27
Às dezesseis horas, Ieda deu por encerrada a faxina e Lázaro pagou o mesmo valor que ela receberia se tivesse feito o serviço na casa de Zuleica. Ieda não queria receber as duas notas de dez reais que Lázaro lhe ofereceu mas, de tanto elogiar o bom trabalho da vizinha, ela aceitou.
– Não desvalorize seu trabalho, Dona Ieda.
– Trabalhar bem feito deve ser obrigação, Seu Lázaro.
– Pagamento justo também deve.
Ieda riu, elevou as notas de dez reais até a altura do rosto segurando com a mão firme, como se brindasse e, pegando suas ferramentas de trabalho, foi para casa. Para Lázaro, aquela seria a hora de tomar banho e cochilar para retirar a sensação de cansaço causada pelo sono interrompido da manhã. Como parte de um ritual de sorte para garantir o merecido descanso, deu duas voltas completas na fechadura da porta da sala e foi para o banheiro.
Depois do banho, Lázaro se deitou para um cochilo e o sono veio rápido. Logo após veio o vazio, depois veio um sonho. O sonho era uma memória da infância, Lázaro tinha cerca de dez anos e estava na casa de seu pai. Ele estava procurando alguma coisa que deveria ter perdido e caminhou examinando os cômodos atrás do objeto. Ao chegar na cozinha, viu sua mãe lavando a louça e seu pai sentado à mesa, passando um palito de madeira sobre uma folha de papel de um caderno. Lázaro tentou falar com ele, mas Isaac demorou alguns segundos para atendê-lo.
– O que o senhor está fazendo?
– Estou escrevendo, Lázaro.
– Mas eu não estou vendo nada.
– Por que, por enquanto, ninguém pode ler. Quando você puder, eu te avisarei e você só precisará fazer isso.
Isaac pegou uma folha que estava sobre a mesa e passou o palito de madeira. Depois, pegou um fósforo, acendeu e passou sobre a folha, evidenciando o nome de Lázaro.
– É uma tinta invisível?
– Sim, é.
Então, Ruth, a mãe de Lázaro, parou de lavar a louça e colocou a mão sobre o ombro do filho.
– Você saberá no momento certo que pode ler e o que ler. No momento certo, você terá um sinal e só precisará seguir os símbolos que estão desenhados aqui no canto das folhas. Vê?
Lázaro olhou para o livro e percebeu que cada folha tinha um desenho. De animais, plantas, partes do corpo e símbolos como estrelas, a Lua e o Sol. Lázaro meneou a cabeça, afirmando que tinha entendido e Ruth sorriu. Então, ficou tudo vazio novamente.
Lázaro levantou-se da cama com lágrimas nos olhos e olhou a hora. Era quase dezoito horas, mas o sonho parecia ter sido de alguns poucos minutos. As lágrimas desciam pela saudade da mãe que, no sonho, parecia estar ali, ao seu lado. Ele se dirigiu ao banheiro para se arrumar antes que Adriano aparecesse, mas teve dificuldade pela dor que sentia no rosto. “Esse olho vai dar trabalho”, pensou em voz alta. Tão logo pensou no olho, lembrou do livro ata deixado por Isaac e foi consultá-lo. “No momento certo, você terá um sinal”, pensou em voz alta novamente. Passando as páginas, Lázaro foi revendo cada um dos símbolos que vira no sonho, até que, então, chegou na página com o desenho de uma mão aberta, com um olho desenhado no meio e estava com os dedos virados para baixo – era um amuleto chamado de hamsá. Respeitando a orientação dos pais de ler uma página por vez, Lázaro colocou uma prancheta sob a folha e passou seu isqueiro sobre esta. As letras começaram a aparecer aos poucos, formando um texto escrito em letra elegante.
“Vinte e sete de fevereiro de mil, novecentos e noventa e dois.
Um dia, antes de falecer, minha amada esposa disse que eu teria um encontro muito especial em um lugar pobre materialmente, mas rico em fé. Ela disse que eu deveria identificá-lo como uma hamsá para que fosse lido em momento oportuno por você, Lázaro, e assim estou fazendo. Ruth, meu amor, estaremos sempre juntos.
