29
Durante o sonho, Lázaro se viu como um homem pardo, descalço e nu. Ao seu redor, vários homens e mulheres nus estavam parados, olhando todos para uma estrutura semicircular distante e iluminada pela lua cheia. Quando ele e o grupo se aproximou mais, Lázaro percebeu que o semicírculo era uma oca e, da entrada dela, era possível ver um pouco de luz. Porém, o que eles olhavam não era a oca, mas algo mais adiante, na floresta densa e pouco iluminada pela Lua. Alguém disse “ele vem de lá, ele vem de lá!”, e todos começaram um burburinho. Ao olhar para os lados, era possível ver que os homens portavam arcos e machadinhas, exceto Lázaro, que portava a borduna de Sara. “Teg’hó, Teg’hó, lá vem ele”, e Lázaro, na pessoa de Teg’hó, respondeu: “estou com o dente de Dehutsáb e hoje eu destruo Mésab”.
O som ribombava em meio às árvores, enquanto os guerreiros seguravam a lenha retirada das fogueiras acesas no terreiro e que ainda possuía as pontas em brasa. Conforme o som se aproximava, os guerreiros começaram a correr e a acender outras fogueiras feitas com madeira e palha que estavam no terreiro. A cada nova fogueira acesa, o local ficava mais claro e fácil de enxergar. Por fim, um dos guerreiros jogou duas tochas em chamas na oca que se encontrava entre eles e o som na floresta e voltou correndo.
Quando a oca começava a queimar com mais intensidade, um tentáculo preto apareceu sobre ela e desceu como um bastão, dividindo-a em dois, assustando a todos. Logo depois, o bastão se dividiu em dois e empurrou os dois pedaços da oca para os lados, abrindo uma passagem e jogando para cima palha em chamas. A distância entre Teg’hó e a oca dava a impressão que esta tinha no máximo dois metros, apesar das ocas terem até três vezes esta altura. Do meio da oca em chamas saiu um ser quase tão grande quanto ela, sem forma definida e translucido. O ser atravessou pelo que restou da oca, enquanto as chamas, ao tocarem-no, geravam pequenos estalos e fagulhas.
O ser avançou em direção aos homens, que começaram a jogar flechas, mas sem efeito contra ele. Teg’hó começou a gritar “levantem as tochas!”, e os homens assim fizeram. Aqueles que perderam a brasa de sua tocha trocaram-na por outra na fogueira mais próxima. A criatura informe se deslocava com seus tentáculos desviando das fogueiras, apesar de ter destruído a oca em chamas. Os guerreiros, que estavam em forma de arco, começaram a formar um círculo em torno da criatura. Ela tentava acertá-los com seus tentáculos, mas os ataques eram reprimidos com investidas das tochas. Ao tocar seu tentáculo em uma tocha, fagulhas subiam e estalos altos eram ouvidos, e o ser recuava o tentáculo como se tivesse sido ferido.
Mais próximo e com toda a luz que tinha agora no centro da aldeia, Teg’hó conseguiu ver que a criatura parecia ser um enxame de vespas pretas que se movimentavam em fluxos como ao de cardumes, dando forma aos tentáculos e ao corpo esférico o qual estes tentáculos se prendiam, igual a um corpo de um polvo. No centro da criatura, havia um estranho objeto denso, bem no centro do corpo do monstro em que a luz não atravessava como o resto de seu corpo.
Em um certo momento, enquanto os guerreiros zombavam, urravam, gritavam e tentavam estocar o monstro com suas tochas, a ponta de uma delas estalou e caiu no chão, deixando apenas uma tocha acesa na mão do homem. Este tentou se afastar para substituir a tocha apagada por outra, porém, a criatura lançou sobre ele um tentáculo rápido, que atravessou seu peito. Teg’hó gritou para que todos mantivessem a formação, enquanto o guerreiro da tribo se desmanchava rapidamente em pontos pretos, a começar do local tocado pelo monstro. Rapidamente, o corpo do homem foi totalmente convertido em pontos pretos que foram absorvidos pela criatura.
