quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 33


32 
     Enquanto pegava a borduna no quarto, Lázaro ouviu a porta do quarto de Sara se abrir. Com uma rápida olhada no corredor, ele viu Elisabeth saindo, cambaleando. Seu semblante demonstrava que a mulher estava furiosa.
     – Foi você, maldito!Elisabeth falava o português sem sotaque estrangeiro.
     Lázaro se apoiou na borduna, como a uma bengala, e a esperou se aproximar.
     – Cadê o sotaque alemão? Era falso? E seu nome, é falso também? – Lázaro estava assustado, mas mantinha firmeza na voz.
     – Maldito! O que você fez com a minha cabeça? – gritou Lilly, enquanto avançava contra Lázaro, que a empurrou com o pé de volta ao corredor.
     – Então aquela coisa nojenta era você mesmo. Eu percebi uma certa semelhança, mas achei que era minha imaginação.
     – Você acha que é quem para me atacar dentro da minha própria mente?
     – Eu? Você quer saber quem sou eu? –  Lázaro ia, a cada palavra, aumentando o tom de sua voz – Eu sou um cara que faria qualquer coisa pela Sara. Ela é meu sangue e é a última da minha família. Eu até mataria por ela. Mas hoje você está com sorte.
     Lázaro caminhou até onde estava o fio vermelho e o pegou com a mão, segurando com cuidado para ele não escapar, enquanto Elisabeth inspirava pela boca, espantada.
     – Hoje, eu só vou separar você da sua hospedeira, seu verme nojento.
     Sem dar tempo de qualquer reação a Elisabeth, Lázaro desceu a arma sobre a linha vermelha, que foi cortada ao meio. O resultado não foi o esperado: faíscas começaram a aparecer das duas pontas que se formaram do corte e queimaram como rastilhos no ar. Lázaro se afastou de Elisabeth, que começava a gritar e se arrastar para trás, enquanto Sara continuava adormecida na mesa. Tentar apagar o rastilho foi em vão. Lázaro tentou pegá-lo no ar e, dolorosamente, as fagulhas continuavam chispando e passaram por sua mão, deixando uma queimadura.
     O fim do rastilho encontrou a têmpora de Sara e fez um pequeno estalo. A mulher deu um suspiro e começou a cair, mas foi amparada pelo primo que a colocou no chão. Antes que pudesse fazer qualquer coisa por ela, um grande clarão veio do corredor. Elisabeth, caída, começou a queimar como o próprio rastilho – primeiro a cabeça, depois o tronco, até chegar nos membros. As fagulhas chegaram até o teto e geraram pequenos focos de incêndio pelo corredor. Lilly ficou no chão gritando a plenos pulmões e esperneando, enquanto seu corpo todo faiscava. Após os gritos cessarem, Elisabeth ainda queimou por um tempo e, quando extinguiu, restou apenas uma mancha de fuligem que ia do chão ao teto do corredor, assim como pequenos focos de incêndio que se alastrariam se nada fosse feito. Lázaro retirou a parte inferior do filtro de barro que continha água fria e apagou as chamas e, ao retornar para a cozinha, tentou acordar Sara, mas ela não reagia. A respiração fraca assustou o primo, que chamou uma ambulância e aguardou. Seu único pensamento era de que não ter queimado como Elisabeth e ainda respirar deveria ser um bom sinal no qual ele deveria ter esperança.
     Sem explicar muito sobre o ocorrido, Lázaro tentou convencer que a atendente priorizasse o seu caso. Dizer que a prima estava desacordada e que sofria de doença grave ajudou – a ambulância apareceu em menos de vinte minutos. Quando chegaram, Lázaro abriu o portão da garagem.  Apesar do antigo carro de Isaac estar estacionado, havia espaço para passar a maca. Os socorristas foram orientados a entrar pela porta dos fundos, mais próxima da cozinha.
     – O senhor fez bem em não ter tentado levá-la de carro para o hospital. – comentou o paramédico.
     – Obrigado. Eu sei que é perigoso. – Lázaro meneou positivamente com a cabeça, mas pensou também que não teria como fazer isso se nunca dirigiu na vida.
     Ao entrarem pela porta, os homens olharam assustados para a mancha preta no corredor. 
     – O senhor pode dizer o que ocorreu aqui? – O mesmo paramédico olhava as paredes, admirado com o estrago feito pelas fagulhas.
     – Quando eu cheguei aqui, tinha uma bola de fogo no corredor e minha prima estava caída na cozinha. Quando eu fui apagar o fogo, acabei me queimando. Por sorte, as chamas não se alastraram muito. – Lázaro mostrou a palma da mão direita queimada para um dos homens.
     – Tem um ponto queimado na têmpora dela. – disse o socorrista, enquanto a atendia ainda no chão.
     – Pode ser que ela estivesse perto do fogo e alguma brasa pulou e a queimou. – Lázaro fingiu demonstrar total ignorância do que havia ocorrido, esboçando um semblante de dúvida, e este se misturou a sua preocupação genuína com a prima.
     – Vamos levá-la para o hospital das clínicas. Você é quem vai acompanhá-la?
     – Sim, sou eu. Só moramos nós dois aqui. Nossos pais já faleceram.
     – Certo. Estamos quase terminando aqui. – respondeu o socorrista, ignorando a informação final dada por Lázaro.
     Lázaro foi ao seu quarto e pegou sua carteira com documentos, o molho de chaves e sua agenda de telefones. Foi ao quarto da prima, pegou a bolsa dela e saiu logo após os socorristas, trancando as portas. Ao chegar no portão, Lázaro percebeu a dimensão do evento: havia vários curiosos olhando o que estava acontecendo em sua casa. Lázaro correu até o vizinho que também estava na rua e pediu que verificasse se ainda existia algum risco de incêndio.
     – Vão você e a amiga da sua prima? – Emílio demonstrava espanto e preocupação ao ver Sara em uma maca.
     – Amanhã eu lhe conto, seu Emílio. O senhor pode fazer esse favor? A casa está vazia.
     – Sim. Espero que sua prima melhore.
     – Obrigado.
     Lázaro entregou o molho de chaves de Sara, apertou a mão de Emílio – apesar da dor – e saiu. A ambulância foi rápida e, em menos de vinte minutos, estava na entrada do pronto-socorro do hospital. Enquanto Sara era atendida, Lázaro foi até um telefone público e ligou para Adriano.
     – Alô, Adriano.
     – Oi. Lázaro?
     – Oi, sou eu sim. Estou com a Sara aqui na Unicamp, no pronto-socorro.
     – Quê? Como assim? O que aconteceu?
     – Ah, Adriano. Não dá para contar por telefone.
     – Eu vou aí.
     Lázaro concordou e, após meia hora, Adriano chegou ao hospital. Encontrou Lázaro sentado em um banco de concreto do lado de fora.
     – Então Lázaro, o que aconteceu? – Adriano tentou dar um abraço reconfortante no amigo.
     – Eu fui muito burro. – respondeu Lázaro, com olhos marejados, algo nunca visto por Adriano. – Eu achei que estava com a vantagem sobre o que estava acontecendo... eu entendi o que era aquele fio vermelho que eu vi na cabeça da minha vizinha. Então, eu vi hoje na Sara e... sei lá, posso ter matado minha prima.
     – Explica melhor. Não estou te entendendo. – Adriano ficava mais preocupado a cada instante. 
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