Existe um homem, se posso chamá-lo assim, que vive em um antigo galpão abandonado em Sumaré, a cidade vizinha à Campinas. O local não é de difícil acesso, mas visitá-lo demanda muita cautela. Há cerca de três anos a Bússola de Acre me levou até este galpão identificado como um possível local onde haveria um item de poder extraordinário. Contudo, quando comecei a caminhar por uma rua de terra que levaria até a construção, fui cercado por vários homens malvestidos. Como o bairro vizinho era uma área pobre, pensei que eram moradores do entorno e que poderiam me assaltar. Porém, eles apenas me proibiram de entrar no terreno do galpão.
Naquele dia, eu recuei e voltei para casa, mas voltei dias depois, em uma noite de lua cheia, caminhando pelo matagal que ficava do lado oposto à entrada do galpão. Optei por usar somente a luz da Lua e me precavi com botas emborrachadas para não correr o risco de ser picado por uma cobra. Não levei nenhuma arma, como era de costume porque, se fosse capturado pelos mesmos homens, poderia ser mal interpretado e, sabe-se lá o que poderiam fazer comigo.
A caminhada foi longa e cansativa. O solo acidentado e a idade fizeram o caminho ser mais tortuoso e demorado do que realmente era. Felizmente, cheguei sem muitos ferimentos. Ao me aproximar do local, percebi que os homens não ficavam em torno da construção. Provavelmente, eles priorizavam a entrada e não imaginavam que alguém faria o caminho que fiz.
O galpão parecia abandonado, mas quando consegui me aproximar das paredes da construção, consegui ouvir sons de pessoas orando. Caminhei pelo perímetro procurando uma fresta. Somente uma pequena brecha nas chapas de metal não estava obstruída por papelão. Olhei por ela e consegui ver parcialmente o interior de todo o espaço. Havia um grupo de pessoas, homens e mulheres, mas nenhuma criança. Em uma parte daquele lugar, era possível ver que apenas uma pessoa estava sentada. Contudo, eu só conseguia ver suas pernas nuas e pés descalços. Com a lente de cristal em mãos, eu olhei por todos os lados, procurando pelo objeto que a Bússola deveria ter indicado, até descobrir, para minha surpresa, que o objeto era o próprio homem. Naquele momento, fiquei em dúvida se valeria a pena conversar com ele e entender o que nele havia de especial. Uma pessoa com poderes extraordinários deveria saber de sua condição e poderia me causar mais problemas do que me ajudar. Fiquei parado, olhando tudo que acontecia lá dentro, até que alguém disse ‘Silêncio. O Pai vai falar’. Quando a voz se calou, o homem de pernas nuas se levantou. Neste instante, eu deduzi que o homem em questão deveria ser líder de uma seita, e um homem com poder sobre outros homens sempre é um grande problema.
Com muita dificuldade, retornei pelo matagal e fui até um posto de gasolina que havia ali próximo. Minha calça tinha carrapichos presos do meio da canela até o joelho, e muitos atravessaram o tecido com suas pequenas pontas dolorosas e prenderam-se à minha pele. Ao me aproximar do posto, o frentista me olhou com desconfiança. Eu estava sujo e suado, sinais que ficaram evidentes para ele sob as luzes fortes do posto. Sem tirar os olhos de mim, o homem respondeu minhas perguntas. Ele não sabia muito, só sabia que quase ninguém ia lá. Às vezes, carros estacionavam na entrada da rua de terra e pessoas bem vestidas iam até o galpão. Deveria ser, para ele, algum tipo de ‘feiticeiro de gente rica’. As vezes essas histórias correm de boca em boca, sobre um feiticeiro, ou qualquer tipo assim, que faz o que quisermos se pagarmos bem. Perguntei se ele tinha medo, mas ele respondeu que quem tem conta para pagar tem suas próprias assombrações. Apesar de discordar, confesso que eu ri do comentário do homem.
