16
Lázaro acordou na manhã de sábado sentindo ainda a experiência de ser Nlaza. Tinha a certeza de que tudo realmente acontecera em algum momento no passado, como no sonho-memória de um antepassado seu sobre o anel e o seu próprio sonho sobre a primeira vez que vira a Bússola. Eram todos sonhos que pareciam ter sido vividos novamente durante a noite.
Quando estava totalmente consciente de que estava em sua cama, percebeu que a lupa ainda estava em sua mão. Era o seu segundo sonho com os objetos que Isaac afirmou serem místicos, só que Lázaro usava o anel de Ruth há quase quinze anos e não sonhara com nada desde os dezoito anos – mesmo porque, quando sonhara a primeira vez com o portador do anel da mãe, supôs que era apenas um sonho. Entendeu que foi somente após ele tocar na Bússola de Acre que as coisas ficaram estranhas e, por isso, concluiu que deveria ter sido esse evento em especial que possibilitou os sonhos vívidos. Supondo que os absurdos eram verdadeiros, a Bússola deveria ser o objeto que seria o gatilho para que Lázaro tivesse os sonhos: esta seria uma ideia sem uma resposta porque ele não tinha mais a relíquia e dificilmente saberia as experiências de Alexandre com tal objeto para comparar.
As sensações referentes ao sonho desapareceram quase por completo após um banho. Lázaro saiu enrolado em uma toalha e foi para cozinha fazer café. Bebeu o líquido preto e revigorante com se não bebesse um gole há anos, sentindo-se melhor após o primeiro copo. O celular estava sobre a mesa e era possível perceber que havia muitas ligações de Adriano perdidas desde o meio-dia do dia anterior. Ele sabia que ficou incomunicável por muitas horas e precisava dar satisfações ao amigo.
– Nossa, Lázaro! Achei que você tinha morrido. Estou te procurando desde ontem. – Adriano estava alterado ao telefone.
– Olha, eu acho que morri um pouco mesmo. Estou um pouco confuso sobre o que aconteceu ontem.
Lázaro preferiu interromper a conversa naquele instante e combinou que Adriano passasse em seu apartamento para que ambos fossem ao antiquário e conversassem durante a viagem. Ele se arrumou como se fosse trabalhar e aguardou o amigo em frente ao portão. Quando Adriano chegou, Lázaro entrou no carro e, durante a viagem, contou tudo que se lembrava: a ideia que teve de trocar a Bússola por uma cebola, o encontro com Alexandre, a fuga e o sonho. Com exceção dos eventos na igreja e do sonho, Lázaro não tinha nenhuma lembrança, porém, foi o sonho o que mais chamou a atenção de Adriano pelo teor e riqueza em detalhes. Lázaro aproveitou a situação e contou do sonho do homem segurando o anel. Ambas as histórias eram surpreendentes experiências que compartilhavam uma riqueza de detalhes e uma coerência que os sonhos nunca tinham.
– Parece que esses objetos são como disquetes e você é o computador que consegue lê-los.
– Disquetes que guardariam o quê?
– Lembranças. Você disse que a visão do sonho sempre mudava quando os objetos passavam de uma mão para outra. Deve ser isso, o objeto vê pelos olhos do seu portador e armazena o que ela viu, ouviu e sentiu.
– E a Bússola deu a capacidade de ler essas lembranças?
– Eu acho que pode ter relação com a Bússola, sim. Todas essas coisas aconteceram após o contato com ela... pensando bem, pode ser que seu pai lhe tenha escolhido como o Guardião que o substituiria por saber que você tinha essa habilidade, mas você nunca a usou e ela adormeceu.
Lázaro ouviu a tudo e tentava aceitar as afirmações, mas era difícil. Ele era um homem simples e cético com obrigações comuns como todos os outros seres humanos que viviam sobre a Terra: o mundo material já era bastante complicado, apesar de ser conhecido. Deixar de lado o ceticismo e se abrir a um novo mundo de possibilidades obrigaria a lidar com mistérios inexplicáveis, ou seja, seria uma atitude estúpida e inaceitável.
