19
A chegada de Sara iluminou o dia de Lázaro e foi o único assunto entre ele e Adriano durante a viagem de volta ao apartamento. O primeiro tema foi o próprio retorno, e Lázaro questionou o amigo acerca do segredo, mas Adriano disse que “não disse por que era segredo” e o assunto foi encerrado. Não era possível fazer Adriano descumprir promessas e não era possível criticá-lo por sua conduta tão admirável. Após a resposta, Lázaro falou de toda a infância da prima, de como ela era ativa, alegre e brincalhona, sendo essa postura que possibilitou que ele suportasse viver sob o mesmo teto que o pai durante a adolescência em que ele o culpava.
Os poucos minutos de encontro demonstraram como Sara encantava o primo, mas havia algo estranho. A magreza da prima era visível e não parecia nada saudável. Que a prima nunca estivera nem um quilo acima do peso considerado ideal era até compreensível, mas até o rosto já denunciava que Sara estava muito abaixo do recomendado. Ao abraçá-la, Lázaro sentiu como se abraçasse um cadáver ressequido, uma múmia que voltou à vida. Aquela situação trazia à tona sentimentos ruins ligados ao que acontecera ao pai e à mãe, mas ele tinha certeza que era impossível ter alguma relação direta se ela vivia há quase uma década em país estrangeiro. Assim, ficava a dúvida se estava sofrendo pela saudade de casa ou se estava doente e não queria dizer nada.
Ao fim da viagem, o medo sobre o que acontecia com a prima esvaiu a alegria de reencontrá-la quase por completo. Lázaro se despediu de Adriano e combinou que ele visitaria a prima na manhã do dia seguinte. Se pudesse, apareceria no antiquário à tarde. Subiu ao apartamento, pensando em sua nova preocupação e como perguntaria para prima sobre o que estava acontecendo. Era a terceira semana de problemas e, ao olhar para o seu andar, viu a sombra de alguém que parecia estar sentada nas escadas que levavam ao segundo andar. Deveria ser Andreia, mas ele imaginou que a garota estava mais agradável, assim como na sexta, e ela não seria mais um problema para lidar. Ele subiu os degraus tranquilo e esperançoso, mas a abordagem agressiva e o grito de Andreia fizeram-no voltar à realidade.
– Nossa, Lázaro! Isso são horas?
Lázaro olhou para Andreia com incredulidade. Estava claro que a vizinha estava lhe questionando sobre o que ele estava fazendo sobre a própria vida.
– Endoidou? – disse Lázaro enquanto abria a porta do apartamento.
– Você acha que eu sou quem para chamar de doida?
Lázaro abriu porta de seu apartamento olhando o dedo em riste de Andreia em seu rosto, mas a deixou discutindo sozinha com a porta ao entrar e dar duas voltas na chave. A vizinha ficou por algum tempo gritando com ele até Ieda subir as escadas e gritar mais alto ainda, obrigando-a a entrar à força e dizendo para a filha parar de idiotices.
Lázaro ouviu da sua sala toda a discussão do lado de fora e, apesar de Ieda dizer que a filha estava fazendo papel de idiota, ele considerou a atitude de Andreia algo a refletir. Embora ele tenha suportado por anos as atitudes infantis dela querendo que ele a notasse, estava certo que, desde o ano anterior, a garota tinha abandonado o que quer que sentisse por ele e estava vivendo a vida. A mudança brusca de resignada para agressiva soava como se tudo desde o ano anterior fossem apenas mentiras. Lázaro não sabia o que pensar e nem queria: havia anos que a vida não era fácil mas, desde a morte do pai, a vida piorou.
Mantendo as luzes apagadas e aproveitando a claridade das luzes da rua, Lázaro jantou, tomou banho e se deitou. O rádio ficou ligado na sala, mas baixo o suficiente para que apenas ele pudesse ouvir, tanto que, em alguns momentos, os sons exteriores encobriam a música. Ele não estava cansado, mas não queria fazer mais nada. O dia tinha acabado após entrar no apartamento. Ele queria dormir por vários dias e se desligar do mundo, mas o sono parecia não vir nem para um breve cochilo. Enquanto isso, o mundo estava ali, entrando pelas janelas e se fazendo ouvir, impedindo Lázaro de se desligar dele.
