30
Lázaro acordou na alvorada de domingo, cansado, como se ele mesmo tivesse participado daquela batalha. Quanto a borduna, ficou claro para ele que aquela arma não era afiada como uma espada, mas tinha a capacidade de atacar criaturas sobrenaturais, uma qualidade especial que fazia dela única. Pensou que seria melhor não precisar usá-la, mas também pensou em como um objeto tão poderoso caiu nas mãos dos homens brancos. A arma provavelmente fora roubada em algum momento da história daquela tribo e trazida para alguma família que provavelmente a usava para enfeitar uma parede, algo totalmente estúpido visto aos olhos de um guerreiro de verdade.
Ao se levantar, ele acendeu a lâmpada, foi até a mesa e escreveu em uma folha de papel: “Existe alguma criatura chamada Mah’daham nas lendas indígenas?” Ainda muito eletrizado pelo evento, apagou a lâmpada do quarto e foi até a cozinha beber água. Quando saiu do quarto, ouviu algo como uma voz, mas que parou repentinamente. Não querendo ser indiscreto, ele continuou andando até a cozinha. Como o local não tinha porta e se ligava diretamente a um corredor que ligava todos os cômodos, Lázaro pensou que sua presença ali poderia incomodar a prima e sua amiga. Para dar privacidade para Sara e Lilly, ele pegou uma jarra de vidro que estava na geladeira, encheu um copo com água e bebeu. Depois, voltou a encher o copo e o levou para o quarto, fechando a porta e abrindo a janela.
Sentado na cadeira de escritório em seu quarto, Lázaro ficou imóvel, relembrando a luta contra Mah’daham. Porém, ele sabia que não foi isso que aquela tribo ouviu, e sim algo como “mar da jarran”. Ele lembrou então que Adriano lhe contara algumas histórias narradas nas antigas cartas que Hideo, seu pai, enviara para ele sobre seus problemas que passou no Japão. Certa vez, Hideo escreveu que os primeiros dias no primeiro emprego após sua chegada ao Japão foram muito difíceis. Apesar de falar japonês, ele não era fluente na língua e aprendeu o idioma com os pais.
Os pais de Hideo eram imigrantes e vieram para o Brasil ainda crianças, juntamente com os avós dele, alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial. O japonês falado por japoneses dentro do Japão sofreu mudanças em relação ao falado pela família de Hideo após a Segunda Guerra e algumas coisas passaram a ter outros nomes, como o martelo, o exemplo citado na carta. O patrão de Hideo mandou ele pegar um hanmā – uma palavra adaptada do inglês hammer – e ele não sabia o que era, até o patrão apontar para o martelo, chamado de kanadzuchi por Hideo, como ele aprendera com os pais. O patrão, claro, ficou irritado com o pai de Adriano e o chamou de baka, que ele só descobriu depois ser uma ofensa, mas deixou para lá, pois precisava do emprego.
As mudanças no idioma aconteceram em muitas sociedades e em muitas épocas diferentes, palavras que são adaptadas de outros idiomas e que não tem origem naquela cultura, ou palavras que tem o mesmo sentido, mas com pequenas variações na grafia e pronúncia, dependendo da cultura em que ela estava inserida. Desta forma, mesmo que Lázaro encontrasse alguma história ou lenda sobre o Mah’daham, ele não teria como saber o que a criatura quis dizer com seu nome ou o que o monstro era na realidade.
O primeiro ponto que Lázaro considerou era que o nome da criatura não era do idioma daquela tribo do sonho. Sua certeza se baseava em uma constatação: de alguma forma, todos os objetos que Lázaro sentiu, e que lhe ofereceram essas memórias do passado do artefato, garantiram um entendimento completo do idioma do seu portador. Sendo assim, quando o monstro disse quem ou o que ele era, não fez sentido para Teg’hó, e o nome Mah’daham dado pela tribo não era uma palavra daquele idioma. O nome “escuridão da sombra” atribuído pelo monstro a si mesmo fizera sentido. Para não esquecer, Lázaro anotou os nomes citados – Mésab, “escuridão da sombra”, e “dente de Dehutsáb”, o nome da borduna.
Após sentir que havia avançado um pouco mais em sua trilha pelo desconhecido, Lázaro deixou a borduna sobre a mesa do escritório, recolocou o anel no dedo e voltou a deitar. Por sorte, conseguiu dormir profundamente. Voltou a acordar às dez horas, despertado pelos sons da cozinha e do televisor. Seu corpo estava dolorido, resultado da noite intensa. Preferiu tentar diminuir a dor no corpo com um banho.
Enquanto se lavava, Lázaro olhou para o chão e viu a água descendo pelo ralo, formando um redemoinho. Neste instante, lembrou da visão do poço com o redemoinho vermelho e começou a refletir. Na verdade, não parecia um poço, mas sim um buraco no chão com um pequeno anel de pedras bem polidas ladeando o buraco. A neblina dourada vencia facilmente o obstáculo produzido pelo anel de pedras e sumia no redemoinho vermelho. Lázaro nunca havia visto algo como aquilo, e não sabia o que poderia ser, mas havia uma certeza quase sólida de que o buraco e a neblina eram representações que identificavam coisas que não podiam ser vistas, como se a sua mente decodificasse um sinal, tal qual a um televisor que converte ondas de rádio em imagem e som. Se entendidas, as representações poderiam explicar o que Sara tinha e a cura seria possível.
Após um banho demorado, ainda perdido em sua meditação, Lázaro parou na frente do espelho e alisou o rosto. Não se barbeava havia duas semanas. O rosto ainda estava inchado e um pouco mais roxo. Foi neste instante que ele sentiu novamente que alguém o olhava, mesmo estando sozinho no banheiro. Olhando de volta para os pelos da barba, Lázaro concluiu que há muitos anos não negligenciava sua própria aparência e, ao se barbear, fez um corte no queixo que sangrou, pingando dentro da pia de tom verde como jade. Lázaro pegou um pequeno pedaço de papel higiênico e pôs sobre a ferida, para ajudar a coagular. Sangrar não lhe parecia algo tão ruim naquele momento, com o rosto ainda inchado, um dos olhos em tons de roxo. Ainda tinha a mão dolorida que ele usou para desferir um único e certeiro soco no queixo do vizinho.
O semblante indiferente frente às grandes dificuldades que Lázaro enfrentava nestas mais de duas semanas causavam a impressão de que ele era uma pessoa resiliente e que sempre tinha uma solução para os problemas, o que não era verdade. Ele sabia que conseguia seguir em frente mais rápido que a maioria das pessoas. Enquanto muitos passavam meses, e até anos, sofrendo por seus parentes falecidos, Lázaro conseguia fingir não sofrer. Parecia ter aprendido ou herdado naturalmente do pai, um homem que viveu uma vida dupla e nunca demonstrou preocupação, ao menos, não demonstrou para ele e para Sara. Pensou que até mesmo Ruth poderia não saber da maioria dos segredos de Isaac, deixando, assim, segredos perfeitos, mas fardos muito pesados para uma única pessoa.
Lázaro começou a pensar que esses segredos também o afastaram de Isaac, e nada de bom veio daí. Diferente de Isaac, Lázaro nunca mantinha um segredo só para si. Na vida adulta, as poucas coisas que precisou realmente manter como segredos, as compartilhou com Adriano. O amigo, por sua vez, sempre fora crédulo e discreto com os próprios segredos e dos outros. Em outros momentos, principalmente na infância e adolescência, confidenciou alguns segredos para Sara, dada a sua afeição. Na época, ainda menina, Sara não se dava muito bem com segredos e sempre contava para alguém, o que fez Lázaro perder a confiança nela para a função de confidente.
Durante a manhã e à tarde domingo, Lázaro passou ajudando Sara a se locomover pela casa. Ele a levava a todos os cômodos que ela precisava, com muito cuidado e carinho. Sara perguntou se isso o incomodava, mas ele deixou claro que estava ali com a intenção de ajudar e que ela pedisse o quanto quisesse. Como dizia o provérbio: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Sara ficava boa parte do dia com camiseta de manga longa e calça de moletom para proteger de alguma brisa fria ou de mosquitos – qualquer doença poderia ser perigosa. Apesar de fazer tudo para a prima com sorriso no rosto, Lázaro ficava sempre preocupado. Nenhum médico tinha uma resposta ou tratamento. O medo da morte de Sara era uma constante em sua mente.
O Sol estava se pondo quando Adriano apareceu. Ele entrou e cumprimentou a todos. O amigo tinha em suas mãos duas sacolas com duas garrafas de cerveja cada.
– Comprou cerveja, para quê? – Lázaro perguntou, curioso.
– Sobrou de uma festa e o dono me deu. Eu não bebo, então pensei que você gostaria.
Lázaro ficou contente com as cervejas pois não bebia uma há algumas semanas. Ele pegou as garrafas e as levou para a cozinha. Estavam frias, então pensou que não poderiam ser deixadas à temperatura ambiente.
– Quem te deu isso? – perguntou Lázaro, ainda da cozinha.
Lázaro colocou as cervejas na geladeira enquanto Adriano o esperava no corredor para eles saírem.
– É o José. Um conhecido da minha família. Ele passou em um concurso para delegado e vai para Limeira. Aí ele deu uma festa de despedida e sobrou cerveja. – Adriano bateu com o indicador na testa duas vezes, em sinal de que lembrara de algo, e estendeu um envelope com o dinheiro. – Trouxe isso aqui também.
Para saírem logo, Lázaro se despediu de Sara e de Elisabeth rapidamente. Lázaro não deu explicações, só disse que não iam demorar. O dinheiro, ele pôs no bolso, do lado direito.
No carro, a caminho de Sumaré, Lázaro ficou olhando para as ruas da cidade. A viagem passou por áreas ainda movimentadas, com homens e mulheres voltando para suas casas após um dia extenuante de trabalho, apesar de ser domingo. Lázaro não conseguia esconder a excitação e preocupação que era denunciada pelos irritantes movimentos das pernas e o tamborilar dos dedos. A cada instante, ele passava a mão sobre o bolso para garantir que o pequeno pacote de dinheiro ainda estivesse no mesmo lugar. Era o maior valor em dinheiro que ele já colocara no bolso de uma só vez durante sua vida toda e não poderia ficar com um centavo.
– Você sabe se o homem ainda está lá?
Adriano perguntou para Lázaro, mas com os olhos atentos para a rodovia.
– Não faço ideia. Só sei o que meu pai deixou escrito, e foi algo que aconteceu há mais de dez anos. – Lázaro ficou mais preocupado em imaginar que seria uma viagem em vão.
