quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 27


26 
     Ao chegar em seu bairro, Ieda correu do terminal de ônibus até seu apartamento e esperando o pior. Na entrada, havia uma viatura da polícia militar com as luzes apagadas e os policiais não estavam por perto. Automaticamente a mulher supôs que o marido não prestara atenção em sua ordem e chamara a polícia. Sabendo como Gerson era afeito a cometer erros, pensou que poderia ser ele a pessoa que sairia algemada. Os vizinhos estavam aglomerados em seu andar e nas escadas, tentando ver o que estava acontecendo no apartamento e ouvir o depoimento dos vizinhos, mas as fofocas não cessavam e pouco podia se ouvir do que Gerson dizia.
     Ieda caminhou a passos largos até seu apartamento e entrou com dificuldade, empurrando um e outro vizinho que formava uma barreira. Quando percebiam que era ela, começavam novamente a fofocar entre eles ou tentavam extrair dela alguma informação que Ieda não tinha. Ao entrar em casa, encontrou o marido sentado no sofá com Andreia e Anahí, tentando falar com dificuldade devido ao soco que deixou sua mandíbula doendo intensamente. Àquela altura, já tinha contado aos policiais sobre a acusação da filha e mostrou o braço da garota, que tinham manchas roxas feitas por uma mão. Depois, contara o que fez após ouvir que Lázaro tentou abusar de Andreia, destacando a defesa da honra da filha. Dissera que Lázaro fingiu estar dormindo para evitar apanhar, mas "teve o que merecia". Naquele momento, os policiais já estavam no apartamento de Lázaro que, por ter mais bom senso que Gerson, fechou a porta para evitar olhares curiosos. Ieda fechou a porta do próprio apartamento, se sentou em uma cadeira trazida da cozinha pelos policiais e ouviu a mesma história que eles, coçando o nariz e o rosto para tentar conter a raiva que sentia de Gerson, enquanto ele tentava ser o mais coerente em seu depoimento para convencer a esposa. Qualquer observador teria percebido a derrota do homem nos primeiros minutos de conversa.
     Quando Gerson terminou de falar, Ieda se voltou para a filha que se escondia atrás do pai. Havia uma mistura de pensamentos na mente da mulher, parte por saber que a filha mentia para conseguir alguns benefícios, mas não entendia como Gerson bater em Lázaro poderia beneficiá-la. Seguir em frente naquele momento era advogar contra si mesma, colocando a afirmação da filha em descrédito e podendo gerar um desconforto permanente com Andreia e Gerson, que defenderia a filha se Ieda estivesse errada. A primeira regra era postura firme e voz autoritária.
     – Anahí, espera lá fora. – Ieda esperou Anahí sair e se voltou para Andreia. – Explica essa história direito, menina, e explique tintim por tintim. Se você tentar me enrolar, quem vai presa aqui serei eu, porque eu vou te macetar.
     Andreia perdera a voz, juntamente com a coragem e sede de vingança, sentimentos pulverizados pela presença de Ieda e por que Anahí não estava ali para apoiá-la e dividir a culpa. Mesmo assim, tentou falar, com a voz embargada.
     – O Lázaro...
     – Fala com a boca, Andreia.
     Ieda fez Andreia estremecer com seu tom impositivo e raivoso, apesar de sentir medo de cometer alguma injustiça. Com a ordem de Ieda, Andreia tentou forçar a voz, para ser ouvida.
     – O Lázaro me chamou no apartamento dele para eu ajudá-lo...
     – E...?
     O olhar desconfiado de Ieda penetrava a mentira de Andreia como uma pedra que desce, sem dificuldades, até o fundo de um lago. A filha deixara escapar que estava mentindo quando desviou o olhar no meio da explicação.
     – ...e daí ele me segurou e tentou me beijar. – Andreia completou com o último fôlego que lhe restava, quase não restando ar para dizer tudo.
     Apesar da situação delicada e toda pressão que havia envolvida, Ieda conseguia ser mais racional que qualquer general em uma guerra. Na sua infância, no Ceará, era fundamental pensar com clareza e tomar decisões que poderiam definir se ela e os irmãos teriam ou não o que comer nos dias seguintes. Péssimas escolhas e confiança indiscriminada em pessoas resultaram em uma mulher bruta para a maioria, mas uma pessoa solidária e atenciosa ao grupo seleto que ela conseguia contar usando apenas as duas mãos: desses poucos escolhidos, Lázaro era o único no prédio, e não seria a sua filha mimada que destruiria a imagem dele. 