Com a moral baixa após a morte de um dos seus, os índios pararam de zombar. Um deles, desesperado, fugiu gritando. Apesar do momento tenso e assustador para todos ali, um garoto saiu da floresta escura e correu até uma das fogueiras, pegou duas tochas e assumiu a posição de ataque. Os outros homens ficaram olhando em silêncio, admirados. Quando Teg’hó disse que o menino chamado Ya’amtéh deveria voltar a aldeia vizinha com as outras crianças, este afirmou que também era guerreiro. Quando o monstro tentou um novo ataque por cima da cabeça do rapaz que assumiu as tochas, Teg’hó anteviu e correu na direção do tentáculo. Um pulo e um corte perfeitos destruíram uma grande parte do tentáculo. Do local do corte até a ponta, os pontos pretos acenderam como pequenas fagulhas de uma fogueira e se dissiparam no ar. A criatura não gritou, mas todos ouviram um som grave e intermitente, como o de um berrante. O som foi muito alto e todos os guerreiros se sentiam mais confiantes para começarem novamente a achincalhar o monstro, urrando e gritando.
Aparentemente irritado, o enxame tentou acertar mais uma segunda vez Ya’amtéh, mas o menino estocou o tentáculo de maneira certeira, gerando novamente algumas fagulhas. Saindo logo depois de sua posição, o menino convocou todos os membros da tribo que estavam escondidos na floresta, ordenando-os que fizessem o que fora combinado. Os idosos, crianças e as mulheres correram com cestos, balaios e tigelas de barro até as fogueiras, colheram brasas e começaram a arremessar contra a criatura. Conforme as brasas atravessavam o corpo de Mésab e caiam no chão, o monstro ficava sem espaço para se apoiar. Aos poucos, o terreiro cheio de brasas deixava espaço para poucos tentáculos de sustentação. A criatura ainda tentava jogar a terra do terreiro sobre as brasas, mas era em vão.
Estava claro que o ser não era um enxame de vespas. Se fossem vespas, elas sairiam dali voando e não atacariam como se fossem parte de um ser único, como ficava claro para Teg’hó. Sua substância era formada por pontos, entretanto, estes pontos estavam interligados uns aos outros. O golpe da borduna arrancava partes substanciais da criatura, como se arrancasse um braço ou uma perna.
Aos poucos, as brasas foram arremessadas contra a criatura, que as vezes tentava se defender desviando. Teg’hó se aproveitava de tantos ataques simultâneos para ele mesmo atacar, cortando pedaço por pedaço, diminuindo a criatura ao tamanho de uma pessoa. No momento crítico de sua existência, a criatura gritou por Teg’hó. O homem pediu para que os arremessos parassem. Aproveitando deste momento, a criatura tentou barganhar e, com sua voz soprada, disse: “se me deixarem ir, farei de vocês o maior povo deste lugar. Eu eliminarei todos os seus inimigos, aldeia por aldeia”. Teg’hó riu e respondeu: “meu povo tem orgulho da guerra e da vitória justa, conquistada na batalha. Não precisamos de uma coisa covarde como você, que se humilha ao invés de morrer com honra. Até o menor dos meninos tem mais coragem que você”.
O círculo de guerreiros reduziu o espaço entre os homens. Acuado, Mésab disse, com uma voz gutural, mais alta do que qualquer outra que fizera antes: “Eu existo antes das árvores, antes dos pássaros, antes de vocês, e estarei aqui depois que tudo isso se for. Eu sou a escuridão da sombra, eu sou Marg dar Jahân e vou existir para sempre!” Quando Teg’hó levantou a espada, o monstro tentou um último golpe contra ele, mas falhou miseravelmente. O guerreiro levantou a borduna no alto da cabeça e desferiu um golpe vertical e reto que cortou a criatura ao meio. Porém, no meio do corte, ouviu-se um som metálico de batida, seguido de um som de estouro. Os pontos pretos que formavam o monstro formaram fagulhas que se espalharam em sentidos aleatórios até evanescerem. Do meio do enxame que dissipava, duas semiesferas caíram no chão, e uma coisa informe como um pano preto pulou para fora do círculo dos guerreiros e arrastou-se rapidamente para dentro da floresta. Os guerreiros gritaram de felicidade e correram atrás da coisa até a borda da mata, arremessando suas tochas.
A alegria de todos estava ligada ao sentimento de vingança. O monstro – agora denominado de Mah’daham – havia atacado antes, matando muitas pessoas e saindo ileso. Teg’hó, o cacique, foi muito elogiado, mas também elogiou a todos. Ya’amtéh foi o mais elogiado por sua coragem, pois ainda era um menino. Em agradecimento, Teg’hó deixou que ele guardasse a borduna que levou todos à vitória. Quando Ya’amtéh colocou a arma pendurada ao lado da rede de Teg’hó dentro da oca, o sonho acabou.