– Um tiro no escuro?
– Um tiro no escuro e eu só tenho uma bala no revólver. – Lázaro fez um muxoxo – Se eu chegar lá e não ter mais ninguém, estou ferrado. Aliás, mesmo que ele esteja lá, nada garante que ele saberá me responder o que eu tenho a perguntar.
– O seu pai disse quem ele era?
– Sim, mas meu pai o viu por pouco tempo. O ponto principal para eu sair de casa e ir atrás dele é o fato do meu pai ter escrito que aquela esfera dourada o levou até lá e a lupa o identificou como possuindo algum poder.
– Nossa! A lupa. – Adriano boquiabriu-se, admirado. Havia se esquecido que o tal objeto existia – A gente nunca mais mexeu nela, hein?
– É, não é sempre que a gente tem coisas para olhar com ela.
Saindo da rodovia, os dois entraram em uma avenida conhecida por Adriano. Ele sempre morou em Sumaré, em um bairro próximo ao centro, com a mãe e a irmã. O pai estava no Japão há catorze anos, mesmo tendo prometido que ficaria apenas dois anos. Aos dezoito, Adriano trabalhava e estudava para poder entrar em uma universidade, enquanto o pai não só não tinha voltado como não mandava mais notícias. Por algum tempo, a mãe tentou contato com os familiares dele, mas a única resposta foi que Hideo não voltaria mais.
Já se passaram mais de dez anos sem notícias de Hideo. Buscando um destino diferente, Adriano, a mãe e a irmãzinha passaram a frequentar uma igreja, onde foram acolhidos pelos membros do grupo e, desde então, eles participam regularmente das atividades da comunidade religiosa. Há alguns anos, participando dessas atividades, Adriano conheceu Yonara e pouco tempo depois eles começaram a namorar. Apesar de conhecer Adriano há anos, Lázaro raramente perguntava sobre sua vida e conhecia a família dele de vista; viu Yonara uma única vez e não tinha pretensão de ter um contato maior. Não era ódio ou qualquer tipo de rancor e Adriano entendia que Lázaro se tornou mais recluso após o fim da faculdade.
Seguindo pela avenida, Adriano desacelerou e estacionou no mesmo posto que Isaac estacionara há mais de uma década e onde havia naquele momento um homem sentado, no escuro, ouvindo um pequeno rádio, provavelmente o segurança. Do outro lado da avenida, havia um grande hospital em construção do lado de uma escura rua sem asfalto. Seguindo pela rua de terra, era possível ver um vulto alto e convexo: o galpão.
– Nossa... eu já passei muitas vezes aqui e nunca achei que aquele galpão fosse grande coisa. – disse Adriano, olhando para o prédio antigo.
– Pode ser que nem seja grande coisa, e eu só vou saber se é útil para nós se eu entrar lá. – Lázaro segurou a nuca, que latejava. Estava com os nervos à flor da pele. Mesmo assim, começou a caminhar em direção ao galpão.
– E se ele já não mora mais lá e você der de cara com algum ladrão?
Lázaro parou por um instante. Ele ficara incomodado em perder o dinheiro, mas não tinha pensado que poderia tê-lo roubado por um assaltante em um lugar improvável. Adriano, sempre proativo, foi até o segurança do posto e perguntou se ainda havia visitantes ao galpão. O homem confirmou, mas orientou a não irem lá pois o pessoal daquele lugar tinha ficado muito agressivo nos últimos anos. “Já teve gente que foi lá e não voltou”, disse o segurança. Adriano achou melhor que o amigo desistisse, mas Lázaro, apesar do medo, não aceitou perder a oportunidade. Tinha expectativa de que não ia ocorrer nada e precisava arriscar. Ele deixou a carteira e o anel aos cuidados de Adriano, levando apenas o documento pessoal e o dinheiro, mas combinando antes de entrar no galpão que eles se reencontrassem naquele mesmo local. Da mesma maneira que não era prudente Lázaro ir, não era prudente Adriano ficar parado ao lado de um posto de gasolina escuro.
Ao caminhar por alguns minutos pela rua de terra, Lázaro foi abordado por cinco homens com roupas puídas, mas razoavelmente limpas. Não pareciam mendigos, e sim homens pobres de meia idade e magros. “Eu vim falar com o Pai”, disse Lázaro, enquanto era revistado. Um dos homens – branco, alto e calvo – pegou o maço de dinheiro, desembrulhou e o levou para dentro. Poucos instantes depois, ele e os demais homens escoltaram o visitante para dentro da construção.
Por fora não era possível ver, mas o galpão era iluminado, provavelmente uma medida de proteção para impedir a aproximação de curiosos. Havia muitas pessoas, a maioria pessoas de meia idade, mas também alguns jovens. Alguns oravam, outros arrumavam o espaço. Em um dos cantos, sobre um tablado, estava um homem sentado em uma cadeira. Aquele homem era o único que possuía, aos olhos de Lázaro, uma luz diferente refletindo em seu corpo. A luz parecia ser, na verdade, irradiada por ele, como a Bússola de Acre. O Pai estava em uma posição de destaque dentro do galpão, mas não estava nu. Provavelmente a idade exigia que ele se protegesse melhor do frio, apesar de ainda ser outono. Lázaro foi levado até próximo do homem e forçado a se ajoelhar.
Quando o Pai aproximou sua mão ao rosto de Lázaro, este ficou muito preocupado. Se aquele homem era um ser poderoso, poderia, de alguma forma, gerar as sensações que Lázaro só tivera quatro vezes e de maneira involuntária – e foi o que ocorreu. Ao ter a mão encostada em seu rosto, Lázaro viu inúmeras coisas muito rapidamente, como se fizesse uma viagem em um museu cheio de instalações artísticas e que ele só tivesse um segundo para experimentar todos os sentidos de cada uma das salas, mas as intervenções eram memórias quase completas, com cheiros, cores, sons; memórias do Pai sendo recebidas sem ter tempo de entendê-las ou assimilá-las, memórias que não seriam possíveis acumular em uma só vida. As visões foram tão intensas que Lázaro apoiou as duas mãos no chão e vomitou. Com nojo, o Pai recuou um pouco.
– Você está me ouvindo? Você está doente? – o Pai acocorou-se ao lado de Lázaro.
Lázaro parou por alguns instantes, em silêncio, com a respiração rápida. Quando ele conseguiu se recompor, foi prudente para explicar o ocorrido.
– Não estou. É que eu vejo coisas.
– Coisas? Quais coisas? – perguntou o Pai, curioso.
– Quando o senhor me tocou, eu vi muitas coisas... – Lázaro começou a se levantar, devagar. – É por isso que estou aqui, para entender por que vejo o que vejo. – Lázaro não sabia por que estava falando abertamente, mas sentia que precisava ser o mais sincero possível. Sem jogos, sem ocultações.
O silêncio do Pai denunciava que Lázaro chamara-lhe a atenção. Então, o velho homem perguntou:
– Quem é você?
– Meu nome é Lázaro Shlock. Sou filho de Isaac Shlock, um homem que já veio aqui uma vez há mais de dez anos. Na época, o senhor respondeu à pergunta dele. Ele me deixou um aviso para que, se um dia eu tivesse uma pergunta realmente importante, eu viesse aqui.
– Não lembro deste nome... Isaac. Não é o tipo de nome que se esquece.
– Ele deu o nome de José de Souza Ferrari.
– Hmmm... seu pai mentiu para mim. – O Pai foi guiado em direção de sua cadeira e se sentou, cruzando as pernas e apoiando o queixo com o indicador e o polegar. – Quem garante que você não está mentindo também?
– Eu tenho o meu documento no bolso. – Lázaro colocou a mão no bolso, mas foi parado por um dos seguidores do Pai.
– Documentos podem ser falsificados.
– Mas as visões que eu tive não podem. Acredito que são suficientes para dizer que não minto.
– Bem pensado. Mas não é tão simples. – O Pai sorriu. – Façamos o seguinte: Diga uma visão que você teve e eu vejo se é algo interessante o suficiente para nossa conversa continuar.
Lázaro se concentrou em apenas uma memória. Aquela que parecia mais interessante pela riqueza de detalhes.
– Foram visões muito rápidas... em uma visão mais nítida, eu vi um homem que falava comigo. Ele parecia aqueles beduínos, mas não estávamos em um deserto, estávamos em uma cidade com muitas barracas de madeira e muitos tecidos coloridos. O sol era forte e entrava por frestas em estruturas que ficavam sobre o passeio entre os prédios... havia muito barulho, o som de pessoas vendendo coisas...
Lázaro se sentia mais tranquilo e a luminosidade do Pai ia diminuindo, até ele se parecer com uma pessoa razoavelmente normal. O Pai ouvia com atenção e assentia com a cabeça a tudo que Lázaro dizia, como se ouvisse uma história muito interessante e que indicava ter final feliz. Até que abriu a boca e disse:
– Yathrib...
– O quê? – Lázaro não entendera o comentário.
– Esta cidade que você está falando é Yathrib. Quer dizer, Al Madinah, uma cidade que visitei algumas vezes.
– Então o senhor acredita em mim?
– Ah sim, rapaz. Foi uma visão bem escolhida. Então, você sabe o que eu sou?
– Não. – Lázaro respondeu, convicto.
O Pai sorriu.
– Certo. Vamos a sua pergunta: “Por que você vê o que vê?”. Bem, você tem visões sempre?
– Não. Só quando eu toco algumas pessoas.
– Como eu?
– Nunca senti nada igual. O que vi ao tocar o senhor foi igual a... bem, o mais próximo foi quando toquei na minha prima, mas o que vi nela não se compara.
– Lázaro. Vamos com calma. Vamos voltar a esta parte que você disse que tocar em mim foi igual a “algo”. Que “algo” seria este?
Lázaro sentia que, naquele momento, poderia mentir e tentaria omitir tudo que pudesse.
– A minha prima.
– Não, não – O Pai levantou o dedo indicador na direção da voz de Lázaro e fez um sinal negativo enfático. – Não era isso que você ia dizer. Você ia dizer outra coisa, outra pessoa. Quem você já tocou que sentiu o mesmo que eu?
– Foi o que eu disse. A minha prima.
– Lázaro. – O Pai mantinha um tom cordial, mas parecia esconder uma raiva que poderia crescer e se tornar um problema. – Vamos manter a cordialidade aqui. Diga quem você tocou e podemos continuar. Não estamos nos dando bem aqui? Estamos, não? Estamos conversando com franqueza e esta conversa pode ser muito enriquecedora tanto para mim quanto para você.
