quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 35


34 
     Lázaro sentou-se na beira do chafariz e ficou olhando as pessoas passando, enquanto elas mesmas olhavam aquele homem sujo de fuligem e com o rosto inchado: a intenção ali, após tantos anos, era afastar maus pensamentos. Ele dificilmente encontraria ex-colegas caminhando no campus, mas o próprio campus lhe fora um amigo durante o tempo em que estudou ali. Ele sabia que existia muitos lugares para desligar-se do mundo na universidade, lugares com uma árvore para apoiar as costas e ler um bom livro ou, simplesmente, contemplar o mundo. Era necessário naquele momento um amigo para deixá-lo mais tranquilo para agir frente às dificuldades.
     Deduzindo que o horário de visita já havia começado, Lázaro voltou ao pronto socorro. O caminho era longo a pé e ele faria desta maneira, saindo da praça do ciclo básico, ladeando alguns prédios da universidade, atravessando a Praça da Paz, os prédios da reitoria e a pequena rua Carlos Chagas. De longe, ele viu que um grupo de pessoas se organizava em uma fila na porta do pronto-socorro e, ao chegar, assumiu sua posição no final dela. Após quase dez minutos esperando, Lázaro foi autorizado a entrar e visitar a prima, apesar da mesma ainda estar desacordada.
     Sentado ao lado de Sara, Lázaro começou a pensar o que faria. Se segurasse a mão dela, poderia entrar naquele local onde havia o poço. Não conseguiu imaginar como isso poderia ajudá-lo a trazê-la de volta. Preferiu tentar fazer o mesmo que fizera deitado no teatro. Em posição de oração, ele se concentrou em estar no mesmo lugar que o espírito de Sara, e assim o fez. Em um instante, estava ao lado da prima no local de treino. Ela continuava com movimentos repetitivos com sua estranha arma que não existia de verdade.
     – Sara, vamos. – disse Lázaro, segurando o braço da prima.
     – O que você está fazendo aqui? – perguntou Sara, inexpressiva.
     – Eu vim aqui há duas horas te buscar. Agora você vai.
     – Eu estou treinando. – disse ela.
     Estava acontecendo tudo quase da mesma forma que ocorreu na primeira tentativa, como se a mente de Sara estivesse em looping de algo que estava habituada a fazer, e ele pensou que talvez fosse uma proteção à própria realidade. Na primeira tentativa, Lázaro não teve coragem de tentar puxá-la e acabar perdendo o espírito dela em algum lugar que nem ele e nem ela conheceria. Porém, estando ambos juntos fisicamente e espiritualmente, havia esperança que seria possível puxá-la para o local correto, mesmo que fosse uma viagem de um instante. Desejando voltar ao pronto-socorro, Lázaro se viu novamente ao lado de seu corpo. O espírito de Sara ao seu lado ficou parado, olhando o seu entorno e relembrando eventos comuns para ela e o primo.
     Lázaro manteve sua mão no braço de Sara, impedindo que ela saísse do lugar. Porém, estava sem ideias do que poderia fazer para acordá-la. Achou melhor tentar algo que lhe pareceu estúpido, mas não tinha mais ideias: puxou a mão esquerda da prima e a encostou sobre a mão física esquerda dela. Sara girou no ar e começou a sobrepor corpo e espírito, até ficar totalmente alinhado. Aquele evento inédito e assustador o convenceu que havia dado certo. Novamente consciente, Lázaro viu que ela ainda estava deitada, mas imóvel, e gemia sem abrir a boca. Para Lázaro, era um bom sinal. Sara deveria estar acordada, mas ainda incapaz de se mover. Então, ele chamou uma enfermeira.
     – Sua prima está agitada desde quando? – a enfermeira começou a arrumar o estetoscópio e colocar o esfigmomanômetro em Sara para aferir a pressão.
     – Ela não está agitada, ela está tentando acordar. – Lázaro foi enfático em sua colocação.
