36
– O que vamos fazer? – perguntou Ary.
Adriano olhou para o homem desacordado e se voltou para o amigo.
– Lázaro, não sei se é possível esperar ele voltar naturalmente. Por que você não faz o que você disse que fez com a sua prima?
– Ele está acordado, Adriano. Não sei se funciona... vai ver ele volta sozinho...
Lázaro pensou por alguns instantes que poderia ser uma armação. Rebeca não estaria mentindo pela primeira vez, aliás, poderia ter sentido que podia mentir quando o perigo passou. Ganhara a confiança sendo parcialmente sincera e, dali em diante, poderia voltar a ser falsa – quem é lobo, sempre será lobo.
– Tá bom. Vou tentar ver onde ele está. Tranque tudo, Ary.
Ary foi até o portão e o trancou, voltando correndo para dentro para ver o que aconteceria. Enquanto isso, Lázaro segurou na mão de Antônio e começou a se concentrar, enquanto todos os outros ficaram olhando. Ao abrir os olhos, ainda estava fora. Sentiu como se não houvesse para onde ir – não havia um campo de grama que se movia sem vento. Se o campo era a mente ou o espírito, ele não estava ali dentro. Abrindo os olhos, ele comentou:
– Ele não está aqui. Ela mentiu mesmo, como eu suspeitei.
Perguntas inteligíveis começaram a se misturar e rebombar em um único som cacofônico que começava a incomodar Lázaro.
– Pessoal, é complicado eu explicar agora. Estou em uma situação meio delicada aqui e preciso de tranquilidade. Prometo que se tudo der certo, vocês terão uma boa história para contar à luz de velas para sua família a próxima vez que acabar a energia na rua da casa de vocês.
Lázaro se deitou no chão e pediu para Adriano e os presentes orarem, irem ao extremo de suas fés. Se não ajudasse, também não atrapalharia. O medo estava nos olhos de todos, como se Lázaro estivesse saindo de uma zona habitável para um mundo inóspito e desconhecido. As outras situações presenciadas por Lázaro não foram menos perigosas ou assustadoras, mas cada risco enfrentado era uma nova chance de sofrer consequências piores do que a morte do corpo. Se o espírito é imortal, ele poderia sofrer eternamente um erro cometido.
De olhos fechados, Lázaro se concentrou em tentar encontrar Antônio como fizera com Sara. Em um primeiro momento, estava ao lado do seu corpo e das demais pessoas presentes no escritório. Para sua surpresa, não estavam sozinhos. Antônio parecia exalar um gás escuro pelas narinas e pequenos seres semelhantes a sombras de crianças colhiam o gás, como se o inalassem ou sorvessem. Não era possível saber por que elas não tinham nada além de uma forma de silhuetas de crianças. Apesar do susto, Lázaro não voltou ao corpo: havia novamente o sentimento de urgência que o fazia buscar fazer algo contra as criaturas em defesa de seu contador. Ao tentar socar uma das criaturas, sua mão o deformou, acertando o nada. O segundo e terceiro socos foram tão infrutíferos quanto o primeiro. Pensou que se aquele gás fosse a vida física de Antônio, ela poderia se esvair rapidamente.
Lázaro relembrou de outro momento em que houve a necessidade de agir de maneira única e extraordinária. Pensou que as luzes nas mãos contra Elisabeth em sua mente poderiam o ajudar naquele momento e, naquela ocasião, foi ao mentalizar três sentimentos que elas apareceram. Tentou novamente e as mãos brilharam com uma luz leitosa, como se as mãos estivessem envoltas de um gás esbranquiçado. Tentou um primeiro soco e a criatura teve parte de sua cabeça destruída como se também fosse feita de gás. O pequeno monstro recuou, produzindo um assovio. Os outros seres pararam de sorver o gás e recuaram, somando ao assovio do primeiro os seus próprios. O som em uníssono era incômodo, como o som de um apito agudo de fábrica. Quando Lázaro avançou para desferir um segundo soco, os seres recuaram um pouco mais, mas pareciam agir como moscas, esperando pararem de ser enxotadas para voltarem a se banquetear do homem catatônico.