Lázaro pensou um pouco. Não poderia citar o anel, nem a lupa e nem a borduna. Se o Pai quisesse roubá-los, provavelmente conseguiria. Só restava a Bússola, um item que dizendo a verdade não lhe causaria problemas.
– Foi uma esfera dourada que eu tive contato há duas semanas. Começou tudo aí.
– Uma esfera dourada? Interessante. Como era esta esfera dourada?
Lázaro hesitou por um momento, para aumentar a curiosidade do Pai.
– Não era muito grande. Era do tamanho de uma bola de sinuca. Tinha alguns desenhos... duas espigas de trigo, um boi, um peixe, um sol...
– ...e dois homens ladeando um pássaro gigante. – O Pai complementou.
– É isso mesmo. O senhor já viu?
– Já. Aquilo é um problema. Com quem está agora?
– Entreguei para um rapaz que desapareceu da face da Terra.
– Fez bem. E onde você conseguiu esta esfera?
– Era do meu pai. – Lázaro fez uma pausa. – Uma pessoa matou meu pai por ela.
– Entendo. Essa esfera causa uma cobiça nas pessoas. Você teve sorte de não ter ficado muito tempo com ela. Bem, você tem sido a pessoa mais interessante aqui nos últimos... – o Pai colocou a mão no queixo, pensativo. – Nossa, não sei há quanto tempo. Pessoas como você não são comuns. Sei que existem pessoas com alguma habilidade especial, mas são raros.
– Como nós. – Lázaro corrigiu.
– Pode ser. Como nós. Bem, estou me estendendo. Voltemos a sua pergunta: Por que você vê coisas. A esfera que você tocou pode ser o que eu chamaria de espoleta, ou um gatilho. Ela não fez nada além de acender algo que estava latente em você. Agora, você escolhe o que fazer. Deixa apenas latente de novo ou estimula para que se manifeste.
– Se eu for estimular, como faria isso?
– Isso é uma segunda pergunta. – Pai sorriu e ficou em silêncio por alguns segundos. – Mas eu responderei de graça. Deve ser estranho para você se imaginar treinando uma habilidade que ninguém mais possui, que não possui uma escola ou livro que ensine. Porém, pense nesta habilidade como uma escada. Cada degrau que você sobe, por mais difícil que seja, possibilita ver mais longe no horizonte.
Lázaro ficou com a boca fechada, apenas sonorizando com a garganta, sinalizando com a cabeça ter entendido.
– Você deve ter pensando por qual motivo eu diria “ver mais longe” sendo cego. Não é por que eu estou cego que sempre fui assim. Eu já fui surdo e paralítico também. Tive quantas deficiências você conseguir imaginar. Então, se um dia você voltar tendo alcançando o alto de sua escada e ela possibilitar-lhe a visão de um horizonte quase infinito, eu lhe digo quem eu sou e creio que tudo fará sentido... ah, quem sabe, até lhe responda uma pergunta sem cobrar dinheiro.
Levantando o indicador, o Pai sacudiu o dedo, indicando que a sessão acabara.
– Agora, pode ir. Vá treinar.
Um dos seguidores aguardou para que Lázaro beijasse a mão do Pai, mas este não quis. “Não quero mais vômitos por aqui”. Então, Lázaro foi levado para fora.
Toda a sessão foi mais rápida do que Lázaro imaginou. Ao sair, ele caminhou pela rua de terra sob os olhares dos seguidores do Pai na entrada do galpão. Enquanto andava, tentava tirar as manchas de terra e os respingos de vômito que ficaram em sua calça e, ao sair da rua de terra, caminhou paralelamente as grades do hospital, que estava iluminado. Ele viu que por mais que tentasse, não conseguiria limpar as roupas apenas dando tapinhas, e então desistiu. Caminhou até um ponto te ônibus que ficava mais acima na avenida e, por um instante, teve vontade de apenas tomar um ônibus que fosse para Campinas em vez de esperar Adriano. Desistiu quando lembrou que estava sem dinheiro. O dinheiro que gastou naquela noite gerava uma sensação ruim, como se tivesse sido desperdiçado. Precisava compensar de alguma forma utilizando as duas informações dadas pelo Pai para seu próprio benefício.
Enquanto esperava por Adriano, Lázaro começou a pensar sobre o que o Pai lhe dissera e o que ele vira. A imagem de Yathrib foi muito mais poderosa do que ele descrevera mas, por prudência, não detalhou muito. Se aquele homem viveu tudo que Lázaro viu, ele era de tempos mais antigos que a própria história escrita. O vômito foi um preço pequeno a se pagar por tudo que viu e ouviu, pois Lázaro pensou brevemente que poderia enlouquecer.
Se o Pai tinha alguma relação com o que a Torá chama de Ben ha Elohim, ele estaria percorrendo com discrição toda a história humana. Deveria ter conhecimentos há muito tempo esquecidos, presenciado grandes fatos que sequer foram documentados. Porém, estava lá, sentado em sua cadeira rústica e vivendo em um pardieiro discretamente. Os boatos sobre ele deveriam aumentar um pouco por dia, mas ninguém ia lá ver que mistério tinha em um galpão velho. Era espantoso para Lázaro como os mistérios estavam por toda parte, assim como em sua própria vida. Primeiro era o pai com uma vida dupla, cheia de segredos revelados após sua morte e apenas porque ele deixou registrado. Enquanto alguns jovens se deparavam com pais em vidas duplas com duas casas, duas esposas e muitos filhos, Lázaro tinha um pai que vivia uma vida pacata de antiquário e, nas horas vagas, entrava em um submundo de coisas sobrenaturais.
Adriano chegou uma hora após Lázaro chegar ao ponto de ônibus. Ao entrar no carro, o cheiro de vômito dentro do veículo começou a se acumular. Adriano não suportou e abriu o vidro do lado do motorista.
– O que aconteceu lá? E que cheiro ruim é esse?
Lázaro tentou contar tudo que ocorreu. O homem do galpão era realmente uma pessoa extraordinária, não por suas atitudes, mas pelas memórias que denunciavam uma vida impossível de ter sido vivida. O Pai conservava a memória de muitas épocas diferentes da história humana e Lázaro suspeitava que ele vivera todas elas. Como o Pai deixou claro que já sofreu muitas deficiências, Lázaro supunha que ele vinha reencarnando muitas vezes durante os séculos.
Adriano acreditava nessa hipótese de Lázaro, pois nenhum corpo, ao menos do que diz a Bíblia, vivera mais do que mil anos. “Matusalém viveu menos do que isso”, enfatizou Adriano. Além disso, Yathrib era um nome comum da cidade de Medina na época anterior à Maomé, e Adriano duvidava que aquele homem tivesse quase mil e trezentos anos. Lázaro assentiu, pois era mais plausível que ele tivesse reencarnado dezenas de vezes do que vivesse para sempre, apesar da hipótese ser, no fim, tudo ser inacreditável. Apesar da história em si já gerar inúmeras perguntas sem resposta, Lázaro confidenciou ao amigo que, ao chegar ao local, ele viu no Pai uma luz, como a que Isaac disse ter visto ao olhá-lo por meio da lupa, bem como ele mesmo vira na Bússola ao olhá-la. Adriano assoviou, admirado, querendo saber o que seria feito com aquela nova habilidade. Lázaro não soube responder.
Voltando para Campinas, Adriano deixou o amigo em frente ao portão e partiu. Lázaro deixou os sapatos sujos na entrada, tocou a mezuzá, beijou a mão e entrou. Havia um cheiro agradável de comida na casa, mas Sara e Elisabeth estavam na sala, assistindo a um filme. Sara parecia infeliz, enquanto Elisabeth parecia tranquila.
– Boa noite, gente. – Lázaro tentou falar com tranquilidade, como se nada tivesse ocorrido.
– Olá... – Elisabeth respondeu, displicente.
– Olá... que cheiro é esse, Lás? – Sara tratou de tapar o nariz com os dedos.
– Ah, nada. Um idiota vomitou em mim. Já estou indo tomar banho.
Atravessando o corredor, Lázaro foi até o quarto, pegou uma toalha, algumas peças de roupa e foi para o banheiro. Ele tomou um longo banho enquanto repassava tudo que ocorrera em sua vida até aquela noite. Então, imaginou se ele mesmo, com suas habilidades, e outras pessoas aparentemente comuns brilhariam ao serem vistas através da lente da lupa. Poderia tentar ver com os próprios olhos, como ocorrera acidentalmente quando olhou para o Pai, mas não havia nenhuma garantia de que fosse possível fazer aquilo quando quisesse e, se fosse, quais fatores possibilitavam tal habilidade. Deixaria para fazer o teste no dia seguinte ou depois. Para aquela noite ele tentaria outra coisa, possivelmente arriscada: entrar no poço que tinha dentro de Sara.
Após o banho, Lázaro colocou as roupas limpas e levou as outras que estavam sujas para um tanque de lavar roupas que ficava no quintal dos fundos da casa. Ao abrir, a porta dos fundos rangeu como se não fosse aberta há muito tempo. Voltando para sala, as duas mulheres ainda assistiam ao filme, apesar do desinteresse no que estava passando.
– Vocês jantaram?
– Sim. – As mulheres responderam em uníssono.
– Vou comer, okay?
– Claro. – respondeu Sara. – A cerveja ainda está na geladeira.
– Ah, obrigado, mas só o jantar está ótimo.
Lázaro foi até o fogão e pegou um pouco de cada alimento preparado. Havia arroz, feijão e uma grande panela de pressão. Quando Lázaro abriu a panela, sua única reação foi um urro baixo de admiração. Havia uma receita que sua mãe fazia quando ele era criança, mas que, após a morte dela, ele não comeu mais. A receita que levava cenoura, batatas e cubos de carne cozidos. Era simples e fácil de preparar, mas Lázaro nunca tentou reproduzir. Pensando agora, ele mesmo não sabia por que nunca tentara refazer a receita, apesar de ter ótimas memórias das vezes que a mãe preparou.
Para o jantar, havia também salada de alface, tomate e palmito, mas ele só percebeu quando já estava comendo. As lembranças resgatadas por aquela receita de cozido o fizeram viajar pelo tempo, no passado, entre almoços e jantares em que estavam seus pais, Sara e ele. Lázaro era ainda um garoto que nunca soubera o que era fome e tinha um apetite inabalável; Sara, uma menina bem menor que ele e com inúmeros arranhões, resultados de suas escaladas e aventuras em lugares perigosos; Ruth, uma mulher de meia idade sempre tranquila e sorridente, de cabelos pretos e cacheados como os de Lázaro, e; Isaac, um homem que possuíra todos os traços faciais e atitudinais que Lázaro tinha agora que era adulto. As únicas diferenças entre Isaac e Lázaro adultos era que Isaac era calvo e conservava uma barba espessa e grande, mas bem alinhada, enquanto Lázaro nunca deixava a barba crescer, com exceção da época da faculdade, onde a maioria dos homens ficavam algumas semanas sem se barbear.