***

     O tempo entre os socos de Gerson e a chegada da polícia foi suficiente para deixar claro o estrago da agressão: uma grande mancha com três arcos mais escuros estavam evidentes do lado direito do rosto de Lázaro e o olho começava a fechar parcialmente devido ao inchaço. Poucos minutos após Ieda chegar, um dos policiais saiu para o corredor para coletar os testemunhos dos vizinhos. O apartamento de Lázaro estava um pouco desarrumado, mas nada estava quebrado. Lázaro se sentou no sofá para contar sua versão: Acordara com os socos de Gerson e conseguiu neutralizar seus ataques com um soco no queixo do adversário. O vizinho estava descontrolado e só falava sobre Lázaro ter agredido Andreia. Lázaro negou as acusações, mas Gerson não se importava com nada. O outro policial não conseguiu nenhuma informação relevante com os vizinhos, pois a maioria deles só viu a briga no final. Um morador do prédio, um mentiroso contumaz apelidado de Zé Lorota, começou a falar que a briga era por que Lázaro, que tinha confidenciado para ele, havia engravidado Andreia e que Gerson havia descoberto. Quando as pessoas começaram a zombar dele, o homem desceu as escadas e foi para a rua, xingando todo mundo.
     Durante a coleta de informações, o policial perguntou como Gerson havia entrado no apartamento se a porta não estava arrombada. Lázaro parou por um instante e pensou se deveria colocar Beatriz no meio do problema. Primeiro, hesitou, mas se havia risco de ele ser acusado de um crime que não cometeu, precisaria de qualquer ajuda que conseguisse. Ele acabou explicando que Beatriz e ele beberam uma garrafa de vinho e conversaram até de madrugada. Na verdade, a maioria do vinho fora bebido por ele, que não está acostumado a consumir bebidas alcoólicas. Na cozinha, como ele mostrou ao policial, estava a garrafa de vinho vazia. Além disso, havia o bilhete escrito pela amiga antes de sair que poderia servir como prova de que alguém estivera com ele a noite toda. Assim, tentou justificar a porta destrancada com a presença de uma terceira pessoa que não estava ali, mas poderia facilmente ser encontrada. Adiantando o pedido para averiguação, Lázaro fez uma cópia do número do telefone dos pais da amiga e entregou às autoridades policiais.
     Antes do policial levar todos para a delegacia, Ieda bateu na porta. Ela sabia que não tinha muito tempo e queria fazer sua própria investigação, mesmo sabendo que não seria bem aceita pelas autoridades. Precisava de todos juntos – policiais, sua família e Lázaro em sua casa –, onde ela começou a juntar as informações que possuía e falá-las em voz alta, para que todos os envolvidos ouvissem. De manhã, Andreia e Anahí ficaram cochichando algo. Apesar de Ieda não ter ouvido a conversa, sabia que era algo sobre uma possível vingança, pois elas diziam que a pessoa em questão "ia ver" algo. Depois que saiu para trabalhar, encontrou Beatriz na saída do portão e ela lhe contara sobre ter deixado Lázaro dormindo profundamente no apartamento.
     Então, Ieda chegou à denúncia de Andreia, parou de falar e começou a organizar tudo em sua mente. Não fazia sentido algum com tudo que a mulher conhecia sobre Lázaro – um homem reservado e que cuidara de Andreia inúmeras vezes. Foram tantas vezes que Lázaro cuidou da moça que ela perdera a conta, mas o próprio Lázaro disse que não poderia mais cuidar de Andreia quando a filha, no início da adolescência, insistia que ele seria seu marido: o comportamento da garota poderia ser prejudicial para seu desenvolvimento. Nos anos seguintes, Andreia o perturbou muitas vezes e ele não disse nada, nem ao menos se irritou. Houve um período de cessação das perturbações, mas nas três últimas semanas a moça voltou a ficar insuportável. Até aquele momento, parecia para Ieda que todos os problemas apontavam para um responsável, e era Andreia.
     – Então o Lázaro tentou abusar de você?
     – Sim, mãe. Olha aqui.