Algo precisava ser feito, algo definitivo. Lázaro pensou que o ataque deveria ser intenso e seria necessária toda luz possível para destruir aquelas sombras. Imediatamente, suas mãos começaram a arder como chamas esbranquiçadas. Porém, ele começou a sentir como se estivesse entrando em um tipo de torpor, como se as chamas estivessem exaurindo sua própria essência. Adiantando-se contra os seres para terminar logo com aquele problema, três socos foram suficientes para banir os pequenos seres, que fugiram mutilados – um sem a cabeça, outro sem parte do tronco e sem um braço e o terceiro com parte do tronco destruída.
Lázaro extinguiu as chamas e tentou encontrar Antônio, sem sucesso. Parecia que, de alguma forma, Rebeca conseguira encobrir o rastro do homem. A última esperança era que ela não tivesse encoberto o próprio rastro. Concentrando-se na mulher, Lázaro teve sorte. Ela caminhava em uma rua, sozinha. Aproximando-se como se andasse, Lázaro consegui perceber que os tentáculos ainda estavam na boca da mulher. Ao tocar neles, conseguiu segurá-los e começou a puxar. Rebeca não conseguia vê-lo, mas era evidente que sentia uma interferência nos tentáculos em sua boca, e começou a tentar fugir. Provavelmente para os pedestres ao seu redor, a mulher parecia fugir de abelhas ou era simplesmente louca.
Rebeca correu pela calçada desesperada e não conseguia gritar pelo cansaço de fugir de seu adversário. Lázaro a seguia com certa facilidade, ficando cada vez mais fácil sua perseguição conforme a fraqueza que sentia ia diminuindo. Era evidente que a mulher não sabia o que estava acontecendo, garantindo uma certa vantagem para ele. Após correr cinco minutos, Rebeca parou de correr e se sentou em um ponto de ônibus. Estava exausta de correr com roupas pesadas e sapato de salto alto. Seus pés, pernas e costas doíam, o ar inspirado já não era suficiente.
Lázaro se aproximou de Rebeca e aproveitou que os tentáculos em sua boca ainda estavam proeminentes. Com um movimento certeiro, Lázaro pegou a maioria deles e segurou com força. Rebeca tentou correr outra vez, mas caiu com o puxão que Lázaro deu nos tentáculos. Ele não esperou para ver a reação da mulher e fechou os olhos. Aquela atitude era sua última esperança, pois não sabia se seria possível acessar a mente de Rebeca ou se, caso conseguisse, encontraria algo lá dentro além de algum monstro com a cara de sua inimiga. A invasão foi bem-sucedida e Lázaro conseguiu se deslocar diretamente para um local de solo rachado, como um leito de rio seco. Havia pouca luz no ambiente e eram tons de vermelho e laranja. Ele não esperou dar de cara com algum monstro e invocou novamente as luzes em suas mãos, mas com pouca intensidade, como da primeira vez.
Parado em meio aquele campo devastado, ele tentava ouvir alguma coisa. Além de um som constante como a cacofonia de uma antiga fábrica, era possível ouvir algo como um lamento ao longe, logo após uma colina. Ele correu o mais rápido que pode, reduzindo a velocidade no cume. Queria saber o que encontraria e quais desafios o esperavam.
No vale ao lado da colina era possível ver uma pessoa presa ao chão por pequenos fios brilhantes e vermelhos. Não era certeza de que ali estava Antônio, mas era possível. Enfurecido e rodeando o homem ao chão, como um cão de guarda, havia também um monstro bípede. O ser parecia uma hiena malhada andando sobre pés humanos, e tinha dois pares de seios humanos que desciam do peito ao abdômen e tentáculos com os de um náutilo no lugar da boca. O que o fez hesitar não era a aparência grotesca, mas sim as garras afiadas nas patas dianteiras do monstro e seu ferrão de escorpião que saía do cóccix e fazia um arco para baixo.
Lázaro pensou que parecia não ser a mais indicada uma abordagem silenciosa. Preferiu chamar toda a atenção para si do alto da colina e esperar que a criatura subisse com ímpeto. Conforme o monstro de Rebeca subia a colina, ele descia e ganhava velocidade. Antes de Rebeca conseguir realizar um salto completo, Lázaro pulou desferindo uma voadora dupla. A perda de apoio ao solo fez a criatura torcer a cabeça para trás e girar sobre o próprio corpo, sendo arremessada ao chão metros para trás, enquanto ele não conseguiu fazer um rolamento adequado para se levantar rapidamente e chocou-se com o solo com muita força. A vantagem para ele ao se levantar foi muito curta, garantindo apenas uma boa posição na colina, em um ponto mais alto que a sua adversária.
