconhecido.
– Mas faz algum tempo já. A vida se encarregou de me fazer aceitar. Eu sei que esse não é o melhor momento, mas queria saber quando eu posso conversar com você sobre a reabertura do antiquário do seu pai.
– O antiquário? – Lázaro estava aturdido. – Olha, eu não sei. Não tenho interesse em reabri-lo.
– Que triste. – Luis continuou com seu ar de decepcionado. – As pessoas gostam muito de lá. Para mim, é uma viagem para um tempo muito bom.
Adriano interveio.
– Vamos fazer assim, senhor Luis. Vamos analisar a saúde da loja e verificar se é viável reabri-la. Após fazermos isso, nós avisaremos.
– Ah, claro. Ótimo! Aguardo ansiosamente.
Luis sorriu, deixou um cartão de visitas com Adriano, cumprimentou os dois amigos e foi embora.
– Não sabia que a loja do seu pai era tão boa assim a ponto de atrair clientes para o enterro. – Afirmou Adriano.
– Havia clientes no enterro por que eram amigos do meu pai desde que eu me conheço por gente, tanto que alguns formaram o Chevra Kadisha, mas esse cara...
– Achou estranho?
– Só não é mais estranho do que você prometer reabrir a loja do meu pai. – disse Lázaro, sarcástico.
– Se a loja é boa, por que não? – Adriano ponderou, sorrindo.
– Não sei se é boa ou não. Não trabalho lá há anos e não tenho interesse em voltar.
Naquela mesma tarde, Adriano reapareceu no apartamento de Lázaro com o recado de que Sara estaria em Campinas em um mês, no máximo. Não queria mais ficar na Inglaterra longe do primo, o que restou de sua família. Lázaro sentiu ali um pouco de conforto em um momento de desgraça e que a vida poderia começar a voltar ao seu rumo.
No domingo de manhã, Lázaro acordou às seis. Fez café e tomou banho enquanto tentava entender o sonho daquela noite, vívido como o da madrugada anterior. No segundo sonho, Lázaro estendia a mão, como se cumprimentasse alguém, enquanto uma voz dizia “não confie em serpentes”. Lázaro olhou para o lado para ver quem dizia, mas não havia ninguém. Ao voltar os olhos para frente, onde também não havia nada em um primeiro momento, havia uma serpente preta que tentou morder a sua mão antes dele desviar do bote. A cobra rearmou o bote e, da sua boca semiaberta, saiu uma fumaça vermelha e densa que seguiu na direção dele. Com o susto, Lázaro acordou. A voz era semelhante à de seu pai, mas parecia vir do nada.
Após o banho, Lázaro vestiu-se com um simples jeans e camiseta, mas as melhores peças que tinha. O dia não estava frio, mas optou em usar um blazer preto, uma peça que ele quase nunca usava, mas que ajudaria a passar um pouco de seriedade. Procurou no guarda roupa dois antigos solidéus – um para ele e um para Adriano. Achou melhor usá-los porque, mesmo não tendo mais o hábito, demonstrava algum respeito. Após encontrar três enfiados no fundo de uma gaveta, pegou o mais escuro para si, pois ficaria discreto sobre seus cabelos pretos.
Antes das sete horas, Lázaro estava esperando Adriano na calçada em frente ao prédio. Quando chegou, recebeu do amigo um solidéu para usar durante o enterro e ambos seguiram em uma viagem em quase total silêncio. Lázaro pensava ainda em tudo, tentando encontrar motivos para ficar com raiva do pai e sentir menos a sua morte, mas a certeza que o levou a sair de casa aos dezoito anos não existia mais: a culpa do pai na morte da mãe. “Se os médicos não conseguiram salvá-la, o que meu pai poderia fazer?” Para seguir em frente, deveria aceitar que suas atitudes de adolescente foram imbecis, mas a omissão que se seguiu até aquele momento foi pior – um adulto não tem o mesmo direito de errar, principalmente um adulto consciente.