     Andreia estava à porta que dava para a cozinha e mostrou o braço roxo rapidamente antes que Ieda olhasse com atenção, mas sem sucesso. Ieda o segurou e começou a examiná-lo, reconhecendo que as principais marcas eram das pontas dos dedos de uma mão, cinco dedos pequenos como os dela, mas fortes. A mulher olhou para Lázaro, que segurava os cotovelos e, de onde estava, percebera que a mão dele era muito maior que a mão que fizera as marcas. Ao olhar para as mãos de Gerson, teve certeza que a marca seria compatível. Seu coração palpitou pelo medo do que viria a acontecer dali em diante, mas pensou: "Deus é justiça, mas é perdão também. Seja o que Ele quiser".
     – Gerson, você apertou o braço da Andreia hoje de manhã?
     – Eu? Claro que não.
     – Tu tem certeza ou acha que tem? – Ieda impôs sua voz.
     – Eu... acho que sim... – Gerson disse, em tom de dúvida.
     – Como assim, Gerson? "Acho que sim" é uma resposta péssima, homem! A marca no braço da menina é de uma mão pequena. Olha lá a mão do Lázaro e olhe a sua. Olha a marca. Gerson, olha a marca! – Ieda apontava para o braço da filha e começava a falar mais alto.
     Gerson olhou.
     – Gerson, a mão dele é bem maior que a marca, e a sua, – enfatizou, levantando o braço do marido na altura dos olhos dele. – a sua mão cabe certinho!
     – Mas a Andreia falou...
     – Andreia? – gritou Ieda, cada vez mais irritada. – Quem é o adulto aqui, homem? Quantas vezes ela não mentiu na sua cara?
     Gerson não respondeu. Andreia deu alguns passos para trás.
     – Agora é a sua vez. Vem aqui, Andreia. – Ieda apontava com o indicador para Andreia se aproximar, em um movimento convocatório que a garota tinha visto muitas vezes antes de apanhar.
     – Por quê? – perguntou Andreia, com uma voz fina e fraca.
     Andreia não queria se aproximar. Ieda transformou a filha em uma criança de não mais de dez anos com um grito. Enquanto isso, a plateia conseguia ver somente Ieda. Os policiais assistiam a perícia da pequena mulher e um deles confidenciou em voz baixa ao outro sua admiração pela postura de Ieda, recebendo um sorriso do amigo de concordância.
     – Quem fez essa marca no seu braço?
     – O Lázaro...
     – Você quer apanhar de novo em menos de quatro dias?
     – Não! – Andreia sentiu tanto medo que sua voz ficou mais aguda, quase um assovio. Os espectadores sabiam que a moça estava entre a cruz a espada.
     – Então responda quem fez essa marca.

     – Foi o pai... – Andreia respondeu, quase inaudível.
     – Fala com a boca, menina!
     Ieda queria que a resposta fosse ouvida por Lázaro, os policiais e Gerson, então gritou tão alto que até as pessoas do lado de fora puderam ouvi-la.
     – O pai. – disse Andreia, envergonhada.
     Gerson percebeu seu engano e se sentiu traído pela filha, reagindo virulentamente. Apesar de sua raiva e vergonha quase o deixá-lo incapaz de controlar seus instintos, Ieda precisou de apenas uma mão para colocá-lo de volta sentado no sofá sem ao menos olhar em sua direção.
     – Andreia, por que tu disse que foi o Lázaro?
     – Não sei...
     – Então tu fez teu pai brigar com Lázaro, e até envolveu a polícia e o prédio inteiro, e nem sabe por quê? Tu viu o queixo do seu pai? Viu bem a cara do Lázaro, sua peste?!
     Antes que Ieda pudesse fazer alguma coisa, Andreia correu e trancou a porta do quarto. Ieda sabia que a filha faria algo do tipo e se voltou ao marido.
     – Ela, eu pego depois. Agora, é com você, Gerson. Explica aí o que tu vai fazer.
     Gerson não sabia o que dizer. Contudo, os policiais sabiam. Um deles se voltou para Lázaro, com intuito de encerrar o caso.
     – Então o que temos aqui, senhor Lázaro, são os crimes de invasão de domicílio e de lesão corporal. O senhor vai prestar queixa?
     Lázaro olhou para Gerson e para Ieda e negou com a cabeça. "Está tudo certo", disse. Estava claro para todos que era uma atitude em respeito a vizinha que, mesmo colocando a família em risco, agiu pela verdade.