Ao mesmo tempo que desferia socos explosivos no monstro, Lázaro também levava golpes que lhe feriam superficialmente. Rebeca era mais hábil que Elisabeth, conseguindo se defender e atacar com mais efetividade. Lázaro sentia que a luta estava bem equilibrada e seria perigoso ficar ali por muito tempo, pois não sabia se o resto dele estava exposto àqueles seres feitos de sombra que apareceram no escritório.
Em uma tentativa arriscada, Lázaro abriu a guarda do monstro com um soco direito e enquanto desferiu o soco com a mão direita, concentrando toda energia que pode naquela mão. Pouco antes do soco acertar Rebeca, a mão brilhou como a luz de um sol pálido, explodindo ao tocar o rosto da criatura. Rebeca caiu na colina e deslizou sobre o solo rachado, enquanto Lázaro foi arremessado dois metros para trás. A luz se extinguiu e ele sentiu-se fraco, mas sabia que precisava fazer algo antes do inimigo se levantar. Antes que o combate recomeçasse, ele cambaleou até Antônio e começou a puxar fio a fio que segurava o homem ao chão. A remoção se mostrou mais fácil do que ele imaginou, provavelmente porque a prostração de Rebeca deveria ter deixado a prisão de fios tão fraca quanto ela. Após o primeiro braço ser solto, Antônio começou a ajudar a se desvencilhar.
– Meu Deus, Lázaro! O que está acontecendo? Você precisa me salvar daqui.
– Estou aqui para isso, seu Antônio. Vamos sair daqui juntos.
Pouco a pouco, Lázaro retirou os fios do braço de Antônio e ambos, juntos, retiraram os fios das pernas. O monstro já gemia há alguns minutos enquanto os dois conseguiram ficar de pé e Lázaro, segurando a mão de Antônio, o levou de volta para a rua. Ao verem novamente pessoas andando, prédios e carros, Antônio mostrou-se horrorizado e Lázaro teve um segundo para ver a fonte do pavor do contador antes de ser puxado de volta para o escritório: Rebeca estava caída, com os olhos encarando o vazio e com saliva esbranquiçada saindo de sua boca. Algumas pessoas a rodeavam, provavelmente tentando ajudar.
De volta ao escritório, Lázaro continuou fora de seu corpo enquanto Antônio acordou assustado. Antes que ele mesmo pudesse voltar ao próprio corpo, teve mais uma visão inesperada, mas reconfortante de que nenhum dos seres de sombras estavam perto de Antônio. Percebeu que havia alguns seres, sem forma definida, sobrevoando o ambiente e flutuando sobre a cabeça de Adriano. Da cabeça do amigo exalava algo semelhante a um gás branco que subia em direção ao teto e era incorporado àquelas formas que pareciam ser aladas. De alguma forma, os dois seres repeliam as criaturas sombrias como cães de guarda obedientes ao dono. Poderiam ser seres se alimentando de seu amigo, mas a luz que eles emanavam dava paz para Lázaro, que se sentiu protegido.
Lázaro abriu os olhos e viu seu amigo ainda de olhos fechados, orando, enquanto Ary abraçava Antônio, ambos chorando, enquanto os funcionários os reconfortavam. Ao colocar a mão no ombro de Adriano, ele abriu os olhos e sorriu.
– Deu tudo certo, né?
– Para os mocinhos, sim. – Lázaro retribuiu o sorriso.
– O que aconteceu com a Rebeca? – Adriano ficou sério e com um tom de voz preocupado.
– Depois eu conto. Agora eu quero saber sobre o estrago que ela fez aqui.
Antônio não fora ao hospital. Ao contrário, foi obrigado a mostrar tudo que acontecera no escritório após conseguir se recompor e falar de forma coerente, sendo convencido por todos que tudo que eles passaram fora apenas um pesadelo muito vívido. Uma coisa que estava evidente desde que Lázaro esteve no local na última vez foi a ausência dos funcionários. Quase todos ali foram demitidos por orientação de Rebeca. Os que não foram demitidos, se adiantaram e pediram demissão, restando três pessoas. Ary queria ser o último e estava fazendo a contagem regressiva, mas não cairia sozinho. Fez questão de tentar avisar ao dono do antiquário antes que ele mesmo fosse demitido após mais de uma década de trabalho no escritório e deixou claro que ficou preocupado que não desse tempo, que ele havia passado o número de telefone há dois dias e que Lázaro tivera um fim de semana todo para ligar.