Lázaro começou a pensar como as duas únicas mulheres importantes para ele deveriam estar: tanto Sara quanto Beatriz deveriam estar dormindo naquele momento. Aos poucos, as imagens das duas foram dando espaço a um vazio de sentidos e pensamentos comuns ao sono.
Lázaro dormiu e, acompanhando seus pensamentos, sonhou com um momento do passado em que ele e Beatriz estavam na faculdade, rindo sobre qualquer coisa, e ela falando sobre tudo que queria fazer. Lázaro tinha menos ambições, principalmente porque nunca tivera outras metas além de sair da casa do pai e entrar na universidade. Para não se sentir envergonhado com a pequenez de seus desejos, falava em um intercâmbio, notadamente inspirado no que a prima ambicionava fazer na época. Beatriz, ao contrário, tinha muitas coisas em mente: um intercâmbio antes do fim do curso e uma pós-graduação. Beatriz era ambiciosa e não deixaria nada e nem ninguém atrapalhar seus sonhos, fosse a família ou alguém que tivesse prometido amor eterno. Se a amassem, não atrapalhariam ou encontrariam um jeito de fazer parte do sonho pois, para ela, os sonhos eram parte dela e deixá-los de lado era matar um pouco dela mesma. Beatriz cortaria na própria carne para não abdicar de si mesma: ela era um sol que não dependia de ninguém para brilhar, e fazia questão de deixar isso claro em suas escolhas. Lázaro a amou e se amou mais enquanto tinha dela essa luz que o aquecia, sentindo-se frio e vazio por dentro quando ela foi embora.
Lázaro não sabia o que era pior: não ter dito a ela o quanto a amava antes dela partir ou saber que dizer o que sentia por ela não teria mudado a decisão de Beatriz de fazer a pós-graduação em Portugal. Ele sabia que poderia ter ido, mas sempre lhe faltou ambição para uma mudança tão drástica.
A chegada de Sara iluminou o dia de Lázaro e foi o único assunto entre ele e Adriano durante a viagem de volta ao apartamento. O primeiro tema foi o próprio retorno, e Lázaro questionou o amigo acerca do segredo, mas Adriano disse que “não disse por que era segredo” e o assunto foi encerrado. Não era possível fazer Adriano descumprir promessas e não era possível criticá-lo por sua conduta tão admirável. Após a resposta, Lázaro falou de toda a infância da prima, de como ela era ativa, alegre e brincalhona, sendo essa postura que possibilitou que ele suportasse viver sob o mesmo teto que o pai durante a adolescência em que ele o culpava.
Os poucos minutos de encontro demonstraram como Sara encantava o primo, mas havia algo estranho. A magreza da prima era visível e não parecia nada saudável. Que a prima nunca estivera nem um quilo acima do peso considerado ideal era até compreensível, mas até o rosto já denunciava que Sara estava muito abaixo do recomendado. Ao abraçá-la, Lázaro sentiu como se abraçasse um cadáver ressequido, uma múmia que voltou à vida. Aquela situação trazia à tona sentimentos ruins ligados ao que acontecera ao pai e à mãe, mas ele tinha certeza que era impossível ter alguma relação direta se ela vivia há quase uma década em país estrangeiro. Assim, ficava a dúvida se estava sofrendo pela saudade de casa ou se estava doente e não queria dizer nada.
Ao fim da viagem, o medo sobre o que acontecia com a prima esvaiu a alegria de reencontrá-la quase por completo. Lázaro se despediu de Adriano e combinou que ele visitaria a prima na manhã do dia seguinte. Se pudesse, apareceria no antiquário à tarde. Subiu ao apartamento, pensando em sua nova preocupação e como perguntaria para prima sobre o que estava acontecendo. Era a terceira semana de problemas e, ao olhar para o seu andar, viu a sombra de alguém que parecia estar sentada nas escadas que levavam ao segundo andar. Deveria ser Andreia, mas ele imaginou que a garota estava mais agradável, assim como na sexta, e ela não seria mais um problema para lidar. Ele subiu os degraus tranquilo e esperançoso, mas a abordagem agressiva e o grito de Andreia fizeram-no voltar à realidade.
