quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 38


37 
     De volta ao antiquário, Adriano verificou a secretária eletrônica, e não havia mensagens gravadas. Enquanto isso, Lázaro deixou a borduna em sua bainha improvisada encostada atrás do balcão e tentou ligar para o pronto-socorro, recebendo a notícia que precisaria ir até às dezessete horas daquele dia buscar sua prima ou Sara só seria liberada no dia seguinte. Uma nova corrida contra o tempo fez com que Adriano percorresse a distância do antiquário até o hospital na metade do tempo habitual. Faltava dez minutos para às dezessete horas quando eles chegaram à recepção para fazerem todos os procedimentos para poder liberar Sara. A mulher ainda estava deitada quando Lázaro entrou, arrastando seus chinelos ainda sujos de fuligem e cabelo cheirando a fumaça que chamavam a atenção dos presentes. Os primos sorriram um para o outro.
     – Oi, Sara. Como você está?
     – Acho que estou bem.
     Sara falou com um tom de incerteza, mas manteve o sorriso, levantou-se e deu um abraço tão forte quanto pode em seu primo. Lázaro retribuiu o abraço, mas com cuidado para não apertar de mais.
     – Eu comi gelatina e estava gostoso. Olha que eu nunca imaginei que acharia gelatina gostosa alguma vez na vida.
     – Que bom. Você vai me contar tudo na viagem... o Adriano está aí para nos levar.
     Sara e Lázaro esperaram por alguns instantes a liberação pelo médico e saíram do pronto-socorro. Próximos ao carro, ela abraçou o amigo sempre sorridente e de olhar reconfortante.
     – Oi Sara. Estamos aqui para lhe ajudar no que você precisar. Okay?
     – Obrigada, Adriano. Eu ainda não entendi muito bem o que aconteceu... como está a casa?
     – Acho que é melhor você não voltar para lá. – Adriano respondeu. – Você prefere ir lá para a minha casa?
     – Sua casa? – perguntaram os primos, em uníssono.
     – É. Eu vim pensando nisso. Não acho que dá para voltar para a casa de vocês agora. Eu vou pedir para a mulher que faz as faxinas pesadas lá no antiquário dar um jeito. Ela pode deixar o lugar com um cheiro melhor.
     – Se eu não incomodar.
     – Claro que não incomoda. O povo de casa adora visita divertida.
     Adriano respondeu olhando para Sara, que sorriu. 
     – Então, ficamos assim: você fica na casa do Adriano até quinta. Eu garanto que até lá a casa estará arrumada. 
     Sara concordou e todos seguiram para Sumaré, de onde Lázaro voltaria de ônibus. Durante a viagem, ela perguntou como foi o dia de Adriano na loja pois ela se preocupava com o antiquário tanto quanto ele. Ambos tinham muitos assuntos e histórias compartilhadas naquele lugar. Lázaro preferiu não se envolver e ficou apenas ouvindo. Para ele, ouvir a voz animada de Sara era um som agradável que ele almejava ouvir há muitos anos e, mesmo após ela voltar, ele ainda não tinha ouvido. Lázaro pensou no tempo desde a chegada da prima: sete dias. Parecia que havia mais tempo quando ele relembrou todas as coisas vividas nestes dias. Isaac falecera há pouco mais de três semanas, ele conhecera Alexandre há menos de dez dias e reencontrara Beatriz há cerca de três. Tudo ia tão rápido e Lázaro sentia-se agindo como se fossem coisas habituais. Sentiu-se cansado, mas não queria que tudo acabasse e ele voltasse a vida monótona que tinha, com escola, alunos e pilhas de provas.
     Voltando a si, Lázaro viu que estavam chegando na casa de Adriano. O amigo morava com sua irmã, Aline, e sua mãe, Edna. Aline tinha quase a mesma idade que Sara e não se importaria em dividir o quarto, principalmente porque sabia do incidente daquela madrugada, mesmo que superficialmente. Todos os três entraram, encabeçados pelo anfitrião. Edna e Aline estavam na sala, assistindo um programa na TV. A casa não era grande, mas tinha três quartos, uma sala, cozinha e banheiro. A construção era anterior à ida de Hideo para o Japão, porém, os três se uniram para mantê-la sempre bem arrumada e bonita.
     – Boa noite. – disseram os três recém-chegados, quase em uníssono.
     – Boa noite. – Responderam as mulheres, levantando-se para recebê-los.