Isaac se casou quando tinha quase quarenta anos, e Ruth tinha cerca de vinte e cinco. Apesar da diferença de idade, os avós de Lázaro nunca questionaram a escolha da filha. Na época, Isaac já era dono do antiquário e demonstrava ser muito esforçado. Quem não gostou da escolha de Ruth fora sua irmã mais nova, Adelia, que dizia que Isaac era muito feio e velho. Ruth nunca se importou com isso, e teve certeza que fizera a escolha certa após o divórcio da irmã. Enquanto Daniel mudara-se para Israel, Adelia se casou com Fernando, um homem que maltratava Sara. Aos dois anos de idade, Ruth e Isaac conseguiram o direito sobre a guarda de Sara, prometendo garantir a menina tudo que ela merecia para crescer bem. Não se passou nem um ano quando Fernando decidiu mudar-se de volta para sua cidade natal, Vitória, e Adelia foi com ele. Os laços entre mãe e filha foram completamente cortados neste dia. Isaac e Ruth criaram as duas crianças até Ruth descobrir o câncer. Algumas semanas depois dela preparar pela última vez o cozido que Lázaro adorava, veio o diagnóstico de câncer e Ruth morreu menos de um ano depois.
Comer aquela refeição também trouxe para Lázaro a lembrança da mãe na cama do hospital. Era a lembrança mais triste que Lázaro tinha e era a única que o fazia chorar. Depois da morte da mãe, ele nunca mais derramou uma lágrima na frente das pessoas. Como Lázaro nunca contava sobre sua vida ou não demonstrava comoção, algumas pessoas diziam que ele era insensível, que não se solidarizava com a dor das outras pessoas.
Ao longo dos dezesseis anos que se seguiram após a morte de Ruth, Lázaro tentou não chorar – apesar de sofrer. Entretanto, naquela noite e enquanto jantava, as lágrimas brotaram com muita intensidade. Sara foi se apoiando pelas paredes até chegar na cozinha para saber o que Lázaro achava da surpresa que ela preparou. Ao se aproximar, ela o ouviu fungando enquanto jantava, e foi ver o que estava acontecendo. Ao perguntar para o primo, Lázaro apenas meneou negativamente com a cabeça, enquanto impedia que seus lábios denunciassem sua tristeza.
– Está ruim? – Sara perguntou em tom de preocupação.
Lázaro negou com a cabeça enquanto comia.
– Então por que você está assim?
– Nada.
Sara caminhou, apoiando-se na parede, até se sentar na cadeira em frente ao primo.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não... eu só lembrei da minha mãe.
– Você não pensa muito nela?
– Eu evito, mas... sei lá. Eu lembrei hoje. O cheiro da comida está igual ao da comida dela.
– Desculpa. Eu queria fazer algo gostoso.
– E está. Está muito bom. Parabéns. – Lázaro fez uma pausa. – Eu fiquei triste, mas a culpa não é sua. Você é uma das alegrias da minha vida. – Lázaro segurou a mão da prima, para mostrar que estava tudo bem. – Você sabe que é como uma irmã para mim, não sabe?
Sara sorriu e confirmou. Eles ficaram em silêncio por um instante e, então, Sara começou a falar novamente.
– Eu me lembro muito pouco da minha mãe. Eu tinha quantos anos quando os tios me trouxeram para cá?
– Eu estava na primeira série. Isso foi em setenta e sete, então... você tinha dois. Vai ver que para as crianças é mais fácil esquecer.
– Pode ser... exceto você. Você lembra de muita coisa. Parece uma filmadora ligada vinte e quatro horas, registrando tudo.
Lázaro sorriu e ambos ficaram novamente em silêncio por um instante enquanto Lázaro continuou comendo. Então, Sara continuou.
– Você conseguiu fazer o que ia fazer hoje à noite?
Lázaro confirmou com a cabeça.
– E como foi?
– Bem... foi interessante.
– Só isso? Você saiu cheio de mistérios.
– Eu fui ver um conhecido do meu pai. Ele é bem velho, sabe? Velho mesmo. Eu falei com ele e ele me deu umas dicas de como acertar minha vida.
– É? E como?
– Que preciso treinar.
– E precisa mesmo. – Sara riu. – Comendo assim, precisa muito.
Lázaro sorriu, terminou sua refeição e levantou-se para dar um beijo no cocuruto de Sara. Enquanto a prima voltava devagar para a sala, ele ficou na cozinha e lavou a louça que estava na pia. Quando o filme terminou, Elisabeth se despediu e foi dormir. Por sua vez, Sara voltou até a cozinha, apoiando-se nas paredes.
– E aí, primo? – Sara se sentou novamente na mesma cadeira.
– E aí, prima? – Lázaro se virou e sorriu para Sara.
– Você é bom em lavar louça?
– Acho que sim. Lavo há tantos anos que acho que aprendi todos os macetes.
– E como é morar sozinho? Eu nunca morei sozinha.
– Sabe quando você fica sozinha em casa e, depois de achar que ia se divertir muito, acabou sentada na frente da tevê?
Sara meneou a cabeça, afirmando que entendia a analogia de Lázaro
– Então, isso é morar sozinho. Só que, ao invés de ser um dia, são todos os dias.
– Credo. E como você aguenta?
– Não sei. Fui ficando e estou assim há nove anos. Por isso estou contente de estar aqui. Estamos aqui, sob o mesmo teto como quando éramos crianças e tudo era simples e divertido. – Lázaro foi até a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja. – E tem o bônus de ter cerveja para deixar o fim de noite mais relaxante.
– É, mas isso não tinha quando éramos crianças... – disse Sara, rindo com o primo, mas ficando séria, logo em seguida. – Eu ia em muitos pubs lá na Inglaterra. Bebi várias marcas de cerveja, mas parei porque tinha um remédio que não podia consumir com álcool. Esse tipo aí nem tem lá.
– Então, a Elisabeth nunca bebeu dessa? – Lázaro levantou o copo e bebeu um gole.
– Ih, ela nem bebe. Eu ia e ela ficava olhando.
– Ela não bebe, não come quase nada... – Lázaro fez uma pausa e bebeu mais um gole, continuando em um tom mais baixo. – Muito me admira ela estar tão cheinha quanto eu.
– Ah, Lazinho! Credo. – Sara repreendeu Lázaro, mas ao mesmo tempo sentia vergonha de precisar segurar o riso. – Ela não era assim. Era magra, mas nos últimos meses... vai ver tem a ver com hormônios desregulados.
Lázaro forçou um sorriso e bebeu mais um gole. A cerveja estava fria e agradável ao paladar.
– Você ainda está bebendo o tal remédio, Sara?
– Não. Trocaram por outro, e por outro...
– Então vamos beber para dar um pouco de leveza para a vida.
Sara pegou a cerveja e deu um gole. No mesmo instante, sentiu com toda a intensidade o sabor do amargo da bebida. Admirada, ela pôs a mão na boca.
– Que foi, Sara? Engasgou?
– Não. Eu senti o gosto. Eu achei que não ia sentir.
– Você sentiu o gosto da outra vez que bebeu?
– Nossa, nem lembro. – Sara sorriu.
Ela não achava que era o melhor sabor a se sentir, mas era um sabor. Mal passou alguns segundos e começaram a sentir o efeito do álcool fazer efeito. Os primos aproveitaram a descoberta de Sara para dividirem a garrafa de cerveja inteira. Como ambos não bebiam há meses, o efeito foi rápido. A realidade parecia estranha para Lázaro. As coisas pareciam estar mais claras, como se luzes extras tivessem acesas. Ao fim da garrafa, já sentia a cabeça pesada. Sara estava sentada à sua frente, apoiando a cabeça sobre a mão esquerda, enquanto a direita segurava o copo de cerveja quase no fim. Lázaro franziu o cenho. Havia uma linha vermelha saindo da cabeça da prima, uma linha semelhante a que ele vira quando lutou contra Gerson em seu apartamento. O fio brilhante parecia se mover da cabeça dela e seguir até a parede.
– Está bem, Lazinho?
– Hum? – Lázaro estava totalmente focado na linha vermelha.
Sara bebeu o último gole e ficou olhando para Lázaro. Por sua vez, Lázaro levantou sua mão e tentou pegar a linha, que deformou, dividiu-se em várias linhas menores que se juntaram do lado oposto à mão dele, sempre mantendo ao menos uma parte unida. Sara, sem entender a atitude do primo, o fitava enquanto ele olhava para a própria mão.
– Aconteceu alguma coisa, Lázaro?
– Ah... não.
– Então por que você está agindo de maneira estranha?
– Eu tentei pegar um bichinho que passou perto do seu rosto.
– Ah, tá.
Ainda lúcido, Lázaro começou a juntar as peças. Era a segunda vez que via a linha. “Será que todo mundo tem?”, pensou.
– Então, Sara. Quer outra cerveja?
– Ah, quero sim.
Lázaro pegou outra cerveja e a serviu, mas fingiu precisar ir ao banheiro. Aproveitou para ver a linha pelas costas de Sara. Em uma tentativa de ver com clareza, ele pode ver o fluxo da linha saindo da cabeça da prima e entrando na parede da cozinha. Aquela parede dividia a cozinha com a suíte onde Elisabeth estava dormindo naquele momento. Sentado no vaso sanitário, Lázaro começou a pensar e estava claro para ele que não era sua imaginação e que o fio ligava sua prima a amiga. Era o momento de tentar investigar mais a fundo.
Imaginando que não melhoraria rapidamente do efeito do álcool, Lázaro voltou à cozinha e bebeu apenas mais um copo de cerveja. Logo depois, pegou a garrafa de água e começou a beber aos poucos, para tentar diminuir os efeitos do álcool. Para segurar Sara na cozinha, começou a lembrar de coisas da faculdade. Das poucas festas que foi, principalmente com o incentivo de Beatriz.
Após quase uma hora conversando e Sara começando a bocejar, Lázaro decidiu que deveria tentar entrar no poço. Ele tinha uma suspeita muito séria, mas não disse à prima. Sara aceitou e ele começou novamente o processo de concentração.
Lázaro acordou na alvorada de domingo, cansado, como se ele mesmo tivesse participado daquela batalha. Quanto a borduna, ficou claro para ele que aquela arma não era afiada como uma espada, mas tinha a capacidade de atacar criaturas sobrenaturais, uma qualidade especial que fazia dela única. Pensou que seria melhor não precisar usá-la, mas também pensou em como um objeto tão poderoso caiu nas mãos dos homens brancos. A arma provavelmente fora roubada em algum momento da história daquela tribo e trazida para alguma família que provavelmente a usava para enfeitar uma parede, algo totalmente estúpido visto aos olhos de um guerreiro de verdade.
Ao se levantar, ele acendeu a lâmpada, foi até a mesa e escreveu em uma folha de papel: “Existe alguma criatura chamada Mah’daham nas lendas indígenas?” Ainda muito eletrizado pelo evento, apagou a lâmpada do quarto e foi até a cozinha beber água. Quando saiu do quarto, ouviu algo como uma voz, mas que parou repentinamente. Não querendo ser indiscreto, ele continuou andando até a cozinha. Como o local não tinha porta e se ligava diretamente a um corredor que ligava todos os cômodos, Lázaro pensou que sua presença ali poderia incomodar a prima e sua amiga. Para dar privacidade para Sara e Lilly, ele pegou uma jarra de vidro que estava na geladeira, encheu um copo com água e bebeu. Depois, voltou a encher o copo e o levou para o quarto, fechando a porta e abrindo a janela.
Sentado na cadeira de escritório em seu quarto, Lázaro ficou imóvel, relembrando a luta contra Mah’daham. Porém, ele sabia que não foi isso que aquela tribo ouviu, e sim algo como “mar da jarran”. Ele lembrou então que Adriano lhe contara algumas histórias narradas nas antigas cartas que Hideo, seu pai, enviara para ele sobre seus problemas que passou no Japão. Certa vez, Hideo escreveu que os primeiros dias no primeiro emprego após sua chegada ao Japão foram muito difíceis. Apesar de falar japonês, ele não era fluente na língua e aprendeu o idioma com os pais.
Os pais de Hideo eram imigrantes e vieram para o Brasil ainda crianças, juntamente com os avós dele, alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial. O japonês falado por japoneses dentro do Japão sofreu mudanças em relação ao falado pela família de Hideo após a Segunda Guerra e algumas coisas passaram a ter outros nomes, como o martelo, o exemplo citado na carta. O patrão de Hideo mandou ele pegar um hanmā – uma palavra adaptada do inglês hammer – e ele não sabia o que era, até o patrão apontar para o martelo, chamado de kanadzuchi por Hideo, como ele aprendera com os pais. O patrão, claro, ficou irritado com o pai de Adriano e o chamou de baka, que ele só descobriu depois ser uma ofensa, mas deixou para lá, pois precisava do emprego.
As mudanças no idioma aconteceram em muitas sociedades e em muitas épocas diferentes, palavras que são adaptadas de outros idiomas e que não tem origem naquela cultura, ou palavras que tem o mesmo sentido, mas com pequenas variações na grafia e pronúncia, dependendo da cultura em que ela estava inserida. Desta forma, mesmo que Lázaro encontrasse alguma história ou lenda sobre o Mah’daham, ele não teria como saber o que a criatura quis dizer com seu nome ou o que o monstro era na realidade.
O primeiro ponto que Lázaro considerou era que o nome da criatura não era do idioma daquela tribo do sonho. Sua certeza se baseava em uma constatação: de alguma forma, todos os objetos que Lázaro sentiu, e que lhe ofereceram essas memórias do passado do artefato, garantiram um entendimento completo do idioma do seu portador. Sendo assim, quando o monstro disse quem ou o que ele era, não fez sentido para Teg’hó, e o nome Mah’daham dado pela tribo não era uma palavra daquele idioma. O nome “escuridão da sombra” atribuído pelo monstro a si mesmo fizera sentido. Para não esquecer, Lázaro anotou os nomes citados – Mésab, “escuridão da sombra”, e “dente de Dehutsáb”, o nome da borduna.
Após sentir que havia avançado um pouco mais em sua trilha pelo desconhecido, Lázaro deixou a borduna sobre a mesa do escritório, recolocou o anel no dedo e voltou a deitar. Por sorte, conseguiu dormir profundamente. Voltou a acordar às dez horas, despertado pelos sons da cozinha e do televisor. Seu corpo estava dolorido, resultado da noite intensa. Preferiu tentar diminuir a dor no corpo com um banho.
Enquanto se lavava, Lázaro olhou para o chão e viu a água descendo pelo ralo, formando um redemoinho. Neste instante, lembrou da visão do poço com o redemoinho vermelho e começou a refletir. Na verdade, não parecia um poço, mas sim um buraco no chão com um pequeno anel de pedras bem polidas ladeando o buraco. A neblina dourada vencia facilmente o obstáculo produzido pelo anel de pedras e sumia no redemoinho vermelho. Lázaro nunca havia visto algo como aquilo, e não sabia o que poderia ser, mas havia uma certeza quase sólida de que o buraco e a neblina eram representações que identificavam coisas que não podiam ser vistas, como se a sua mente decodificasse um sinal, tal qual a um televisor que converte ondas de rádio em imagem e som. Se entendidas, as representações poderiam explicar o que Sara tinha e a cura seria possível.
Após um banho demorado, ainda perdido em sua meditação, Lázaro parou na frente do espelho e alisou o rosto. Não se barbeava havia duas semanas. O rosto ainda estava inchado e um pouco mais roxo. Foi neste instante que ele sentiu novamente que alguém o olhava, mesmo estando sozinho no banheiro. Olhando de volta para os pelos da barba, Lázaro concluiu que há muitos anos não negligenciava sua própria aparência e, ao se barbear, fez um corte no queixo que sangrou, pingando dentro da pia de tom verde como jade. Lázaro pegou um pequeno pedaço de papel higiênico e pôs sobre a ferida, para ajudar a coagular. Sangrar não lhe parecia algo tão ruim naquele momento, com o rosto ainda inchado, um dos olhos em tons de roxo. Ainda tinha a mão dolorida que ele usou para desferir um único e certeiro soco no queixo do vizinho.
O semblante indiferente frente às grandes dificuldades que Lázaro enfrentava nestas mais de duas semanas causavam a impressão de que ele era uma pessoa resiliente e que sempre tinha uma solução para os problemas, o que não era verdade. Ele sabia que conseguia seguir em frente mais rápido que a maioria das pessoas. Enquanto muitos passavam meses, e até anos, sofrendo por seus parentes falecidos, Lázaro conseguia fingir não sofrer. Parecia ter aprendido ou herdado naturalmente do pai, um homem que viveu uma vida dupla e nunca demonstrou preocupação, ao menos, não demonstrou para ele e para Sara. Pensou que até mesmo Ruth poderia não saber da maioria dos segredos de Isaac, deixando, assim, segredos perfeitos, mas fardos muito pesados para uma única pessoa.
Lázaro começou a pensar que esses segredos também o afastaram de Isaac, e nada de bom veio daí. Diferente de Isaac, Lázaro nunca mantinha um segredo só para si. Na vida adulta, as poucas coisas que precisou realmente manter como segredos, as compartilhou com Adriano. O amigo, por sua vez, sempre fora crédulo e discreto com os próprios segredos e dos outros. Em outros momentos, principalmente na infância e adolescência, confidenciou alguns segredos para Sara, dada a sua afeição. Na época, ainda menina, Sara não se dava muito bem com segredos e sempre contava para alguém, o que fez Lázaro perder a confiança nela para a função de confidente.
Durante a manhã e à tarde domingo, Lázaro passou ajudando Sara a se locomover pela casa. Ele a levava a todos os cômodos que ela precisava, com muito cuidado e carinho. Sara perguntou se isso o incomodava, mas ele deixou claro que estava ali com a intenção de ajudar e que ela pedisse o quanto quisesse. Como dizia o provérbio: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Sara ficava boa parte do dia com camiseta de manga longa e calça de moletom para proteger de alguma brisa fria ou de mosquitos – qualquer doença poderia ser perigosa. Apesar de fazer tudo para a prima com sorriso no rosto, Lázaro ficava sempre preocupado. Nenhum médico tinha uma resposta ou tratamento. O medo da morte de Sara era uma constante em sua mente.
O Sol estava se pondo quando Adriano apareceu. Ele entrou e cumprimentou a todos. O amigo tinha em suas mãos duas sacolas com duas garrafas de cerveja cada.
– Comprou cerveja, para quê? – Lázaro perguntou, curioso.
– Sobrou de uma festa e o dono me deu. Eu não bebo, então pensei que você gostaria.
Lázaro ficou contente com as cervejas pois não bebia uma há algumas semanas. Ele pegou as garrafas e as levou para a cozinha. Estavam frias, então pensou que não poderiam ser deixadas à temperatura ambiente.
– Quem te deu isso? – perguntou Lázaro, ainda da cozinha.
Lázaro colocou as cervejas na geladeira enquanto Adriano o esperava no corredor para eles saírem.
– É o José. Um conhecido da minha família. Ele passou em um concurso para delegado e vai para Limeira. Aí ele deu uma festa de despedida e sobrou cerveja. – Adriano bateu com o indicador na testa duas vezes, em sinal de que lembrara de algo, e estendeu um envelope com o dinheiro. – Trouxe isso aqui também.
Para saírem logo, Lázaro se despediu de Sara e de Elisabeth rapidamente. Lázaro não deu explicações, só disse que não iam demorar. O dinheiro, ele pôs no bolso, do lado direito.
No carro, a caminho de Sumaré, Lázaro ficou olhando para as ruas da cidade. A viagem passou por áreas ainda movimentadas, com homens e mulheres voltando para suas casas após um dia extenuante de trabalho, apesar de ser domingo. Lázaro não conseguia esconder a excitação e preocupação que era denunciada pelos irritantes movimentos das pernas e o tamborilar dos dedos. A cada instante, ele passava a mão sobre o bolso para garantir que o pequeno pacote de dinheiro ainda estivesse no mesmo lugar. Era o maior valor em dinheiro que ele já colocara no bolso de uma só vez durante sua vida toda e não poderia ficar com um centavo.
– Você sabe se o homem ainda está lá?
Adriano perguntou para Lázaro, mas com os olhos atentos para a rodovia.
– Não faço ideia. Só sei o que meu pai deixou escrito, e foi algo que aconteceu há mais de dez anos. – Lázaro ficou mais preocupado em imaginar que seria uma viagem em vão.
