28
Ao chegar na casa de Isaac na Vila Lemos, Lázaro convidou o amigo para entrar. O anfitrião parou à porta, tocou a mezuzá de bronze que ficava no batente e deu um beijo na mão. Depois, entrou carregando a bolsa e a máquina de escrever. A casa já estava bem arrumada e limpa, e as duas moradoras estavam na sala, assistindo uma série de comédia com as luzes apagadas.
– Boa noite senhoritas. – Adriano não entrou, cumprimentando ambas com um aceno de mão à soleira da porta
– Boa noite, Adriano.
Sara ainda estava fraca. Deitada no sofá, com a cabeça no colo de Elisabeth, a mulher apenas levantou um pouco a mão e acenou levantando e abaixando suavemente apenas os dedos. Lázaro deixou seus pertences no quarto e voltou para se despedir de Adriano e acompanha-lo até o carro.
– Lázaro, tive uma ideia. – disse Adriano, entusiasmado
– Qual é
– Vamos amanhã. Eu pego o dinheiro da caixinha da loja e na segunda você repõe
– Boa ideia. Venha amanhã com o dinheiro quando estiver anoitecendo.
Lázaro esperou que o carro de Adriano dobrasse a esquina para entrar e começar a arrumar seus pertences no antigo quarto que ocupou até os dezessete anos. Os móveis eram os mesmos de doze anos atrás, mas possuíam agora um cheiro forte de naftaleno exalando de dentro, o que garantia que não haveria traças e cupins aguardando para comer suas roupas e seu livro preto. As antigas roupas de cama guardadas ainda não tinham sido lavadas e possuíam o cheiro de naftaleno. Não haveria pessoa que não achasse estranho olhar para uma casa que era essencialmente a mesma há mais de dez anos, quando não, olhavam para um móvel ou outro que eram da década de cinquenta ou quarenta
Era estranho e difícil para Lázaro entender por que a escolha de tornar a casa uma cápsula do tempo e deixar tudo como sempre esteve, principalmente por ser uma memorabilia que trazia à tona algo que não gerava sentimentos bons para ele como trazia para Sara. Por ele, os móveis antigos iriam para o antiquário, e outros, mais novos e mais baratos, assumiriam suas posições, abandonando muitas memórias e os possibilitando seguir em diante. Sentando-se na cama, ele decidiu manter tudo como estava pela felicidade da prima, ao menos até ela querer que as coisas mudassem
Para se adequar às suas necessidades, Lázaro moveu alguns objetos do lugar, como fotos e alguns brinquedos antigos que enfeitavam o quarto. A máquina de escrever foi colocada sobre a mesa de escritório e o livro ata em uma gaveta, junto com a lupa. Na mesma gaveta havia um antigo molho de chaves que estava ali há mais de doze anos e ele o juntou ao seu. As roupas foram colocadas no guarda roupa, cabide por cabide, e a roupa de cama que estava posta foi substituída por uma que ele trouxe para passar a semana. O quarto-cápsula-do-tempo começava a avançar e se alinhar com o presente, ou quase isso.
Nas paredes do quarto, ainda tinha os pôsteres de bandas que ele gostava. Ele ainda tinha os LP’s daquelas bandas guardados no apartamento, mas nunca mais colocou um pôster em uma parede que fosse – colar pôster era uma coisa que ficou na adolescência. Lázaro se deitou na cama e colocou as mãos com os dedos cruzados sob a cabeça, enquanto contemplava o teto branco. Não estava com sono, só cansado. Uma noite de sono não iria eliminar a memória daquele dia e nem a dor que ainda sentia no corpo. “Será que eu teria me defendido melhor se fosse mais jovem? E se fosse o guardião no lugar de Alexandre? Aliás, onde deveria estar aquele rapaz agora?”, Lázaro pensava olhando para o vazio do branco do teto.
Quando se lembrou de Beatriz e o sentimento de vazio tentou tomar conta, Lázaro se levantou e foi até a cozinha para pensar em qualquer outra coisa. Sobre a mesa, havia alguns pães comprados naquela manhã e uma garrafa de café. Em um copo retirado do escorredor de louça, ele colocou leite e café e tomou enquanto comia um dos pães e examinava a cozinha totalmente arrumada. A boa aparência do lugar aguçou a curiosidade de Lázaro em saber como estava o resto da casa e ele se levantou para olhar. O som do televisor estava alto, mas era possível ouvir Sara explicando para Elisabeth algumas coisas que os atores diziam.
O antigo quarto de Sara estava diferente do que ele conhecia quando se mudou. Claro que não era difícil entender o motivo: ela tinha treze anos quando ele se mudou e entre dezoito e dezenove anos quando foi morar na Nova Zelândia. Na parede, havia ainda um pôster de uma boyband estadunidense chamada New Kids on the Block que não estava ali no ano em que ele partiu. Em um canto próximo à porta, havia um belo espelho de corpo inteiro com moldura em madeira maciça que também não estava lá em mil, novecentos e oitenta e oito. Uma peça com um estilo antigo, mas seu estado era de algo novo, deslocado daquele espaço.
O quarto de Sara estava limpo, mas ninguém dormia nele. As amigas deveriam dividir a cama da suíte. Lázaro ficou curioso para saber se havia muitas mudanças no quarto do pai e foi pedir para a prima, que não objetou que ele entrasse. Era possível ver que, com exceção de algumas peças de roupa penduradas no antigo mancebo trazido do quarto de Sara e alguns remédios sobre o criado mudo, o quarto estava igual ao que ele lembrava. O banheiro daquela suíte também deveria estar igual, mas Lázaro preferiu não entrar em respeito à privacidade delas.
Antes de sair, Lázaro percebeu que a borduna que Isaac deixou para Sara estava encostada atrás da porta. Ele não tinha percebido na infância de como era uma peça bonita: era preta e, ao invés de possuir símbolos geométricos tradicionais indígenas feitos com fios de algodão ou palha trançados, possuía linhas retas sulcadas em sua superfície, linhas semelhantes às letras V e X, assim como eram os petroglifos que Lázaro vira em uma viagem à Santa Catarina na época da faculdade. Ele pensou em pegá-la, mas pediria primeiro autorização à prima.