     – Como você está, Sara? – Edna perguntou, amparando Sara pelo braço.
     Edna havia visto Sara uma única vez, quando visitou Adriano no antiquário. Lázaro ficou admirado com a coincidência ao pensar que a prima só conseguiu trabalhar por dois dias, mas também com a proximidade entre as duas, apesar desse único encontro. “Sara faz amigos facilmente”, lembrou. Enquanto isso, examinava as mulheres para ver se não havia sido vítimas de Luis, mas estava tudo bem.
     – Oi, dona Edna. Estou bem, obrigada. Acabamos de sair do hospital.
     – E ela precisa dormir aqui. – Adriano complementou, sem rodeios.
     – Bem, por mim, não tem problemas. – Edna respondeu e Aline concordou.
     – Obrigada por me receberem. Não queria incomodar.
     – Vai ser legal. Vai dormir no meu quarto. – Aline bateu palmas de forma discreta.
     – Eu posso, Aline?
     – É claro. Vamos lá arrumar o quarto. – Aline segurou o braço de Sara, como uma dama de companhia, e a levou para o quarto. – Quem sabe eu também arrume alguma coisa para você vestir... nossa, como você é alta?!
     – Um pouco. – Sara sorriu, envergonhada. – Obrigada.
     Após as moças irem para o quarto, Lázaro começou a falar com Edna e Adriano.
     – Ainda não sabemos muito bem o que aconteceu lá na minha casa. Foi um pequeno incêndio no corredor e a Sara desmaiou. Acho que foi o susto. Agora ela precisa se afastar de lá e, se não fosse por vocês, ela teria que ficar lá em casa.
     – E você? – Edna perguntou, preocupada.
     – Eu vou voltar lá agora e ver o tamanho do estrago. Eu deixei um vizinho responsável por vistoriar a casa porque, a última coisa que eu fiz lá foi jogar água sobre o fogo. Agora, eu volto, vejo como tudo está e, amanhã, eu trago uma mala de roupas para a Sara ficar aqui até quinta, enquanto eu faço a reforma.
     – Você viu como estava lá, filho?
     – Estava sujo de fuligem. O ar tinha cheiro de fumaça. Acho que tudo vai feder por um bom tempo, mas eu vou pedir para a dona Zefinha ir lá limpar tudo. 
     – Você não pode voltar lá amanhã cedo, Lázaro? – perguntou Edna.
     – Acho melhor voltar agora mesmo, dona Edna. Vou ao menos deixar o ar circular. Acho que, quanto mais tempo ficar fechada, pior ficará para limpar.
     – Bem, pode ser... – Edna fez uma pausa e se voltou para o filho. – Adriano, você vai levar ele?
     – Eu vou de ônibus mesmo, dona Edna. Em umas duas horas estou em casa. – respondeu Lázaro, interrompendo Adriano antes deste responder. – O Adriano já fez muito. Ele precisa descansar porque amanhã só vai ter ele na loja.
     Lázaro fez uma breve pausa, enquanto Edna concordada com um murmúrio.
     – Bem, eu vou indo. Boa noite para vocês e obrigado pela hospitalidade. – Lázaro apertou a mão de Adriano e de Edna.
     Devagar, Sara veio abraçar o primo.       
     – Até amanhã, meu primo favorito.
     – E você tem outros? – Lázaro perguntou, sorrindo.
     – Realmente? Não me importa saber. – Sara retribuiu o sorriso. 
     Aline também cumprimentou Lázaro e, então, Adriano o acompanhou até o portão.
     – Avisa quando você chegar lá, okay?
     – Aviso sim, se o telefone não queimou. – Lázaro riu brevemente. – Você pode cuidar da borduna?
     Adriano meneou positivamente a cabeça, o cumprimentou e Lázaro saiu caminhando pelo bairro sem olhar para trás. Enquanto atravessava a linha do trem para alcançar a avenida que o levaria até o terminal de ônibus, ele teve a impressão de que era seguido, mas manteve-se tranquilo. Pensou que se Rebeca estivesse viva e consciente, já teria avisado Luis e este teria colocado um novo espião no lugar dela e de Elisabeth. Claro que poderia ser um medo estúpido, mas a época não permitia descuidos.
