quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 19


18 
     Antes de partirem do antiquário naquele dia, Lázaro combinou de ficar a semana seguinte na loja junto com Adriano. Não queria ficar sozinho em casa e poderia, de alguma forma, ajudar ao amigo. Porém, para sua surpresa, na terça-feira, um táxi parou na porta da loja e Sara desceu, acompanhada de uma mulher jovem e desconhecida. Foi Adriano que as viu chegar e avisou a Lázaro, que estava no fundo da loja. Este, por sua vez, correu até a porta e fez um estardalhaço de alegria, uma característica do amigo que Adriano não via há anos. Sara estava como sempre, muito alegre, e retribuiu o barulho do primo chamando-o pelo apelido – a primeira palavra que era usara para denominá-lo ainda na infância antes de saber falar seu o nome.
     – Lás! – Sara sorriu efusivamente, esticando os braços para cima, em sinal de alegria. – Surpresa!
     Um cliente que entrava na loja, olhou para os primos, assustado com os gritos. Lázaro não se importou com a extravagância e abraçou a prima, retirando-a do chão. A prima o ajudou, entrelaçando os braços no pescoço dele. Ambos tinham uma pequena diferença de altura, mas Lázaro parecia bem maior por causa de seus quase cem quilos. No instante que abraçou a prima, percebeu que ela estava bem mais magra do que quando eles se viram pela última vez, anos atrás. Sentia que havia algo de errado.
     – Que primão grande que eu tenho! Parece um urso. – Sara ria ao abraçar o primo na altura do abdômen. – Até a cara está peluda como a de um urso.
     – E você parece uma bailarina.
     – Ah, não me amole. – disse Sara, em inglês, empurrando-o levemente. – Eu estou magra, mas é porque a comida inglesa é ruim. É por isso. Você vai ver eu virar a Valéria de novo.
     Um mundo de ideias e memórias passaram na cabeça de Lázaro em alguns segundos por causa da referência à personagem que Sara vira ainda criança e nunca mais saiu de sua memória. Muitas das brincadeiras de Sara na infância envolviam luta, principalmente depois dela ter assistido ao filme "Conan, o Bárbaro" e passou a copiar as ações da companheira do protagonista, Valéria. Quando assistiu ao segundo filme, ela era adolescente, mas, mesmo assim, queria brincar de luta imitando a guerreira Zula. Para evitar mais lesões com cabos de vassoura, a promessa de Isaac era que, quando ela crescesse, teria sua própria espada. Logo depois, ele comprou a borduna em um leilão e a garota se encantou pela arma. Lázaro acreditava que seria esse o momento da prima receber a borduna, após vinte anos da promessa.
     – Por que você não me avisou que estava vindo? – Lázaro disse, retomando a conversa.
     – Avisei o Adriano, mas pedi segredo...
     Lázaro meneou positivamente com a cabeça e pensou: "Ele não sabe mentir, mas não precisa se eu não perguntar. Esperto". Enquanto isso, a mulher ao lado de Sara cochichou em seu ouvido algo e a prima disse em inglês "desculpe, Lilly" e Sara, colocando a mão no ombro da desconhecida, voltou-se para Lázaro.
     – Lázaro, está e minha amiga Elisabeth. Ela era au pair como eu. Ela é alemã, mas fala inglês fluente.
     – Olá Elisabeth. Eu sou Lázaro, o primo favorito da Sara. Prazer em conhecê-la. – disse Lázaro, em inglês.
     Ele estendeu a mão para Elisabeth, que riu de maneira comedida.
     – Olá, Lázaro. Prazer em conhecê-lo.
     Ao apertar a mão de Elisabeth, Lázaro se sentiu estranho, como se um sentimento lhe aflorasse. Pensou em "fome", provavelmente porque já fazia um tempo que comera. Contudo, era uma forma nova de pensar em fome, como se alguém lhe dissesse que estava com fome, ou como se sentisse a fome de alguém. Piscou forte e deixou o pensamento de lado.
     – Então, Sara, você não disse o porquê dessa ótima surpresa. Veio para ficar?
     – Ah, sim. Já vou para casa. Ainda estou sentindo o jet lag, esse efeito da viagem mata a gente... – Sara esfregou as mãos do rosto aos cabelos, demonstrando seu cansaço – Foi tudo muito rápido para eu apressar a minha volta... tudo bem para você?
     Sara suplicou um "sim" para Lázaro com o olhar.
     – Tudo bem sim, não quero você desmaiando de sono por aí. – Lázaro sorriu, confortando a prima com um afago no ombro. – Mas você sabe o que vai encontrar lá?
     – Mais ou menos... Adriano me contou o que aconteceu, mas não sei se ele tentou ser agradável e amenizou o problema. Em todo caso, amanhã eu começo a arrumar tudo e você passa lá amanhã e me ajuda.
     Lázaro retribuiu o sorriso da prima e assentiu. O motorista esperava as duas com taxímetro ligado e as mulheres precisavam ir. Lázaro deu as próprias chaves da casa do pai para a prima e a abraçou com força, como se não fosse largar. Queria deixar para trás os quase sete anos que Sara ficou fora em um abraço de reencontro, mas não podia e a soltou. Despediu-se também de Elisabeth, apenas com um aperto de mão discreto, algo esperado para o tipo de educação que deduzia que ela recebera em seu país –, sentindo novamente a estranha fome.
     Lázaro ficou olhando o táxi seguir a rua até virar a esquina. Ficou parado, olhando e sentindo uma mistura de alegria e desconforto: desconforto com a condição física da prima e com a sensação que sentira ao tocar Elisabeth, fosse coincidência ou não. Quando o táxi não estava mais em seu campo de visão, Lázaro voltou para a loja e encontrou Adriano atendendo o mesmo cliente que entrara quando Sara chegou. O cliente se mostrava indeciso, procurando uma poltrona com tantas características díspares que, ou não existia ou deveria ser muito mais feia que o par vendido no sábado anterior. Adriano não apressou para vender qualquer coisa, mesmo que fosse quase dezoito horas, a hora que ele fechava. 
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