quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 18


17 
     Após alguns minutos deitado, Lázaro dormiu. Começou a ter um sonho de uma memória de sua infância com a prima de quando ela já morava na casa de Isaac. Os pais de Sara se divorciaram quando ela era pequena e ambos a abandonaram, cada um à sua maneira. Isaac e Ruth, que sempre quiseram mais filhos, a receberam como a uma filha e Sara os recebeu como pais. Toda a pensão que Daniel, pai de Sara, mandou para ela durante a infância e adolescência, fora colocado em uma poupança e liberado aos dezoito anos para ela começar a vida. A partir do momento que ela, ainda criança, pôs os pés na nova casa, perdera todo contato com os pais. 
     No sonho, alguém tocou a campainha do portão e Lázaro foi atender. Quando ele abriu a porta, viu um homem de meia idade e alto. O homem olhou para Lázaro e disse “olá garoto, seu papai está em casa?”. Lázaro saiu para a varanda e mandou Sara ficar na sala, e ela obedeceu. “Meu pai não está em casa”, disse o pequeno Lázaro, com os dedos das mãos entrelaçados nas costas e se aproximando do portão para não precisar gritar. Ao se aproximar, viu que o homem tinha algo estranho em volta da cabeça, como pequenas moscas que ficavam dando voltas e mais voltas, sem pousar ou mudar o sentido, como se todas acompanhassem o fluxo de um redemoinho. Mais perto, percebeu que não eram moscas, mas pontos pretos. Lázaro acordou, assustado.
     O seu sonho era uma memória há muito tempo esquecida: era a primeira vez que vira um homem com a mesma aparência bizarra de Luis. Pensando a respeito, a memória deveria ter cerca de dezoito ou dezenove anos. Seria esse primeiro momento que alguém semelhante a Luis recebera um “não” de Isaac. Poderia ter sido esse homem que descobriu um jeito de matar sua mãe em vingança.
     Lázaro calçou os sapatos e pensou em ir até a loja, mas como havia clientes, achou melhor ir primeiro até o banheiro. Examinou o rosto abatido, o cabelo e a camiseta amassados. Ajeitou novamente os cabelos e a camiseta para ficar minimamente apresentável para as outras pessoas. Se fossem clientes antigos, a semelhança com o pai daria uma péssima impressão e ele não queria atrapalhar o esforço de Adriano.
     Após recompor-se, Lázaro saiu do banheiro, cumprimentou os clientes e começou a transitar pelos corredores da loja. Adriano ainda acompanhava o casal de clientes que procuravam poltronas antigas. “Queremos uma sala bem bonita em nossa casa no litoral”, disse a mulher. Lázaro pensou que era uma ideia idiota levar um sofá antigo para apodrecer com a maresia da praia, mas se estavam pagando, não se importava. O casal adorou duas poltronas laranjas de espaldar baixo e braços de madeira com pequenas almofadas de mesma cor. Adriano elogiou o “gosto apurado por designs arrojados” da mulher, mas Lázaro sabia que o elogio era apenas para vender aquelas duas poltronas de cor chamativa que, se ficassem mais alguns dias encalhadas na loja, voltariam para o depósito por vários meses. O homem respondeu: “a minha mulher tem bom gosto. Poderia ser uma decoradora profissional”.
     O casal voltou ao balcão, fez um cheque, combinou a entrega e saiu. Quando ambos saíram da loja, Lázaro foi até o balcão conversar com Adriano.
     – O que vocês cochichavam naquela hora que eu saí do banheiro?
     – Perguntaram se você era você. Daí eu expliquei tudo que aconteceu e como você estava se recompondo do trauma da morte do seu pai.
     Lázaro fez um muxoxo.
     – Não vou dizer que estou dançando de alegria, mas também não estou traumatizado. 
     – Para todos os efeitos, está sim. Não teria como explicar por que você estava um trapo se não for por isso. Além do mais, as pessoas se espantariam se soubessem que você não derramou uma lágrima no velório. 
     – E você tem que falar isso para quem? 
     – Para os clientes que vem. Parece que as pessoas têm um quê de mórbidas. – Adriano falou mais baixo, inconformado. – Após a morte dele, as vendas aumentaram quase vinte porcento se comparado ao período antes dele adoecer, e a economia não estava pior do que está hoje. Conforme os dias passam, creio que a tendência será de queda nas vendas, e acho que em duas semanas elas voltem ao normal. Mas percebi que, na maioria dos casos, as pessoas vieram para falar da morte dele. Alguns elogiavam o jeito dele, outros, lamentavam a perda. Uma mulher até afirmou, em tom de conspiração, que seria morte encomendada... 
     – Mas foi. – disse Lázaro, cortando Adriano.
     Adriano se calou por alguns segundos, encarando o amigo, tentando assimilar o que Lázaro dissera.
     – Do que você está falando?
     Lázaro aproveitou que não havia clientes e explicou tudo, colocando Adriano a par da hipótese de Luis ser o assassino e todas as informações que possuía para sustentar essa ideia, incluindo, por fim, o sonho que tivera pouco tempo antes e que mostrava que alguém com as mesmas características sobrenaturais de Luis estava atrás da Bússola há muitos anos. Para Lázaro, havia uma certeza do envolvimento direto ou indireto de Luis na morte de Isaac. Adriano ficou perplexo no início, pois Luis tinha construído uma imagem de si muito positiva e agradável. Porém, por causa das informações apresentadas por Lázaro, o amigo entendeu que a imagem era necessária se ele quisesse se aproximar das pessoas. 
     O caso ficava cada vez mais interessante, das partes que apenas envolviam a maldade humana até as partes sobrenaturais mas, com estas, Adriano não tivera quase nenhum contato. Apesar disso, nem os eventos mais extraordinários que Adriano presenciara até uma semana antes se equiparavam aos eventos ligados à família Shlock.
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