     Quando o ônibus chegou, Lázaro foi para a fila que se formava. Em uma análise rápida, percebeu que a maioria das pessoas da fila já estavam na mesma plataforma que ele, em pé ou sentadas. Contudo, um homem estranho que estava sentado na outra plataforma mudou-se para a dele. Era um homem com mais de vinte anos, de camiseta esportiva, calça jeans e tênis. Pensou que poderia não ser nada demais e o homem poderia estar apenas aproveitando a semelhança entre partes das rotas de ônibus, assim, qualquer um dos dois ônibus serviriam.
     Lázaro entrou no ônibus e sentou-se no banco que ficava ao lado da porta de saída. O homem sentou-se ainda mais ao fundo. Poderia não ser nada, mas Lázaro não queria arriscar. Para não chamar atenção, ele preferiu não olhar para trás, mas começou a pensar o que poderia fazer. Seus pensamentos alternavam entre a possibilidade de ser um risco real ou apenas um medo estúpido. Quando a sensação de perigo ficou mais intensa, começou a fazer mentalmente todo o percurso que o ônibus faria e lembrou que ele tinha uma parada a cerca de um quilômetro de seu apartamento. Ao descer nesse ponto em específico, era possível caminhar alguns minutos e tomar outro ônibus para o centro a partir do terminal Padre Anchieta.
     Em pouco tempo de viagem, o ônibus não tinha mais lugares para se sentar. Aproveitando da situação, Lázaro cedeu o seu lugar para uma mulher e ficou de pé. Examinou pelo reflexo do vidro do ônibus como era o homem e percebeu que, por alguns segundos, seu possível perseguidor olhou diretamente para ele. Posicionou-se ao lado da porta e ficou esperando o momento certo. Quando o ônibus parou no ponto mais próximo do seu apartamento, algumas pessoas começaram a se encaminhar para a porta e Lázaro, despretensiosamente, se posicionou como se apenas estivesse dando espaço para as pessoas passarem. Quando o cobrador do ônibus bateu a primeira vez sua moeda para avisar ao motorista que fechasse a porta traseira para eles partirem, Lázaro pulou de maneira desengonçada para fora do ônibus, mas não chegou a cair. A porta se fechou e a próxima parada seria a mais de um quilômetro dali: se o homem realmente o seguia, estaria muito longe para reencontrá-lo.
     Lázaro começou a caminhar em direção ao terminal, mas continuou olhando para ter certeza de que o ônibus continuaria sua viagem. Por alguns instantes, pensou que realmente era um imbecil que se preocupou à toa. Contudo, duzentos metros à frente, todas as luzes traseiras do veículo acenderam e o ônibus parou. Ele pensou que, se era o homem que desceria do ônibus, tudo poderia acabar ali mesmo e ninguém o ajudaria.
     Lázaro correu e parou atrás de um caminhão que estava estacionado em uma rua ao lado do posto de gasolina. Ele pegou sua sacola com roupas sujas e as vestiu novamente por cima da roupa limpa e esfregou as mãos na lateral do caminhão para retirar a fuligem de óleo diesel queimado, usando para passar nos braços, pernas e rosto. Andando abaixado, Lázaro se deitou na frente de um carro estacionado e colocou um dos braços sob o veículo, fingindo estar consertando algo. Pouco tempo depois, ouviu passos rápidos se aproximarem. Preferiu continuar olhando para embaixo do carro enquanto os passos se aproximavam, desaceleravam, voltavam a acelerar e a pessoa ficava cada vez mais longe. Ele tinha certeza de que o homem continuou caminhando em direção ao terminal.
     Lázaro se levantou do chão, mas manteve-se agachado. Protegido pela penumbra, ele viu o homem caminhando e olhando para os lados, desaparecendo ao virar à esquerda no cruzamento. Com esta deixa, Lázaro se levantou e começou a caminhar pela calçada no sentido contrário. Sabia que não poderia ir ao terminal ou ao apartamento sem correr o risco de encontra-lo. Além disso, precisava limpar a fuligem para tentar encontrar outra maneira de sair daquele bairro e pensou em buscar ajuda em uma igreja católica a cem metros de distância do terminal. Tinha em sua mente a ideia de que cristãos deveriam ser caridosos indiscriminadamente, assim como Adriano era e afirmava que era fundamental para uma pessoa religiosa.
     Ao chegar no cruzamento, ele virou para esquerda e começou a andar em uma rua escura, paralela à rodovia. Cerca de duzentos metros depois, caminhando com medo, virou novamente à esquerda e entrou em uma rua com galpões dos dois lados. Na esquina seguinte, várias casas com luzes acesas, mas pouquíssimas pessoas na rua. Tentou acelerar o passo e, conforme caminhava, o medo diminuía.
