quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 34


33 
     Lázaro explicou para Adriano tudo desde o começo, até mesmo as coisas que já dissera ao amigo: dos sonhos com os objetos e como passou a conhecer suas habilidades. Naquela noite, a bebida tinha lhe ampliado a visão, algo que aparentemente Isaac já esperava. Na primeira vez, o efeito da adrenalina possibilitou que ele visse o fio em Andreia; naquela noite, ele vira um fio saindo da cabeça da prima e indo para a cabeça de Elisabeth. Sabendo disso, entrou na mente ou em algum lugar dentro de Sara e invadiu a parasita. Ao pular no poço e sair em outro, fora atacado por uma criatura que sugava a névoa dourada que ele entendia ser a essência de sua prima.
     Após voltar ao seu corpo, percebeu que o ataque ao monstro era um ataque a própria mulher e, por isso, ela estava debilitada e com tanta raiva. A última coisa a se fazer era impedir de vez o roubo da essência de Sara. O problema era que o poço dentro de Sara não era algo que fazia parte dela, mas era inserido ali por Elisabeth. Quando o elo foi destruído, tudo que fazia parte do fio foi destruído, inclusive o poço que estava dentro de Sara. Por sorte, ela não queimou como Elisabeth, mas deveria ter sofrido algum dano para além da pequena queimadura na têmpora. Lázaro falava tudo a partir de especulações, mas era a explicação mais coerente para ele.
     – Mas como a Elisabeth queimou? Como uma fogueira?
     – Parecia que era feita de pólvora. Só restou fuligem.
     Adriano ficou espantado e sentiu um arrepio. A bondosa Elisabeth era uma mentira bem contada em todos os detalhes.
     – Não sei sobre tudo, mas ela não era alemã, não mesmo. Quando ela me atacou, ela falava com um nítido sotaque paulistano.
     – Por que ela fez isso?
     – Ainda não sei, mas ela não é a única que tinha o fio. Preciso interrogar a Anahí e descobrir o que está acontecendo.
     Lázaro teve uma iluminação. Tinha certeza que não eram coincidências. Havia duas pessoas conhecidas por ele e que estavam ligadas por meio de fios vermelhos. O problema era saber se as ligações foram criadas por vontade de Andreia e Sara ou, como ele suspeitava, foram criadas sem o consentimento delas. Além disso, precisava saber se havia mais pessoas com esses fios.
     – Adriano. Preciso saber se você não está com o fio vermelho. Dê suas mãos. Vamos fingir que estamos rezando.
     Adriano estava constrangido com a situação, mas o medo era maior, fazendo-o aceitar.
     Ao fazer em Adriano o mesmo que fizera em Sara, Lázaro não conseguiu na primeira vez: havia um inexplicável bloqueio. Tentou mais algumas vezes até se ver em um lugar semelhante. No chão, o que parecia grama possuía vários tons de verde, dourado e prata, e ainda havia algo semelhante a um bosque. Lázaro examinou o lugar procurando um poço ou a névoa, mas não havia nada semelhante. O lugar era convidativo, com objetos semelhantes a frutos maduros em cores vivas, mas como não encontrara nada de suspeito, terminou por ali.
     – Então? – perguntou Adriano ao ver Lázaro abrindo os olhos.
     – Não tem nada de estranho. Acho que você não é uma vítima de algum parasita.
     – Que bom. – Adriano sorriu.
     – Acho que você pode ir embora, não creio que haja muito o que fazer agora... aliás, tem sim. Eu preciso que você pegue a lupa que está no quarto que eu estou dormindo na casa do meu pai e fique com você. Se possível, pendure-o na cara.
     Lázaro entregou o próprio molho de chaves.
     – Esta abre o portão e, esta, a porta. – Lázaro mostrou as chaves para Adriano tentar memorizá-las. – Pegue também umas roupas minhas e ponha numa sacola. Pode ser alguma que esteja por cima da cama, tanto faz. Se te perguntarem o que está fazendo lá, diga que veio pegar roupa para eu passar a noite.
     Adriano se despediu e foi fazer o que lhe foi pedido, enquanto Lázaro ficou esperando informações sobre Sara. No meio da madrugada, uma funcionária fez muitas perguntas sobre o que acontecera na sua casa. Lázaro respondeu quase todas – aquelas que envolviam o incidente ele dizia “não sei, foi tudo muito rápido”. Sara ainda estava desacordada e poderia demorar algumas horas até mudar seu quadro. Por sorte, ela não tivera convulsões ou precisou ser entubada, sinais que reconfortavam Lázaro, mesmo não entendendo muito sobre o quadro clínico. Ele entendia que era como um desmaio e se apegava a essa ideia por ser a mais simples e de fácil tratamento.
     Adriano voltou cerca de uma hora depois com as roupas e a lupa.
     – Você fica com a lupa. Eu só preciso das roupas. – Lázaro retirou a lupa de dentro da sacola e entregou para Adriano.
     – Tem certeza?
     – Absoluta.
     Lázaro podia ver a lupa brilhando na mão de Adriano, como se fosse fluorescente, e ficou contente com aquela visão. A cada instante, parecia ficar mais óbvio que sua capacidade de ver coisas com poderes sobrenaturais ficava mais natural, mesmo que em situações normais ainda não fosse tão simples. Naquele instante, ainda abalado com o que acontecera com Sara, seu senso de perigo deveria ter contribuído para sua visão.
     Não havendo mais como ajudar, Adriano partiu, enquanto Lázaro ficou esperando amanhecer.

***

     De manhã, quando o horário de visita começou no hospital e grupos de pessoas, que chegaram horas antes, começavam a entrar no prédio, Lázaro tentou visitar Sara, ainda desacordada.
     – Ela está aqui no pronto socorro? – perguntou a recepcionista que entrara para o turno da manhã.
     – Sim, está estável, mas não acordou ainda. – Lázaro tentou expressar grande preocupação para comover a mulher.
     – Então, é que aqui as visitas só começam daqui três horas.
     Lázaro olhou para o relógio na parede. Ainda eram oito horas e ficar três horas ali com fome seria difícil. Ele saiu caminhando pela calçada e, enquanto procurava por alguma lanchonete aberta, sentiu um cheiro agradável para ele: o cheiro de óleo quente e usado muitas vezes.
     – Bom dia. – disse Lázaro à mulher em uma lanchonete.
     – Oi, bom dia. Você queria comprar algum salgado?
     – Sim. Vocês estão funcionando? É que eu senti o cheiro do óleo quente...
     – Ainda não, mas daqui a pouco eu vou fritar alguns salgados. Você pode esperar?
     – Posso, posso. – disse Lázaro, enfático.
     Lázaro se sentou em um banco de concreto próximo e ficou esperando. O cheiro do óleo era suficiente para fazê-lo sentir mais fome, dando-lhe uma percepção de que demorava muito para ficar pronto.
     – Que cheiro bom. – Lázaro tentou puxar assunto para evitar ficar pensando na fome.
     – Ah... antigamente eu achava muito bom mesmo, mas me acostumei. Era até perigoso eu comer meus próprios salgados – a mulher riu e continuou. – Aqui na área do hospital é o cheiro mais comum, sabe? Quando bate as nove, dez da manhã, dá para sentir o cheiro de longe. Todo mundo aqui vende salgado e frita na hora. Teve um rapaz que estuda lá na faculdade de medicina que disse que quando a fome bate, o cheiro puxa ele pra cá.
     Lázaro sorriu para a mulher e, após comprar os salgados e comê-los a caminho do pronto socorro, pensou a respeito daquele comentário sobre o estudante.
     Havia muitas pessoas esperando para visitar seus parentes no pronto-socorro. Conversavam entre si e faziam muito barulho, levando Lázaro a pensar em um lugar mais tranquilo para ficar. Lembrou de um pequeno teatro ao ar livre que ficava dez minutos dali, depois dos prédios da reitoria. Ao chegar no lugar, havia apenas algumas pessoas fazendo caminhada no entorno da praça na qual ficava o teatro. Ele deitou e pôs a bolsa de Sara e sua sacola de roupas sob sua cabeça e se concentrou na prima, desejando estar com ela naquele momento. Se sua mente pode viajar da mente da prima para a mente de Elisabeth, ele acreditava que, de alguma maneira, poderia encontrar novamente a mente dela, mesmo que à distância.
     Lázaro sentiu-se diferente de quando entrou na mente de Sara e Adriano pelo contato físico. Ao olhar em volta, percebeu que estava em um lugar semelhante a um galpão, e não o quarto do pronto-socorro, como ele suspeitou que seria. O chão era de madeira envernizada e havia algumas pessoas treinando com espadas, sabres e florestes. Em meio àquelas pessoas, estava Sara, treinando sozinha com uma espada.
     – O que você está fazendo aqui? – perguntou Sara, com um olhar fixo e um semblante inexpressivo.
     – Eu vim te buscar. – Lázaro pegou no braço de Sara e tentou puxá-la.
     – Estou treinando.
     Lázaro ficou preocupado com a relutância da prima. Havia conseguido encontrar a mente dela, mas não sabia o que fazer dali em diante. Olhando atentamente, ele percebeu que o local era real, e não uma criação da mente de Sara e, assim, entendeu que ele não estava dentro da mente dela, mas sim que a mente dela estava em algum lugar do mundo. Lázaro tentou ouvir as conversas das pessoas em volta – elas falavam em inglês. “Deve ser Carlisle, onde ela morava”, pensou. Ele pensou também que, se ela estava ali acreditando estar consciente no corpo, poderia ser impossível simplesmente puxá-la pelo braço em uma viagem instantânea como a que ele fez da praça para aquele lugar de treino. Precisava fazer algo, mas se sentiu sendo puxado.
     Quando Lázaro abriu os olhos, um homem fardado estava o chamando.
     – Acorda.
     – Olá... desculpa.
     – Não pode dormir aqui, senhor.
     – Desculpa mesmo. Estou desde ontem acordado por causa da minha prima que está no pronto-socorro...
     – Eu sei que muita gente fica esperando parente lá, mas é melhor o senhor dormir no carro.
     – É que eu vim na ambulância com ela e eu não tenho mais parentes vivos para ficarem aqui no meu lugar. – Lázaro tentou dizer com uma voz embargada.
     O segurança fez um breve silêncio. O argumento de Lázaro fora muito triste.
     – Ninguém? – perguntou o segurança.
     – Ninguém. Éramos meu pai, ela e eu, mas ele morreu duas semanas atrás. – Lázaro enfatizou a cena com a mão, apontando para o pronto-socorro, como se não tivesse mais forças para agir. – Já estava difícil porque os médicos não sabem que doença ela tem. Agora, esse incêndio em casa... você acredita que ela emagreceu mais de quinze quilos, teve que largar o emprego de babá e tudo? – Lázaro começou a falar como alguém que acumulava muito sofrimento e que, naquele instante, tinha encontrado alguém para dizê-los.
     O segurança engoliu seco. Realmente Lázaro ainda cheirava a pólvora queimada e tinha um pouco de fuligem em seu corpo, o que fez o homem se compadecer.
     – Olha, senhor. A gente tem ordem de não deixar ninguém dormir por aí...
     – Tá certo, eu entendo. Eu vou esperar o horário de visita para ver se deixam eu ver minha prima. O senhor tem horas?
     – É quase dez... olha, você não quer tomar um café? Ali na guarita a gente tem garrafa térmica. Aí você dá uma acordada.
     – Olha que eu aceito, sim. Obrigado. – respondeu Lázaro, forçando um sorrindo.
     Lázaro acompanhou o segurança e bebeu um copo de café. O homem perguntou algumas coisas para Lázaro, e ele respondeu com algumas informações que ajudavam apenas a entender a história. Até a lesão no rosto foi explicada desta forma, sendo descrita como uma luta contra um cara que invadiu sua casa. Logo após tomar o café, Lázaro agradeceu e disse que voltaria a esperar pelo horário de visita e o segurança desejou melhoras para ele e para Sara antes de sua partida.
     Ainda havia mais de uma hora antes do horário de visita e Lázaro estava cansado de esperar na entrada. Preferiu caminhar próximo ao grande chafariz que havia na praça central da universidade. Era possível ver jovens estudantes caminhando pela praça, seguindo inúmeros destinos. Cada pessoa, em particular, vivendo sua vida e, com certeza, ignorante aos mistérios que Lázaro passara a enfrentar nas últimas semanas. Se Lázaro fosse um deles, estaria totalmente convicto de que a realidade é formada por coisas sólidas e que se desmancham ao vento, assim como aprendeu em sua juventude.
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