     – Bem, ainda existe a falsa acusação de crime que prejudicou o nosso trabalho...
     Ieda não disse nada. Ficou olhando para os homens por alguns instantes, enquanto eles conversavam. O medo só aumentava, mas sabia que crime era crime. Sua única esperança era uma intervenção divina que impedisse que algo ruim acontecesse.
     – Vamos deixar isso como um aviso, dona Ieda. Se sua filha cometer outro crime, por menor que seja, a levaremos para a delegacia. Ela já é maior de idade, não é?
     – Sim, fez dezoito faz algum tempo.
     – Então é isso. Terminamos por aqui, mas fica o aviso.
     Os policiais cumprimentaram Ieda e Gerson e saíram, logo após Lázaro, que voltou para o apartamento. Quando abriram a porta, havia ainda um grupo de cerca de dez pessoas esperando a resolução. "Acabou o show, vão para casa", disse um dos policiais, porém, somente quando a viatura saiu do campo de visão de todos, as pessoas começaram a voltar para seus apartamentos. Em seu apartamento, Ieda se deixou cair sobre o sofá após a porta se fechar, quando sentiu todo o peso da armadura de autoridade que ela vestiu por todo o tempo em que precisou ser séria, centrada e racional. A casa ficou em silêncio: Gerson foi tomar banho e Andreia ainda estava trancada no quarto. Aproveitando o momento, a mulher foi para a cozinha tentar retomar seus afazeres. O serviço do dia estava perdido, mas ela ainda tinha confiança que o pior já tinha passado.
     Enquanto cozinhava o almoço, sentiu algo incomodando novamente. Não era um mal-estar, mas era algo triste. Pensou se seria na casa de Zuleica, se a sua ausência poderia ter causado algum problema, então, preferiu averiguar ligando para a senhora. Antes de começar a descer as escadas, Lázaro a chamou.
     – Eu fiquei feliz que nada sério aconteceu, dona Ieda.
     – Ah, sim. Agora eu só preciso aceitar a vizinhança inteira cuidando da minha vida.
     – Se me perguntarem, vou contar apenas como a senhora fez em dez minutos o que a polícia ia demorar horas. Coisa de detetive de filme.
     – Fui bem mesmo? – Ieda sorriu.
     – Olha... – Lázaro assentiu – Acho que Sherlock Holmes ficaria admirado.
     Lázaro pensou na referência por saber que a vizinha assistia a filmes de mistério e investigação.
     – Se tu diz, eu acredito. – Ieda fez uma breve pausa. – Está precisando de algo?
     – Na verdade, sim. Eu estive pensando na minha prima que está morando na casa do meu pai e não está bem. Como só tem uma amiga para ajudar, eu pensei que seria bom ter alguém da família com ela, alguém que pudesse ajudá-la em coisas que exijam força. Acho que em, no máximo, uns dez dias eu possa voltar.
     – Se for para ajudar, é bom. Sempre é bom arrumar coisa para fazer.
     – Então, daí eu pensei que seria bom fazer o que não faço há um tempo. Já faz três semanas que eu não faço quase nada aqui, mal lavo as roupas... a senhora faria esse serviço para mim? Faxina em tudo, para deixar arrumado?
     – Hoje?
     – Sim. Não daria?
     – Até que dá sim. Não são nem onze horas.
     – Então está feito. Eu vou separar algumas coisas que eu vou levar e deixar no escritório e daí a senhora pode fazer o serviço.
     Lázaro estendeu a mão para a Ieda e recebeu um aperto forte e claramente amigável. Logo depois, ele seguiu para o quarto para arrumar alguns pertences que ia usar durante o tempo que ficasse com Sara. Ieda esqueceu que ia ligar para Zuleica e voltou para casa. Gerson já tinha saído do banheiro e Andreia ainda estava trancada.
     – Liga o fogo de novo e termina de fazer o almoço, Gerson.
     – Mas eu estou com dor.
     – Toma remédio para dor e agradece a deus que é só isso.
     Ieda bateu na porta de Andreia, que não queria abrir. Ameaçando bater na garota se ela não abrisse, a garota cedeu. Questionada sobre Anahí, ela não sabia onde estava a amiga.
     – Eu sei que essa presepada toda é coisa de vocês duas. Aquela menina nunca abre a boca, mas sei que tu não pensou nessa idiotice toda sozinha. E olha, se eu ver aquela Anahí aqui de novo, apanha tu, apanha ela, eu vou presa e vou ficar feliz ainda.