     Cerca de oito minutos depois, mas que pareceram uma eternidade, Lázaro viu a avenida Cardeal Dom Agnello Rossi à frente e reduziu a velocidade. Caminhando mais quatro minutos para a esquerda, chegaria na igreja. Preferiu andar devagar, olhando ao redor, com cautela. No cruzamento seguinte, virou à esquerda novamente, e depois à direita, na rua Papa São Dionísio, que estava vazia. Caminhou mais alguns metros e sentiu que estava dando certo. Seguiu devagar ao lado de um muro baixo até chegar em um muro mais baixo e com grades. Quando estava ao lado da igreja, percebeu que não sabia o que dizer para pedir ajuda.
     Da entrada do estacionamento da igreja, ele olhou para todos os lados, dando mais atenção ao terminal de ônibus. Não viu o homem que o perseguia, mas tinha certeza que ele poderia estar no terminal ou o aguardando na entrada do apartamento. Caminhando em direção ao portão da igreja, Lázaro viu que havia um grupo de pessoas trabalhando em um imóvel adjacente, enquanto as pessoas também o viram se aproximar, todo sujo de fuligem. Logo que o viu, uma mulher correu para dentro de uma sala e, antes de Lázaro chegar ao balcão, um senhor branco, calvo, alto e gordo apareceu.
     – Boa noite. – disse o homem à Lázaro, estendendo a mão.
     – Boa noite.  – Lázaro o cumprimentou.
     No mesmo instante em que tocou, teve uma sensação boa, de bondade. Era a segunda pessoa que lhe transmitira uma sensação positiva e, por isso, tinha certeza de que seria ajudado. Além, disso, teve a sensação de tê-lo visto no velório do pai, mas achou que estava inventando essa memória.
     – Bem, senhor...? – disse Lázaro, esperando que o homem dissesse o nome.
     – Salatiel. – respondeu, sorrindo.
     – Padre Salatiel, certo? Bem, como o senhor pode ver, eu tive um problema com fuligem de caminhão e gostaria de saber se eu posso usar aquela sua torneira próxima ao portão para tentar limpar um pouco antes de tomar o ônibus.
     – Ah, sim, claro. – Salatiel fez um sinal para uma mulher que acompanhava tudo de longe, indicando que ela trouxesse um sabonete. – Qual é o seu nome?
     – Lázaro.
     – Nome incomum.
     – Minha mãe me deu esse nome.
     – O meu caso também foi assim... bem, o que aconteceu para o senhor se sujar tanto?
     – O senhor quer a história toda?
     – Não, só fiquei curioso... ah, obrigado, dona Rosária... tome, Lázaro, um sabonete.
     Usando o sabonete, Lázaro esfregou os braços tanto quanto pode, de cócoras, uma posição desconfortável para ele mas, aparentemente, habitual para Salatiel, que agachou ao seu lado. Então, Lázaro continuou falando, olhando para o braço que estava limpando. Contava naquele momento com a discrição dos padres, explicada por Isaac quando ele era criança.
     – Bem, o senhor já teve um dia difícil?
     – Já. Acho que todo mundo já teve.
     – O meu dia tem durado mais que um dia. Começou há três semanas, quando meu pai morreu...
     – Meus pêsames. – Salatiel falou com pesar.
     – Obrigado... bem, Salatiel, eu não morava com ele. Moro aqui perto, em um desses predinhos aqui. – Lázaro acenou com a cabeça, de maneira displicente. – Ele morava para lá do centro, na Vila Lemos. 
     – Sei.
     – Bem, ele morreu e deixou tudo para mim. Porém, parece que a cada dia, um novo problema acontece. Eu me desentendi com um vizinho daqui do prédio, estou afastado do meu emprego, minha prima que mora lá na Vila Lemos está doente e estou passando essa semana na casa do meu pai para ficar com ela. As coisas foram acontecendo, coisas ruins, e agora isso aqui. – Lázaro apontou para o corpo sujo.
     – Imagino. A vida é difícil, mas deus sempre dá a cruz que podemos carregar.
     – Não sei... parece que a minha cruz está mais pesada do que eu posso carregar.
     – E é por isso que você precisa se fortalecer em deus pois, como um jovem manterá pura a sua vida?