Naquela noite, voltei para casa e planejei como apareceria como visitante no dia seguinte. Pensei que, se o tal ‘Pai’ fosse um homem com algum poder místico, ele poderia ao menos ser útil uma vez. O meu problema era saber como ele seria útil se eu não sabia nada dele. De manhã, deixei minha sobrinha cuidando da loja e fui conseguir dinheiro. Se o homem atendia apenas pessoas ricas, era por que o atendimento custava dinheiro. Imaginei que seria suficiente duzentos cruzados novos, um valor substancial para muitas pessoas na época.
Consegui uma carona com um amigo padre chamado Salatiel. Ele era jovem, mas muito entusiasmado com o assunto, tanto que ainda era seminarista quando se juntou ao grupo de apoio aos guardiões da Bússola – a Irmandade Secreta dos Guerreiros de Mãos Nuas da Ordem de Cister. Uma irmandade de nome comprido e pomposo como toda irmandade precisa ter. Salatiel ficou me aguardando, estacionado no posto.
Atravessei a rua e fui abordado pelos homens novamente. Eu disse para eles que queria falar com o Pai, então um deles pegou o dinheiro da minha mão e entrou. Foram pouco minutos esperando o homem voltar, mas senti como se fosse uma eternidade. Levado para dentro do galpão, fui revistado. Por sorte, não tinha nada em meus bolsos, nem documento, nem a Bússola de Acre, que já estava guardada novamente no lugar de sempre. Andei mais um pouco e pude me aproximar do único homem que estava sentado. Ele era um homem com seus cinquenta anos, ou um pouco menos, e estava totalmente nu.
Uma venda feita de tecido totalmente limpo e branco cobriam-lhe os olhos. Depois eu soube que ele era realmente cego e que a venda nos olhos era para proteção, provavelmente da poeira daquele lugar sujo. Antes de me forçarem a ajoelhar ao lado da cadeira rústica de espaldar alto do homem cego, um dos homens da escolta disse que o pagamento me dava o direito a fazer uma única e curta pergunta. O ‘Pai’ tateou meu rosto e me perguntou de onde eu era. Não menti, disse que era de Campinas. Depois ele me perguntou se eu era religioso e também não menti, e disse que acreditava em muitas coisas que eu presenciei durante a vida, mas que nenhuma religião conseguia dar conta de explicar. E então perguntou meu nome. Como eu suspeitava que ele me sondava, eu menti. Disse que me chamava José de Souza Ferrari, o nome de um conhecido que se parecia vagamente comigo. Como já esperava a pergunta e consegui responder com confiança, ele acreditou e deixou que eu perguntasse.
Fui certeiro e fiz pergunta de um milhão de dólares: ‘o que você é?’. Ele tentou me enganar dando uma resposta aparentemente óbvia: ‘Eu sou o Pai’. Não me satisfiz com a resposta e disse ‘Esse nome é como as pessoas daqui te chamam. Eu não perguntei o seu nome ou como te chamam, perguntei o que você é’. Então o seu rosto ficou sério. Eu fiquei com medo, pois a reação foi geral entre os que nos rodeavam. O que me segurava no chão colocou a mão na cintura, e eu tinha certeza que ele tinha alguma arma branca.
O Pai ficou um tempo em silêncio, pensando, provavelmente querendo encontrar uma resposta inquestionável, mas que não dissesse nada. Seu rosto sério foi aos poucos voltando a sorrir, então ele deu a resposta, triunfante – ‘Antigamente eu era denominado como um ben ha Elohim. Posso lhe dizer que ainda sou um.’ O homem fez questão de responder em hebraico que era um ‘filho de Deus’, provavelmente para que a resposta fosse inútil para mim e, mesmo assim, fosse válida. Para me proteger, fingi insatisfação e fui embora. Se o homem queria não ser entendido, eu daria este prazer a ele. Enquanto voltava para casa, menti também para Salatiel, dizendo que nada tinha acontecido. Disse apenas que o Pai era mais um tipo excêntrico guru de ricos.
No dia seguinte eu fui até a casa de Abner, pesquisar em sua biblioteca o que existiria de referências sobre o que poderiam ser os filhos de Deus. A principal era a da própria Torá, mas existiam algumas traduções que diziam pais dos nefilins e que estes poderiam ser gigantes que viviam séculos. Eu só poderia dizer que ele tinha algo de extraordinário por que a lente de cristal denunciou isso. De resto, ele era totalmente ordinário. Hoje, três anos depois, eu estou escrevendo, com a esperança que um dia lhe seja útil, meu filho. Não sei se ele pode te ajudar como sua mãe dissera, mas sei o que vi ao olhar pela lente.