Por sorte, a solução foi mais efetiva do que Ary esperava. Rebeca não estava mais entre eles e havia esperança de que o escritório voltasse a normalidade em breve. Antônio explicou o que ocorrera no período que estivera controlado pela mulher: a maioria das fraudes cometidas foram sob orientação dela e ele aceitou fazê-las de bom grado, acreditando que seria o melhor a se fazer. Porém, agora entendia que não fazia sentido algum, como o principal problema a ser resolvido naquele momento: pagar todos os impostos atrasados do antiquário. Rebeca fez questão de pegar até o último centavo depositado por Isaac no mês anterior e gastar com coisas supérfluas. No começo, ela convenceu Antônio a fazer pequenas fraudes, mas, nos últimos dois meses, ela o fez não pagar todos os impostos. Se ainda havia algum dinheiro desviado, ele estava com Rebeca, bem como os cheques entregues na sexta-feira.
Lázaro entendia que Antônio não era responsável por tudo que estava acontecendo. Não dissera, mas pensava em Sara e como Elisabeth quase matou a prima sem que ela pudesse se defender. Essa era a condição de Andreia, Sara e Antônio: vítimas de um Cavalo de Tróia que os corrompiam por dentro e não poderiam ser culpados por isso. Em um sinal de amizade, Lázaro prometeu que um empréstimo seria feito para Antônio pagar os impostos, mas exigiu que os funcionários que ainda estivessem desempregados voltassem imediatamente ao trabalho e que eles recebessem uma explicação razoável sobre a demissão, bem como um pedido formal de desculpas para todos.
Antônio agradeceu a confiança de Lázaro e se comprometeu a resolver o máximo de coisas ainda naquele dia. Era quase fim do expediente, mas os três funcionários impressionados com os eventos daquele dia prometeram se empenhar, juntamente com Antônio, a recolocar o escritório nos eixos. Lázaro e Adriano cumprimentaram os homens e saíram. Durante a viagem, Lázaro explicou ao seu amigo o que aconteceu e que não sabia se Rebeca estava viva ou morta, só esperava que ela nunca mais tentasse fazer o mal a outra pessoa.
– O que vamos fazer? – perguntou Ary.
Adriano olhou para o homem desacordado e se voltou para o amigo.
– Lázaro, não sei se é possível esperar ele voltar naturalmente. Por que você não faz o que você disse que fez com a sua prima?
– Ele está acordado, Adriano. Não sei se funciona... vai ver ele volta sozinho...
Lázaro pensou por alguns instantes que poderia ser uma armação. Rebeca não estaria mentindo pela primeira vez, aliás, poderia ter sentido que podia mentir quando o perigo passou. Ganhara a confiança sendo parcialmente sincera e, dali em diante, poderia voltar a ser falsa – quem é lobo, sempre será lobo.
– Tá bom. Vou tentar ver onde ele está. Tranque tudo, Ary.
Ary foi até o portão e o trancou, voltando correndo para dentro para ver o que aconteceria. Enquanto isso, Lázaro segurou na mão de Antônio e começou a se concentrar, enquanto todos os outros ficaram olhando. Ao abrir os olhos, ainda estava fora. Sentiu como se não houvesse para onde ir – não havia um campo de grama que se movia sem vento. Se o campo era a mente ou o espírito, ele não estava ali dentro. Abrindo os olhos, ele comentou:
– Ele não está aqui. Ela mentiu mesmo, como eu suspeitei.
Perguntas inteligíveis começaram a se misturar e rebombar em um único som cacofônico que começava a incomodar Lázaro.
– Pessoal, é complicado eu explicar agora. Estou em uma situação meio delicada aqui e preciso de tranquilidade. Prometo que se tudo der certo, vocês terão uma boa história para contar à luz de velas para sua família a próxima vez que acabar a energia na rua da casa de vocês.
Lázaro se deitou no chão e pediu para Adriano e os presentes orarem, irem ao extremo de suas fés. Se não ajudasse, também não atrapalharia. O medo estava nos olhos de todos, como se Lázaro estivesse saindo de uma zona habitável para um mundo inóspito e desconhecido. As outras situações presenciadas por Lázaro não foram menos perigosas ou assustadoras, mas cada risco enfrentado era uma nova chance de sofrer consequências piores do que a morte do corpo. Se o espírito é imortal, ele poderia sofrer eternamente um erro cometido.