Voltando para a cozinha, sentia que conhecia tudo, mas sentia-se deslocado também. A casa era sua e era o lugar onde viveu por mais tempo, mas se sentia um intruso, quem sabe um hóspede que chegou em má hora. Voltou para o seu quarto. O lugar não parecia tão estranho, exceto pelos pôsteres de bandas de sucesso da década de oitenta, com seus cabelos compridos e repicados, suas jaquetas enfeitadas com pinos de ferro e caras de mau. Todos aqueles artistas posando com seus personagens raivosos. Contudo, quando vistos em vídeos nos bastidores de shows e clipes, eram apenas jovens brincalhões, sem maldade em seus rostos.
Lázaro começou a pensar como esses artistas moldaram a sua postura e de alguns colegas na época de escola. Queriam ser como eles eram e, no fim, nenhum artista era igual aos próprios personagens. Então, ele pensou como as pessoas eram personagens em suas peças de teatro cotidianas, cobrindo seus segredos e interesses, fazendo de tudo para serem agradáveis. Quando ele próprio deixou sua máscara e foi sincero, o resultado não foi positivo.
Toda a reflexão que Lázaro fazia em sua mente ficava mais complexa quando ele começava a pensar na possibilidade de algumas pessoas não conseguirem abafar totalmente seus anseios e, ao tocá-las, ele retirasse pequenas informações de seus íntimos. Ele ainda não sabia se seriam informações relevantes ou se seriam desejos muito intensos para se esconder para sempre. “Tomara que o tal Pai saiba”, pensou, enquanto olhava para o pôster da banda de rock KISS.
– Com licença, Lázaro. Você ajuda eu trazer a Sara? – Elisabeth tentava falar com cuidado para não errar. A moça viu o rosto de Lázaro, mas não fez nenhum comentário.
Após alguns segundos olhando para o pôster, Lázaro olhou para Elisabeth, que o aguardava. Lázaro meneou positivamente com a cabeça, se levantou e foi até a sala. Para alegrar a prima, ele foi caminhando pelo corredor fazendo o som do relinchar de um cavalo. Elisabeth não entendeu o que acontecia, mas riu.
– Oba. Lá vem meu pangaré. – Sara aplaudiu, rindo com dificuldade.
Lázaro relinchou o mais alto que pode e disse:
– Pangaré, não! Alazão.
Lázaro se agachou e Sara, com a ajuda de Elisabeth, subiu nas costas do primo.
– Upa, upa, Alazão!
Lázaro se levantou e quase não sentiu o peso de Sara. Deveria estar mais magra do que estava no dia de sua chegada.
– Vamos para a cozinha, Pé de Pano. – Sara, tentou imitar a voz do personagem Pica-Pau, do desenho homônimo que eles assistiam na infância.
Ali estava uma outra Sara: pequena, magra, frágil, mas era apenas a aparência. A Sara de verdade ainda brilhava dentro naquele corpo debilitado. Lázaro a via no sorriso, no riso, nas brincadeiras. Sua certeza era que, em breve, ela estaria de novo pulando e correndo como quando era criança.
Ao colocar Sara sentada, ele se virou para ela, sorrindo. Sara não tinha percebido ainda como o rosto dele estava inchado de um lado e se assustou. Então, enquanto Elisabeth esquentava o jantar, Lázaro explicou a história e deixou a prima aliviada. “Problema resolvido por Ieda Holmes”, disse ele, com orgulho. Para Lázaro, o rosto desincharia em alguns dias e não era grave – a sua principal preocupação era com a prima, e ele queria saber tudo sobre o que estava acontecendo com ela.
– O que o médico disse ontem? – perguntou Lázaro.
– Disse que eu preciso comer, tomar as vitaminas...
– Só isso?
Sara deu de ombros. Os médicos estavam totalmente perdidos.
– Bem, Lazinho, vamos falar de coisas felizes. Já que você diz que o problema com o vizinho se resolveu, o que conta de bom?
– Hmmm... deixa eu ver...
Lázaro fez uma pausa e continuou.
– Lembra da Beatriz?
Sara crispou os olhos enquanto tentava lembrar de quem Lázaro falava.
– Lembra sim. Era minha colega de faculdade... angolana…
– Ah, sei. Lembrei. Você disse que ela foi para Portugal.
– Ela me visitou ontem. – Lázaro esboçou um pequeno sorriso.
– Nossa. Que legal! E como foi? – Sara se demonstrava feliz e interessada.
– Legal. – Lázaro não conseguiu conter um sorriso maior.
– Ah, cachorrão!
Sara acotovelou várias vezes o primo e deu várias piscadelas engraçadas, mas Lázaro nem sentiu as fracas cutucadas da prima.
– Para. Não é nada demais. Ela só me visitou, pelos velhos tempos.
– Mas não foi nos “velhos tempos” que você queria namorar ela?
– Quem te disse isso? – Lázaro se surpreendeu com a astúcia da prima, pois ele não falou muito de Beatriz.
– Meus olhos e meus ouvidos. A sua boca faltava salivar em falar o nome dela. – Sara riu, mas uma tosse o cessou quase que automaticamente o riso.
Lázaro alisou as costas da prima, preocupado.
– Queria, sim. Mas, como você disse, “nos velhos tempos”. Isso ficou lá, no passado. – Lázaro colocava sua tristeza no tom da voz para deixar claro sua certeza.
Trocando de papeis, Sara alisou as costas do primo, reconfortando-o.
– Não fique assim, Lazinho. Olha só, ela veio lá de Portugal para…
– ...ver os pais que moram aqui, em Campinas. – Lázaro complementou, ainda triste.
– Ah… Mas, mesmo assim. Como ela achou seu apartamento?
– Ela foi no antiquário.
– Aí! Ela teve trabalho para achar seu endereço e persistiu. Acho que isso deve significar alguma coisa. – O tom de voz de Sara era de esperança.
– Bem… pode ser. Quem sabe eu entenda melhor o que acontece quando eu descobrir o que significa amendukussole.
– Nem entendi o que você disse. Ela te falou isso aí?
– Não. Ela escreveu em um bilhete, desejando um futuro próximo encontro e isso.
– Outro encontro? Mas e se ela for atrás de você lá no prédio?
Lázaro apoiou a cabeça sobre as mãos.