Nunca mais fui atrás do homem que se intitula como Pai. Preferi evitá-lo para me proteger. Se aquele homem soubesse que eu menti para ele duas vezes, quem sabe se o seu orgulho ferido não me levaria à morte, ou pior, a morte da minha família. Se um dia tiver alguma dúvida que os livros não respondem, vá até ele e tente encontrar uma resposta. Porém, indico usar essa ajuda somente se for um caso realmente importante. É melhor se manter invisível tanto quanto for possível.”
Lázaro ficou feliz como o sonho e com a leitura. Sua mãe foi perfeita em sua colocação e, por fim, as peças se encaixaram após quase vinte anos. A partir dali, tinha a informação de que um homem poderia responder qualquer pergunta e, assim, ele poderia saber o que era o fio vermelho. Se desse azar, o Pai poderia ser apenas alguém que ganhava dinheiro de pessoas ingênuas e ir até lá seria perder dinheiro. Lázaro entendeu que precisaria arriscar por não lhe ocorrer nenhuma outra forma de entender o que estava acontecendo.
Após passada a empolgação, Lázaro ficou pensando como Ruth sabia que, um dia, essa informação seria útil se havia intervalos longos de tempo entre os eventos. A mãe deixou o aviso quando ele tinha dez anos, Isaac teve o encontro com o Pai quando ele tinha cerca de dezenove e, naquele momento, aos trinta anos, Lázaro lia o texto. Pensou o que mais existiria naquele livro ata e que, lido no momento certo, seria uma ajuda tão providencial quanto o melhor conselho que um sábio poderia dar.
Como Adriano estava para chegar, Lázaro parou com suas reflexões e foi rever os itens que levaria. A máquina de escrever estava com sua capa de proteção. Na bolsa, roupas limpas. Preferiu tentar sair sem fazer alarde, para não se despedir de ninguém. A maioria dos vizinhos eram apenas conhecidos pelo nome, outros, eram conhecidos apenas pelo número do andar em que moravam. Lázaro desceu devagar com seus pertences e, ao chegar no térreo, olhou para o prédio. As luzes acesas dos apartamentos eram acompanhadas pela disputa de entre o som da novela “Esplendor” de alguns vizinhos com o da série “Chaves” nos outros. Ninguém percebeu que havia um apartamento em total silêncio e Lázaro estava feliz com isso. Quando Adriano estacionou o carro ao lado do amigo, a primeira coisa que fez foi se assustar com o rosto ainda inchado e roxo de Lázaro. Este, tranquilo, prometeu explicar o motivo do rosto desfigurado logo que saíssem dali.
Durante a viagem, Lázaro contou sobre a briga com o vizinho e a visita de Beatriz. Porém, o assunto principal foi o feixe vermelho que Lázaro vira durante a briga e a sensação que ele teve ao tocar no braço de Anahí. Ele tinha certeza de que os dois eventos não eram frutos de sua imaginação. Não havia explicação para esses eventos, aliás, não eram os únicos. Quatro pessoas causaram sensações estranhas em Lázaro naquelas últimas semanas: Anahí, Rebeca, Elisabeth e Ieda, que era a única em quem ele confiava totalmente. Elisabeth era confiável por ser amiga de Sara, mas ele mal a conhecia para afirmar qualquer coisa com convicção. Por fim, Lázaro falou sobre o livro ata e o Pai que, para Adriano, era uma história maravilhosa e um forte sinal de que os mistérios na vida do amigo seriam respondidos.
Ainda no carro, os dois amigos se comprometeram a ir até Sumaré e ver se o tal Pai ainda morava no mesmo galpão e se era possível ter uma audiência com ele. A única coisa que faltava era dinheiro. Seria a primeira vez que o dinheiro herdado por Lázaro seria retirado da conta, mas era consenso entre eles que, se Isaac ainda estivesse vivo, ele não se oporia.