De olhos fechados, Lázaro se concentrou em tentar encontrar Antônio como fizera com Sara. Em um primeiro momento, estava ao lado do seu corpo e das demais pessoas presentes no escritório. Para sua surpresa, não estavam sozinhos. Antônio parecia exalar um gás escuro pelas narinas e pequenos seres semelhantes a sombras de crianças colhiam o gás, como se o inalassem ou sorvessem. Não era possível saber por que elas não tinham nada além de uma forma de silhuetas de crianças. Apesar do susto, Lázaro não voltou ao corpo: havia novamente o sentimento de urgência que o fazia buscar fazer algo contra as criaturas em defesa de seu contador. Ao tentar socar uma das criaturas, sua mão o deformou, acertando o nada. O segundo e terceiro socos foram tão infrutíferos quanto o primeiro. Pensou que se aquele gás fosse a vida física de Antônio, ela poderia se esvair rapidamente.
Lázaro relembrou de outro momento em que houve a necessidade de agir de maneira única e extraordinária. Pensou que as luzes nas mãos contra Elisabeth em sua mente poderiam o ajudar naquele momento e, naquela ocasião, foi ao mentalizar três sentimentos que elas apareceram. Tentou novamente e as mãos brilharam com uma luz leitosa, como se as mãos estivessem envoltas de um gás esbranquiçado. Tentou um primeiro soco e a criatura teve parte de sua cabeça destruída como se também fosse feita de gás. O pequeno monstro recuou, produzindo um assovio. Os outros seres pararam de sorver o gás e recuaram, somando ao assovio do primeiro os seus próprios. O som em uníssono era incômodo, como o som de um apito agudo de fábrica. Quando Lázaro avançou para desferir um segundo soco, os seres recuaram um pouco mais, mas pareciam agir como moscas, esperando pararem de ser enxotadas para voltarem a se banquetear do homem catatônico.
Algo precisava ser feito, algo definitivo. Lázaro pensou que o ataque deveria ser intenso e seria necessária toda luz possível para destruir aquelas sombras. Imediatamente, suas mãos começaram a arder como chamas esbranquiçadas. Porém, ele começou a sentir como se estivesse entrando em um tipo de torpor, como se as chamas estivessem exaurindo sua própria essência. Adiantando-se contra os seres para terminar logo com aquele problema, três socos foram suficientes para banir os pequenos seres, que fugiram mutilados – um sem a cabeça, outro sem parte do tronco e sem um braço e o terceiro com parte do tronco destruída.
Lázaro extinguiu as chamas e tentou encontrar Antônio, sem sucesso. Parecia que, de alguma forma, Rebeca conseguira encobrir o rastro do homem. A última esperança era que ela não tivesse encoberto o próprio rastro. Concentrando-se na mulher, Lázaro teve sorte. Ela caminhava em uma rua, sozinha. Aproximando-se como se andasse, Lázaro consegui perceber que os tentáculos ainda estavam na boca da mulher. Ao tocar neles, conseguiu segurá-los e começou a puxar. Rebeca não conseguia vê-lo, mas era evidente que sentia uma interferência nos tentáculos em sua boca, e começou a tentar fugir. Provavelmente para os pedestres ao seu redor, a mulher parecia fugir de abelhas ou era simplesmente louca.
Rebeca correu pela calçada desesperada e não conseguia gritar pelo cansaço de fugir de seu adversário. Lázaro a seguia com certa facilidade, ficando cada vez mais fácil sua perseguição conforme a fraqueza que sentia ia diminuindo. Era evidente que a mulher não sabia o que estava acontecendo, garantindo uma certa vantagem para ele. Após correr cinco minutos, Rebeca parou de correr e se sentou em um ponto de ônibus. Estava exausta de correr com roupas pesadas e sapato de salto alto. Seus pés, pernas e costas doíam, o ar inspirado já não era suficiente.
Lázaro se aproximou de Rebeca e aproveitou que os tentáculos em sua boca ainda estavam proeminentes. Com um movimento certeiro, Lázaro pegou a maioria deles e segurou com força. Rebeca tentou correr outra vez, mas caiu com o puxão que Lázaro deu nos tentáculos. Ele não esperou para ver a reação da mulher e fechou os olhos. Aquela atitude era sua última esperança, pois não sabia se seria possível acessar a mente de Rebeca ou se, caso conseguisse, encontraria algo lá dentro além de algum monstro com a cara de sua inimiga. A invasão foi bem-sucedida e Lázaro conseguiu se deslocar diretamente para um local de solo rachado, como um leito de rio seco. Havia pouca luz no ambiente e eram tons de vermelho e laranja. Ele não esperou dar de cara com algum monstro e invocou novamente as luzes em suas mãos, mas com pouca intensidade, como da primeira vez.