     Lázaro parou de esfregar o sabão na perna no mesmo instante. Aos poucos, abriu a boca e respondeu, quase pausadamente, Sendo fiel às palavras de deus”. Salatiel sorriu para ele.
     – Você usou esta frase aleatoriamente? – perguntou Lázaro.
     – Nada é aleatório. Tudo está no desígnio de deus, como, por exemplo, você vir logo aqui pedir auxílio.
     Lázaro ficou confuso, mas voltou a se limpar. Seu rosto dizia para todos que olhassem para ele que uma grande discussão ocorria em sua mente. “Quem é este cara? Ele sabe alguma coisa?”, pensou, em silêncio.
     – Algum problema, Lázaro?
     – Ah, não. É só esta frase. Eu já a ouvi antes.
     – Imagino que sim, é o salmo cento e dezenove.
     – Não, não foi na bíblia. É... – Lázaro fez uma pausa e meneou a cabeça – é complicado.
     – Foi seu pai?
     – Sim.
     – Grande homem seu pai. 
     Lázaro parou novamente sua limpeza. Sua mente estava mais confusa ainda. 
     – Como o senhor sabe que meu pai era um grande homem?
     – Então... conheci Isaac há muitos anos e, por isso, fiz o teste. Queria saber o que ele tinha dito para você.
     – E quem é você? – o espanto de Lázaro se mantinha.
     – Sou o padre Salatiel.
     – Eu sei disso. A frase, como sabe disso?
     – A frase é o teste. E a que você usou para me responder é a chave de confirmação. As pessoas não respondem a frase de teste com a frase de confirmação.
     – Qualquer um que leia com frequência a bíblia responderia com a chave de confirmação.
     – Elas podem saber que é da bíblia, mas não responderiam como você respondeu. Saiba que as pessoas tratam as referências como referências. Se eu digo a frase “como um jovem manterá pura a sua vida”, uma pessoa comum dirá “ah, salmo cento e dezenove, muito bonito este”, ou descambam em falar muito mais que só o versículo seguinte. Você não fez isso, você disse o versículo seguinte, completando. Essa orientação deveria ter sido passada por alguém que sabia o que tinha que ser feito, e Isaac sabia.
     – Tá, okay. Então, de onde você conhece meu pai?
     – Seu pai era uma pessoa especial com uma missão especial.
     – Um guardião. – disse Lázaro, enfatizando a informação. 
     Salatiel ergueu as sobrancelhas, admirado. 
     – Isso mesmo. E era o que ele queria para você, principalmente quando você começou a demonstrar uma sensibilidade para a função.
     – Do que você está falando?
     – Conheço seu pai há muitos anos. Estive no velório, mas aparentemente você não me viu. Ele e eu tínhamos um acordo de garantir que você pudesse ficar aqui na cidade até perdoá-lo e voltar ao treinamento.
     Lázaro já havia lavado tudo que podia, e ainda esfregava as mãos enquanto o padre e ele conversavam. Percebendo que já estava tudo limpo, ele desligou a torneira e Salatiel o encaminhou para uma sala com cadeiras confortáveis.
     – Ele me falou desse treinamento, mas não explicou realmente. Tem alguma coisa a ver com a tal irmandade secreta?
     – Ele falou sobre nós?
     Lázaro crispou os olhos e repuxou a boca para o lado.
     – Mais ou menos. Mais para quase zero. Ele citou que existe uma irmandade e falou de um membro que o ajudou uma vez, no passado... – Lázaro silenciou por alguns segundos e, logo depois, voltou a falar, admirado.Ah, era você!
     – Sim, eu ajudei o seu pai algumas vezes. – Salatiel se sentia orgulhoso.
     – Então essa Irmandade...
     – A Irmandade Secreta dos Guerreiros de Mãos Nuas da Ordem de Cister existe. Somos uma irmandade antiga e espalhada pelo mundo. Sei que você não deve saber muito sobre a igreja.
     – Não sei mesmo. – Lázaro sacudiu negativamente a cabeça.
     – Então. Há muitas ordens. Eu não sou cisterciense, mas conheci pessoas desta Ordem por termos interesse na história dos templários.
