quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 36


35 
     Do telefone público perto do pronto-socorro, Lázaro ligou para o escritório de contabilidade.
     – A. R. Contabilidade, bom dia. – Era uma voz de mulher.
     – Bom dia, eu quero falar com o seu Ary.
     – E quem fala?
     – José de Souza.
     – Vou chamá-lo.
     Lázaro tinha quase certeza que aquela voz inexpressiva era de Rebeca e se ela realmente estava fazendo algo errado, não gostaria de ouvir o nome de Lázaro. De maneira automática, optou em usar o mesmo nome que seu pai ao falar como Pai.
     – Bom dia. Aqui é o Ary.
     – Ary, é o Lázaro. Não fala nada, me escuta e finja que está tudo okay na ligação. Eu acho que sei o que você queria me dizer.
     – Certo.
     – Eu quero saber algumas coisas. Só responda com sim ou não. A Rebeca está fazendo algo de errado no escritório?
     – Sim. – Ary demonstrava em sua voz estar perplexo.
     – De alguma forma, o que ela está fazendo prejudica a minha loja?
     – Sim.
     – Mais alguém além de você sabe, como o Antônio, mas não faz nada ou até mesmo está ajudando?
     – Sim, sim, sim.
     – Hmmm... agradeço a atenção. Você acha que essa ligação pode te prejudicar?
     – Não, senhor. Já estou resolvendo isso.
     – Obrigado, seu Ary. Até mais.
     – Até.
     Lázaro desligou o telefone e foi para o ponto do ônibus que iria deixá-lo próximo ao antiquário. Ele aproveitou a viagem para começar a juntar as peças: Rebeca, Anahí e Elisabeth. As três mulheres tinham algo de sobrenatural e estavam envolvidas em eventos negativos da vida de Lázaro. O quarto ator sobrenatural e que estava fora de cena era Luis, mas ele apenas supunha de que os quatro estavam envolvidos.
     Ao chegar no centro, Lázaro caminhou por alguns minutos até o antiquário, onde encontrou Adriano terminando de almoçar, sentado atrás do balcão. Ao ver o amigo chegando, ele se levantou rapidamente e foi recebe-lo à porta com um aperto de mão apertado.
     – Então, como ela está? – Adriano tinha otimismo na voz.
     – Olha, está bem... – Lázaro sorriu, enquanto se sentava em um banco. – O difícil foi buscá-la na Inglaterra.
     – Quê? Como assim? – Adriano franziu o cenho.
     Lázaro contou tudo que ocorreu desde a última vez que eles se viram e, a cada evento, Adriano ficava mais admirado.
     – E o seu anel? Cadê ele?
     – Está com Sara. Eu entendi que cada coisa tem sua função. Com a lupa você vê o que não se pode ver com os olhos, a borduna corta o que não se pode cortar com uma faca, e o anel protege quem o usa do sobrenatural. Eu não sei como, mas sei que algo nele protege o portador. Algum tempo depois que minha mãe me deu, ela descobriu o câncer. Eu não via relação nisso, mas agora entendo. Ela me deu por medo de que ocorresse algo comigo. Ela me protegeu, mas ficou vulnerável. Eu sempre culpei meu pai por não ter ajudado minha mãe, como se ele pudesse impedir que o câncer se alastrasse, mas agora eu entendo que ele não podia fazer nada, exceto se ele vendesse a Bússola de Acre.
     – E onde entra sua prima nessa história?
     – Luis disse que nos veríamos de novo. Vai ver ele não queria dizer ele diretamente, mas seus arautos, no caso, essas mulheres que vieram para me prejudicar. Ele mandou Elisabeth, se esse era o nome dela, para afetar minha prima, pois sabia que eu só tenho ela... desde que Sara e Elisabeth se conheceram, minha prima só emagreceu, enquanto a falsa estrangeira só engordou no mesmo período. Eu imagino que a minha prima poderia ter morrido por isso. Eu fui agredido pelo meu ex-vizinho porque a filha dele disse que eu tinha abusado dela. Tenho quase certeza que Anahí deu essa ideia para Andreia. Creio que se não fosse Ieda, eu poderia ter me prejudicado de verdade. A última cartada deve ser essa Rebeca tentando prejudicar a loja.
     – Mas como ela pode estar prejudicando a loja? E o que vamos fazer? – os olhos de Adriano brilhavam de expectativa.
     – Vamos voltar lá e ver o que está acontecendo.
     – Quando?
     – Agora, se puder. Quero resolver essa história da loja hoje, antes da Sara sair do hospital. Eu só preciso trocar de roupas.
     – Eu vou arrumar tudo aqui para sairmos. – Adriano não se continha em contentamento.
     Lázaro foi até o banheiro, onde não era possível tomar um banho, mas era possível ficar apresentável. Ele lavou os braços e pernas na pia, trocou as roupas e colocou as roupas sujas na mesma sacola. Ao sair, as portas da loja já estavam cerradas e apenas uma pequena porta estava aberta. Deveriam ser rápidos para evitar transtornos com clientes.
     Adriano o aguardava ao lado da porta, segurando um grande tubo de papelão com duas tampas plásticas.
     – O que é isso aí? – Lázaro perguntou enquanto Adriano estendia o tubo em sua direção.
     – Eu achei melhor pegar a borduna também. Eu tive uma sensação que tinha que pegar.
     – Que bom. Poupamos viagem. Eu ia pedir para buscarmos agora.
     Depois de tudo pronto, ambos entraram no carro de Adriano e partiram. Aproveitando da situação, Adriano pôs Lázaro informado sobre as vendas feitas no antiquário, das pessoas que se diziam conhecidas de Isaac. Alguns eram conhecidos de Lázaro, mas que ele não via há muitos anos. Lázaro ouviu a tudo, mas era nítido que não se importava realmente com o que acontecia com a loja e com esses antigos clientes – defender a loja era defender os interesses de Adriano e a memória do pai.
     Qualquer um diria que era ingratidão ele desdenhar de tudo que a herança poderia proporcionar – a casa, o dinheiro –, provavelmente alguém pensaria isso se conseguisse ignorar que ele não dependia do pai desde os dezoito anos e tinha como pagar as próprias contas sem a herança. Além disso, se estivesse correta sua hipótese, o que era para estar presente em sua vida eram os pais, e não o dinheiro deixado por eles. Pensou se alguém trocaria os pais por qualquer fortuna e Lázaro acreditava que não.
     Ao chegar no escritório, ele não esperou Adriano parar o carro e saiu, encontrando a porta de entrada apenas encostada e, então, entrou. Adriano não queria que o amigo fosse sozinho e tentou estacionar o mais rápido possível.
     – Já começou? – Adriano estava ofegante.
     – Não. O Ary foi chamar o Antônio.
     Ary fora até a sala e depois voltou aos seus afazeres. Antônio demorou alguns minutos e, quando apareceu, estava ao lado de Rebeca.
     – Boa tarde, seu Antônio.
     – Boa tarde. O que vocês precisam? – Antônio fazia a pergunta mecanicamente, sem real interesse em ajudar.
     – Eu vim fazer uma desparasitação. – Lázaro enfatizou a última palavra.
     Houve alguns segundos de silêncio. Adriano olhou para Rebeca, que tinha algo diferente no habitual olhar blasé após o comentário de Lázaro.
     – Eu não entendi. – Antônio olhava Lázaro e Adriano com dúvida e um leve desprezo.
     – Mas eu te explico... – Lázaro não conseguiu esconder em sua voz sua alegria – Minha amada prima estava muito doente e acredito que o senhor saiba... então, ela voltou da Inglaterra por que os médicos de lá já não sabiam mais o que fazer para ajudá-la... ela perdeu mais de quinze quilos. – Lázaro fez uma pausa dramática – Alguém aqui consegue imaginar o que acontece com uma pessoa que perde quase um quarto de seu peso natural? Não, né? Eu vou dizer.
     Enquanto falava, Lázaro olhava para todos os rostos ali presentes, tentando decifrar cada um dos semblantes: Ary e Adriano estavam atentos e curiosos, enquanto Antônio e Rebeca tentavam fingir indiferença, apesar de Antônio estar confuso com o monólogo. Outros dois funcionários também estavam confusos, mas também estavam curiosos.
     – Ela quase morreu, quase definhou até o último suspiro. Por sorte, ela tem a mim, um primo que a ama como a si próprio. Eu fucei ali e aqui e o que encontrei? – Lázaro sacudiu o indicador. – Um parasita. Sabe o que é mais interessante, seu Antônio? O senhor tem um também. É por isso que eu vim aqui, eu vim lhe ajudar.
     Lázaro levantou o tubo de papelão e retirou a tampa, deixando deslizar o cabo da borduna e a retirando por completo. Rebeca estava visivelmente horrorizada.
     – O que é isso, Lázaro? Você está maluco? – Antônio começava a gritar, se afastando. 
     O tom brincalhão de Lázaro sumiu, dando espaço a um tom firme e agressivo. 