Parado em meio aquele campo devastado, ele tentava ouvir alguma coisa. Além de um som constante como a cacofonia de uma antiga fábrica, era possível ouvir algo como um lamento ao longe, logo após uma colina. Ele correu o mais rápido que pode, reduzindo a velocidade no cume. Queria saber o que encontraria e quais desafios o esperavam.
No vale ao lado da colina era possível ver uma pessoa presa ao chão por pequenos fios brilhantes e vermelhos. Não era certeza de que ali estava Antônio, mas era possível. Enfurecido e rodeando o homem ao chão, como um cão de guarda, havia também um monstro bípede. O ser parecia uma hiena malhada andando sobre pés humanos, e tinha dois pares de seios humanos que desciam do peito ao abdômen e tentáculos com os de um náutilo no lugar da boca. O que o fez hesitar não era a aparência grotesca, mas sim as garras afiadas nas patas dianteiras do monstro e seu ferrão de escorpião que saía do cóccix e fazia um arco para baixo.
Lázaro pensou que parecia não ser a mais indicada uma abordagem silenciosa. Preferiu chamar toda a atenção para si do alto da colina e esperar que a criatura subisse com ímpeto. Conforme o monstro de Rebeca subia a colina, ele descia e ganhava velocidade. Antes de Rebeca conseguir realizar um salto completo, Lázaro pulou desferindo uma voadora dupla. A perda de apoio ao solo fez a criatura torcer a cabeça para trás e girar sobre o próprio corpo, sendo arremessada ao chão metros para trás, enquanto ele não conseguiu fazer um rolamento adequado para se levantar rapidamente e chocou-se com o solo com muita força. A vantagem para ele ao se levantar foi muito curta, garantindo apenas uma boa posição na colina, em um ponto mais alto que a sua adversária.
Ao mesmo tempo que desferia socos explosivos no monstro, Lázaro também levava golpes que lhe feriam superficialmente. Rebeca era mais hábil que Elisabeth, conseguindo se defender e atacar com mais efetividade. Lázaro sentia que a luta estava bem equilibrada e seria perigoso ficar ali por muito tempo, pois não sabia se o resto dele estava exposto àqueles seres feitos de sombra que apareceram no escritório.
Em uma tentativa arriscada, Lázaro abriu a guarda do monstro com um soco direito e enquanto desferiu o soco com a mão direita, concentrando toda energia que pode naquela mão. Pouco antes do soco acertar Rebeca, a mão brilhou como a luz de um sol pálido, explodindo ao tocar o rosto da criatura. Rebeca caiu na colina e deslizou sobre o solo rachado, enquanto Lázaro foi arremessado dois metros para trás. A luz se extinguiu e ele sentiu-se fraco, mas sabia que precisava fazer algo antes do inimigo se levantar. Antes que o combate recomeçasse, ele cambaleou até Antônio e começou a puxar fio a fio que segurava o homem ao chão. A remoção se mostrou mais fácil do que ele imaginou, provavelmente porque a prostração de Rebeca deveria ter deixado a prisão de fios tão fraca quanto ela. Após o primeiro braço ser solto, Antônio começou a ajudar a se desvencilhar.
– Meu Deus, Lázaro! O que está acontecendo? Você precisa me salvar daqui.
– Estou aqui para isso, seu Antônio. Vamos sair daqui juntos.
Pouco a pouco, Lázaro retirou os fios do braço de Antônio e ambos, juntos, retiraram os fios das pernas. O monstro já gemia há alguns minutos enquanto os dois conseguiram ficar de pé e Lázaro, segurando a mão de Antônio, o levou de volta para a rua. Ao verem novamente pessoas andando, prédios e carros, Antônio mostrou-se horrorizado e Lázaro teve um segundo para ver a fonte do pavor do contador antes de ser puxado de volta para o escritório: Rebeca estava caída, com os olhos encarando o vazio e com saliva esbranquiçada saindo de sua boca. Algumas pessoas a rodeavam, provavelmente tentando ajudar.