     – Não parece que ela está acordada. Vou pedir para o médico vir aqui.
     Enquanto a enfermeira se afastou, Lázaro se pensou que, se fosse sedada, Sara poderia se perder novamente pelo mundo. Claro que nada poderia ocorrer, mas muitas coisas que não deveriam existir se mostravam reais nos últimos dias. Para tentar acordar a prima, ele começou a sacudi-la com intensidade pelos ombros. Por sorte, antes que o médico aparecesse, Sara acordou, assustada.
     – Quê? Que foi? – Sara estava confusa.
     – Pode descansar, Sara. Só não dorme de novo. – Lázaro sorriu para a prima.
     – Onde eu estou?
     – No hospital. Você desmaiou ontem à noite.
     – Cadê a Lilly?
     – Sara... esqueça a Lilly, ela foi embora.
     – Do que você está falando?
     – Ah, acordou. – disse o médico, ao se aproximar da cama. 
     Sara e Lázaro pararam de falar e tentaram assumir uma postura mais descontraída. 
     – Sim. – Sara sorriu forçadamente. – Eu acho que dormi muito.
     O médico mediu os batimentos e a temperatura de Sara, assim como verificou a reação das pupilas ante a luz e se havia algum problema em sua coordenação motora. Tudo estava aparentemente bem e Sara provavelmente seria liberada no mesmo dia.
     Quando o médico se afastou, Lázaro começou a explicar tudo, desde o começo. Explicou o que era o poço e como ele, de alguma forma, servia como canal ligando as duas mulheres. Compartilhando informações entre eles, Lázaro percebeu que as mudanças físicas de Sara e de Elisabeth aconteceram quando ambas se conheceram. Aos poucos, seu paladar desapareceu e seu peso diminuiu em quase um terço, enquanto Lilly ganhara peso a olhos vistos.
     Enquanto discutiam, Lázaro percebeu que a prima ficou abatida com as informações adquiridas sobre o mal que Elisabeth lhe causara durante o tempo que viveram juntas. Seus olhos ficaram vermelhos e ela não conseguia conversar sem tremer a voz. Lázaro decidiu ficar quieto ao lado dela, acariciando seus cabelos, como quando eram crianças e ela começava a chorar. Pouco antes de terminar o tempo da visita, Lázaro retirou o anel que era herança de sua mãe e colocou-o no dedo médio da mão da prima. Apesar do dedo anelar de Lázaro estar bem mais grosso do que o médio de Sara, o anel coube perfeitamente.
     – Não tire esse anel por nada neste mundo. Okay? – Lázaro segurou com firmeza a mão direita da prima.
     – Esse é o anel da sua mãe?
     – Sim. Era aquele que ela sempre usava, até ela me dar, quando eu era criança.
     – Não lembro quando ela deu.
     – Foi algum tempo antes dela descobrir que tinha câncer...
     Lázaro mudou seu semblante de consolador para introspectivo. Olhava para o vazio, como se pensasse em algo muito sério.
     – Que foi, Lázaro? – Sara ficou preocupada.
     – Nada. Bem, vou deixar você descansar e ver como está lá em casa. Tenho certeza que você estará lá comigo ainda hoje.
     – Com a ajuda de deus! – respondeu Sara em hebraico, sorrindo.
     – Sim. – Lázaro sorriu com a empolgação de Sara. O otimismo da prima ajudaria a superar a partida de Elisabeth facilmente.
     Lázaro beijou a testa da prima, colocou a bolsa dela ao lado da cama e saiu. Ele mentiu para a prima ao dizer que não havia nada em mente, pois havia um pensamento que ofuscava a todos os outros: havia duas mulheres com fios vermelhos e que lhe causavam sensações ao serem tocadas, porém, havia uma terceira mulher que ainda não tinha sido visitada e era necessário investigá-la para saber se ela também tinha o tal fio. 
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