     – Credo, mãe!
     – Onde ela mora?
     – Na rua de baixo.
     – Então, que ela fique na rua de baixo. Não vou ver mais essa menina aqui, entendeu?
     – Entendi.
     – Agora vai arrumar alguma coisa para fazer. Ajuda seu pai com o almoço.
     Antes que Andreia perguntasse por que a mãe não faria, Ieda saiu do quarto. A mulher sentia um novo vigor e usaria para trabalhar. 

*** 

     Lázaro tentou arrumar as roupas como imaginava que poderia ser uma maneira organizada quando Ieda batesse na porta. Ele autorizou a entrada e a mulher entrou, munida de vassoura, rodo, balde e alguns panos-de-chão.
     – Com licença, seu Lázaro. Por onde é para começar?
     – Bem, o meu apartamento deve ser igual ao da senhora em tamanho. Pode começar onde for melhor. – Lázaro fez uma pequena pausa. – Já que a senhora está aqui, eu vou descer até o orelhão para ligar para o meu amigo vir me buscar. Tudo bem?
     Ieda concordou e Lázaro desceu para usar o telefone público. Enquanto caminhava, sentiu-se vigiado. Olhando para os lados, não viu nada de estranho. Como havia algumas pessoas caminhando pela calçada, mas em atitudes que não eram nada suspeitas, ele pensou que era algo de sua cabeça e preferiu ignorar. Ligou para o telefone do antiquário e considerou que seria melhor que a conversa fosse rápida e que qualquer informação extra seria dada quando Adriano aparecesse. Ao desligar o telefone público, Lázaro sentiu novamente alguém o observando. Ele se virou e viu Anahí sentada no ponto de ônibus, olhando para ele enquanto sorria, aparentemente despreocupada com tudo que acontecera pouco tempo antes e que ele sabia que ela estava envolvida. Porém, não era isso que ele tinha em mente, mas sim a linha vermelha que ele vira ligando a cabeça da moça com a de Andreia, e Lázaro tinha certeza que não era fruto de sua imaginação. Por isso, arriscou se aproximar de Anahí e tentar extrair dela alguma informação – tentaria tocar em sua mão para ver se, assim como em Ieda, Rebeca e Elisabeth, sentia algo diferente que pudesse ajudá-lo a entender o que ela escondia.
     Conforme se aproximou do ponto de ônibus, ele pode ver claramente que ela perdia gradativamente seu sorriso. "Um aperto de mão, só isso" ele pensou, mas precisava demonstrar que não queria bater nela e, bem antes de se aproximar de Anahí, ele pensou em agir de forma dissimulada, fingindo que não relacionava a presença da garota com a luta contra Gerson.
     – Você sabe por que a Andreia fez aquilo?
     Lázaro manteve o passo tranquilo, enquanto Anahí não olhava mais para ele e não o respondeu.
     – Anahí.
     A moça continuou o ignorando e Lázaro se aproximou e se sentou no banco ao lado dela.
     – Anahí, eu te fiz uma pergunta.
     Anahí tentou levantar-se bruscamente e correr, mas Lázaro segurou-a levemente pelo braço. Anahí o encarou, olhando com desprezo e fez um silvo alto e assustador. Apesar do susto, Lázaro conseguiu o que queria. No instante do toque, teve a visão mais nítida de todas: cordas presas a uma cruz. A visão foi tão intensa que levou Lázaro a abrir a mão e possibilitou Anahí a se desvencilhar e fugir pela rua papa Santo Hormidas. Lázaro não a seguiu, entendendo que tudo que queria era saber se a garota tinha algo de estranho além da luz. Porém, mesmo se quisesse persegui-la, não conseguiria, devido a rapidez e agilidade da moça – nem Sara nos melhores dias de sua adolescência conseguiria correr tanto quanto a garota.
     De volta ao apartamento, Lázaro ouviu o som vigoroso da vassoura de Ieda esfregando o chão. Preferiu não incomodar a vizinha em seu trabalho e ficou sentado no sofá, mas Ieda o ouviu chegar.
     – O senhor disse que não fazia uma boa faxina aqui há muito tempo, mas nem parece, seu Lázaro.