Às dezesseis horas, Ieda deu por encerrada a faxina e Lázaro pagou o mesmo valor que ela receberia se tivesse feito o serviço na casa de Zuleica. Ieda não queria receber as duas notas de dez reais que Lázaro lhe ofereceu mas, de tanto elogiar o bom trabalho da vizinha, ela aceitou.
– Não desvalorize seu trabalho, Dona Ieda.
– Trabalhar bem feito deve ser obrigação, Seu Lázaro.
– Pagamento justo também deve.
Ieda riu, elevou as notas de dez reais até a altura do rosto segurando com a mão firme, como se brindasse e, pegando suas ferramentas de trabalho, foi para casa. Para Lázaro, aquela seria a hora de tomar banho e cochilar para retirar a sensação de cansaço causada pelo sono interrompido da manhã. Como parte de um ritual de sorte para garantir o merecido descanso, deu duas voltas completas na fechadura da porta da sala e foi para o banheiro.
Depois do banho, Lázaro se deitou para um cochilo e o sono veio rápido. Logo após veio o vazio, depois veio um sonho. O sonho era uma memória da infância, Lázaro tinha cerca de dez anos e estava na casa de seu pai. Ele estava procurando alguma coisa que deveria ter perdido e caminhou examinando os cômodos atrás do objeto. Ao chegar na cozinha, viu sua mãe lavando a louça e seu pai sentado à mesa, passando um palito de madeira sobre uma folha de papel de um caderno. Lázaro tentou falar com ele, mas Isaac demorou alguns segundos para atendê-lo.
– O que o senhor está fazendo?
– Estou escrevendo, Lázaro.
– Mas eu não estou vendo nada.
– Por que, por enquanto, ninguém pode ler. Quando você puder, eu te avisarei e você só precisará fazer isso.
Isaac pegou uma folha que estava sobre a mesa e passou o palito de madeira. Depois, pegou um fósforo, acendeu e passou sobre a folha, evidenciando o nome de Lázaro.
– É uma tinta invisível?
– Sim, é.
Então, Ruth, a mãe de Lázaro, parou de lavar a louça e colocou a mão sobre o ombro do filho.
– Você saberá no momento certo que pode ler e o que ler. No momento certo, você terá um sinal e só precisará seguir os símbolos que estão desenhados aqui no canto das folhas. Vê?
Lázaro olhou para o livro e percebeu que cada folha tinha um desenho. De animais, plantas, partes do corpo e símbolos como estrelas, a Lua e o Sol. Lázaro meneou a cabeça, afirmando que tinha entendido e Ruth sorriu. Então, ficou tudo vazio novamente.
Lázaro levantou-se da cama com lágrimas nos olhos e olhou a hora. Era quase dezoito horas, mas o sonho parecia ter sido de alguns poucos minutos. As lágrimas desciam pela saudade da mãe que, no sonho, parecia estar ali, ao seu lado. Ele se dirigiu ao banheiro para se arrumar antes que Adriano aparecesse, mas teve dificuldade pela dor que sentia no rosto. “Esse olho vai dar trabalho”, pensou em voz alta. Tão logo pensou no olho, lembrou do livro ata deixado por Isaac e foi consultá-lo. “No momento certo, você terá um sinal”, pensou em voz alta novamente. Passando as páginas, Lázaro foi revendo cada um dos símbolos que vira no sonho, até que, então, chegou na página com o desenho de uma mão aberta, com um olho desenhado no meio e estava com os dedos virados para baixo – era um amuleto chamado de hamsá. Respeitando a orientação dos pais de ler uma página por vez, Lázaro colocou uma prancheta sob a folha e passou seu isqueiro sobre esta. As letras começaram a aparecer aos poucos, formando um texto escrito em letra elegante.
“Vinte e sete de fevereiro de mil, novecentos e noventa e dois.
Um dia, antes de falecer, minha amada esposa disse que eu teria um encontro muito especial em um lugar pobre materialmente, mas rico em fé. Ela disse que eu deveria identificá-lo como uma hamsá para que fosse lido em momento oportuno por você, Lázaro, e assim estou fazendo. Ruth, meu amor, estaremos sempre juntos.