     – Os cavaleiros? – Lázaro perguntou
     – A ordem religiosa. Antes de serem cavaleiros, eram monges. Durante o período que os cruzados estiveram no Oriente Médio e ocuparam a cidade de Acre. Escavando alguns prédios em busca de relíquias, os cavaleiros encontraram a Bússola. Temos poucas informações da história, mas o que temos afirma que os templários tiveram uma visão de Nossa Senhora que incumbiu aqueles homens de cuidarem da relíquia com as próprias vidas e construírem uma capela para o artefato. O que sabemos é que a capela nunca foi construída porque, quando começavam as obras, alguém tentava roubar a peça e, na ação, destruía a construção. Assim, a peça ficou passando de mão em mão até os templários perderem a cidade e a capela ser inviável no local. Alguns anos depois, a ordem dos templários foi extinta. Alguns monges da ordem de Cister resgataram o último cavaleiro templário que pôs as mãos na Bússola. Esse cavaleiro, antes de morrer, contou toda a história que eu estou lhe contando agora. Foi naquele momento que os monges criaram a Irmandade há quase setecentos anos.
     – Mas, os monges não vivem em clausura?
     – A ordem de Cister, sim, mas, eles só cuidaram da Bússola. Quando a igreja fundou a Ordem de Cristo em Portugal, um monge fugiu do mosteiro e foi atrás do grão-mestre da ordem para que a missão fosse dada a um monge e cavaleiro. Assim, o mestre da Ordem deu a missão de guardião à Afonso, que era um de seus homens de confiança. Para nós, Afonso é o primeiro Guardião oficial porque foi o primeiro guerreiro a aceitar a missão da Irmandade que fora criada dentro da Ordem de Cister: cuidar da Bússola de Acre e resgatar as outras relíquias que poderiam ajudar a ordem a lutar contra o diabo.
     – Mas a Irmandade não é de pessoas desarmadas?
     Salatiel ficou em silêncio por um instante, e continuou.
     – Lázaro... são setecentos anos de história, e boa parte dessa história não foi escrita do jeito que aconteceu. Então, aceite a história como ela é contada.
     – Sou um cético contumaz. É difícil aceitar, mesmo depois de tudo que vem acontecendo.
     – Entendo. É um salto de fé. Então, continuando: de tempos em tempos, o guardião é substituído por um guardião mais jovem que assumirá a função de proteger a Bússola e procurar as relíquias indicadas por ela. 
     – E o que acontece com as relíquias encontradas?
     – Fica em posse do guardião até o mestre da Irmandade vir buscá-las.
     – E quem é o mestre?
     – Não sei, mas seu pai me disse como ele era.
     – Um membro da Irmandade não sabe quem é o próprio mestre? – Lázaro não conseguia esconder seu incomodo com a história toda.
     – É segredo. A Irmandade precisa manter segredo por causa de pessoas como aquele cara que apareceu no velório do seu pai. Não sei como ele soube que Isaac era o guardião, mas soube. Ele ficou tentando conseguir a Bússola por muitos anos. A Bússola está com o novo guardião?
     – Sim, passei para ele, como meu pai pediu. Aliás, eu entreguei a Bússola, mesmo achando a história estranha. Agora, com sua explicação, estou achando muito mais.
     – Mas é a história. A Bússola confirma que não é mentira.
     – Não é tão simples. Como você disse, são setecentos anos de história. Mas não vou aprofundar essa discussão. Eu fiz o que meu pai pediu, a Irmandade continuará seguindo seu fluxo, o guardião deve estar vivendo suas aventuras por aí e eu estou me ferrando porque os empregados do cara que tentou comprar a Bússola ainda estão atrás de mim.
     – E o que você vai fazer?
     – Preciso achar o chefe antes que ele me ache.
     Aproveitando a deixa, Salatiel se levantou e estendeu a mão para Lázaro.
     – Espero que deus e Nossa Senhora te ajudem nessa empreitada.
     Lázaro estendeu a mão e cumprimentou Salatiel. Ali estava um padre que emanava bondade e Lázaro precisava de mais dessa bondade para além do sabonete e água.
     – O senhor poderia fazer as honras de deus e me ajudar, emprestando um sapato e uma batina.
     – Para quê? Você não está indo para a casa do seu pai?
     Lázaro parou por alguns segundos e voltou a sentar.
     – Não entendi sua pergunta.
     – Eu achei que você ia se proteger na casa do seu pai.
     – E como eu vou me proteger em uma casa?
     – A mezuzá na porta te protege, ou você retirou ela de lá?
     – Do que você está falando? – Lázaro voltava a ficar confuso. – A mezuzá está lá, e a da loja também.
     – A da loja não. Não tem nada de mais nela. É a da sua casa que é uma das relíquias. Ele não te falou que ela protege a casa de pessoas que não foram convidadas?
     – Não. As coisas que eu sei eu li em algo como um diário do meu pai, mas eu não li todo ele ainda. Na verdade, eu li umas duas folhas somente. Foi lá que eu li sobre você. Eu não sei nada sobre essas relíquias.
     – Provavelmente neste livro tem a história da mezuzá. Foi ela que impediu que o... – Salatiel estalava os dedos, como se isso o ajudasse a se lembrar.
     – Luis? – Lázaro complementou, tentando ajudar.
     – Isso mesmo, o Luis. Foi a mezuzá que impediu que ele entrasse na casa do seu pai.
     – Então ela não funciona sempre, porque alguém entrou na casa. Provavelmente foi o Luis, que descobriu como. E uma das mulheres que trabalhava para ele também entrou.
     – Quando ele entrou?
     – Depois que meu pai morreu.
     – E a mulher?
     – Fingia ser amiga da minha prima.
     – Então está aí, Lázaro. A morte do seu pai deve ter anulado o poder da relíquia até o novo morador assumir a propriedade do imóvel, enquanto a amiga da sua prima deve ter sido convidada.
     – Eu recebi a propriedade. Mas como o objeto sabia que eu era o dono?
     – Não sei. Vai ver que é porque você morou lá. A mezuzá é um dos objetos mais antigos da casa, ou melhor, ele é mais antigo que a casa.
     Lázaro demonstrou em seu rosto a admiração com a informação. Começava a relembrar do sonho que tivera dias antes com sua infância. Um homem estranho como Luis apareceu uma vez, mas seu pai não o autorizou a entrar. Lázaro também o viu pela janela da sala tentando abrir o portão. Porém, mesmo destrancando, o portão não abria. Somente em algum momento de sua adolescência, após a morte da Ruth, que as portas passaram a ser trancadas.
     – Está pensando em quê? – Salatiel perguntou.
     – Estou apenas assimilando a informação. Posso usar seu telefone?
     O padre entregou o telefone para Lázaro. Em menos de um minuto, ele ligou para o vizinho Emílio e combinou que a porta ficaria destrancada, bem como o portão. A chave ficaria dentro da casa e ele poderia entrar rapidamente, sem o risco de ser abordado na rua. Emílio achou muito estranho o pedido, mas prometeu fazer o que o vizinho pediu.
     – Bem, padre... agora eu preciso de outro favor.
     – Diga.
     – O senhor precisa me levar até a porta da casa. Eu sairei correndo do carro e entrarei sem o risco de ser atacado. Não precisa se preocupar, o senhor nem vai precisar parar. Só precisará desacelerar um pouco.
     Apesar do medo, os olhos de Salatiel brilharam. Aquele tipo de coisa era o que queria fazer quando entrou para a Irmandade. Queria ser um herói contra o mal. É claro que não era uma luta contra o demônio ou seus asseclas, mas daria um pouco de adrenalina para sua vida monótona.
     Antes de seguirem viagem, Salatiel pegou um pedaço de cordão de varal e levou para o carro. O cordão serviria para fechar a porta após Lázaro dar seu salto sem a necessidade de precisar parar o veículo. Seria necessário apenas dar um puxão e seguir viagem.
     – Sei que padres não podem ter vícios e nem vaidades, mas aqui está o meu fraco: Corcel Belina. – Salatiel apresentou o carro azul claro para Lázaro como se apresentasse uma pessoa. – Vai debutar esse ano essa belezinha, e ainda consegue fazer doze quilômetros por litro quando estou na rodovia.
     – Parabéns. Muito bonito.
     Lázaro mentiu para agradar o padre empolgado. Não se importava com carros, mas precisava daquela carona, ficando agachado durante o caminho até a rodovia. Como seria uma viagem de um pouco mais de vinte minutos, Salatiel começou a conversar sobre Isaac. Quando ele disse que conhecia o pai de Lázaro há muito anos, Lázaro disse que isso estava escrito no livro de capa preta, enchendo o padre de orgulho. Aproveitando da situação, Lázaro contou sobre a anotação do pai sobre a viagem dos dois homens até o galpão em Sumaré. Salatiel lembrou vagamente e que, na época, teve a sensação de que o tempo não passava e de que Isaac poderia ter sido morto. Lázaro também contou sobre quando ele mesmo entrara no galpão e conversara com o homem, e como os anos deixaram o local perigoso para curiosos incautos. “Se eu fosse mais jovem...”, disse Salatiel, pensando em voz alta.
