25
Enquanto Ieda se arrumava para sair, Andreia e Anahí cochichavam na sala, com o televisor desligado. Andreia tecia discursos de ódio contra Beatriz e Lázaro, como se ambos fossem causadores de problemas para ela. Enquanto discutiam, ambas ouviram um som vindo de fora do apartamento e Andreia parou de falar, se levantando rapidamente do sofá e olhando pela janela. Foi possível ver, mesmo que de relance, Beatriz descendo as escadas. A garota voltou correndo ao sofá, com os olhos arregalados.
– Você não acredita o que eu acabei de ver!
Anahí olhou para Andreia com curiosidade. Andreia estava furiosa.
– Aquela mulher idiota acabou de sair do apartamento dele.
Anahí crispou os olhos, compartilhando da raiva de Andreia. Andreia continuou.
– E não é? Ele é idiota. Eu sempre estou aqui, do lado do apartamento dele e ele chama aquela velha e feia para dormir no apartamento dele.
Anahí meneou a cabeça, concordando com Andreia.
– Não acredito nisso... primeiro se engraçou com a branquela gorda, depois com a negona. E eu aqui... – Andreia olhou para Anahí. – Só pode isso ser mesmo. Mas ele vai ver...
– Andreia, eu volto lá pelo meio dia ou treze horas. Se o seu pai não acordar daqui uma hora, chame ele. Deixe o almoço pronto às onze e arrume algo útil para fazer. – disse Ieda, caminhando para a porta.
Andreia respondeu com um grunhido enquanto sua mãe saía. As moças esperaram por alguns instantes até Ieda trancar completamente a porta para, então, Andreia voltou a falar.
– ...Se ele gosta de me esnobar, eu vou esnobá-lo também. Vou tratá-lo com mais frieza que ele me trata.
Anahí ficou pensativa por um instante. Logo depois, passou o braço por cima do ombro de Andreia e soprou levemente em seu ouvido. Andreia continuou falando.
– Sim! Algo grande, mas o quê? – Andreia fez uma pausa. – Não sei se ele trancou a porta... será? Tá bom, vamos ver.
A possibilidade de invadir o apartamento excitava Andreia, que queria entrar no apartamento há anos, mas nunca fora para além da sala. Enquanto Anahí foi verificar se a porta de Lázaro estava trancada, Andreia ficou olhando da porta de seu apartamento. Ao girar a maçaneta da porta do vizinho, Anahí verificou que estava aberta e as garotas se entreolharam com sorrisos maliciosos, enquanto Anahí a fechava novamente. As duas voltaram ao sofá e começaram a organizar a vingança: elas ficariam aguardando o pai de Andreia acordar para chamar a atenção chorando. Ieda não dava muita atenção aos choros de Andreia, mas o pai a mimou a vida toda e sempre atendia prontamente qualquer pedido ou birra. Quando ele perguntasse, ela diria que o vizinho abusou dela e ela tinha certeza que o temperamento impetuoso de Gerson o faria ficar incontrolavelmente violento. No momento certo, o caminho estaria livre para a maior vingança que Andreia poderia desejar.
Às oito horas, o despertador de Gerson tocou. Andreia rasgou uma camiseta velha e a vestiu para dar mais dramaticidade a cena, enquanto Anahí preparava todas as portas para deixarem um caminho totalmente livre até o quarto de Lázaro. Quando Gerson saiu do quarto para beber água, viu Andreia simulando choro, sentada na cadeira da cozinha. Quem o conhecia teria se surpreendido com o tom suave em que o metalúrgico bruto usava para conversar com a filha.
– O que foi Andreia? O que aconteceu?
– Ai, pai...! – Andreia tentava ao máximo se fazer convincente com um choro sem lágrimas. – É o Lázaro...
Andreia tentou fazer uma pausa dramática entre uma frase e outra, mas Gerson relacionou o nome do vizinho com a roupa rasgada e ficou irritado, imaginando que a filha teria causado algum acidente. A raiva veio antes da hora e ele segurou a filha pelos braços, sacudindo para que ela falasse.
– Pai, o Lázaro tentou abusar de mim! – Andreia olhou para baixo, na direção do rasgo na camiseta. – Olha o que ele fez na minha roupa...
Gerson ficou mais furioso do que Andreia já tinha presenciado. O homem sentiu-se traído por Lázaro e vulnerável em seu próprio apartamento. Sua visão começou a se fechar como se ele estivesse à caça de uma presa e sua mente oferecia apenas uma ação àqueles sentimentos: agredir o vizinho o quanto pudesse para defender sua honra e a da filha. Ele soltou Andreia e caminhou, implacável, até o apartamento de Lázaro, fazendo o caminho em poucos e longos passos, livre de qualquer porta trancada. Ao entrar no quarto, encontrou Lázaro dormindo com o abdômen virado para baixo e o rosto virado para o lado: estava totalmente desprotegido. Rugindo de raiva, Gerson avançou sobre Lázaro e começou a socá-lo sem um alvo específico, acertando-o no rosto, têmpora e mandíbula. Após o primeiro soco, Lázaro acordou, mas somente após receber o terceiro soco que ele entendeu que estava sendo atacado e, rolando para o meio da cama, viu que era o vizinho.
Devido a distância entre ambos e a baixa estatura de Gerson, o vizinho desferiu um soco desajeitado, usando uma das mãos para se apoiar sobre a cama. Lázaro, em resposta, apenas empurrou Gerson com a perna direita e o jogou contra o batente da porta. Foi possível aproveitar a desorientação do invasor para se levantar e assumir uma posição melhor de defesa no combate, tentando a todo custo impedir que o ataque continuasse.
– Gerson? Você está doido?
Gerson não respondeu – ignorou a possibilidade de uma conversa. Alguns segundos depois ele começou a se levantar e seu rosto voltava a expressar toda sua fúria. Ainda trôpego, Gerson levantou os braços e avançou contra Lázaro, que reagiu desferindo um único golpe certeiro no queixo de Gerson, que foi ao chão. Andreia e Anahí olhavam pela porta da sala do apartamento e viram quando Gerson fora nocauteado, e Andreia se desesperou ao ver o pai caído, supondo o pior. “Meu pai morreu”, Andreia pensou em voz alta, e o desespero tomou conta de si. Sentido que precisava fazer algo, Andreia, juntamente com Anahí, correram para amparar Gerson e tentar levantá-lo.
Gerson despertou desnorteado e assustado e tentou se levantar rapidamente, puxando ambas as moças ao chão. Lázaro, em sua posição de observador, sentia o corpo responder que estava totalmente pronto para uma luta, como se a adrenalina fosse algum tipo de estimulante mais forte que o café mais escuro. Ao mesmo tempo, sentia como se tivesse despertado uma segunda consciência no corpo, uma consciência que parecia se lembrar com detalhes todo treinamento adquirido na adolescência e que, desde então, não tinha sido necessário. A cena do quarto era lenta e podia ser acompanhada como a um filme desacelerado: Gerson se levantava devagar, enquanto as duas garotas pareciam paradas, uma ajoelhada em frente da outra. Enquanto vislumbrava toda cena em frente a porta, Lázaro teve uma estranha visão: havia uma linha de milhares de pequenos pontos vermelhos brilhantes se deslocando devagar da cabeça de Anahí para a de Andreia, como um fino facho de luz vermelha visível após atravessar uma fumaça densa. A imagem estranha era curiosa, mas o momento exigia total atenção ao risco de Gerson atacá-lo novamente. Lázaro precisava tentar se comunicar novamente e tentar terminar o conflito sem mais danos.
– Gerson, o que você está fazendo?
– Você agrediu minha filha! – Gerson falou com dificuldade devido ao soco no queixo.
– Eu não agredi ninguém.
– Você rasgou a roupa dela, seu tarado! – Você está louco?! Eu estava dormindo até você me agredir.
– Mentiroso! Confessa que você abusou dela!