     – Maluco? Claro que não. E você sabe disso, não é, Rebeca? Aliás, o seu nome é Rebeca mesmo? A Elisabeth, que o diabo a tenha, eu tenho certeza que não tinha esse nome.
     Rebeca começou a demonstrar finalmente algum sentimento em sua voz, pedindo ajuda para Antônio. Entrementes, Lázaro atravessou o balcão e começou a seguir em direção ao casal. Ary ficou olhando, assustado. Quando pensou em pegar o telefone, Lázaro acenou, desencorajando-o.
     – Vai dar tudo certo, gente, o único que morre no processo é o parasita. – Voltando-se para Rebeca, disse, sarcástico. – Ah é, Rebeca, você é o parasita.
     Rebeca correu para dentro da sala de Antônio e trancou a porta. Antônio avançou contra Lázaro que o derrubou com facilidade para Adriano imobilizar. Com o cabo da borduna, Lázaro bateu na porta.
     – Rebeca, eu vou contar até três. Se você não destrancar essa porta, eu corto esse fiozinho vermelho que está passando aqui e você virará fuligem em uns dez minutos. Garanto que serão dez minutos de agonia.
     – O que você quer de mim? – Rebeca falava com pavor.
     – Que você liberte o Antônio e suma daqui. Ah, claro, eu quero saber tudo o que está acontecendo.
     Percebendo que Lázaro estava em posição de vantagem, Rebeca abriu a porta. Lázaro se afastou da porta e deixou a mulher voltar ao centro do escritório.
     – O que você quer saber? – Rebeca ainda tinha a voz embargada pelo medo.]
     – O que você fez com o Antônio?
     – Eu só o fiz se apaixonar por mim.
     – E onde o Luis entra nessa história? Sim, eu conheço o Luis e você sabe que eu conheço ele.
     Lázaro blefou, mas tinha esperança que daria certo.
     – Ele é quem diz o que devemos fazer. Ele manda e nós obedecemos.
     – Vocês quem? Quem são e quantas são?
     – Somos três... quer dizer, agora somos duas. Eu sei que elas existiam, mas não tivemos muito contato.
     – Não mesmo? – Lázaro tocou o fio vermelho com a borduna.
     Rebeca, apavorada, se ajoelhou.
     – Como você fez isso...? Eu juro, eu juro que não nos conhecemos. Eu só as vi uma vez e faz mais de um ano.
     – Aonde?
     – É um prédio em uma cidade longe daqui. Luis nos levou, mas todas ficamos em silêncio. Só podíamos conversar com ele.
     – E os nomes? Qual é o seu nome?
     – O meu nome era Fátima, mas ele me fez mudar. Era como um batismo. Acho que todas mudaram seus nomes.
     – E esse fio, onde você aprendeu a usá-lo?
     – No batismo, cada uma ganhou o seu fio. Ele brincou, dizendo que seríamos “pescadoras de homens” ... mas eu só queria uma vida melhor.
     – Só que fez a escolha errada em querer uma vida melhor destruindo a minha. Pegue de volta o seu fio, e seu eu ver você perto de qualquer coisa que tenha a ver comigo, minha prima ou as pessoas que são próximas a mim, eu não te darei outra oportunidade de se redimir. Pegue esse lixo e suma.
     Rebeca foi até Antônio, que estava consciente, mas caído no chão, e lhe deu um beijo. Quando terminou, o fio não existia mais, mas Lázaro viu vários pequenos tentáculos se recolhendo para dentro da boca da mulher. Enquanto isso, todos sentiram uma pressão no ar e um incomodo nos ouvidos quando ela deu o beijo. Rebeca se levantou e deixou Antônio no mesmo lugar, catatônico.
     – Ele vai precisar de alguns minutos para voltar a si, mas vai acordar. – Rebeca pegou a bolsa e ia saindo.
     – Imagino que você não está arrependida. – Lázaro disse, olhando para as costas da mulher. 
     Rebeca parou por um instante. 
     – Estou apenas vivendo a minha vida. Nesse mundo, ou você é lobo ou é cordeiro.
     Lázaro e as outras pessoas ficaram em silêncio. Adriano estava admirado, enquanto os demais não conseguiam esconder o terror da situação.
     – Eu prometi que você iria embora após libertar o Antônio. Vai em paz e suma daqui.
     Rebeca saiu pela porta e nem olhou para trás. Não deu uma última olhada, como as pessoas fazem quando vão embora de um lugar que não retornarão e, logo que ela saiu do campo de visão de todos, Ary foi ao encontro de Antônio. O patrão ainda estava catatônico e não respondia a nenhum estímulo.
37
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário