31
Pouco tempo depois de fechar os olhos, Lázaro viu a neblina dourada deslizando e seguindo o seu fluxo. O chão parecia uma grama fina, fios macios de um verde pálido que dançavam, curvados na direção do movimento da névoa. Ele percebeu que a névoa condensava aos poucos conforme se aproximava do poço, o mesmo que ele vira quando segurou as mãos de Sara pela primeira vez. Ao chegar ao lado do poço, o mesmo redemoinho vermelho girava, formando um cone. Ao tentar pegar um pouco ou tentar sentir a textura da substância, ela parecia um gás denso que deslizava aos poucos pelos dedos. Tomado de coragem e curiosidade, Lázaro parou na beira e pulou com os pés juntos para dentro dele, em um salto ao desconhecido. A sensação de estar em um torvelinho o assustou, mas não o trouxe de volta, e o seu corpo percorria dentro da fumaça, como em uma neblina vermelha.
Após alguns segundos, Lázaro sentiu que não seguia mais para a frente – era como se tivesse boiando. Aproveitando o fluxo da fumaça, girou o corpo e posicionou a cabeça para fora de um segundo poço. Sabia que não era o mesmo por que o local era diferente e a fumaça dourada transbordava para fora dele. Ao sair, percebeu que o solo possuía algo como uma grama dura. O entorno do poço era desconhecido: era possível ver que a névoa dourada percorria um caminho único, como um córrego prestes a secar completamente, e só. Havia um grande desconforto naquela sensação de vazio e Lázaro desejou que tivesse alguma fonte de luz mais intensa que lhe desse uma melhor visão de onde estava. Para sua surpresa, ele mesmo começou a emitir luz, proporcionando uma visão mais ampla do local de cerca de dez a doze passos à frente.
Lázaro começou a se afastar do poço e seguir a névoa, procurando qualquer pista que explicasse o que era aquele lugar. Conforme andava, começou a ouvir um som baixo. Ele parou e, aos poucos, percebeu que o som vinha da direção para onde a névoa seguia, e ia aumentando, como se a fonte do som se aproximasse. Parecia com um inspirar constante, como se alguém sugasse o ar por entre os dentes, e o que produzia o som vinha em sua direção através da escuridão. Dois olhos começaram a refletir a luz que Lázaro produzia e era possível, junto com o som, ter uma noção de que a coisa vinha rapidamente. Lázaro virou-se e correu de volta em direção ao poço, mas, quando estava quase chegando, o som estava logo atrás dele e um empurrão forte o jogo no chão.
Quando Lázaro caiu, rolou sobre o próprio corpo e virou-se na direção da criatura. Foi possível ver que os olhos do monstro ainda refletiam a luz como os de um gato e que sua pele era acinzentada e com dobras como a de um rinoceronte. A boca era como de uma lampreia e não parava de aspirar a fumaça dourada e produzir um som assustador. Lázaro hesitou por um instante. Não sabia se atacava o monstro ou se fugia. Antes de fazer sua escolha, o monstro pulou em sua direção, tentando segurá-lo. Lázaro rolou para a direita e ficou próximo do poço. Aproveitou a oportunidade para tentar fugir, porém, lembrou que fora o fluxo que o trouxera até aquele lugar. Precisaria de tempo para descobrir como sair dali e a criatura não daria trégua.
Em posição de defesa, Lázaro esperou e, quando a criatura avançou com suas garras a mostra, ele saiu de lado, desferindo um soco ao lado da cabeça de seu adversário. Foi quando uma outra coisa inesperada aconteceu juntamente com o soco: a intensidade da luz de sua mão se intensificou e causou uma pequena explosão ao entrar em contato com a cabeça da criatura, que caiu rolando e agonizando.
Era o melhor momento para fugir, mas Lázaro se admirou com seu soco explosivo. Queria tentar de novo e avançou contra a criatura, preparando mais um soco, mas o soco não teve o mesmo impacto. A criatura tombou e começou a expirar, produzindo um som aterrorizante e expelindo um pouco de névoa. Lázaro aproveitou a prostração da criatura, caída de barriga para baixo, para se ajoelhar em suas costas e começar a socá-la. Alguns socos causavam pequenas explosões, outros não, mas não foi necessário mais que duas dezenas para a criatura expelir uma grande quantidade de névoa e parar de reagir. O ser estava consciente, mas produzia um som como um gemido longo.