Durante o sonho, Lázaro se viu como um homem pardo, descalço e nu. Ao seu redor, vários homens e mulheres nus estavam parados, olhando todos para uma estrutura semicircular distante e iluminada pela lua cheia. Quando ele e o grupo se aproximou mais, Lázaro percebeu que o semicírculo era uma oca e, da entrada dela, era possível ver um pouco de luz. Porém, o que eles olhavam não era a oca, mas algo mais adiante, na floresta densa e pouco iluminada pela Lua. Alguém disse “ele vem de lá, ele vem de lá!”, e todos começaram um burburinho. Ao olhar para os lados, era possível ver que os homens portavam arcos e machadinhas, exceto Lázaro, que portava a borduna de Sara. “Teg’hó, Teg’hó, lá vem ele”, e Lázaro, na pessoa de Teg’hó, respondeu: “estou com o dente de Dehutsáb e hoje eu destruo Mésab”.
O som ribombava em meio às árvores, enquanto os guerreiros seguravam a lenha retirada das fogueiras acesas no terreiro e que ainda possuía as pontas em brasa. Conforme o som se aproximava, os guerreiros começaram a correr e a acender outras fogueiras feitas com madeira e palha que estavam no terreiro. A cada nova fogueira acesa, o local ficava mais claro e fácil de enxergar. Por fim, um dos guerreiros jogou duas tochas em chamas na oca que se encontrava entre eles e o som na floresta e voltou correndo.
Quando a oca começava a queimar com mais intensidade, um tentáculo preto apareceu sobre ela e desceu como um bastão, dividindo-a em dois, assustando a todos. Logo depois, o bastão se dividiu em dois e empurrou os dois pedaços da oca para os lados, abrindo uma passagem e jogando para cima palha em chamas. A distância entre Teg’hó e a oca dava a impressão que esta tinha no máximo dois metros, apesar das ocas terem até três vezes esta altura. Do meio da oca em chamas saiu um ser quase tão grande quanto ela, sem forma definida e translucido. O ser atravessou pelo que restou da oca, enquanto as chamas, ao tocarem-no, geravam pequenos estalos e fagulhas.
O ser avançou em direção aos homens, que começaram a jogar flechas, mas sem efeito contra ele. Teg’hó começou a gritar “levantem as tochas!”, e os homens assim fizeram. Aqueles que perderam a brasa de sua tocha trocaram-na por outra na fogueira mais próxima. A criatura informe se deslocava com seus tentáculos desviando das fogueiras, apesar de ter destruído a oca em chamas. Os guerreiros, que estavam em forma de arco, começaram a formar um círculo em torno da criatura. Ela tentava acertá-los com seus tentáculos, mas os ataques eram reprimidos com investidas das tochas. Ao tocar seu tentáculo em uma tocha, fagulhas subiam e estalos altos eram ouvidos, e o ser recuava o tentáculo como se tivesse sido ferido.
Mais próximo e com toda a luz que tinha agora no centro da aldeia, Teg’hó conseguiu ver que a criatura parecia ser um enxame de vespas pretas que se movimentavam em fluxos como ao de cardumes, dando forma aos tentáculos e ao corpo esférico o qual estes tentáculos se prendiam, igual a um corpo de um polvo. No centro da criatura, havia um estranho objeto denso, bem no centro do corpo do monstro em que a luz não atravessava como o resto de seu corpo.
Em um certo momento, enquanto os guerreiros zombavam, urravam, gritavam e tentavam estocar o monstro com suas tochas, a ponta de uma delas estalou e caiu no chão, deixando apenas uma tocha acesa na mão do homem. Este tentou se afastar para substituir a tocha apagada por outra, porém, a criatura lançou sobre ele um tentáculo rápido, que atravessou seu peito. Teg’hó gritou para que todos mantivessem a formação, enquanto o guerreiro da tribo se desmanchava rapidamente em pontos pretos, a começar do local tocado pelo monstro. Rapidamente, o corpo do homem foi totalmente convertido em pontos pretos que foram absorvidos pela criatura.