Existe um homem, se posso chamá-lo assim, que vive em um antigo galpão abandonado em Sumaré, a cidade vizinha à Campinas. O local não é de difícil acesso, mas visitá-lo demanda muita cautela. Há cerca de três anos a Bússola de Acre me levou até este galpão identificado como um possível local onde haveria um item de poder extraordinário. Contudo, quando comecei a caminhar por uma rua de terra que levaria até a construção, fui cercado por vários homens malvestidos. Como o bairro vizinho era uma área pobre, pensei que eram moradores do entorno e que poderiam me assaltar. Porém, eles apenas me proibiram de entrar no terreno do galpão.
Naquele dia, eu recuei e voltei para casa, mas voltei dias depois, em uma noite de lua cheia, caminhando pelo matagal que ficava do lado oposto à entrada do galpão. Optei por usar somente a luz da Lua e me precavi com botas emborrachadas para não correr o risco de ser picado por uma cobra. Não levei nenhuma arma, como era de costume porque, se fosse capturado pelos mesmos homens, poderia ser mal interpretado e, sabe-se lá o que poderiam fazer comigo.
A caminhada foi longa e cansativa. O solo acidentado e a idade fizeram o caminho ser mais tortuoso e demorado do que realmente era. Felizmente, cheguei sem muitos ferimentos. Ao me aproximar do local, percebi que os homens não ficavam em torno da construção. Provavelmente, eles priorizavam a entrada e não imaginavam que alguém faria o caminho que fiz.
O galpão parecia abandonado, mas quando consegui me aproximar das paredes da construção, consegui ouvir sons de pessoas orando. Caminhei pelo perímetro procurando uma fresta. Somente uma pequena brecha nas chapas de metal não estava obstruída por papelão. Olhei por ela e consegui ver parcialmente o interior de todo o espaço. Havia um grupo de pessoas, homens e mulheres, mas nenhuma criança. Em uma parte daquele lugar, era possível ver que apenas uma pessoa estava sentada. Contudo, eu só conseguia ver suas pernas nuas e pés descalços. Com a lente de cristal em mãos, eu olhei por todos os lados, procurando pelo objeto que a Bússola deveria ter indicado, até descobrir, para minha surpresa, que o objeto era o próprio homem. Naquele momento, fiquei em dúvida se valeria a pena conversar com ele e entender o que nele havia de especial. Uma pessoa com poderes extraordinários deveria saber de sua condição e poderia me causar mais problemas do que me ajudar. Fiquei parado, olhando tudo que acontecia lá dentro, até que alguém disse ‘Silêncio. O Pai vai falar’. Quando a voz se calou, o homem de pernas nuas se levantou. Neste instante, eu deduzi que o homem em questão deveria ser líder de uma seita, e um homem com poder sobre outros homens sempre é um grande problema.
Com muita dificuldade, retornei pelo matagal e fui até um posto de gasolina que havia ali próximo. Minha calça tinha carrapichos presos do meio da canela até o joelho, e muitos atravessaram o tecido com suas pequenas pontas dolorosas e prenderam-se à minha pele. Ao me aproximar do posto, o frentista me olhou com desconfiança. Eu estava sujo e suado, sinais que ficaram evidentes para ele sob as luzes fortes do posto. Sem tirar os olhos de mim, o homem respondeu minhas perguntas. Ele não sabia muito, só sabia que quase ninguém ia lá. Às vezes, carros estacionavam na entrada da rua de terra e pessoas bem vestidas iam até o galpão. Deveria ser, para ele, algum tipo de ‘feiticeiro de gente rica’. As vezes essas histórias correm de boca em boca, sobre um feiticeiro, ou qualquer tipo assim, que faz o que quisermos se pagarmos bem. Perguntei se ele tinha medo, mas ele respondeu que quem tem conta para pagar tem suas próprias assombrações. Apesar de discordar, confesso que eu ri do comentário do homem.