– Não poderia esperar uma sorte maior... – Lázaro suspirou – Se eu der sorte, ela volta ao antiquário e o Adriano conta tudo. Mas isso não vem ao caso agora. Eu tenho muitas coisas para falar para você.
Elisabeth serviu um prato de comida à Sara e um para si, enquanto Lázaro se levantou para servir-se também, e começou a confidenciar para as duas o mistério que começara há duas semanas. Contou sobre o livro de capa preta, sobre a carta, sobre a morte do pai. Todas as perguntas de Sara seriam respondidas no fim da história. Contou sobre Alexandre, sobre Luis e sobre a manhã daquele mesmo dia. Os únicos mistérios não mencionados por ele foram os sonhos com a lupa, o anel e com Isaac, além da capacidade de sentir algumas pessoas.
– E o que acontece agora? – Sara perguntou, interessada.
– Meu pai me deixou algumas pistas do que posso fazer.
– Que pistas?
– Bem. Parece que tem um homem que sabe muitas coisas. Eu vou vê-lo amanhã à noite.
– Tipo um vidente?
– Acho que não. É como um conselheiro.
– Mas, é perigoso? Esse tipo de pessoa não atende de manhã? – Sara suspeitou que algo estava errado.
– Não é perigoso não. Fique tranquila. Vou com o Adriano.
– Vê lá, vê lá… - repreendeu Sara, sacudindo o indicador como uma mãe, preocupada.
Lázaro pôs fim a conversa reforçando que não tinha nada de perigoso e que daria tudo certo, e Sara sabia que, quando o primo tentava pôr fim a um assunto, era porque ele queria apenas informar, e não preocupar. O jantar continuou e Sara continuava sem prazer em comer, ao contrário de Elisabeth. Lázaro pensou que a convidada deveria ter tanta fome com aquela comida restrita que, de alguma maneira, externava em sentimentos. Comer algo insosso como aquela comida só era possível com fome que, para ele, era ainda o melhor tempero. Mas se questionava em silêncio por que conseguia sentir a fome de Elisabeth e não conseguia sentir algo em Sara. Pensou que poderia tentar encontrar esse “algo” intencionalmente, uma vez que não conseguia espontaneamente como conseguia com Elisabeth.
O resto da noite Lázaro e Sara ficaram relembrando de coisas do passado. Sara foi colocada na cama para ficar mais confortável e Elisabeth e Lázaro sentaram-se nos outros cantos. A conversa foi positiva, principalmente para Sara. Há muitos anos eles não conversavam, nem mesmo por cartas. Conversaram sobre as memórias de infância e adolescência, com destaque para o pôster da boyband que ela fora fã.
– Fiquei triste quando acabou. Faz uns cinco anos, mais ou menos. Logo depois, pipocaram mais vários grupos iguais, ou só de meninos, ou meninas, ou mistos.
– E agora, você ouve o quê?
– Ah, não tenho nada em especial.
– Não tem? – Elisabeth, que só ouvia a conversa, questionou Sara, e começou a cantarolar em voz baixa. – When you're feeling sad and low...
– We will take you where you gotta go... – Sara complementou, um tom mais alto.
– Smiling, dancing, everything is free... – Elisabeth continuou, ainda mais alto.
– All you need is positivity! – Ambas concluíram, em uníssono.
Lázaro ficou olhando o dueto, admirado. Sara sempre demonstrou uma postura diferente. Não cantava as canções das apresentadoras dos programas infantis, não gostava dos desenhos considerados de meninas. Na infância, o único amigo das brincadeiras que ela gostava – e que eram consideradas proibidas para ela – era o próprio primo, enquanto os outros meninos a ignoravam e chamavam de todo tipo de apelido que depreciava sua atitude de querer brincar com eles: um dia, um garoto incauto e maior que ela a chamou de Saritão e teve o nariz quebrado. Se fosse um menino, ganharia respeito, mas Sara passou a ser ignorada e chamada de maluca.
– Então você gosta de coisas de mocinha? – Lázaro aproveitou a pequena apresentação da prima para brincar com ela.
– Sempre gostei. Só não gosto de idiotice. Além disso, Spice Girls não é coisa de mocinha.
– Entendi. Essa música parece ser bem animada.
– Spice Girls sempre é um grupo animado. Os shows eram legais, antes da saída da Ginger.
– Uma cantora ou isso é nome de mascote?
– Lázaro, em que mundo você vive? É a Geri Halliwell, era uma cantora do quinteto.
– Não conheço.
– Tá, mas era um grupo muito bom. – Sara enfatizou sua afirmação e apontou para Lázaro na intenção de censurar qualquer outra brincadeira por parte dele.
– Vocês duas foram no show?
– Não. Eu fui quando as cinco estavam juntas ainda. E não fui mais em shows depois que eu comecei a ficar doente.
Para afastar a tristeza que a doença trazia, Lázaro pediu para Sara contar mais sobre o grupo que elas cantaram, as tais Spice Girls. Sara contou toda a história com muita alegria. No fim da noite, antes de dormirem, Lázaro pediu emprestado a borduna para Sara e ela emprestou, sem perguntar.
– Posso levá-la para o meu quarto, quero examiná-la com atenção. Eu nunca tinha visto uma borduna tão interessante.
– É linda, né? Eu nem pude usá-la ainda. Queria cortar umas melancias com ela.
– Melancias? – Lázaro voltou-se para a prima com olhar de dúvida.
– Você preferia que eu cortasse pessoas?
– Não, mas eu nem tinha pensando nisso. Achei que você treinasse cortando o ar.
– Poderia ser, mas prefiro cortar coisas. – Sara riu.
Após as brincadeiras, Lázaro lembrou de algo que tinha pensado, e que achava importante tentar pôr em prática naquela noite. Disse para Elisabeth que queria falar algo em particular com a prima, mas que seria rápido. Quando Elisabeth saiu do quarto, Lázaro começou a falar, em um tom mais baixo do que o habitual
– Eu não contei tudo que aconteceu essas duas semanas comigo. Teve uma coisa que eu preferi falar em particular e quero que você guarde segredo, mesmo para a Lilly.
– Nossa, que misterioso. O que é?