Ao contrário de Lázaro, Adriano aceitou tudo que estava acontecendo com muita facilidade. Era cristão, ia a uma igreja protestante, mas não assumia para si a denominação de qualquer religião. Na faculdade, conviveu com todo os tipos de grupos religiosos e participou de todos ao menos uma vez. Sua experiência com o sagrado era a mais comum possível, e o mais extraordinário de todas as suas experiências havia sido um exorcismo em um culto. O transe e as experiências de Lázaro eram mais fascinantes do que assustadoras e eram seu novo patamar do que chamava de extraordinário pela capacidade de mudar a própria percepção da realidade, como se novos espectros de luz se tornassem visíveis e sons, audíveis. Havia muito o que se desbravar nesse novo mundo que se abria na vida do amigo e Adriano queria que o amigo percebesse essa riqueza.
Ambos os homens entraram na loja e se sentaram logo na entrada – Adriano atrás do balcão e Lázaro em uma poltrona que estava ali próxima. Porém, mal se acomodaram e um carro idêntico ao de Luis estacionou do outro lado da rua. Suspeitando que era mesmo o possível assassino do pai, Lázaro foi para o fundo do antiquário e pediu para que Adriano não contasse que ele estava ali. Do fundo da loja, escondido por entre os móveis e próximo a porta aberta do depósito, Lázaro viu Luis entrando com seu habitual sorriso cordial e sua mão estendida.
– Bom dia, Adriano.
– Bom dia, senhor Luis. O que posso fazer pelo senhor?
– Infelizmente nada. – Luis fez uma pausa dramática enquanto retirava sujeirinha que estava na lapela do blazer. – Lázaro te contou o que ele fez com o falso Ovo Fabergé?
– O que ele fez? – Adriano fingiu curiosidade.
– Deu! Simplesmente deu para um qualquer! Acredita nisso?! – Luis subiu o tom da voz, aparentando estar irritado. – Eu vim tantas vezes atrás do Ovo e quando ele consegue encontrar, dá de mão beijada. Que papelão. – Luis meneava negativamente com a cabeça.
– Entendo seu incomodo, seu Luis, mas eu não tenho autoridade sobre Lázaro...
– ...mesmo porque eu não dei nada, Adriano. – Complementou Lázaro, enquanto se aproximava da entrada, de braços cruzados.
– Então está aí o bom samaritano! – Luis apontou com a mão para Lázaro, como se o apresentasse a uma plateia. – É claro que deu. E se você doa coisas caras para desconhecidos, pode doar para os conhecidos também. Que tal doar algo para mim?
– Eu não doei. Não era meu. – Lázaro mantinha a seriedade.
– Estava com você, era seu. – Luis ainda estava visivelmente alterado.
– Posse e propriedade são coisas diferentes. Eu tinha posse sobre o Ovo, mas não tinha propriedade.
– Se não era seu, era de quem?
– Não sei e não me importo em saber. A única coisa importante era fazer a vontade do meu pai e entregá-la a quem ele disse merecer.
Adriano, aturdido, ia falar, mas Lázaro sinalizou com a mão para que o amigo ficasse em silêncio e voltou a cruzar os braços.
– Meu pai deixou uma carta e estava bem claro que ele queria que o objeto fosse entregue a uma pessoa específica que ia atender a um chamado. O chamado foi dado, a pessoa apareceu e eu entreguei.
– E quem era ele? – Luis tinha malícia em sua pergunta.
– Você viu quem era, e ainda bem que nem eu e nem você sabe nada sobre ele. Desta forma eu garanto que ele não terá o mesmo fim que meu pai.
Todos ficaram em silêncio por alguns segundos. Adriano não entendia nada da discussão além do fato de Lázaro ter passado a Bússola de Acre para uma terceira pessoa que ele suspeitava ser o rapaz que estivera na manhã do dia anterior na loja. Luis mantinha um olhar fixo e crispado para Lázaro: era claro que ele queria saber o que Lázaro sabia.