– Nossa, Lázaro! Isso são horas?
Lázaro olhou para Andreia com incredulidade. Estava claro que a vizinha estava lhe questionando sobre o que ele estava fazendo sobre a própria vida.
– Endoidou? – disse Lázaro enquanto abria a porta do apartamento.
– Você acha que eu sou quem para chamar de doida?
Lázaro abriu porta de seu apartamento olhando o dedo em riste de Andreia em seu rosto, mas a deixou discutindo sozinha com a porta ao entrar e dar duas voltas na chave. A vizinha ficou por algum tempo gritando com ele até Ieda subir as escadas e gritar mais alto ainda, obrigando-a a entrar à força e dizendo para a filha parar de idiotices.
Lázaro ouviu da sua sala toda a discussão do lado de fora e, apesar de Ieda dizer que a filha estava fazendo papel de idiota, ele considerou a atitude de Andreia algo a refletir. Embora ele tenha suportado por anos as atitudes infantis dela querendo que ele a notasse, estava certo que, desde o ano anterior, a garota tinha abandonado o que quer que sentisse por ele e estava vivendo a vida. A mudança brusca de resignada para agressiva soava como se tudo desde o ano anterior fossem apenas mentiras. Lázaro não sabia o que pensar e nem queria: havia anos que a vida não era fácil mas, desde a morte do pai, a vida piorou.
Mantendo as luzes apagadas e aproveitando a claridade das luzes da rua, Lázaro jantou, tomou banho e se deitou. O rádio ficou ligado na sala, mas baixo o suficiente para que apenas ele pudesse ouvir, tanto que, em alguns momentos, os sons exteriores encobriam a música. Ele não estava cansado, mas não queria fazer mais nada. O dia tinha acabado após entrar no apartamento. Ele queria dormir por vários dias e se desligar do mundo, mas o sono parecia não vir nem para um breve cochilo. Enquanto isso, o mundo estava ali, entrando pelas janelas e se fazendo ouvir, impedindo Lázaro de se desligar dele.
Lázaro começou a pensar como as duas únicas mulheres importantes para ele deveriam estar: tanto Sara quanto Beatriz deveriam estar dormindo naquele momento. Aos poucos, as imagens das duas foram dando espaço a um vazio de sentidos e pensamentos comuns ao sono.
Lázaro dormiu e, acompanhando seus pensamentos, sonhou com um momento do passado em que ele e Beatriz estavam na faculdade, rindo sobre qualquer coisa, e ela falando sobre tudo que queria fazer. Lázaro tinha menos ambições, principalmente porque nunca tivera outras metas além de sair da casa do pai e entrar na universidade. Para não se sentir envergonhado com a pequenez de seus desejos, falava em um intercâmbio, notadamente inspirado no que a prima ambicionava fazer na época. Beatriz, ao contrário, tinha muitas coisas em mente: um intercâmbio antes do fim do curso e uma pós-graduação. Beatriz era ambiciosa e não deixaria nada e nem ninguém atrapalhar seus sonhos, fosse a família ou alguém que tivesse prometido amor eterno. Se a amassem, não atrapalhariam ou encontrariam um jeito de fazer parte do sonho pois, para ela, os sonhos eram parte dela e deixá-los de lado era matar um pouco dela mesma. Beatriz cortaria na própria carne para não abdicar de si mesma: ela era um sol que não dependia de ninguém para brilhar, e fazia questão de deixar isso claro em suas escolhas. Lázaro a amou e se amou mais enquanto tinha dela essa luz que o aquecia, sentindo-se frio e vazio por dentro quando ela foi embora.
Lázaro não sabia o que era pior: não ter dito a ela o quanto a amava antes dela partir ou saber que dizer o que sentia por ela não teria mudado a decisão de Beatriz de fazer a pós-graduação em Portugal. Ele sabia que poderia ter ido, mas sempre lhe faltou ambição para uma mudança tão drástica.
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