– Eu acho que consigo sentir algo nas pessoas. Eu não sei explicar bem o que é, porque eu só senti em quatro pessoas até agora. Uma é a própria Elisabeth, a outra é a minha vizinha e as outras duas você não conhece.
– O que você sentiu na Lilly?
– Senti algo como a fome.
– Acho que até eu consigo sentir isso nela. Ela só come coisa sem graça. – Sara riu.
– Não é isso. Não é perceber que ela sente fome, é sentir a fome dela em mim.
– Credo... e as outras pessoas?
– Uma mulher que trabalha no contador do antiquário eu senti algo como fogo, como se um incêndio destruísse tudo. E em uma moça eu vi uma cruz com cordas.
– Cruz com cordas? Que tipo de cruz?
Lázaro foi até o banheiro e pegou as duas escovas de dente que estavam lá. Segurou-as na mão, formando uma cruz em xis.
– Foi mais ou menos o que eu vi. Uma cruz com cordas nas pontas com uma mão segurando. Havia uma corda em cada extremidade e uma no meio.
– Como uma cruz de um puppeteer?
– O que é isso? – Lázaro não conhecia aquela palavra em inglês.
– Um manipulador de bonecos. O boneco fica preso em cordas e o manipulador dele o sustenta pela cruz. O Pinóquio era um boneco assim.
– Interessante, vou ler a respeito depois... podemos começar? – Lázaro estava muito entusiasmado com a possibilidade de descobrir o que havia com a prima.
– Mas você não disse o que vai fazer.
– Vou tentar ver o seu interior. Procurar alguma coisa que explique sua falta de paladar, por exemplo. Foge ao que entendo ou acredito, mas mal não fará. Pode ser que eu possa dar ajuda para os médicos mudarem a abordagem a partir do que eu ver. Se descobrirem, um novo mundo se abrirá e, quem sabe, ele explique coisas que eu não entendo do meu passado e presente.
Havia um grande desejo em Lázaro de tentar descobrir qual mistério escondia o problema de Sara. Se tivesse sorte, conseguiria sentir algo, como sentira nas outras. Para o procedimento, ele se levantou e se sentou ao lado da prima e, tentando uma primeira abordagem, mais simples, apenas tocou a mão de Sara. O resultado não foi frustrante por ser o esperado: não sentiu nada. Pensou que deveria tentar algo mais intenso, algo que nunca tentara: uma concentração com foco em um desejo, em uma ação não-física, e sim mental.
Para ele, seria estranho tentar agir sem se mexer, como em um sonho lúcido, mas não soava como algo impossível. Em seu íntimo, Lázaro ficava, pouco a pouco, mais afeito à ideia de que o sobrenatural não significava o mesmo que o impossível. Se o sobrenatural existisse, poderia existir algum tipo de doença neste mesmo âmbito.
Ainda segurando as mãos de Sara, Lázaro tentou criar um elo entre eles e, assim, ver além do físico. O nada foi dando lugar a algo, um lugar com uma fonte de água, ou um poço, que estava cheio até a borda. Porém, este poço não tinha águas calmas, mas algo que se assemelhava a uma fumaça vermelha formando um redemoinho. Ao olhar em volta, ele podia ver, deslizando pelo que deveria ser o chão, uma neblina dourada que era aos poucos levada ao poço e desaparecia dentro da fumaça vermelha. Era um fluxo devagar, mas constante de neblina dourada. Lázaro tentou olhar no meio do poço, através do cone que se formava da fumaça vermelha e conseguiu ver que, na verdade, o cone formava um tubo que poderia se seguir para outro lugar. Com medo, preferiu não tentar mergulhar na fumaça. Ainda que tudo fosse em um ambiente não físico, quem sabe, fruto da sua imaginação, Lázaro preferiu manter a prudência e entender antes o que via.
Ao reabrir os olhos, Lázaro se sentiu cansado. Aquela habilidade, testada pela primeira vez, consumia energia como se ele tivesse corrido por alguns minutos sem ter preparo físico para tal. A mente estava pesada e o sono estava mais intenso. Sara reabriu os olhos no mesmo instante que ele, mas parecia estar saindo de uma hipnose, levemente desorientada.
– Você viu o que eu vi?
Lázaro mantinha no olhar a esperança de uma resposta afirmativa.
– Eu não vi nada. Estava tentando deixar minha mente livre de distrações. Achei que te ajudaria.
– Pode ser que tenha ajudado mesmo.
Lázaro se frustrou com a resposta, mas era grato pelo resultado.
– Então, o que você viu? – Sara estava preocupada.
– Não sei bem. – Lázaro crispava levemente os olhos, enquanto pensava. – Prefiro meditar sobre o que eu vi.
– Mas o que você viu? – sem resposta, Sara ficava aflita.
– Um poço com uma fumaça vermelha rodando dentro dele.
Sara boquiabriu-se. Ela confidenciou que também havia visto esse poço em sonhos e era exatamente a mesma visão que Lázaro teve. Sara aceitou esperar que Lázaro pensasse sobre a sua visão para tentar dar uma explicação que fosse coerente e, antes de sair, ambos decidiram não falar nada para não assustar Elisabeth. Com a porta aberta, Lázaro despediu-se das duas mulheres e já estava saindo do quarto quando se sentiu vigiado. Olhou para ao lado, mas não tinha nada, apenas a antiga penteadeira de Ruth.
Enquanto escovava os dentes no banheiro, ele sentiu-se novamente sendo vigiado, mas também não tinha ninguém. Sentir-se vigiado enquanto estava sozinho era mais uma novidade. Pensou se aquela sensação de ser vigiado por duas vezes em tão pouco tempo era um sinal ou se era para se preocupar. Logo concluiu de que não haveria uma resposta e ele preferiu ir dormir em vez de se questionar.
Na casa nova, preferiu trancar a porta do quarto para garantir privacidade. Essa atitude poderia ser vista como estúpida para muitas pessoas, mas Lázaro preferiu segui-la sem uma explicação mais elaborada: queria privacidade e a porta trancada daria essa sensação. Deitou-se na cama e retirou o anel herdado de Ruth que ele imaginou que poderia atrapalhar. Antes de apagar a luz, verificou que a borduna tinha um lado que deveria ser como uma lâmina, mas não cortava com uma faca. Assim, ele apagou a luz e logo adormeceu.