Lázaro se levantou e caminhou até o poço e olhou a fumaça ainda parada. Pulando como se pulasse em uma piscina, ele conseguiu percorrer uma parte do caminho, mas estagnou. A fumaça não era densa como a água para ele nadar e, se a criatura se levantasse, poderia recomeçar a sugar, levando-o de volta àquele lugar sombrio. Precisava de uma ajuda, de um empurrão, algo como... uma explosão. “Como produzir uma explosão?”, Lázaro se perguntou porque não sabia como havia conseguido das outras vezes – parecia algo como um espasmo, algo espontâneo.
Parado no meio da fumaça vermelha, perdido naquele ambiente sem lados e sem gravidade, Lázaro tentou se lembrar quais sensações sentiu quando conseguiu gerar a primeira explosão, que fora a mais forte. Havia um misto de urgência, perigo e vontade. Precisava reproduzir todos aqueles sentimentos e consolidar em apenas uma boa explosão. Lázaro encolheu as pernas, apontou a mão para onde considerou ser o local de onde deveria se afastar e se concentrou. Sua mão começou a brilhar com mais intensidade, até produzir uma luz branca intensa. A luz oscilava, mas a explosão necessária não acontecia. Lázaro começou a se irritar com a situação e percebeu que a luz começava a ficar mais forte, mas quando a esperança da explosão aumentava, a luz diminuía. Por fim, a incerteza o irritou com tanta intensidade que a explosão aconteceu, arremessando-o em direção ao primeiro poço, mas em um giro caótico, como um corpo celeste vagando errante no espaço.
Em um dado momento, a perna de Lázaro tocou a beira do poço e o fez quicar. Havia o risco de começar a voltar pela fumaça vermelha e parar no meio do nada novamente. Uma segunda tentativa de explosão foi mais fácil e quase jogou o seu corpo todo para fora. Apoiado na beira, ele saiu e voltou para dentro de si mesmo. Ao abrir os olhos, conseguiu ver a linha vermelha ainda na cabeça de Sara, mas ela não parecia se mover. Sara parecia estar dormindo na cadeira e Lázaro a apoiou na mesa para ela não cair, enquanto ele ia até o quarto pegar a borduna.
Pouco tempo depois de fechar os olhos, Lázaro viu a neblina dourada deslizando e seguindo o seu fluxo. O chão parecia uma grama fina, fios macios de um verde pálido que dançavam, curvados na direção do movimento da névoa. Ele percebeu que a névoa condensava aos poucos conforme se aproximava do poço, o mesmo que ele vira quando segurou as mãos de Sara pela primeira vez. Ao chegar ao lado do poço, o mesmo redemoinho vermelho girava, formando um cone. Ao tentar pegar um pouco ou tentar sentir a textura da substância, ela parecia um gás denso que deslizava aos poucos pelos dedos. Tomado de coragem e curiosidade, Lázaro parou na beira e pulou com os pés juntos para dentro dele, em um salto ao desconhecido. A sensação de estar em um torvelinho o assustou, mas não o trouxe de volta, e o seu corpo percorria dentro da fumaça, como em uma neblina vermelha.
Após alguns segundos, Lázaro sentiu que não seguia mais para a frente – era como se tivesse boiando. Aproveitando o fluxo da fumaça, girou o corpo e posicionou a cabeça para fora de um segundo poço. Sabia que não era o mesmo por que o local era diferente e a fumaça dourada transbordava para fora dele. Ao sair, percebeu que o solo possuía algo como uma grama dura. O entorno do poço era desconhecido: era possível ver que a névoa dourada percorria um caminho único, como um córrego prestes a secar completamente, e só. Havia um grande desconforto naquela sensação de vazio e Lázaro desejou que tivesse alguma fonte de luz mais intensa que lhe desse uma melhor visão de onde estava. Para sua surpresa, ele mesmo começou a emitir luz, proporcionando uma visão mais ampla do local de cerca de dez a doze passos à frente.
Lázaro começou a se afastar do poço e seguir a névoa, procurando qualquer pista que explicasse o que era aquele lugar. Conforme andava, começou a ouvir um som baixo. Ele parou e, aos poucos, percebeu que o som vinha da direção para onde a névoa seguia, e ia aumentando, como se a fonte do som se aproximasse. Parecia com um inspirar constante, como se alguém sugasse o ar por entre os dentes, e o que produzia o som vinha em sua direção através da escuridão. Dois olhos começaram a refletir a luz que Lázaro produzia e era possível, junto com o som, ter uma noção de que a coisa vinha rapidamente. Lázaro virou-se e correu de volta em direção ao poço, mas, quando estava quase chegando, o som estava logo atrás dele e um empurrão forte o jogo no chão.