– Um tiro no escuro?
– Um tiro no escuro e eu só tenho uma bala no revólver. – Lázaro fez um muxoxo – Se eu chegar lá e não ter mais ninguém, estou ferrado. Aliás, mesmo que ele esteja lá, nada garante que ele saberá me responder o que eu tenho a perguntar.
– O seu pai disse quem ele era?
– Sim, mas meu pai o viu por pouco tempo. O ponto principal para eu sair de casa e ir atrás dele é o fato do meu pai ter escrito que aquela esfera dourada o levou até lá e a lupa o identificou como possuindo algum poder.
– Nossa! A lupa. – Adriano boquiabriu-se, admirado. Havia se esquecido que o tal objeto existia – A gente nunca mais mexeu nela, hein?
– É, não é sempre que a gente tem coisas para olhar com ela.
Saindo da rodovia, os dois entraram em uma avenida conhecida por Adriano. Ele sempre morou em Sumaré, em um bairro próximo ao centro, com a mãe e a irmã. O pai estava no Japão há catorze anos, mesmo tendo prometido que ficaria apenas dois anos. Aos dezoito, Adriano trabalhava e estudava para poder entrar em uma universidade, enquanto o pai não só não tinha voltado como não mandava mais notícias. Por algum tempo, a mãe tentou contato com os familiares dele, mas a única resposta foi que Hideo não voltaria mais.
Já se passaram mais de dez anos sem notícias de Hideo. Buscando um destino diferente, Adriano, a mãe e a irmãzinha passaram a frequentar uma igreja, onde foram acolhidos pelos membros do grupo e, desde então, eles participam regularmente das atividades da comunidade religiosa. Há alguns anos, participando dessas atividades, Adriano conheceu Yonara e pouco tempo depois eles começaram a namorar. Apesar de conhecer Adriano há anos, Lázaro raramente perguntava sobre sua vida e conhecia a família dele de vista; viu Yonara uma única vez e não tinha pretensão de ter um contato maior. Não era ódio ou qualquer tipo de rancor e Adriano entendia que Lázaro se tornou mais recluso após o fim da faculdade.
Seguindo pela avenida, Adriano desacelerou e estacionou no mesmo posto que Isaac estacionara há mais de uma década e onde havia naquele momento um homem sentado, no escuro, ouvindo um pequeno rádio, provavelmente o segurança. Do outro lado da avenida, havia um grande hospital em construção do lado de uma escura rua sem asfalto. Seguindo pela rua de terra, era possível ver um vulto alto e convexo: o galpão.
– Nossa... eu já passei muitas vezes aqui e nunca achei que aquele galpão fosse grande coisa. – disse Adriano, olhando para o prédio antigo.
– Pode ser que nem seja grande coisa, e eu só vou saber se é útil para nós se eu entrar lá. – Lázaro segurou a nuca, que latejava. Estava com os nervos à flor da pele. Mesmo assim, começou a caminhar em direção ao galpão.
– E se ele já não mora mais lá e você der de cara com algum ladrão?
Lázaro parou por um instante. Ele ficara incomodado em perder o dinheiro, mas não tinha pensado que poderia tê-lo roubado por um assaltante em um lugar improvável. Adriano, sempre proativo, foi até o segurança do posto e perguntou se ainda havia visitantes ao galpão. O homem confirmou, mas orientou a não irem lá pois o pessoal daquele lugar tinha ficado muito agressivo nos últimos anos. “Já teve gente que foi lá e não voltou”, disse o segurança. Adriano achou melhor que o amigo desistisse, mas Lázaro, apesar do medo, não aceitou perder a oportunidade. Tinha expectativa de que não ia ocorrer nada e precisava arriscar. Ele deixou a carteira e o anel aos cuidados de Adriano, levando apenas o documento pessoal e o dinheiro, mas combinando antes de entrar no galpão que eles se reencontrassem naquele mesmo local. Da mesma maneira que não era prudente Lázaro ir, não era prudente Adriano ficar parado ao lado de um posto de gasolina escuro.
Ao caminhar por alguns minutos pela rua de terra, Lázaro foi abordado por cinco homens com roupas puídas, mas razoavelmente limpas. Não pareciam mendigos, e sim homens pobres de meia idade e magros. “Eu vim falar com o Pai”, disse Lázaro, enquanto era revistado. Um dos homens – branco, alto e calvo – pegou o maço de dinheiro, desembrulhou e o levou para dentro. Poucos instantes depois, ele e os demais homens escoltaram o visitante para dentro da construção.
Por fora não era possível ver, mas o galpão era iluminado, provavelmente uma medida de proteção para impedir a aproximação de curiosos. Havia muitas pessoas, a maioria pessoas de meia idade, mas também alguns jovens. Alguns oravam, outros arrumavam o espaço. Em um dos cantos, sobre um tablado, estava um homem sentado em uma cadeira. Aquele homem era o único que possuía, aos olhos de Lázaro, uma luz diferente refletindo em seu corpo. A luz parecia ser, na verdade, irradiada por ele, como a Bússola de Acre. O Pai estava em uma posição de destaque dentro do galpão, mas não estava nu. Provavelmente a idade exigia que ele se protegesse melhor do frio, apesar de ainda ser outono. Lázaro foi levado até próximo do homem e forçado a se ajoelhar.
Quando o Pai aproximou sua mão ao rosto de Lázaro, este ficou muito preocupado. Se aquele homem era um ser poderoso, poderia, de alguma forma, gerar as sensações que Lázaro só tivera quatro vezes e de maneira involuntária – e foi o que ocorreu. Ao ter a mão encostada em seu rosto, Lázaro viu inúmeras coisas muito rapidamente, como se fizesse uma viagem em um museu cheio de instalações artísticas e que ele só tivesse um segundo para experimentar todos os sentidos de cada uma das salas, mas as intervenções eram memórias quase completas, com cheiros, cores, sons; memórias do Pai sendo recebidas sem ter tempo de entendê-las ou assimilá-las, memórias que não seriam possíveis acumular em uma só vida. As visões foram tão intensas que Lázaro apoiou as duas mãos no chão e vomitou. Com nojo, o Pai recuou um pouco.
– Você está me ouvindo? Você está doente? – o Pai acocorou-se ao lado de Lázaro.
Lázaro parou por alguns instantes, em silêncio, com a respiração rápida. Quando ele conseguiu se recompor, foi prudente para explicar o ocorrido.
– Não estou. É que eu vejo coisas.
– Coisas? Quais coisas? – perguntou o Pai, curioso.
– Quando o senhor me tocou, eu vi muitas coisas... – Lázaro começou a se levantar, devagar. – É por isso que estou aqui, para entender por que vejo o que vejo. – Lázaro não sabia por que estava falando abertamente, mas sentia que precisava ser o mais sincero possível. Sem jogos, sem ocultações.
O silêncio do Pai denunciava que Lázaro chamara-lhe a atenção. Então, o velho homem perguntou:
– Quem é você?
– Meu nome é Lázaro Shlock. Sou filho de Isaac Shlock, um homem que já veio aqui uma vez há mais de dez anos. Na época, o senhor respondeu à pergunta dele. Ele me deixou um aviso para que, se um dia eu tivesse uma pergunta realmente importante, eu viesse aqui.
– Não lembro deste nome... Isaac. Não é o tipo de nome que se esquece.
– Ele deu o nome de José de Souza Ferrari.
– Hmmm... seu pai mentiu para mim. – O Pai foi guiado em direção de sua cadeira e se sentou, cruzando as pernas e apoiando o queixo com o indicador e o polegar. – Quem garante que você não está mentindo também?
– Eu tenho o meu documento no bolso. – Lázaro colocou a mão no bolso, mas foi parado por um dos seguidores do Pai.
– Documentos podem ser falsificados.
– Mas as visões que eu tive não podem. Acredito que são suficientes para dizer que não minto.
– Bem pensado. Mas não é tão simples. – O Pai sorriu. – Façamos o seguinte: Diga uma visão que você teve e eu vejo se é algo interessante o suficiente para nossa conversa continuar.
Lázaro se concentrou em apenas uma memória. Aquela que parecia mais interessante pela riqueza de detalhes.
– Foram visões muito rápidas... em uma visão mais nítida, eu vi um homem que falava comigo. Ele parecia aqueles beduínos, mas não estávamos em um deserto, estávamos em uma cidade com muitas barracas de madeira e muitos tecidos coloridos. O sol era forte e entrava por frestas em estruturas que ficavam sobre o passeio entre os prédios... havia muito barulho, o som de pessoas vendendo coisas...
Lázaro se sentia mais tranquilo e a luminosidade do Pai ia diminuindo, até ele se parecer com uma pessoa razoavelmente normal. O Pai ouvia com atenção e assentia com a cabeça a tudo que Lázaro dizia, como se ouvisse uma história muito interessante e que indicava ter final feliz. Até que abriu a boca e disse:
– Yathrib...
– O quê? – Lázaro não entendera o comentário.
– Esta cidade que você está falando é Yathrib. Quer dizer, Al Madinah, uma cidade que visitei algumas vezes.
– Então o senhor acredita em mim?
– Ah sim, rapaz. Foi uma visão bem escolhida. Então, você sabe o que eu sou?
– Não. – Lázaro respondeu, convicto.
O Pai sorriu.
– Certo. Vamos a sua pergunta: “Por que você vê o que vê?”. Bem, você tem visões sempre?
– Não. Só quando eu toco algumas pessoas.
– Como eu?
– Nunca senti nada igual. O que vi ao tocar o senhor foi igual a... bem, o mais próximo foi quando toquei na minha prima, mas o que vi nela não se compara.
– Lázaro. Vamos com calma. Vamos voltar a esta parte que você disse que tocar em mim foi igual a “algo”. Que “algo” seria este?
Lázaro sentia que, naquele momento, poderia mentir e tentaria omitir tudo que pudesse.
– A minha prima.
– Não, não – O Pai levantou o dedo indicador na direção da voz de Lázaro e fez um sinal negativo enfático. – Não era isso que você ia dizer. Você ia dizer outra coisa, outra pessoa. Quem você já tocou que sentiu o mesmo que eu?
– Foi o que eu disse. A minha prima.
– Lázaro. – O Pai mantinha um tom cordial, mas parecia esconder uma raiva que poderia crescer e se tornar um problema. – Vamos manter a cordialidade aqui. Diga quem você tocou e podemos continuar. Não estamos nos dando bem aqui? Estamos, não? Estamos conversando com franqueza e esta conversa pode ser muito enriquecedora tanto para mim quanto para você.
Lázaro pensou um pouco. Não poderia citar o anel, nem a lupa e nem a borduna. Se o Pai quisesse roubá-los, provavelmente conseguiria. Só restava a Bússola, um item que dizendo a verdade não lhe causaria problemas.
– Foi uma esfera dourada que eu tive contato há duas semanas. Começou tudo aí.
– Uma esfera dourada? Interessante. Como era esta esfera dourada?
Lázaro hesitou por um momento, para aumentar a curiosidade do Pai.
– Não era muito grande. Era do tamanho de uma bola de sinuca. Tinha alguns desenhos... duas espigas de trigo, um boi, um peixe, um sol...
– ...e dois homens ladeando um pássaro gigante. – O Pai complementou.
– É isso mesmo. O senhor já viu?
– Já. Aquilo é um problema. Com quem está agora?
– Entreguei para um rapaz que desapareceu da face da Terra.
– Fez bem. E onde você conseguiu esta esfera?
– Era do meu pai. – Lázaro fez uma pausa. – Uma pessoa matou meu pai por ela.
– Entendo. Essa esfera causa uma cobiça nas pessoas. Você teve sorte de não ter ficado muito tempo com ela. Bem, você tem sido a pessoa mais interessante aqui nos últimos... – o Pai colocou a mão no queixo, pensativo. – Nossa, não sei há quanto tempo. Pessoas como você não são comuns. Sei que existem pessoas com alguma habilidade especial, mas são raros.
– Como nós. – Lázaro corrigiu.
– Pode ser. Como nós. Bem, estou me estendendo. Voltemos a sua pergunta: Por que você vê coisas. A esfera que você tocou pode ser o que eu chamaria de espoleta, ou um gatilho. Ela não fez nada além de acender algo que estava latente em você. Agora, você escolhe o que fazer. Deixa apenas latente de novo ou estimula para que se manifeste.
– Se eu for estimular, como faria isso?
– Isso é uma segunda pergunta. – Pai sorriu e ficou em silêncio por alguns segundos. – Mas eu responderei de graça. Deve ser estranho para você se imaginar treinando uma habilidade que ninguém mais possui, que não possui uma escola ou livro que ensine. Porém, pense nesta habilidade como uma escada. Cada degrau que você sobe, por mais difícil que seja, possibilita ver mais longe no horizonte.
Lázaro ficou com a boca fechada, apenas sonorizando com a garganta, sinalizando com a cabeça ter entendido.
– Você deve ter pensando por qual motivo eu diria “ver mais longe” sendo cego. Não é por que eu estou cego que sempre fui assim. Eu já fui surdo e paralítico também. Tive quantas deficiências você conseguir imaginar. Então, se um dia você voltar tendo alcançando o alto de sua escada e ela possibilitar-lhe a visão de um horizonte quase infinito, eu lhe digo quem eu sou e creio que tudo fará sentido... ah, quem sabe, até lhe responda uma pergunta sem cobrar dinheiro.
Levantando o indicador, o Pai sacudiu o dedo, indicando que a sessão acabara.
– Agora, pode ir. Vá treinar.
Um dos seguidores aguardou para que Lázaro beijasse a mão do Pai, mas este não quis. “Não quero mais vômitos por aqui”. Então, Lázaro foi levado para fora.
Toda a sessão foi mais rápida do que Lázaro imaginou. Ao sair, ele caminhou pela rua de terra sob os olhares dos seguidores do Pai na entrada do galpão. Enquanto andava, tentava tirar as manchas de terra e os respingos de vômito que ficaram em sua calça e, ao sair da rua de terra, caminhou paralelamente as grades do hospital, que estava iluminado. Ele viu que por mais que tentasse, não conseguiria limpar as roupas apenas dando tapinhas, e então desistiu. Caminhou até um ponto te ônibus que ficava mais acima na avenida e, por um instante, teve vontade de apenas tomar um ônibus que fosse para Campinas em vez de esperar Adriano. Desistiu quando lembrou que estava sem dinheiro. O dinheiro que gastou naquela noite gerava uma sensação ruim, como se tivesse sido desperdiçado. Precisava compensar de alguma forma utilizando as duas informações dadas pelo Pai para seu próprio benefício.
Enquanto esperava por Adriano, Lázaro começou a pensar sobre o que o Pai lhe dissera e o que ele vira. A imagem de Yathrib foi muito mais poderosa do que ele descrevera mas, por prudência, não detalhou muito. Se aquele homem viveu tudo que Lázaro viu, ele era de tempos mais antigos que a própria história escrita. O vômito foi um preço pequeno a se pagar por tudo que viu e ouviu, pois Lázaro pensou brevemente que poderia enlouquecer.
Se o Pai tinha alguma relação com o que a Torá chama de Ben ha Elohim, ele estaria percorrendo com discrição toda a história humana. Deveria ter conhecimentos há muito tempo esquecidos, presenciado grandes fatos que sequer foram documentados. Porém, estava lá, sentado em sua cadeira rústica e vivendo em um pardieiro discretamente. Os boatos sobre ele deveriam aumentar um pouco por dia, mas ninguém ia lá ver que mistério tinha em um galpão velho. Era espantoso para Lázaro como os mistérios estavam por toda parte, assim como em sua própria vida. Primeiro era o pai com uma vida dupla, cheia de segredos revelados após sua morte e apenas porque ele deixou registrado. Enquanto alguns jovens se deparavam com pais em vidas duplas com duas casas, duas esposas e muitos filhos, Lázaro tinha um pai que vivia uma vida pacata de antiquário e, nas horas vagas, entrava em um submundo de coisas sobrenaturais.
Adriano chegou uma hora após Lázaro chegar ao ponto de ônibus. Ao entrar no carro, o cheiro de vômito dentro do veículo começou a se acumular. Adriano não suportou e abriu o vidro do lado do motorista.
– O que aconteceu lá? E que cheiro ruim é esse?
Lázaro tentou contar tudo que ocorreu. O homem do galpão era realmente uma pessoa extraordinária, não por suas atitudes, mas pelas memórias que denunciavam uma vida impossível de ter sido vivida. O Pai conservava a memória de muitas épocas diferentes da história humana e Lázaro suspeitava que ele vivera todas elas. Como o Pai deixou claro que já sofreu muitas deficiências, Lázaro supunha que ele vinha reencarnando muitas vezes durante os séculos.
Adriano acreditava nessa hipótese de Lázaro, pois nenhum corpo, ao menos do que diz a Bíblia, vivera mais do que mil anos. “Matusalém viveu menos do que isso”, enfatizou Adriano. Além disso, Yathrib era um nome comum da cidade de Medina na época anterior à Maomé, e Adriano duvidava que aquele homem tivesse quase mil e trezentos anos. Lázaro assentiu, pois era mais plausível que ele tivesse reencarnado dezenas de vezes do que vivesse para sempre, apesar da hipótese ser, no fim, tudo ser inacreditável. Apesar da história em si já gerar inúmeras perguntas sem resposta, Lázaro confidenciou ao amigo que, ao chegar ao local, ele viu no Pai uma luz, como a que Isaac disse ter visto ao olhá-lo por meio da lupa, bem como ele mesmo vira na Bússola ao olhá-la. Adriano assoviou, admirado, querendo saber o que seria feito com aquela nova habilidade. Lázaro não soube responder.
Voltando para Campinas, Adriano deixou o amigo em frente ao portão e partiu. Lázaro deixou os sapatos sujos na entrada, tocou a mezuzá, beijou a mão e entrou. Havia um cheiro agradável de comida na casa, mas Sara e Elisabeth estavam na sala, assistindo a um filme. Sara parecia infeliz, enquanto Elisabeth parecia tranquila.
– Boa noite, gente. – Lázaro tentou falar com tranquilidade, como se nada tivesse ocorrido.
– Olá... – Elisabeth respondeu, displicente.
– Olá... que cheiro é esse, Lás? – Sara tratou de tapar o nariz com os dedos.
– Ah, nada. Um idiota vomitou em mim. Já estou indo tomar banho.
Atravessando o corredor, Lázaro foi até o quarto, pegou uma toalha, algumas peças de roupa e foi para o banheiro. Ele tomou um longo banho enquanto repassava tudo que ocorrera em sua vida até aquela noite. Então, imaginou se ele mesmo, com suas habilidades, e outras pessoas aparentemente comuns brilhariam ao serem vistas através da lente da lupa. Poderia tentar ver com os próprios olhos, como ocorrera acidentalmente quando olhou para o Pai, mas não havia nenhuma garantia de que fosse possível fazer aquilo quando quisesse e, se fosse, quais fatores possibilitavam tal habilidade. Deixaria para fazer o teste no dia seguinte ou depois. Para aquela noite ele tentaria outra coisa, possivelmente arriscada: entrar no poço que tinha dentro de Sara.
Após o banho, Lázaro colocou as roupas limpas e levou as outras que estavam sujas para um tanque de lavar roupas que ficava no quintal dos fundos da casa. Ao abrir, a porta dos fundos rangeu como se não fosse aberta há muito tempo. Voltando para sala, as duas mulheres ainda assistiam ao filme, apesar do desinteresse no que estava passando.
– Vocês jantaram?
– Sim. – As mulheres responderam em uníssono.
– Vou comer, okay?
– Claro. – respondeu Sara. – A cerveja ainda está na geladeira.
– Ah, obrigado, mas só o jantar está ótimo.
Lázaro foi até o fogão e pegou um pouco de cada alimento preparado. Havia arroz, feijão e uma grande panela de pressão. Quando Lázaro abriu a panela, sua única reação foi um urro baixo de admiração. Havia uma receita que sua mãe fazia quando ele era criança, mas que, após a morte dela, ele não comeu mais. A receita que levava cenoura, batatas e cubos de carne cozidos. Era simples e fácil de preparar, mas Lázaro nunca tentou reproduzir. Pensando agora, ele mesmo não sabia por que nunca tentara refazer a receita, apesar de ter ótimas memórias das vezes que a mãe preparou.
Para o jantar, havia também salada de alface, tomate e palmito, mas ele só percebeu quando já estava comendo. As lembranças resgatadas por aquela receita de cozido o fizeram viajar pelo tempo, no passado, entre almoços e jantares em que estavam seus pais, Sara e ele. Lázaro era ainda um garoto que nunca soubera o que era fome e tinha um apetite inabalável; Sara, uma menina bem menor que ele e com inúmeros arranhões, resultados de suas escaladas e aventuras em lugares perigosos; Ruth, uma mulher de meia idade sempre tranquila e sorridente, de cabelos pretos e cacheados como os de Lázaro, e; Isaac, um homem que possuíra todos os traços faciais e atitudinais que Lázaro tinha agora que era adulto. As únicas diferenças entre Isaac e Lázaro adultos era que Isaac era calvo e conservava uma barba espessa e grande, mas bem alinhada, enquanto Lázaro nunca deixava a barba crescer, com exceção da época da faculdade, onde a maioria dos homens ficavam algumas semanas sem se barbear.
Isaac se casou quando tinha quase quarenta anos, e Ruth tinha cerca de vinte e cinco. Apesar da diferença de idade, os avós de Lázaro nunca questionaram a escolha da filha. Na época, Isaac já era dono do antiquário e demonstrava ser muito esforçado. Quem não gostou da escolha de Ruth fora sua irmã mais nova, Adelia, que dizia que Isaac era muito feio e velho. Ruth nunca se importou com isso, e teve certeza que fizera a escolha certa após o divórcio da irmã. Enquanto Daniel mudara-se para Israel, Adelia se casou com Fernando, um homem que maltratava Sara. Aos dois anos de idade, Ruth e Isaac conseguiram o direito sobre a guarda de Sara, prometendo garantir a menina tudo que ela merecia para crescer bem. Não se passou nem um ano quando Fernando decidiu mudar-se de volta para sua cidade natal, Vitória, e Adelia foi com ele. Os laços entre mãe e filha foram completamente cortados neste dia. Isaac e Ruth criaram as duas crianças até Ruth descobrir o câncer. Algumas semanas depois dela preparar pela última vez o cozido que Lázaro adorava, veio o diagnóstico de câncer e Ruth morreu menos de um ano depois.
Comer aquela refeição também trouxe para Lázaro a lembrança da mãe na cama do hospital. Era a lembrança mais triste que Lázaro tinha e era a única que o fazia chorar. Depois da morte da mãe, ele nunca mais derramou uma lágrima na frente das pessoas. Como Lázaro nunca contava sobre sua vida ou não demonstrava comoção, algumas pessoas diziam que ele era insensível, que não se solidarizava com a dor das outras pessoas.
Ao longo dos dezesseis anos que se seguiram após a morte de Ruth, Lázaro tentou não chorar – apesar de sofrer. Entretanto, naquela noite e enquanto jantava, as lágrimas brotaram com muita intensidade. Sara foi se apoiando pelas paredes até chegar na cozinha para saber o que Lázaro achava da surpresa que ela preparou. Ao se aproximar, ela o ouviu fungando enquanto jantava, e foi ver o que estava acontecendo. Ao perguntar para o primo, Lázaro apenas meneou negativamente com a cabeça, enquanto impedia que seus lábios denunciassem sua tristeza.
– Está ruim? – Sara perguntou em tom de preocupação.
Lázaro negou com a cabeça enquanto comia.
– Então por que você está assim?
– Nada.
Sara caminhou, apoiando-se na parede, até se sentar na cadeira em frente ao primo.
– Aconteceu alguma coisa?
– Não... eu só lembrei da minha mãe.
– Você não pensa muito nela?
– Eu evito, mas... sei lá. Eu lembrei hoje. O cheiro da comida está igual ao da comida dela.
– Desculpa. Eu queria fazer algo gostoso.
– E está. Está muito bom. Parabéns. – Lázaro fez uma pausa. – Eu fiquei triste, mas a culpa não é sua. Você é uma das alegrias da minha vida. – Lázaro segurou a mão da prima, para mostrar que estava tudo bem. – Você sabe que é como uma irmã para mim, não sabe?
Sara sorriu e confirmou. Eles ficaram em silêncio por um instante e, então, Sara começou a falar novamente.
– Eu me lembro muito pouco da minha mãe. Eu tinha quantos anos quando os tios me trouxeram para cá?
– Eu estava na primeira série. Isso foi em setenta e sete, então... você tinha dois. Vai ver que para as crianças é mais fácil esquecer.
– Pode ser... exceto você. Você lembra de muita coisa. Parece uma filmadora ligada vinte e quatro horas, registrando tudo.
Lázaro sorriu e ambos ficaram novamente em silêncio por um instante enquanto Lázaro continuou comendo. Então, Sara continuou.
– Você conseguiu fazer o que ia fazer hoje à noite?
Lázaro confirmou com a cabeça.
– E como foi?
– Bem... foi interessante.
– Só isso? Você saiu cheio de mistérios.
– Eu fui ver um conhecido do meu pai. Ele é bem velho, sabe? Velho mesmo. Eu falei com ele e ele me deu umas dicas de como acertar minha vida.
– É? E como?
– Que preciso treinar.
– E precisa mesmo. – Sara riu. – Comendo assim, precisa muito.
Lázaro sorriu, terminou sua refeição e levantou-se para dar um beijo no cocuruto de Sara. Enquanto a prima voltava devagar para a sala, ele ficou na cozinha e lavou a louça que estava na pia. Quando o filme terminou, Elisabeth se despediu e foi dormir. Por sua vez, Sara voltou até a cozinha, apoiando-se nas paredes.
– E aí, primo? – Sara se sentou novamente na mesma cadeira.
– E aí, prima? – Lázaro se virou e sorriu para Sara.
– Você é bom em lavar louça?
– Acho que sim. Lavo há tantos anos que acho que aprendi todos os macetes.
– E como é morar sozinho? Eu nunca morei sozinha.
– Sabe quando você fica sozinha em casa e, depois de achar que ia se divertir muito, acabou sentada na frente da tevê?
Sara meneou a cabeça, afirmando que entendia a analogia de Lázaro
– Então, isso é morar sozinho. Só que, ao invés de ser um dia, são todos os dias.
– Credo. E como você aguenta?
– Não sei. Fui ficando e estou assim há nove anos. Por isso estou contente de estar aqui. Estamos aqui, sob o mesmo teto como quando éramos crianças e tudo era simples e divertido. – Lázaro foi até a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja. – E tem o bônus de ter cerveja para deixar o fim de noite mais relaxante.
– É, mas isso não tinha quando éramos crianças... – disse Sara, rindo com o primo, mas ficando séria, logo em seguida. – Eu ia em muitos pubs lá na Inglaterra. Bebi várias marcas de cerveja, mas parei porque tinha um remédio que não podia consumir com álcool. Esse tipo aí nem tem lá.
– Então, a Elisabeth nunca bebeu dessa? – Lázaro levantou o copo e bebeu um gole.
– Ih, ela nem bebe. Eu ia e ela ficava olhando.
– Ela não bebe, não come quase nada... – Lázaro fez uma pausa e bebeu mais um gole, continuando em um tom mais baixo. – Muito me admira ela estar tão cheinha quanto eu.
– Ah, Lazinho! Credo. – Sara repreendeu Lázaro, mas ao mesmo tempo sentia vergonha de precisar segurar o riso. – Ela não era assim. Era magra, mas nos últimos meses... vai ver tem a ver com hormônios desregulados.
Lázaro forçou um sorriso e bebeu mais um gole. A cerveja estava fria e agradável ao paladar.
– Você ainda está bebendo o tal remédio, Sara?
– Não. Trocaram por outro, e por outro...
– Então vamos beber para dar um pouco de leveza para a vida.
Sara pegou a cerveja e deu um gole. No mesmo instante, sentiu com toda a intensidade o sabor do amargo da bebida. Admirada, ela pôs a mão na boca.
– Que foi, Sara? Engasgou?
– Não. Eu senti o gosto. Eu achei que não ia sentir.
– Você sentiu o gosto da outra vez que bebeu?
– Nossa, nem lembro. – Sara sorriu.
Ela não achava que era o melhor sabor a se sentir, mas era um sabor. Mal passou alguns segundos e começaram a sentir o efeito do álcool fazer efeito. Os primos aproveitaram a descoberta de Sara para dividirem a garrafa de cerveja inteira. Como ambos não bebiam há meses, o efeito foi rápido. A realidade parecia estranha para Lázaro. As coisas pareciam estar mais claras, como se luzes extras tivessem acesas. Ao fim da garrafa, já sentia a cabeça pesada. Sara estava sentada à sua frente, apoiando a cabeça sobre a mão esquerda, enquanto a direita segurava o copo de cerveja quase no fim. Lázaro franziu o cenho. Havia uma linha vermelha saindo da cabeça da prima, uma linha semelhante a que ele vira quando lutou contra Gerson em seu apartamento. O fio brilhante parecia se mover da cabeça dela e seguir até a parede.
– Está bem, Lazinho?
– Hum? – Lázaro estava totalmente focado na linha vermelha.
Sara bebeu o último gole e ficou olhando para Lázaro. Por sua vez, Lázaro levantou sua mão e tentou pegar a linha, que deformou, dividiu-se em várias linhas menores que se juntaram do lado oposto à mão dele, sempre mantendo ao menos uma parte unida. Sara, sem entender a atitude do primo, o fitava enquanto ele olhava para a própria mão.
– Aconteceu alguma coisa, Lázaro?
– Ah... não.
– Então por que você está agindo de maneira estranha?
– Eu tentei pegar um bichinho que passou perto do seu rosto.
– Ah, tá.
Ainda lúcido, Lázaro começou a juntar as peças. Era a segunda vez que via a linha. “Será que todo mundo tem?”, pensou.
– Então, Sara. Quer outra cerveja?
– Ah, quero sim.
Lázaro pegou outra cerveja e a serviu, mas fingiu precisar ir ao banheiro. Aproveitou para ver a linha pelas costas de Sara. Em uma tentativa de ver com clareza, ele pode ver o fluxo da linha saindo da cabeça da prima e entrando na parede da cozinha. Aquela parede dividia a cozinha com a suíte onde Elisabeth estava dormindo naquele momento. Sentado no vaso sanitário, Lázaro começou a pensar e estava claro para ele que não era sua imaginação e que o fio ligava sua prima a amiga. Era o momento de tentar investigar mais a fundo.
Imaginando que não melhoraria rapidamente do efeito do álcool, Lázaro voltou à cozinha e bebeu apenas mais um copo de cerveja. Logo depois, pegou a garrafa de água e começou a beber aos poucos, para tentar diminuir os efeitos do álcool. Para segurar Sara na cozinha, começou a lembrar de coisas da faculdade. Das poucas festas que foi, principalmente com o incentivo de Beatriz.
Após quase uma hora conversando e Sara começando a bocejar, Lázaro decidiu que deveria tentar entrar no poço. Ele tinha uma suspeita muito séria, mas não disse à prima. Sara aceitou e ele começou novamente o processo de concentração.
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