Ao chegar na casa de Isaac na Vila Lemos, Lázaro convidou o amigo para entrar. O anfitrião parou à porta, tocou a mezuzá de bronze que ficava no batente e deu um beijo na mão. Depois, entrou carregando a bolsa e a máquina de escrever. A casa já estava bem arrumada e limpa, e as duas moradoras estavam na sala, assistindo uma série de comédia com as luzes apagadas.
– Boa noite senhoritas. – Adriano não entrou, cumprimentando ambas com um aceno de mão à soleira da porta
– Boa noite, Adriano.
Sara ainda estava fraca. Deitada no sofá, com a cabeça no colo de Elisabeth, a mulher apenas levantou um pouco a mão e acenou levantando e abaixando suavemente apenas os dedos. Lázaro deixou seus pertences no quarto e voltou para se despedir de Adriano e acompanha-lo até o carro.
– Lázaro, tive uma ideia. – disse Adriano, entusiasmado
– Qual é
– Vamos amanhã. Eu pego o dinheiro da caixinha da loja e na segunda você repõe
– Boa ideia. Venha amanhã com o dinheiro quando estiver anoitecendo.
Lázaro esperou que o carro de Adriano dobrasse a esquina para entrar e começar a arrumar seus pertences no antigo quarto que ocupou até os dezessete anos. Os móveis eram os mesmos de doze anos atrás, mas possuíam agora um cheiro forte de naftaleno exalando de dentro, o que garantia que não haveria traças e cupins aguardando para comer suas roupas e seu livro preto. As antigas roupas de cama guardadas ainda não tinham sido lavadas e possuíam o cheiro de naftaleno. Não haveria pessoa que não achasse estranho olhar para uma casa que era essencialmente a mesma há mais de dez anos, quando não, olhavam para um móvel ou outro que eram da década de cinquenta ou quarenta
Era estranho e difícil para Lázaro entender por que a escolha de tornar a casa uma cápsula do tempo e deixar tudo como sempre esteve, principalmente por ser uma memorabilia que trazia à tona algo que não gerava sentimentos bons para ele como trazia para Sara. Por ele, os móveis antigos iriam para o antiquário, e outros, mais novos e mais baratos, assumiriam suas posições, abandonando muitas memórias e os possibilitando seguir em diante. Sentando-se na cama, ele decidiu manter tudo como estava pela felicidade da prima, ao menos até ela querer que as coisas mudassem
Para se adequar às suas necessidades, Lázaro moveu alguns objetos do lugar, como fotos e alguns brinquedos antigos que enfeitavam o quarto. A máquina de escrever foi colocada sobre a mesa de escritório e o livro ata em uma gaveta, junto com a lupa. Na mesma gaveta havia um antigo molho de chaves que estava ali há mais de doze anos e ele o juntou ao seu. As roupas foram colocadas no guarda roupa, cabide por cabide, e a roupa de cama que estava posta foi substituída por uma que ele trouxe para passar a semana. O quarto-cápsula-do-tempo começava a avançar e se alinhar com o presente, ou quase isso.
Nas paredes do quarto, ainda tinha os pôsteres de bandas que ele gostava. Ele ainda tinha os LP’s daquelas bandas guardados no apartamento, mas nunca mais colocou um pôster em uma parede que fosse – colar pôster era uma coisa que ficou na adolescência. Lázaro se deitou na cama e colocou as mãos com os dedos cruzados sob a cabeça, enquanto contemplava o teto branco. Não estava com sono, só cansado. Uma noite de sono não iria eliminar a memória daquele dia e nem a dor que ainda sentia no corpo. “Será que eu teria me defendido melhor se fosse mais jovem? E se fosse o guardião no lugar de Alexandre? Aliás, onde deveria estar aquele rapaz agora?”, Lázaro pensava olhando para o vazio do branco do teto.
Quando se lembrou de Beatriz e o sentimento de vazio tentou tomar conta, Lázaro se levantou e foi até a cozinha para pensar em qualquer outra coisa. Sobre a mesa, havia alguns pães comprados naquela manhã e uma garrafa de café. Em um copo retirado do escorredor de louça, ele colocou leite e café e tomou enquanto comia um dos pães e examinava a cozinha totalmente arrumada. A boa aparência do lugar aguçou a curiosidade de Lázaro em saber como estava o resto da casa e ele se levantou para olhar. O som do televisor estava alto, mas era possível ouvir Sara explicando para Elisabeth algumas coisas que os atores diziam.
O antigo quarto de Sara estava diferente do que ele conhecia quando se mudou. Claro que não era difícil entender o motivo: ela tinha treze anos quando ele se mudou e entre dezoito e dezenove anos quando foi morar na Nova Zelândia. Na parede, havia ainda um pôster de uma boyband estadunidense chamada New Kids on the Block que não estava ali no ano em que ele partiu. Em um canto próximo à porta, havia um belo espelho de corpo inteiro com moldura em madeira maciça que também não estava lá em mil, novecentos e oitenta e oito. Uma peça com um estilo antigo, mas seu estado era de algo novo, deslocado daquele espaço.
O quarto de Sara estava limpo, mas ninguém dormia nele. As amigas deveriam dividir a cama da suíte. Lázaro ficou curioso para saber se havia muitas mudanças no quarto do pai e foi pedir para a prima, que não objetou que ele entrasse. Era possível ver que, com exceção de algumas peças de roupa penduradas no antigo mancebo trazido do quarto de Sara e alguns remédios sobre o criado mudo, o quarto estava igual ao que ele lembrava. O banheiro daquela suíte também deveria estar igual, mas Lázaro preferiu não entrar em respeito à privacidade delas.
Antes de sair, Lázaro percebeu que a borduna que Isaac deixou para Sara estava encostada atrás da porta. Ele não tinha percebido na infância de como era uma peça bonita: era preta e, ao invés de possuir símbolos geométricos tradicionais indígenas feitos com fios de algodão ou palha trançados, possuía linhas retas sulcadas em sua superfície, linhas semelhantes às letras V e X, assim como eram os petroglifos que Lázaro vira em uma viagem à Santa Catarina na época da faculdade. Ele pensou em pegá-la, mas pediria primeiro autorização à prima.
Voltando para a cozinha, sentia que conhecia tudo, mas sentia-se deslocado também. A casa era sua e era o lugar onde viveu por mais tempo, mas se sentia um intruso, quem sabe um hóspede que chegou em má hora. Voltou para o seu quarto. O lugar não parecia tão estranho, exceto pelos pôsteres de bandas de sucesso da década de oitenta, com seus cabelos compridos e repicados, suas jaquetas enfeitadas com pinos de ferro e caras de mau. Todos aqueles artistas posando com seus personagens raivosos. Contudo, quando vistos em vídeos nos bastidores de shows e clipes, eram apenas jovens brincalhões, sem maldade em seus rostos.
Lázaro começou a pensar como esses artistas moldaram a sua postura e de alguns colegas na época de escola. Queriam ser como eles eram e, no fim, nenhum artista era igual aos próprios personagens. Então, ele pensou como as pessoas eram personagens em suas peças de teatro cotidianas, cobrindo seus segredos e interesses, fazendo de tudo para serem agradáveis. Quando ele próprio deixou sua máscara e foi sincero, o resultado não foi positivo.
Toda a reflexão que Lázaro fazia em sua mente ficava mais complexa quando ele começava a pensar na possibilidade de algumas pessoas não conseguirem abafar totalmente seus anseios e, ao tocá-las, ele retirasse pequenas informações de seus íntimos. Ele ainda não sabia se seriam informações relevantes ou se seriam desejos muito intensos para se esconder para sempre. “Tomara que o tal Pai saiba”, pensou, enquanto olhava para o pôster da banda de rock KISS.
– Com licença, Lázaro. Você ajuda eu trazer a Sara? – Elisabeth tentava falar com cuidado para não errar. A moça viu o rosto de Lázaro, mas não fez nenhum comentário.
Após alguns segundos olhando para o pôster, Lázaro olhou para Elisabeth, que o aguardava. Lázaro meneou positivamente com a cabeça, se levantou e foi até a sala. Para alegrar a prima, ele foi caminhando pelo corredor fazendo o som do relinchar de um cavalo. Elisabeth não entendeu o que acontecia, mas riu.
– Oba. Lá vem meu pangaré. – Sara aplaudiu, rindo com dificuldade.
Lázaro relinchou o mais alto que pode e disse:
– Pangaré, não! Alazão.
Lázaro se agachou e Sara, com a ajuda de Elisabeth, subiu nas costas do primo.
– Upa, upa, Alazão!
Lázaro se levantou e quase não sentiu o peso de Sara. Deveria estar mais magra do que estava no dia de sua chegada.
– Vamos para a cozinha, Pé de Pano. – Sara, tentou imitar a voz do personagem Pica-Pau, do desenho homônimo que eles assistiam na infância.
Ali estava uma outra Sara: pequena, magra, frágil, mas era apenas a aparência. A Sara de verdade ainda brilhava dentro naquele corpo debilitado. Lázaro a via no sorriso, no riso, nas brincadeiras. Sua certeza era que, em breve, ela estaria de novo pulando e correndo como quando era criança.
Ao colocar Sara sentada, ele se virou para ela, sorrindo. Sara não tinha percebido ainda como o rosto dele estava inchado de um lado e se assustou. Então, enquanto Elisabeth esquentava o jantar, Lázaro explicou a história e deixou a prima aliviada. “Problema resolvido por Ieda Holmes”, disse ele, com orgulho. Para Lázaro, o rosto desincharia em alguns dias e não era grave – a sua principal preocupação era com a prima, e ele queria saber tudo sobre o que estava acontecendo com ela.
– O que o médico disse ontem? – perguntou Lázaro.
– Disse que eu preciso comer, tomar as vitaminas...
– Só isso?
Sara deu de ombros. Os médicos estavam totalmente perdidos.
– Bem, Lazinho, vamos falar de coisas felizes. Já que você diz que o problema com o vizinho se resolveu, o que conta de bom?
– Hmmm... deixa eu ver...
Lázaro fez uma pausa e continuou.
– Lembra da Beatriz?
Sara crispou os olhos enquanto tentava lembrar de quem Lázaro falava.
– Lembra sim. Era minha colega de faculdade... angolana…
– Ah, sei. Lembrei. Você disse que ela foi para Portugal.
– Ela me visitou ontem. – Lázaro esboçou um pequeno sorriso.
– Nossa. Que legal! E como foi? – Sara se demonstrava feliz e interessada.
– Legal. – Lázaro não conseguiu conter um sorriso maior.
– Ah, cachorrão!
Sara acotovelou várias vezes o primo e deu várias piscadelas engraçadas, mas Lázaro nem sentiu as fracas cutucadas da prima.
– Para. Não é nada demais. Ela só me visitou, pelos velhos tempos.
– Mas não foi nos “velhos tempos” que você queria namorar ela?
– Quem te disse isso? – Lázaro se surpreendeu com a astúcia da prima, pois ele não falou muito de Beatriz.
– Meus olhos e meus ouvidos. A sua boca faltava salivar em falar o nome dela. – Sara riu, mas uma tosse o cessou quase que automaticamente o riso.
Lázaro alisou as costas da prima, preocupado.
– Queria, sim. Mas, como você disse, “nos velhos tempos”. Isso ficou lá, no passado. – Lázaro colocava sua tristeza no tom da voz para deixar claro sua certeza.
Trocando de papeis, Sara alisou as costas do primo, reconfortando-o.
– Não fique assim, Lazinho. Olha só, ela veio lá de Portugal para…
– ...ver os pais que moram aqui, em Campinas. – Lázaro complementou, ainda triste.
– Ah… Mas, mesmo assim. Como ela achou seu apartamento?
– Ela foi no antiquário.
– Aí! Ela teve trabalho para achar seu endereço e persistiu. Acho que isso deve significar alguma coisa. – O tom de voz de Sara era de esperança.
– Bem… pode ser. Quem sabe eu entenda melhor o que acontece quando eu descobrir o que significa amendukussole.
– Nem entendi o que você disse. Ela te falou isso aí?
– Não. Ela escreveu em um bilhete, desejando um futuro próximo encontro e isso.
– Outro encontro? Mas e se ela for atrás de você lá no prédio?
Lázaro apoiou a cabeça sobre as mãos.
– Não poderia esperar uma sorte maior... – Lázaro suspirou – Se eu der sorte, ela volta ao antiquário e o Adriano conta tudo. Mas isso não vem ao caso agora. Eu tenho muitas coisas para falar para você.
Elisabeth serviu um prato de comida à Sara e um para si, enquanto Lázaro se levantou para servir-se também, e começou a confidenciar para as duas o mistério que começara há duas semanas. Contou sobre o livro de capa preta, sobre a carta, sobre a morte do pai. Todas as perguntas de Sara seriam respondidas no fim da história. Contou sobre Alexandre, sobre Luis e sobre a manhã daquele mesmo dia. Os únicos mistérios não mencionados por ele foram os sonhos com a lupa, o anel e com Isaac, além da capacidade de sentir algumas pessoas.
– E o que acontece agora? – Sara perguntou, interessada.
– Meu pai me deixou algumas pistas do que posso fazer.
– Que pistas?
– Bem. Parece que tem um homem que sabe muitas coisas. Eu vou vê-lo amanhã à noite.
– Tipo um vidente?
– Acho que não. É como um conselheiro.
– Mas, é perigoso? Esse tipo de pessoa não atende de manhã? – Sara suspeitou que algo estava errado.
– Não é perigoso não. Fique tranquila. Vou com o Adriano.
– Vê lá, vê lá… - repreendeu Sara, sacudindo o indicador como uma mãe, preocupada.
Lázaro pôs fim a conversa reforçando que não tinha nada de perigoso e que daria tudo certo, e Sara sabia que, quando o primo tentava pôr fim a um assunto, era porque ele queria apenas informar, e não preocupar. O jantar continuou e Sara continuava sem prazer em comer, ao contrário de Elisabeth. Lázaro pensou que a convidada deveria ter tanta fome com aquela comida restrita que, de alguma maneira, externava em sentimentos. Comer algo insosso como aquela comida só era possível com fome que, para ele, era ainda o melhor tempero. Mas se questionava em silêncio por que conseguia sentir a fome de Elisabeth e não conseguia sentir algo em Sara. Pensou que poderia tentar encontrar esse “algo” intencionalmente, uma vez que não conseguia espontaneamente como conseguia com Elisabeth.
O resto da noite Lázaro e Sara ficaram relembrando de coisas do passado. Sara foi colocada na cama para ficar mais confortável e Elisabeth e Lázaro sentaram-se nos outros cantos. A conversa foi positiva, principalmente para Sara. Há muitos anos eles não conversavam, nem mesmo por cartas. Conversaram sobre as memórias de infância e adolescência, com destaque para o pôster da boyband que ela fora fã.
– Fiquei triste quando acabou. Faz uns cinco anos, mais ou menos. Logo depois, pipocaram mais vários grupos iguais, ou só de meninos, ou meninas, ou mistos.
– E agora, você ouve o quê?
– Ah, não tenho nada em especial.
– Não tem? – Elisabeth, que só ouvia a conversa, questionou Sara, e começou a cantarolar em voz baixa. – When you're feeling sad and low...
– We will take you where you gotta go... – Sara complementou, um tom mais alto.
– Smiling, dancing, everything is free... – Elisabeth continuou, ainda mais alto.
– All you need is positivity! – Ambas concluíram, em uníssono.
Lázaro ficou olhando o dueto, admirado. Sara sempre demonstrou uma postura diferente. Não cantava as canções das apresentadoras dos programas infantis, não gostava dos desenhos considerados de meninas. Na infância, o único amigo das brincadeiras que ela gostava – e que eram consideradas proibidas para ela – era o próprio primo, enquanto os outros meninos a ignoravam e chamavam de todo tipo de apelido que depreciava sua atitude de querer brincar com eles: um dia, um garoto incauto e maior que ela a chamou de Saritão e teve o nariz quebrado. Se fosse um menino, ganharia respeito, mas Sara passou a ser ignorada e chamada de maluca.
– Então você gosta de coisas de mocinha? – Lázaro aproveitou a pequena apresentação da prima para brincar com ela.
– Sempre gostei. Só não gosto de idiotice. Além disso, Spice Girls não é coisa de mocinha.
– Entendi. Essa música parece ser bem animada.
– Spice Girls sempre é um grupo animado. Os shows eram legais, antes da saída da Ginger.
– Uma cantora ou isso é nome de mascote?
– Lázaro, em que mundo você vive? É a Geri Halliwell, era uma cantora do quinteto.
– Não conheço.
– Tá, mas era um grupo muito bom. – Sara enfatizou sua afirmação e apontou para Lázaro na intenção de censurar qualquer outra brincadeira por parte dele.
– Vocês duas foram no show?
– Não. Eu fui quando as cinco estavam juntas ainda. E não fui mais em shows depois que eu comecei a ficar doente.
Para afastar a tristeza que a doença trazia, Lázaro pediu para Sara contar mais sobre o grupo que elas cantaram, as tais Spice Girls. Sara contou toda a história com muita alegria. No fim da noite, antes de dormirem, Lázaro pediu emprestado a borduna para Sara e ela emprestou, sem perguntar.
– Posso levá-la para o meu quarto, quero examiná-la com atenção. Eu nunca tinha visto uma borduna tão interessante.
– É linda, né? Eu nem pude usá-la ainda. Queria cortar umas melancias com ela.
– Melancias? – Lázaro voltou-se para a prima com olhar de dúvida.
– Você preferia que eu cortasse pessoas?
– Não, mas eu nem tinha pensando nisso. Achei que você treinasse cortando o ar.
– Poderia ser, mas prefiro cortar coisas. – Sara riu.
Após as brincadeiras, Lázaro lembrou de algo que tinha pensado, e que achava importante tentar pôr em prática naquela noite. Disse para Elisabeth que queria falar algo em particular com a prima, mas que seria rápido. Quando Elisabeth saiu do quarto, Lázaro começou a falar, em um tom mais baixo do que o habitual
– Eu não contei tudo que aconteceu essas duas semanas comigo. Teve uma coisa que eu preferi falar em particular e quero que você guarde segredo, mesmo para a Lilly.
– Nossa, que misterioso. O que é?
– Eu acho que consigo sentir algo nas pessoas. Eu não sei explicar bem o que é, porque eu só senti em quatro pessoas até agora. Uma é a própria Elisabeth, a outra é a minha vizinha e as outras duas você não conhece.
– O que você sentiu na Lilly?
– Senti algo como a fome.
– Acho que até eu consigo sentir isso nela. Ela só come coisa sem graça. – Sara riu.
– Não é isso. Não é perceber que ela sente fome, é sentir a fome dela em mim.
– Credo... e as outras pessoas?
– Uma mulher que trabalha no contador do antiquário eu senti algo como fogo, como se um incêndio destruísse tudo. E em uma moça eu vi uma cruz com cordas.
– Cruz com cordas? Que tipo de cruz?
Lázaro foi até o banheiro e pegou as duas escovas de dente que estavam lá. Segurou-as na mão, formando uma cruz em xis.
– Foi mais ou menos o que eu vi. Uma cruz com cordas nas pontas com uma mão segurando. Havia uma corda em cada extremidade e uma no meio.
– Como uma cruz de um puppeteer?
– O que é isso? – Lázaro não conhecia aquela palavra em inglês.
– Um manipulador de bonecos. O boneco fica preso em cordas e o manipulador dele o sustenta pela cruz. O Pinóquio era um boneco assim.
– Interessante, vou ler a respeito depois... podemos começar? – Lázaro estava muito entusiasmado com a possibilidade de descobrir o que havia com a prima.
– Mas você não disse o que vai fazer.
– Vou tentar ver o seu interior. Procurar alguma coisa que explique sua falta de paladar, por exemplo. Foge ao que entendo ou acredito, mas mal não fará. Pode ser que eu possa dar ajuda para os médicos mudarem a abordagem a partir do que eu ver. Se descobrirem, um novo mundo se abrirá e, quem sabe, ele explique coisas que eu não entendo do meu passado e presente.
Havia um grande desejo em Lázaro de tentar descobrir qual mistério escondia o problema de Sara. Se tivesse sorte, conseguiria sentir algo, como sentira nas outras. Para o procedimento, ele se levantou e se sentou ao lado da prima e, tentando uma primeira abordagem, mais simples, apenas tocou a mão de Sara. O resultado não foi frustrante por ser o esperado: não sentiu nada. Pensou que deveria tentar algo mais intenso, algo que nunca tentara: uma concentração com foco em um desejo, em uma ação não-física, e sim mental.
Para ele, seria estranho tentar agir sem se mexer, como em um sonho lúcido, mas não soava como algo impossível. Em seu íntimo, Lázaro ficava, pouco a pouco, mais afeito à ideia de que o sobrenatural não significava o mesmo que o impossível. Se o sobrenatural existisse, poderia existir algum tipo de doença neste mesmo âmbito.
Ainda segurando as mãos de Sara, Lázaro tentou criar um elo entre eles e, assim, ver além do físico. O nada foi dando lugar a algo, um lugar com uma fonte de água, ou um poço, que estava cheio até a borda. Porém, este poço não tinha águas calmas, mas algo que se assemelhava a uma fumaça vermelha formando um redemoinho. Ao olhar em volta, ele podia ver, deslizando pelo que deveria ser o chão, uma neblina dourada que era aos poucos levada ao poço e desaparecia dentro da fumaça vermelha. Era um fluxo devagar, mas constante de neblina dourada. Lázaro tentou olhar no meio do poço, através do cone que se formava da fumaça vermelha e conseguiu ver que, na verdade, o cone formava um tubo que poderia se seguir para outro lugar. Com medo, preferiu não tentar mergulhar na fumaça. Ainda que tudo fosse em um ambiente não físico, quem sabe, fruto da sua imaginação, Lázaro preferiu manter a prudência e entender antes o que via.
Ao reabrir os olhos, Lázaro se sentiu cansado. Aquela habilidade, testada pela primeira vez, consumia energia como se ele tivesse corrido por alguns minutos sem ter preparo físico para tal. A mente estava pesada e o sono estava mais intenso. Sara reabriu os olhos no mesmo instante que ele, mas parecia estar saindo de uma hipnose, levemente desorientada.
– Você viu o que eu vi?
Lázaro mantinha no olhar a esperança de uma resposta afirmativa.
– Eu não vi nada. Estava tentando deixar minha mente livre de distrações. Achei que te ajudaria.
– Pode ser que tenha ajudado mesmo.
Lázaro se frustrou com a resposta, mas era grato pelo resultado.
– Então, o que você viu? – Sara estava preocupada.
– Não sei bem. – Lázaro crispava levemente os olhos, enquanto pensava. – Prefiro meditar sobre o que eu vi.
– Mas o que você viu? – sem resposta, Sara ficava aflita.
– Um poço com uma fumaça vermelha rodando dentro dele.
Sara boquiabriu-se. Ela confidenciou que também havia visto esse poço em sonhos e era exatamente a mesma visão que Lázaro teve. Sara aceitou esperar que Lázaro pensasse sobre a sua visão para tentar dar uma explicação que fosse coerente e, antes de sair, ambos decidiram não falar nada para não assustar Elisabeth. Com a porta aberta, Lázaro despediu-se das duas mulheres e já estava saindo do quarto quando se sentiu vigiado. Olhou para ao lado, mas não tinha nada, apenas a antiga penteadeira de Ruth.
Enquanto escovava os dentes no banheiro, ele sentiu-se novamente sendo vigiado, mas também não tinha ninguém. Sentir-se vigiado enquanto estava sozinho era mais uma novidade. Pensou se aquela sensação de ser vigiado por duas vezes em tão pouco tempo era um sinal ou se era para se preocupar. Logo concluiu de que não haveria uma resposta e ele preferiu ir dormir em vez de se questionar.
Na casa nova, preferiu trancar a porta do quarto para garantir privacidade. Essa atitude poderia ser vista como estúpida para muitas pessoas, mas Lázaro preferiu segui-la sem uma explicação mais elaborada: queria privacidade e a porta trancada daria essa sensação. Deitou-se na cama e retirou o anel herdado de Ruth que ele imaginou que poderia atrapalhar. Antes de apagar a luz, verificou que a borduna tinha um lado que deveria ser como uma lâmina, mas não cortava com uma faca. Assim, ele apagou a luz e logo adormeceu.
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