Os gritos que saiam pela porta aberta chamaram a atenção dos moradores que ainda estavam nos arredores. Alguns desceram de seus apartamentos e ficaram olhando pela porta do apartamento a discussão entre Lázaro e Gerson. Gerson defendia e sustentava a acusação da filha, enquanto Lázaro negava com veemência. Enquanto o pai envergonhado ameaçava chamar a polícia, o homem agredido incitava que a polícia fosse chamada. Contudo, Andreia chegou perto do pai e pediu para que não chegasse a tanto, que deixasse para lá, mas Gerson estava furioso por se sentir traído e humilhado. O tom desafiador de Lázaro foi a última fagulha para que Gerson saísse porta a fora arrastando Anahí e Andreia que tentavam pará-lo. Andreia tentava dissuadir o pai a deixar para lá, que os socos já seriam um castigo bem dado, mas Gerson tinha uma única convicção e nada o faria mudar de ideia.
Quando o trio saiu, Lázaro trancou a porta e foi procurar por Beatriz. Ele acreditava que ela tivesse ouvido a tudo e se escondido em algum lugar do apartamento, e teria feito bem. A mulher não estava no escritório, nem no banheiro e nem na área de serviço. Ao passar em frente ao espelho do banheiro, viu que o rosto começava a inchar e havia um pouco de sangue que saíra de um corte causado pelo soco recebido. Não havia nenhum sinal de Beatriz além de um bilhete simples que Lázaro viu apenas quando voltava para a sala.
“Lás,
Tomei a liberdade de ligar para seu amigo Adriano e avisei que você não poderá ir hoje. Espero que em breve possamos beber outro vinho juntos, mas espero que você não desmaie com apenas dois copos como ontem à noite, pois fora difícil levá-lo até a cama. Muitos beijos. Amendukussole.
Lázaro pensou na coincidência de Beatriz avisar Adriano e que seu rosto não estaria agradável para clientes do antiquário e nem estaria nos próximos dias e, sendo avisado, o amigo não ficaria preocupado por Lázaro não ter aparecido. Do resto da mensagem, ficou curioso no que significava a palavra “amendukussole”. Não conhecia a palavra e supôs que fosse um anagrama, mas não encontrou nenhuma palavra que poderia ser formada. Tentou imaginar e rememorar tudo que havia estudado e tudo que lembrava das conversas entre eles, e apenas uma lembrança surgia, uma lembrança de quando eles se encontraram a última vez antes de Beatriz partir: um beijo e a palavra, que Lázaro não perguntou na época o que significava. Deveria ser um jeito de dizer “adeus” em umbundu, um dos idiomas falados em seu país natal. Lázaro ficou sentado na cadeira pensando sobre a mensagem, depois sobre a briga. A sensação de estar totalmente alerta foi diminuindo e, ao mesmo tempo, a dor no rosto e na mão direita começaram a se intensificar. O bilhete foi guardado no livro ata e Lázaro se levantou para procurar gelo para colocar sobre o rosto.
Ieda se preparava para descer do ônibus no terminal do distrito de Barão Geraldo quando sentiu um aperto no peito. Apesar de ser um evento raro em sua vida, sabia que era algo ruim, como quando sentira no mesmo instante que o marido sofreu um acidente na fábrica ou quando a mãe falecera. Era um sinal que ela não conseguiria ignorar mas, naquele instante, estava indo trabalhar. Preferiu arriscar fazer uma ligação para o telefone público que ficava na calçada em frente ao seu prédio, mesmo sabendo que seria difícil alguém atender. Após cinco minutos ligando sem sucesso, alguém atendeu.
– Alô. Aqui é a Ieda, eu moro no prédio aí em frente. Quem fala?
– Ieda do seu Gerson? Aqui é o Peterson, dona Ieda. A senhora já ficou sabendo?
No mesmo instante, o sentimento ruim ficou mais forte em Ieda. Pensou um número enorme de coisas ruins que poderiam ter acontecido e rezava em seu íntimo que não fosse nada mais grave do que o último evento.
– O que aconteceu, Peterson?
– Ué, o seu Gerson invadiu a casa do Professor. Teve gritaria e tudo lá e... espera um pouco.
Ieda ficou esperando ao telefone enquanto Peterson ficava em silêncio do outro lado. Enquanto isso, o número de créditos em seu cartão telefônico ia diminuindo. Não sabia se desligava ou se continuava esperando, sem saber se Peterson se lembraria que ela o aguardava. Passaram quase cinco minutos quando Peterson reapareceu. Os cinco minutos foram suficientes para deixar Ieda com mais raiva de Gerson. Era uma certeza em seu coração de que Gerson havia feito algo bem estúpido e ela perderia um dia de trabalho por isso.
– Dona Ieda. Acho que o seu Gerson está saindo.
– Vai falar com ele e diz que estou voltando para casa agora. Se ele fizer mais alguma coisa, eu o mato hoje.
Ieda não conseguiu falar com calma e gritou ao telefone, assustando Peterson, que concordou. Ieda mal terminou de falar e desligou o telefone e ligou rapidamente para a casa da mulher onde faria a faxina.
– Bom dia, Dona Zuleica. Eu estou ligando para avisar a senhora que eu infelizmente não poderei ir hoje. Eu até estou aqui em Barão, mas tenho que voltar urgente para casa.
– Bom dia, Ieda. É algo sério?
– Espero que não muito, mas acabei de ligar em casa e fiquei sabendo que aconteceu algo com meu marido. Eu vou voltar lá e depois conversamos.
Zuleica era uma mulher idosa e não era a primeira vez que contratava os serviços de Ieda, mas optava em chamá-la quando a casa precisava de uma faxina especial, algo em que a faxineira era muito boa. Percebendo no tom de voz a preocupação de Ida, Zuleica até ofereceu os préstimos de seu filho para que levasse de volta para seu apartamento, mas Ieda negou. Era claro que desejou aceitar, mas não queria se sentir aproveitando da boa vontade alheia e tomou um ônibus de volta.
Enquanto Ieda se arrumava para sair, Andreia e Anahí cochichavam na sala, com o televisor desligado. Andreia tecia discursos de ódio contra Beatriz e Lázaro, como se ambos fossem causadores de problemas para ela. Enquanto discutiam, ambas ouviram um som vindo de fora do apartamento e Andreia parou de falar, se levantando rapidamente do sofá e olhando pela janela. Foi possível ver, mesmo que de relance, Beatriz descendo as escadas. A garota voltou correndo ao sofá, com os olhos arregalados.
– Você não acredita o que eu acabei de ver!
Anahí olhou para Andreia com curiosidade. Andreia estava furiosa.
– Aquela mulher idiota acabou de sair do apartamento dele.
Anahí crispou os olhos, compartilhando da raiva de Andreia. Andreia continuou.
– E não é? Ele é idiota. Eu sempre estou aqui, do lado do apartamento dele e ele chama aquela velha e feia para dormir no apartamento dele.
Anahí meneou a cabeça, concordando com Andreia.
– Não acredito nisso... primeiro se engraçou com a branquela gorda, depois com a negona. E eu aqui... – Andreia olhou para Anahí. – Só pode isso ser mesmo. Mas ele vai ver...
– Andreia, eu volto lá pelo meio dia ou treze horas. Se o seu pai não acordar daqui uma hora, chame ele. Deixe o almoço pronto às onze e arrume algo útil para fazer. – disse Ieda, caminhando para a porta.
Andreia respondeu com um grunhido enquanto sua mãe saía. As moças esperaram por alguns instantes até Ieda trancar completamente a porta para, então, Andreia voltou a falar.
– ...Se ele gosta de me esnobar, eu vou esnobá-lo também. Vou tratá-lo com mais frieza que ele me trata.
Anahí ficou pensativa por um instante. Logo depois, passou o braço por cima do ombro de Andreia e soprou levemente em seu ouvido. Andreia continuou falando.
– Sim! Algo grande, mas o quê? – Andreia fez uma pausa. – Não sei se ele trancou a porta... será? Tá bom, vamos ver.
A possibilidade de invadir o apartamento excitava Andreia, que queria entrar no apartamento há anos, mas nunca fora para além da sala. Enquanto Anahí foi verificar se a porta de Lázaro estava trancada, Andreia ficou olhando da porta de seu apartamento. Ao girar a maçaneta da porta do vizinho, Anahí verificou que estava aberta e as garotas se entreolharam com sorrisos maliciosos, enquanto Anahí a fechava novamente. As duas voltaram ao sofá e começaram a organizar a vingança: elas ficariam aguardando o pai de Andreia acordar para chamar a atenção chorando. Ieda não dava muita atenção aos choros de Andreia, mas o pai a mimou a vida toda e sempre atendia prontamente qualquer pedido ou birra. Quando ele perguntasse, ela diria que o vizinho abusou dela e ela tinha certeza que o temperamento impetuoso de Gerson o faria ficar incontrolavelmente violento. No momento certo, o caminho estaria livre para a maior vingança que Andreia poderia desejar.
Às oito horas, o despertador de Gerson tocou. Andreia rasgou uma camiseta velha e a vestiu para dar mais dramaticidade a cena, enquanto Anahí preparava todas as portas para deixarem um caminho totalmente livre até o quarto de Lázaro. Quando Gerson saiu do quarto para beber água, viu Andreia simulando choro, sentada na cadeira da cozinha. Quem o conhecia teria se surpreendido com o tom suave em que o metalúrgico bruto usava para conversar com a filha.
– O que foi Andreia? O que aconteceu?
– Ai, pai...! – Andreia tentava ao máximo se fazer convincente com um choro sem lágrimas. – É o Lázaro...
Andreia tentou fazer uma pausa dramática entre uma frase e outra, mas Gerson relacionou o nome do vizinho com a roupa rasgada e ficou irritado, imaginando que a filha teria causado algum acidente. A raiva veio antes da hora e ele segurou a filha pelos braços, sacudindo para que ela falasse.
– Pai, o Lázaro tentou abusar de mim! – Andreia olhou para baixo, na direção do rasgo na camiseta. – Olha o que ele fez na minha roupa...
Gerson ficou mais furioso do que Andreia já tinha presenciado. O homem sentiu-se traído por Lázaro e vulnerável em seu próprio apartamento. Sua visão começou a se fechar como se ele estivesse à caça de uma presa e sua mente oferecia apenas uma ação àqueles sentimentos: agredir o vizinho o quanto pudesse para defender sua honra e a da filha. Ele soltou Andreia e caminhou, implacável, até o apartamento de Lázaro, fazendo o caminho em poucos e longos passos, livre de qualquer porta trancada. Ao entrar no quarto, encontrou Lázaro dormindo com o abdômen virado para baixo e o rosto virado para o lado: estava totalmente desprotegido. Rugindo de raiva, Gerson avançou sobre Lázaro e começou a socá-lo sem um alvo específico, acertando-o no rosto, têmpora e mandíbula. Após o primeiro soco, Lázaro acordou, mas somente após receber o terceiro soco que ele entendeu que estava sendo atacado e, rolando para o meio da cama, viu que era o vizinho.
Devido a distância entre ambos e a baixa estatura de Gerson, o vizinho desferiu um soco desajeitado, usando uma das mãos para se apoiar sobre a cama. Lázaro, em resposta, apenas empurrou Gerson com a perna direita e o jogou contra o batente da porta. Foi possível aproveitar a desorientação do invasor para se levantar e assumir uma posição melhor de defesa no combate, tentando a todo custo impedir que o ataque continuasse.
– Gerson? Você está doido?
Gerson não respondeu – ignorou a possibilidade de uma conversa. Alguns segundos depois ele começou a se levantar e seu rosto voltava a expressar toda sua fúria. Ainda trôpego, Gerson levantou os braços e avançou contra Lázaro, que reagiu desferindo um único golpe certeiro no queixo de Gerson, que foi ao chão. Andreia e Anahí olhavam pela porta da sala do apartamento e viram quando Gerson fora nocauteado, e Andreia se desesperou ao ver o pai caído, supondo o pior. “Meu pai morreu”, Andreia pensou em voz alta, e o desespero tomou conta de si. Sentido que precisava fazer algo, Andreia, juntamente com Anahí, correram para amparar Gerson e tentar levantá-lo.
Gerson despertou desnorteado e assustado e tentou se levantar rapidamente, puxando ambas as moças ao chão. Lázaro, em sua posição de observador, sentia o corpo responder que estava totalmente pronto para uma luta, como se a adrenalina fosse algum tipo de estimulante mais forte que o café mais escuro. Ao mesmo tempo, sentia como se tivesse despertado uma segunda consciência no corpo, uma consciência que parecia se lembrar com detalhes todo treinamento adquirido na adolescência e que, desde então, não tinha sido necessário. A cena do quarto era lenta e podia ser acompanhada como a um filme desacelerado: Gerson se levantava devagar, enquanto as duas garotas pareciam paradas, uma ajoelhada em frente da outra. Enquanto vislumbrava toda cena em frente a porta, Lázaro teve uma estranha visão: havia uma linha de milhares de pequenos pontos vermelhos brilhantes se deslocando devagar da cabeça de Anahí para a de Andreia, como um fino facho de luz vermelha visível após atravessar uma fumaça densa. A imagem estranha era curiosa, mas o momento exigia total atenção ao risco de Gerson atacá-lo novamente. Lázaro precisava tentar se comunicar novamente e tentar terminar o conflito sem mais danos.
– Gerson, o que você está fazendo?
– Você agrediu minha filha! – Gerson falou com dificuldade devido ao soco no queixo.
– Eu não agredi ninguém.
– Você rasgou a roupa dela, seu tarado! – Você está louco?! Eu estava dormindo até você me agredir.
– Mentiroso! Confessa que você abusou dela!
Os gritos que saiam pela porta aberta chamaram a atenção dos moradores que ainda estavam nos arredores. Alguns desceram de seus apartamentos e ficaram olhando pela porta do apartamento a discussão entre Lázaro e Gerson. Gerson defendia e sustentava a acusação da filha, enquanto Lázaro negava com veemência. Enquanto o pai envergonhado ameaçava chamar a polícia, o homem agredido incitava que a polícia fosse chamada. Contudo, Andreia chegou perto do pai e pediu para que não chegasse a tanto, que deixasse para lá, mas Gerson estava furioso por se sentir traído e humilhado. O tom desafiador de Lázaro foi a última fagulha para que Gerson saísse porta a fora arrastando Anahí e Andreia que tentavam pará-lo. Andreia tentava dissuadir o pai a deixar para lá, que os socos já seriam um castigo bem dado, mas Gerson tinha uma única convicção e nada o faria mudar de ideia.
Quando o trio saiu, Lázaro trancou a porta e foi procurar por Beatriz. Ele acreditava que ela tivesse ouvido a tudo e se escondido em algum lugar do apartamento, e teria feito bem. A mulher não estava no escritório, nem no banheiro e nem na área de serviço. Ao passar em frente ao espelho do banheiro, viu que o rosto começava a inchar e havia um pouco de sangue que saíra de um corte causado pelo soco recebido. Não havia nenhum sinal de Beatriz além de um bilhete simples que Lázaro viu apenas quando voltava para a sala.
“Lás,
Tomei a liberdade de ligar para seu amigo Adriano e avisei que você não poderá ir hoje. Espero que em breve possamos beber outro vinho juntos, mas espero que você não desmaie com apenas dois copos como ontem à noite, pois fora difícil levá-lo até a cama. Muitos beijos. Amendukussole.
Beatriz.”
Lázaro pensou na coincidência de Beatriz avisar Adriano e que seu rosto não estaria agradável para clientes do antiquário e nem estaria nos próximos dias e, sendo avisado, o amigo não ficaria preocupado por Lázaro não ter aparecido. Do resto da mensagem, ficou curioso no que significava a palavra “amendukussole”. Não conhecia a palavra e supôs que fosse um anagrama, mas não encontrou nenhuma palavra que poderia ser formada. Tentou imaginar e rememorar tudo que havia estudado e tudo que lembrava das conversas entre eles, e apenas uma lembrança surgia, uma lembrança de quando eles se encontraram a última vez antes de Beatriz partir: um beijo e a palavra, que Lázaro não perguntou na época o que significava. Deveria ser um jeito de dizer “adeus” em umbundu, um dos idiomas falados em seu país natal. Lázaro ficou sentado na cadeira pensando sobre a mensagem, depois sobre a briga. A sensação de estar totalmente alerta foi diminuindo e, ao mesmo tempo, a dor no rosto e na mão direita começaram a se intensificar. O bilhete foi guardado no livro ata e Lázaro se levantou para procurar gelo para colocar sobre o rosto.
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Ieda se preparava para descer do ônibus no terminal do distrito de Barão Geraldo quando sentiu um aperto no peito. Apesar de ser um evento raro em sua vida, sabia que era algo ruim, como quando sentira no mesmo instante que o marido sofreu um acidente na fábrica ou quando a mãe falecera. Era um sinal que ela não conseguiria ignorar mas, naquele instante, estava indo trabalhar. Preferiu arriscar fazer uma ligação para o telefone público que ficava na calçada em frente ao seu prédio, mesmo sabendo que seria difícil alguém atender. Após cinco minutos ligando sem sucesso, alguém atendeu.
– Alô. Aqui é a Ieda, eu moro no prédio aí em frente. Quem fala?
– Ieda do seu Gerson? Aqui é o Peterson, dona Ieda. A senhora já ficou sabendo?
No mesmo instante, o sentimento ruim ficou mais forte em Ieda. Pensou um número enorme de coisas ruins que poderiam ter acontecido e rezava em seu íntimo que não fosse nada mais grave do que o último evento.
– O que aconteceu, Peterson?
– Ué, o seu Gerson invadiu a casa do Professor. Teve gritaria e tudo lá e... espera um pouco.
Ieda ficou esperando ao telefone enquanto Peterson ficava em silêncio do outro lado. Enquanto isso, o número de créditos em seu cartão telefônico ia diminuindo. Não sabia se desligava ou se continuava esperando, sem saber se Peterson se lembraria que ela o aguardava. Passaram quase cinco minutos quando Peterson reapareceu. Os cinco minutos foram suficientes para deixar Ieda com mais raiva de Gerson. Era uma certeza em seu coração de que Gerson havia feito algo bem estúpido e ela perderia um dia de trabalho por isso.
– Dona Ieda. Acho que o seu Gerson está saindo.
– Vai falar com ele e diz que estou voltando para casa agora. Se ele fizer mais alguma coisa, eu o mato hoje.
Ieda não conseguiu falar com calma e gritou ao telefone, assustando Peterson, que concordou. Ieda mal terminou de falar e desligou o telefone e ligou rapidamente para a casa da mulher onde faria a faxina.
– Bom dia, Dona Zuleica. Eu estou ligando para avisar a senhora que eu infelizmente não poderei ir hoje. Eu até estou aqui em Barão, mas tenho que voltar urgente para casa.
– Bom dia, Ieda. É algo sério?
– Espero que não muito, mas acabei de ligar em casa e fiquei sabendo que aconteceu algo com meu marido. Eu vou voltar lá e depois conversamos.
Zuleica era uma mulher idosa e não era a primeira vez que contratava os serviços de Ieda, mas optava em chamá-la quando a casa precisava de uma faxina especial, algo em que a faxineira era muito boa. Percebendo no tom de voz a preocupação de Ida, Zuleica até ofereceu os préstimos de seu filho para que levasse de volta para seu apartamento, mas Ieda negou. Era claro que desejou aceitar, mas não queria se sentir aproveitando da boa vontade alheia e tomou um ônibus de volta.
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