Ao chegar ao local do enterro, estava tudo preparado. O rabino fez a leitura da Torá e o grupo cantou canções em hebraico. Enquanto isso, Lázaro cochichava ao pé do ouvido de Adriano.
– Meu pai dizia que não deveríamos lamentar pelos mortos. Acho que o que ele tinha era um grande respeito pela morte.
Lázaro olhava para o caixão simples e fechado, feito de pinho, onde estava o corpo de seu pai. Seria enterrado como viveu: de forma modesta.
– Você concordava com ele? – perguntou Adriano.
– Não sei. Só sei que morte é uma porcaria. Eu só enterrei duas pessoas e as duas eram meus pais. Eu nunca fui em outro enterro e, se pudesse, não iria em mais nenhum. Prefiro morrer antes que tenha que enterrar mais alguém e ter que passar por essa sensação de novo.
Após o sepultamento, Lázaro, o filho unigênito de Isaac, tomou a pá em suas mãos e colocou a primeira terra no caixão. Depois, teve a camisa rasgada por Abner em sinal de sofrimento pela morte. Outros seis amigos de Isaac também fizeram a mesma coisa, entre eles Abner, pois não havia mais nenhum parente presente. Ao final do sepultamento, todos lavaram as mãos antes de partirem como parte do ritual e em sinal de que não tinham participação na morte.
Antes de chegarem ao carro, Adriano e Lázaro foram abordados por um homem branco com semblante agradável, com cerca de quarenta anos.
– Olá, rapazes.
– Olá. – responderam, em uníssono.
– Você é o Lázaro? – Perguntou o homem, estendendo a mão.
– Sou eu. E você é...? – disse Lázaro, apertando a mão do homem, enquanto segurava o solidéu na outra.
– Meu nome é Luis. Eu era um cliente do seu pai. Meus pêsames.
– Obrigado.
– Você estava no enterro? – perguntou Adriano.
– Não… – disse Luis, demonstrando decepção. – Acabei de chegar. Como você está, Lázaro?
– Sei lá... bem, eu acho. – respondeu Lázaro dando de ombros.
– Espero que sim. Eu sei como é, perdi meu pai também.
– Meus pêsames. – respondeu Lázaro, fingindo compaixão ao desconhecido.
– Mas faz algum tempo já. A vida se encarregou de me fazer aceitar. Eu sei que esse não é o melhor momento, mas queria saber quando eu posso conversar com você sobre a reabertura do antiquário do seu pai.
– O antiquário? – Lázaro estava aturdido. – Olha, eu não sei. Não tenho interesse em reabri-lo.
– Que triste. – Luis continuou com seu ar de decepcionado. – As pessoas gostam muito de lá. Para mim, é uma viagem para um tempo muito bom.
Adriano interveio.
– Vamos fazer assim, senhor Luis. Vamos analisar a saúde da loja e verificar se é viável reabri-la. Após fazermos isso, nós avisaremos.
– Ah, claro. Ótimo! Aguardo ansiosamente.
Luis sorriu, deixou um cartão de visitas com Adriano, cumprimentou os dois amigos e foi embora.
– Não sabia que a loja do seu pai era tão boa assim a ponto de atrair clientes para o enterro. – Afirmou Adriano.
– Havia clientes no enterro por que eram amigos do meu pai desde que eu me conheço por gente, tanto que alguns formaram o Chevra Kadisha, mas esse cara...
– Achou estranho?
– Só não é mais estranho do que você prometer reabrir a loja do meu pai. – disse Lázaro, sarcástico.
– Se a loja é boa, por que não? – Adriano ponderou, sorrindo.
– Não sei se é boa ou não. Não trabalho lá há anos e não tenho interesse em voltar.
Naquela mesma tarde, Adriano reapareceu no apartamento de Lázaro com o recado de que Sara estaria em Campinas em um mês, no máximo. Não queria mais ficar na Inglaterra longe do primo, o que restou de sua família. Lázaro sentiu ali um pouco de conforto em um momento de desgraça e que a vida poderia começar a voltar ao seu rumo.
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