Naquela noite, voltei para casa e planejei como apareceria como visitante no dia seguinte. Pensei que, se o tal ‘Pai’ fosse um homem com algum poder místico, ele poderia ao menos ser útil uma vez. O meu problema era saber como ele seria útil se eu não sabia nada dele. De manhã, deixei minha sobrinha cuidando da loja e fui conseguir dinheiro. Se o homem atendia apenas pessoas ricas, era por que o atendimento custava dinheiro. Imaginei que seria suficiente duzentos cruzados novos, um valor substancial para muitas pessoas na época.
Consegui uma carona com um amigo padre chamado Salatiel. Ele era jovem, mas muito entusiasmado com o assunto, tanto que ainda era seminarista quando se juntou ao grupo de apoio aos guardiões da Bússola – a Irmandade Secreta dos Guerreiros de Mãos Nuas da Ordem de Cister. Uma irmandade de nome comprido e pomposo como toda irmandade precisa ter. Salatiel ficou me aguardando, estacionado no posto.
Atravessei a rua e fui abordado pelos homens novamente. Eu disse para eles que queria falar com o Pai, então um deles pegou o dinheiro da minha mão e entrou. Foram pouco minutos esperando o homem voltar, mas senti como se fosse uma eternidade. Levado para dentro do galpão, fui revistado. Por sorte, não tinha nada em meus bolsos, nem documento, nem a Bússola de Acre, que já estava guardada novamente no lugar de sempre. Andei mais um pouco e pude me aproximar do único homem que estava sentado. Ele era um homem com seus cinquenta anos, ou um pouco menos, e estava totalmente nu.
Uma venda feita de tecido totalmente limpo e branco cobriam-lhe os olhos. Depois eu soube que ele era realmente cego e que a venda nos olhos era para proteção, provavelmente da poeira daquele lugar sujo. Antes de me forçarem a ajoelhar ao lado da cadeira rústica de espaldar alto do homem cego, um dos homens da escolta disse que o pagamento me dava o direito a fazer uma única e curta pergunta. O ‘Pai’ tateou meu rosto e me perguntou de onde eu era. Não menti, disse que era de Campinas. Depois ele me perguntou se eu era religioso e também não menti, e disse que acreditava em muitas coisas que eu presenciei durante a vida, mas que nenhuma religião conseguia dar conta de explicar. E então perguntou meu nome. Como eu suspeitava que ele me sondava, eu menti. Disse que me chamava José de Souza Ferrari, o nome de um conhecido que se parecia vagamente comigo. Como já esperava a pergunta e consegui responder com confiança, ele acreditou e deixou que eu perguntasse.
Fui certeiro e fiz pergunta de um milhão de dólares: ‘o que você é?’. Ele tentou me enganar dando uma resposta aparentemente óbvia: ‘Eu sou o Pai’. Não me satisfiz com a resposta e disse ‘Esse nome é como as pessoas daqui te chamam. Eu não perguntei o seu nome ou como te chamam, perguntei o que você é’. Então o seu rosto ficou sério. Eu fiquei com medo, pois a reação foi geral entre os que nos rodeavam. O que me segurava no chão colocou a mão na cintura, e eu tinha certeza que ele tinha alguma arma branca.
O Pai ficou um tempo em silêncio, pensando, provavelmente querendo encontrar uma resposta inquestionável, mas que não dissesse nada. Seu rosto sério foi aos poucos voltando a sorrir, então ele deu a resposta, triunfante – ‘Antigamente eu era denominado como um ben ha Elohim. Posso lhe dizer que ainda sou um.’ O homem fez questão de responder em hebraico que era um ‘filho de Deus’, provavelmente para que a resposta fosse inútil para mim e, mesmo assim, fosse válida. Para me proteger, fingi insatisfação e fui embora. Se o homem queria não ser entendido, eu daria este prazer a ele. Enquanto voltava para casa, menti também para Salatiel, dizendo que nada tinha acontecido. Disse apenas que o Pai era mais um tipo excêntrico guru de ricos.
No dia seguinte eu fui até a casa de Abner, pesquisar em sua biblioteca o que existiria de referências sobre o que poderiam ser os filhos de Deus. A principal era a da própria Torá, mas existiam algumas traduções que diziam pais dos nefilins e que estes poderiam ser gigantes que viviam séculos. Eu só poderia dizer que ele tinha algo de extraordinário por que a lente de cristal denunciou isso. De resto, ele era totalmente ordinário. Hoje, três anos depois, eu estou escrevendo, com a esperança que um dia lhe seja útil, meu filho. Não sei se ele pode te ajudar como sua mãe dissera, mas sei o que vi ao olhar pela lente.
Nunca mais fui atrás do homem que se intitula como Pai. Preferi evitá-lo para me proteger. Se aquele homem soubesse que eu menti para ele duas vezes, quem sabe se o seu orgulho ferido não me levaria à morte, ou pior, a morte da minha família. Se um dia tiver alguma dúvida que os livros não respondem, vá até ele e tente encontrar uma resposta. Porém, indico usar essa ajuda somente se for um caso realmente importante. É melhor se manter invisível tanto quanto for possível.”
Lázaro ficou feliz como o sonho e com a leitura. Sua mãe foi perfeita em sua colocação e, por fim, as peças se encaixaram após quase vinte anos. A partir dali, tinha a informação de que um homem poderia responder qualquer pergunta e, assim, ele poderia saber o que era o fio vermelho. Se desse azar, o Pai poderia ser apenas alguém que ganhava dinheiro de pessoas ingênuas e ir até lá seria perder dinheiro. Lázaro entendeu que precisaria arriscar por não lhe ocorrer nenhuma outra forma de entender o que estava acontecendo.
Após passada a empolgação, Lázaro ficou pensando como Ruth sabia que, um dia, essa informação seria útil se havia intervalos longos de tempo entre os eventos. A mãe deixou o aviso quando ele tinha dez anos, Isaac teve o encontro com o Pai quando ele tinha cerca de dezenove e, naquele momento, aos trinta anos, Lázaro lia o texto. Pensou o que mais existiria naquele livro ata e que, lido no momento certo, seria uma ajuda tão providencial quanto o melhor conselho que um sábio poderia dar.
Como Adriano estava para chegar, Lázaro parou com suas reflexões e foi rever os itens que levaria. A máquina de escrever estava com sua capa de proteção. Na bolsa, roupas limpas. Preferiu tentar sair sem fazer alarde, para não se despedir de ninguém. A maioria dos vizinhos eram apenas conhecidos pelo nome, outros, eram conhecidos apenas pelo número do andar em que moravam. Lázaro desceu devagar com seus pertences e, ao chegar no térreo, olhou para o prédio. As luzes acesas dos apartamentos eram acompanhadas pela disputa de entre o som da novela “Esplendor” de alguns vizinhos com o da série “Chaves” nos outros. Ninguém percebeu que havia um apartamento em total silêncio e Lázaro estava feliz com isso. Quando Adriano estacionou o carro ao lado do amigo, a primeira coisa que fez foi se assustar com o rosto ainda inchado e roxo de Lázaro. Este, tranquilo, prometeu explicar o motivo do rosto desfigurado logo que saíssem dali.
Durante a viagem, Lázaro contou sobre a briga com o vizinho e a visita de Beatriz. Porém, o assunto principal foi o feixe vermelho que Lázaro vira durante a briga e a sensação que ele teve ao tocar no braço de Anahí. Ele tinha certeza de que os dois eventos não eram frutos de sua imaginação. Não havia explicação para esses eventos, aliás, não eram os únicos. Quatro pessoas causaram sensações estranhas em Lázaro naquelas últimas semanas: Anahí, Rebeca, Elisabeth e Ieda, que era a única em quem ele confiava totalmente. Elisabeth era confiável por ser amiga de Sara, mas ele mal a conhecia para afirmar qualquer coisa com convicção. Por fim, Lázaro falou sobre o livro ata e o Pai que, para Adriano, era uma história maravilhosa e um forte sinal de que os mistérios na vida do amigo seriam respondidos.
Ainda no carro, os dois amigos se comprometeram a ir até Sumaré e ver se o tal Pai ainda morava no mesmo galpão e se era possível ter uma audiência com ele. A única coisa que faltava era dinheiro. Seria a primeira vez que o dinheiro herdado por Lázaro seria retirado da conta, mas era consenso entre eles que, se Isaac ainda estivesse vivo, ele não se oporia.
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