Com a moral baixa após a morte de um dos seus, os índios pararam de zombar. Um deles, desesperado, fugiu gritando. Apesar do momento tenso e assustador para todos ali, um garoto saiu da floresta escura e correu até uma das fogueiras, pegou duas tochas e assumiu a posição de ataque. Os outros homens ficaram olhando em silêncio, admirados. Quando Teg’hó disse que o menino chamado Ya’amtéh deveria voltar a aldeia vizinha com as outras crianças, este afirmou que também era guerreiro. Quando o monstro tentou um novo ataque por cima da cabeça do rapaz que assumiu as tochas, Teg’hó anteviu e correu na direção do tentáculo. Um pulo e um corte perfeitos destruíram uma grande parte do tentáculo. Do local do corte até a ponta, os pontos pretos acenderam como pequenas fagulhas de uma fogueira e se dissiparam no ar. A criatura não gritou, mas todos ouviram um som grave e intermitente, como o de um berrante. O som foi muito alto e todos os guerreiros se sentiam mais confiantes para começarem novamente a achincalhar o monstro, urrando e gritando.
Aparentemente irritado, o enxame tentou acertar mais uma segunda vez Ya’amtéh, mas o menino estocou o tentáculo de maneira certeira, gerando novamente algumas fagulhas. Saindo logo depois de sua posição, o menino convocou todos os membros da tribo que estavam escondidos na floresta, ordenando-os que fizessem o que fora combinado. Os idosos, crianças e as mulheres correram com cestos, balaios e tigelas de barro até as fogueiras, colheram brasas e começaram a arremessar contra a criatura. Conforme as brasas atravessavam o corpo de Mésab e caiam no chão, o monstro ficava sem espaço para se apoiar. Aos poucos, o terreiro cheio de brasas deixava espaço para poucos tentáculos de sustentação. A criatura ainda tentava jogar a terra do terreiro sobre as brasas, mas era em vão.
Estava claro que o ser não era um enxame de vespas. Se fossem vespas, elas sairiam dali voando e não atacariam como se fossem parte de um ser único, como ficava claro para Teg’hó. Sua substância era formada por pontos, entretanto, estes pontos estavam interligados uns aos outros. O golpe da borduna arrancava partes substanciais da criatura, como se arrancasse um braço ou uma perna.
Aos poucos, as brasas foram arremessadas contra a criatura, que as vezes tentava se defender desviando. Teg’hó se aproveitava de tantos ataques simultâneos para ele mesmo atacar, cortando pedaço por pedaço, diminuindo a criatura ao tamanho de uma pessoa. No momento crítico de sua existência, a criatura gritou por Teg’hó. O homem pediu para que os arremessos parassem. Aproveitando deste momento, a criatura tentou barganhar e, com sua voz soprada, disse: “se me deixarem ir, farei de vocês o maior povo deste lugar. Eu eliminarei todos os seus inimigos, aldeia por aldeia”. Teg’hó riu e respondeu: “meu povo tem orgulho da guerra e da vitória justa, conquistada na batalha. Não precisamos de uma coisa covarde como você, que se humilha ao invés de morrer com honra. Até o menor dos meninos tem mais coragem que você”.
O círculo de guerreiros reduziu o espaço entre os homens. Acuado, Mésab disse, com uma voz gutural, mais alta do que qualquer outra que fizera antes: “Eu existo antes das árvores, antes dos pássaros, antes de vocês, e estarei aqui depois que tudo isso se for. Eu sou a escuridão da sombra, eu sou Marg dar Jahân e vou existir para sempre!” Quando Teg’hó levantou a espada, o monstro tentou um último golpe contra ele, mas falhou miseravelmente. O guerreiro levantou a borduna no alto da cabeça e desferiu um golpe vertical e reto que cortou a criatura ao meio. Porém, no meio do corte, ouviu-se um som metálico de batida, seguido de um som de estouro. Os pontos pretos que formavam o monstro formaram fagulhas que se espalharam em sentidos aleatórios até evanescerem. Do meio do enxame que dissipava, duas semiesferas caíram no chão, e uma coisa informe como um pano preto pulou para fora do círculo dos guerreiros e arrastou-se rapidamente para dentro da floresta. Os guerreiros gritaram de felicidade e correram atrás da coisa até a borda da mata, arremessando suas tochas.
A alegria de todos estava ligada ao sentimento de vingança. O monstro – agora denominado de Mah’daham – havia atacado antes, matando muitas pessoas e saindo ileso. Teg’hó, o cacique, foi muito elogiado, mas também elogiou a todos. Ya’amtéh foi o mais elogiado por sua coragem, pois ainda era um menino. Em agradecimento, Teg’hó deixou que ele guardasse a borduna que levou todos à vitória. Quando Ya’amtéh colocou a arma pendurada ao lado da rede de Teg’hó dentro da oca, o sonho acabou.
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