     – Não indico nem o mais jovem aventureiro a entrar lá, mas... bem, eu acho que todo guardião, mais dia ou menos dia, acabará indo lá. Até o Alexandre já deve ter ido lá.
     – Quem é Alexandre? – O padre ficou curioso e empolgado com a nova informação.
     – O novo guardião. – Lázaro respondeu, como se fosse algo óbvio.
     – Ah. E como ele é?
     – Normal. – Lázaro disse, com desdém.
     – Normal somos nós. Eu quero saber como é o guardião. Ele se parece com quem? É tipo o Bruce Willis? O Schwarzenegger?
     – Não. Ele é mais baixo que eu, mas é ágil e rápido... lembra do Ben Johnson? Ele era parecido, mas deve ser mais baixo.
     – Parecido com Ben Johnson?
     A pergunta de Salatiel soou de forma negativa.
     – É, mas sem o bigode que o Ben usava nas olimpíadas de Seul, e tinha mais cabelo.
     – Mas o Ben Johnson é negro. – Salatiel exclamou, enfático.
     – Tem regra de cor para ser guardião?
     – Não..., mas nunca teve um guardião negro.
     – “Os tempos estão mudando”, não é assim que diz a música do Bob Dylan? Além disso, se até meu pai que era de família judia pode ser guardião, o que impediria um rapaz negro de ser?
     – Bem, é...
     – Então é isso. O novo guardião é o primeiro guardião negro. Eu acredito que ele nem se importe com esse pioneirismo, principalmente se o Luis ou pessoas daquele tipo estiverem ainda o procurando. Ser o primeiro-qualquer-coisa não fará diferença nenhuma.
     – Deve ser mesmo. – O padre tentava dar o assunto por encerrado.
     – Já teve alguma mulher?
     Salatiel não se lembrava de um caso.
     – Se meu pai tivesse desistido de mim quando eu me afastei dele, a minha prima poderia ter sido treinada. Ela poderia ser oficialmente a primeira guardiã e eu garanto que ela seria ótima na função. Ela sempre demonstrou muito mais interesse em aventuras.
     – Mas seu pai nunca desistiu.
     Uma fagulha de arrependimento passou pela cabeça de Lázaro.
     – É uma das poucas certezas na minha vida. Isso e que a morte é inevitável para todos nós. O resto tem sido “provavelmente”, “eu acho que” e “pode ser”. Às vezes eu penso “por que as coisas não são mais fáceis?”.
     – Mas nunca foram fáceis?
     Lázaro pensou um pouco. O período entre os dezoito anos até três semanas atrás foi razoavelmente tranquilo. Não tinha do que reclamar, porém, sentia que faltava algo, principalmente após a partida de Beatriz. Era uma vida que muitos almejavam, mas era vazia de sentido. Lázaro voltou a falar.
     – Acho que já foram. É complicado. Da mesma maneira que atualmente eu sinto pisar em ovos com tantas mudanças, olhando com atenção a tudo, eu tenho a impressão de que os novos problemas foram simples de resolver. Foi só entender o problema e a solução aconteceu. Não sem ajuda, claro, mas as coisas estão se acertando.
     Salatiel riu.
     – Está encontrando uma nova profissão, rapaz? Vai largar o emprego de professor para ser solucionador de problemas?
     – Eu não disse que sou professor.
     – Mas seu pai disse.
     – Meu pai...
     O resto da viagem foi em quase total silêncio. Lázaro abriu a boca apenas para explicar o caminho, mas o padre o conhecia. Apesar de não ter sido um visitante na casa de Isaac, aquele caminho era conhecido por causa de algumas visitas rápidas. Mesmo naquele momento, sem a luz do sol, o padre fazia o percurso com bastante facilidade.
     Ao chegar no início da rua Alaíde Nascimento de Lemos, Salatiel parou o carro e Lázaro tentou ver alguma atividade sobrenatural, alguma luz que os olhos normalmente não enxergariam. Não viu nada estranho.
     – Bem, é isso. Obrigado pela carona e não se esqueça de virar para esquerda para eu poder sair.
     – Boa sorte, Lázaro. Espero que dê tudo certo. 
39
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário