quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 25


24 
     Na manhã seguinte, Beatriz se levantou as sete sem fazer barulho, vestiu-se e saiu sem acordar Lázaro. Ela saiu do apartamento, olhou para os lados e examinou o seu entorno, verificando que não havia ninguém próximo. Para que pudesse deixar Lázaro dormindo, a porta ficaria destrancada. Era um dilema fazer algo que ela sabia ser arriscado mas, se não fizesse, implicava em agir de forma igualmente incômoda de acordo com o seu modo de pensar. Deixando de lado a razão em benefício da fé, Lázaro teria pelo menos mais uma hora de sono.
     Minutos antes de Beatriz acordar, Ieda já se arrumava para ir trabalhar em mais um serviço esporádico como diarista na casa de uma antiga conhecida. Quando ela se levantou às seis horas, fez questão de acordar Andreia e Anahí. Ieda acreditava que era uma boa maneira da filha aproveitar melhor o dia, estimulando a moça a seguir o ritmo do que ela entendia ser o dia a dia de uma mulher, com tarefas que iam do nascer ao pôr do sol, independente das vontades ou necessidades pessoais. Fora de casa durante o dia todo, seria Andreia a responsável em seu lugar, principalmente na tarefa de servir o almoço para Gerson, o pai da moça, que não tocava em uma panela há muitos anos.
     Ieda revezava suas ações naquela manhã entre se arrumar e fazer o café que tomaria antes de sair. Enquanto isso, conseguia ouvir pequenos trechos do cochicho das garotastrechos como “ele é idiota”, “ele vai ver”. Como não sabia da conversa à porta do apartamento na tarde anterior, supôs que era apenas algum desentendimento com algum rapaz. Ao seguir da cozinha para a sala, examinando a bolsa e verificando se não havia deixado nada importante para trás, Ieda viu Andreia terminando de fechar a porta e se sentando no sofá, com um semblante irritado. Uma pequena sensação começou a incomodar mulher, mas não tinha tempo para refletir o que era e priorizou as últimas orientações antes de sair. 
     – Andreia, eu volto lá pelo meio dia ou treze horas. Se o seu pai não acordar daqui uma hora, chame ele. Deixe o almoço pronto às onze e arrume algo útil para fazer. 
     Andreia respondeu com um grunhido e Ieda não se importou. Era sete horas quando ela saiu apressada do apartamento e precisava ser rápida para não correr o risco de se atrasar – atrasar significava demorar mais tempo para acabar o serviço. Ao se aproximar do portão, percebeu que havia uma moça desconhecida esperando alguém sair ou entrar para que ela pudesse ir embora. A moça a viu e deu um sorriso envergonhado. 
     – Bom dia. – Ieda sorriu, enquanto destrancava o portão. – Ficou presa?
     – Bom dia. Ah sim, eu vim visitar um amigo e não quis acordá-lo para trazer-me aqui.
     Ambas atravessaram o portão aberto e saíram caminhando juntas em direção ao terminal de ônibus.
     – E quem é seu amigo? 
     – É o Lázaro… 
     – Ah! É o meu vizinho. – disse Ieda, em tom alegre. – Eu não me lembro de você. Você já tinha vindo aqui alguma vez? Aliás, você não é brasileira, né?! 
     – Sou angolana, mas moro em Portugal. – Beatriz fez uma pausa devido ao som de admiração de Ieda. – Essa é a primeira vez que venho aqui... a senhora é Ieda? Lázaro falou muito bem da senhora ontem... e a senhora é mãe de Andreia, não? 
     – Sou... – disse, preocupada. – Por quê?
     Beatriz não conseguia ficar quieta quando algo a incomodava, mas sentia que havia falado de mais.
     – Acho que se for algo importante, Lázaro falará para ti.
     – Se Andreia fez algo, pode falar. Esses dias eu dei uma surra nela por traquinagem.
     Beatriz segurou um riso e meneou o cabeça, concordando e explicitando que entendia.
     – Está grande aquela menina mas, se faz coisa errada, eu acho que não existe idade máxima para apanhar. Sei que o pai a deixou mimada, sempre foi assim. Por mim, tinha arrumado um emprego desde os quinze anos para amadurecer a cabeça, ficar responsável, sabe? Aqui na cidade até tem um lugar que arruma serviço para a molecada, mas o pai dizia que não, que dava conta de pagar tudo, que ela podia só estudar. No fim, não fez nem uma coisa e nem outra, e não foi falta de incentivo meu e do Lázaro, que fez Unicamp. Então, se ela tiver feito mais alguma coisa...
     – Ai, dona Ieda! Tu prometes que não vais achar que é mexerico?
     – Claro.
     Beatriz explicou sem muitos detalhes o que aconteceu, omitindo a pergunta sobre Elisabeth e destacando o problema com a palavra “rapariga”, seu sentido diferente no Brasil e em seu país. Ieda ouviu tudo e acabou achando que não havia nada de errado, mas teve a impressão que de nem tudo lhe fora contado. Considerou que Beatriz era uma moça educada e preferiu não forçar nada, apesar de ficar com a sensação de um pequeno aperto no peito – mal sinal para uma pessoa como ela que relacionava essa sensação com eventos ruins. 
     Já no terminal, Beatriz agradeceu, as mulheres se cumprimentaram e se despediram. Enquanto Beatriz tomou um ônibus para o centro, Ieda tomou um ônibus até o distrito de Barão Geraldo. Sentada em um dos bancos da frente, ficou pensando na história contada por Beatriz e ficou preocupada com aquela nova onda de eventos envolvendo sua filha. Havia meses que Andreia não dava atenção para Lázaro e, sem motivo algum, voltou com atitudes muito estranhas. Ieda pensou se, em algum momento de desespero, a menina não se envolveu com alguma simpatia ou algum ritual maligno que tinha arrumado um “encosto” (um espírito que se aproveitaria de mentes fracas para induzi-los a fazer coisas ruins), ou pior: poderia ter herdado as idiotices do pai. 
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