     – Obrigado. Tento deixar limpo. Tem gente que não cuida de apartamento alugado, mas eu cuido. Não gosto de interruptores que só funcionam batendo com força ou torneira amarradas para não pingar. Quebrou, eu conserto ou troco, mas sempre uso com cuidado.
      – O senhor não é o dono, não?
     – Não. Eu aluguei pela imobiliária daqui do bairro. Um colega da faculdade que indicou.
     – E quem é o dono?
     – Não sei o nome dele porque a imobiliária era a responsável legal. Foi o único que não pediu fiador na época.
     – Mas seu pai não tinha casa própria para ser fiador? Poderia até te ajudar a comprar uma, não?
     Lázaro ficou alguns segundos em silêncio e deu de ombros.
     – História longa, dona Ieda.
     Lázaro sabia naquele momento que era uma pessoa de sorte e poderia ter uma vida bem mais tranquila se não tivesse sido orgulhoso. Porém, ficou por muito tempo preso aos sentimentos ruins que o afastaram de seu pai, apesar de não senti-los há pelo menos cinco anos. Primeiro foi o ódio, depois o rancor e, por fim, o orgulho que o impediu de assumir seu erro. Além desses, teve a vergonha e, após a morte do pai, o arrependimento. Lázaro tivera muitos sentimentos pelo pai nos últimos dezesseis anos e nenhum deles o deixava feliz, principalmente por ter quase certeza naquele momento de que o pai nunca sentira qualquer um daqueles sentimentos ruins por ele sequer um dia. Sentindo-se mal pelas lembranças, Lázaro mudou de assunto.
     – A senhora acredita que eu encontrei a Anahí aí na rua quando eu fui telefonar?!
     Ieda deixou evidente sua raiva batendo as cerdas da vassoura no chão, como se espantasse um rato de esgoto.
     – Ah, seu eu pegar essa menina...
     – A senhora já conversou com ela alguma vez?
     – Já... – Ieda parou por um momento. – Acho que já.
     – Eu tentei falar com ela, mas ela correu.
     – Quem não deve, não teme. Se correu, é porque tem culpa no que aconteceu.
     – Tenho certeza que ela tem culpa, mas acho que é outra coisa.
     – Como o quê?
     Lázaro explicou sua suposição. Ele lecionou para a garota e não se lembrava de ter ouvido a voz dela uma única vez. Em sua memória, que passou a se orgulhar mais por ser boa, Anahí nunca sequer abriu a boca.
     – Mas, seu Lázaro, como que não? A Andreia está sempre falando com essa menina, fica horas conversando.
     – Eu ouço alguém falando. É muito estranho, eu concordo. Porém, eu acredito que essa menina seja muito mais esquisita do que ela já parece. Indico que a senhora não a deixe entrar na sua casa.
     Ieda se benzeu fazendo um sinal da cruz. Apesar de ser muito corajosa, o tom sinistro de Lázaro dava a entender que ela conviveu com algum tipo de lobo em pele de cordeiro por meses e só não foi atacada por muita sorte. Lázaro deixou Ieda cuidando da faxina e ainda lhe ofereceu o benefício de usar o rádio. A emissora escolhida era conhecida por tocar música sertaneja e Lázaro não fez cara feia por isso. Ao contrário, teve algumas boas lembranças relacionadas às canções que seu pai ouvia quando ele era criança. Apesar disso, preferiu se sentar na escadaria do prédio para fumar enquanto o serviço no apartamento não acabava. 
     Ao meio dia, Andreia apareceu para chamar Ieda e Lázaro preferiu fingir que não estava vendo a garota. A resposta de Ieda foi que só pararia quando terminasse e a filha retornou tão rápido quanto pode. Antes que a garota voltasse para dentro do próprio apartamento, Lázaro olhou para ela e ficou pensando que naquele momento, sozinha, Andreia se parecia com aquela que ele conviveu oito meses antes. Pensou que estar afastada de Anahí tinha alguma relação com essa mudança de comportamento, só não sabia se era por que Andreia ficava mais retraída quando não tinha plateia – como quando seus alunos irritantes ficavam mais insuportáveis na presença dos amigos e se tornavam apáticos quando tinham o azar de irem sozinhos para a escola. Poderia não ser algo tão simples também, algo relacionado com a linha vermelha, se esta não fosse fruto de sua imaginação.
28

Nenhum comentário:

Postar um comentário