Quando Lázaro caiu, rolou sobre o próprio corpo e virou-se na direção da criatura. Foi possível ver que os olhos do monstro ainda refletiam a luz como os de um gato e que sua pele era acinzentada e com dobras como a de um rinoceronte. A boca era como de uma lampreia e não parava de aspirar a fumaça dourada e produzir um som assustador. Lázaro hesitou por um instante. Não sabia se atacava o monstro ou se fugia. Antes de fazer sua escolha, o monstro pulou em sua direção, tentando segurá-lo. Lázaro rolou para a direita e ficou próximo do poço. Aproveitou a oportunidade para tentar fugir, porém, lembrou que fora o fluxo que o trouxera até aquele lugar. Precisaria de tempo para descobrir como sair dali e a criatura não daria trégua.
Em posição de defesa, Lázaro esperou e, quando a criatura avançou com suas garras a mostra, ele saiu de lado, desferindo um soco ao lado da cabeça de seu adversário. Foi quando uma outra coisa inesperada aconteceu juntamente com o soco: a intensidade da luz de sua mão se intensificou e causou uma pequena explosão ao entrar em contato com a cabeça da criatura, que caiu rolando e agonizando.
Era o melhor momento para fugir, mas Lázaro se admirou com seu soco explosivo. Queria tentar de novo e avançou contra a criatura, preparando mais um soco, mas o soco não teve o mesmo impacto. A criatura tombou e começou a expirar, produzindo um som aterrorizante e expelindo um pouco de névoa. Lázaro aproveitou a prostração da criatura, caída de barriga para baixo, para se ajoelhar em suas costas e começar a socá-la. Alguns socos causavam pequenas explosões, outros não, mas não foi necessário mais que duas dezenas para a criatura expelir uma grande quantidade de névoa e parar de reagir. O ser estava consciente, mas produzia um som como um gemido longo.
Lázaro se levantou e caminhou até o poço e olhou a fumaça ainda parada. Pulando como se pulasse em uma piscina, ele conseguiu percorrer uma parte do caminho, mas estagnou. A fumaça não era densa como a água para ele nadar e, se a criatura se levantasse, poderia recomeçar a sugar, levando-o de volta àquele lugar sombrio. Precisava de uma ajuda, de um empurrão, algo como... uma explosão. “Como produzir uma explosão?”, Lázaro se perguntou porque não sabia como havia conseguido das outras vezes – parecia algo como um espasmo, algo espontâneo.
Parado no meio da fumaça vermelha, perdido naquele ambiente sem lados e sem gravidade, Lázaro tentou se lembrar quais sensações sentiu quando conseguiu gerar a primeira explosão, que fora a mais forte. Havia um misto de urgência, perigo e vontade. Precisava reproduzir todos aqueles sentimentos e consolidar em apenas uma boa explosão. Lázaro encolheu as pernas, apontou a mão para onde considerou ser o local de onde deveria se afastar e se concentrou. Sua mão começou a brilhar com mais intensidade, até produzir uma luz branca intensa. A luz oscilava, mas a explosão necessária não acontecia. Lázaro começou a se irritar com a situação e percebeu que a luz começava a ficar mais forte, mas quando a esperança da explosão aumentava, a luz diminuía. Por fim, a incerteza o irritou com tanta intensidade que a explosão aconteceu, arremessando-o em direção ao primeiro poço, mas em um giro caótico, como um corpo celeste vagando errante no espaço.
Em um dado momento, a perna de Lázaro tocou a beira do poço e o fez quicar. Havia o risco de começar a voltar pela fumaça vermelha e parar no meio do nada novamente. Uma segunda tentativa de explosão foi mais fácil e quase jogou o seu corpo todo para fora. Apoiado na beira, ele saiu e voltou para dentro de si mesmo. Ao abrir os olhos, conseguiu ver a linha vermelha ainda na cabeça de Sara, mas ela não parecia se mover. Sara parecia estar dormindo na cadeira e Lázaro a apoiou na mesa para ela não cair, enquanto ele ia até o quarto pegar a borduna.
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