De volta ao escritório, Lázaro continuou fora de seu corpo enquanto Antônio acordou assustado. Antes que ele mesmo pudesse voltar ao próprio corpo, teve mais uma visão inesperada, mas reconfortante de que nenhum dos seres de sombras estavam perto de Antônio. Percebeu que havia alguns seres, sem forma definida, sobrevoando o ambiente e flutuando sobre a cabeça de Adriano. Da cabeça do amigo exalava algo semelhante a um gás branco que subia em direção ao teto e era incorporado àquelas formas que pareciam ser aladas. De alguma forma, os dois seres repeliam as criaturas sombrias como cães de guarda obedientes ao dono. Poderiam ser seres se alimentando de seu amigo, mas a luz que eles emanavam dava paz para Lázaro, que se sentiu protegido.
Lázaro abriu os olhos e viu seu amigo ainda de olhos fechados, orando, enquanto Ary abraçava Antônio, ambos chorando, enquanto os funcionários os reconfortavam. Ao colocar a mão no ombro de Adriano, ele abriu os olhos e sorriu.
– Deu tudo certo, né?
– Para os mocinhos, sim. – Lázaro retribuiu o sorriso.
– O que aconteceu com a Rebeca? – Adriano ficou sério e com um tom de voz preocupado.
– Depois eu conto. Agora eu quero saber sobre o estrago que ela fez aqui.
Antônio não fora ao hospital. Ao contrário, foi obrigado a mostrar tudo que acontecera no escritório após conseguir se recompor e falar de forma coerente, sendo convencido por todos que tudo que eles passaram fora apenas um pesadelo muito vívido. Uma coisa que estava evidente desde que Lázaro esteve no local na última vez foi a ausência dos funcionários. Quase todos ali foram demitidos por orientação de Rebeca. Os que não foram demitidos, se adiantaram e pediram demissão, restando três pessoas. Ary queria ser o último e estava fazendo a contagem regressiva, mas não cairia sozinho. Fez questão de tentar avisar ao dono do antiquário antes que ele mesmo fosse demitido após mais de uma década de trabalho no escritório e deixou claro que ficou preocupado que não desse tempo, que ele havia passado o número de telefone há dois dias e que Lázaro tivera um fim de semana todo para ligar.
Por sorte, a solução foi mais efetiva do que Ary esperava. Rebeca não estava mais entre eles e havia esperança de que o escritório voltasse a normalidade em breve. Antônio explicou o que ocorrera no período que estivera controlado pela mulher: a maioria das fraudes cometidas foram sob orientação dela e ele aceitou fazê-las de bom grado, acreditando que seria o melhor a se fazer. Porém, agora entendia que não fazia sentido algum, como o principal problema a ser resolvido naquele momento: pagar todos os impostos atrasados do antiquário. Rebeca fez questão de pegar até o último centavo depositado por Isaac no mês anterior e gastar com coisas supérfluas. No começo, ela convenceu Antônio a fazer pequenas fraudes, mas, nos últimos dois meses, ela o fez não pagar todos os impostos. Se ainda havia algum dinheiro desviado, ele estava com Rebeca, bem como os cheques entregues na sexta-feira.
Lázaro entendia que Antônio não era responsável por tudo que estava acontecendo. Não dissera, mas pensava em Sara e como Elisabeth quase matou a prima sem que ela pudesse se defender. Essa era a condição de Andreia, Sara e Antônio: vítimas de um Cavalo de Tróia que os corrompiam por dentro e não poderiam ser culpados por isso. Em um sinal de amizade, Lázaro prometeu que um empréstimo seria feito para Antônio pagar os impostos, mas exigiu que os funcionários que ainda estivessem desempregados voltassem imediatamente ao trabalho e que eles recebessem uma explicação razoável sobre a demissão, bem como um pedido formal de desculpas para todos.
Antônio agradeceu a confiança de Lázaro e se comprometeu a resolver o máximo de coisas ainda naquele dia. Era quase fim do expediente, mas os três funcionários impressionados com os eventos daquele dia prometeram se empenhar, juntamente com Antônio, a recolocar o escritório nos eixos. Lázaro e Adriano cumprimentaram os homens e saíram. Durante a viagem, Lázaro explicou ao seu amigo o que aconteceu e que não sabia se Rebeca estava viva ou morta, só esperava que ela nunca mais tentasse fazer o mal a outra pessoa.
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