– Sim, Luis. Meu pai falou tudo. Eu só preciso achar uma prova e meu pai será vingado.
Luis deu um sorriso que demonstrava total desdém em relação à ameaça. Apesar de Lázaro ter certeza de que Luis era o assassino de Isaac, o sorriso daquele homem diminuía a satisfação de saber que estava certo, dando lugar a uma raiva irracional em relação àquele ser pequeno e de olhar outrora amável e que, agora, era apenas desdém. Enquanto os homens se estudavam com os olhos, Adriano cruzou os braços e ficou parado, confuso.
– Prova do quê, Lázaro? De que mataram seu pai? De que invadiram a casa dele? – Luis meneou levemente a cabeça e expressou desprezo em seu olhar – Mesmo que tenha existido qualquer prova, a polícia não encontrou, é só você prestar atenção: tudo aconteceu há dias e eles não sabem de nada, não tem um suspeito sequer. E se ainda existe qualquer prova dentro da casa do seu pai, como a polícia vai coletá-la sem os equipamentos necessários e profissionais capacitados? Declare tudo isso como caso encerrado.
– Eu poderia declarar por encerrado se não soubesse o que procurar. Mas eu sei quem invadiu e quem fez do jeito certo para parecer morte por causa natural.
Apesar da raiva, Lázaro mantinha o tom de voz sério.
– E quem foi?
– Quando prendê-lo, você saberá. Não antes disso.
Lázaro crispava os olhos, mas Luis reagiu apenas com um muxoxo.
– Então me ligue quando pegá-lo.
Segurando um sorriso desdenhoso, Luis retirou um cartão de visitas do bolso do blazer e entregou para Lázaro. No momento que Lázaro pegou o cartão, encostou acidentalmente sua mão na de Luis e o mundo real foi novamente golpeado pelo sobrenatural. Por menos de meio segundo, a mesma imagem horripilante que Lázaro vira na igreja estava diante dele novamente, mas perto e frente-a-frente – Luis estava envolto por pequenos pontos pretos que o circundavam como pequenas moscas sobre carne podre, e os olhos não possuíam a natural esclera branca, mas sim uma esclera preta que começava a sobrepor também a íris de ambos os olhos. Com o pavor, Lázaro resfolegou, levando a mão a boca e recuando um passo. Luis olhou desconfiado para a reação de Lázaro, mas saiu dizendo “só pode estar maluco”.
Luis entrou no carro e foi embora, enquanto Lázaro se sentou novamente na poltrona com o rosto lívido. Adriano, sem entender nada do que ocorrera, foi até o amigo tentar ajudá-lo.
– Lázaro, você está passando mal? O que você tem?
Lázaro segurou o antebraço de Adriano enquanto olhava para o vazio – precisava de tempo para se recompor e desembaçar a visão. Enquanto isso, Adriano se desvencilhou da mão do amigo e foi até a pequena copa que tinha na loja e pegou um copo de água com açúcar. Ao voltar, Lázaro estava sentado como se tivesse cansado, apoiando os braços no encosto da poltrona e a cabeça inclinada para trás. Adriano perguntou se ele havia melhorado e Lázaro assentiu enquanto pegava o copo de água. Adriano se sentou na cadeira do balcão, esperando que o amigo dissesse algo. Lázaro terminou de beber a água e se levantou, dirigindo-se para a porta de saída.
– Lázaro! Lázaro virou-se com o grito de Adriano e, ainda aturdido, entrou novamente. Antes que ele voltasse a se sentar no sofá, Adriano o levou até o depósito. Era uma sala grande, mas abarrotada de móveis que seriam expostos futuramente. Dentre eles, uma cama com colchão deixada por Isaac para sonecas após o almoço. Adriano colocou Lázaro sentado na cama e o mandou se deitar, e ele obedeceu. Depois, mandou Lázaro não sair dali e voltou para a recepção. Lázaro ficou um tempo deitado com a barriga para cima e cruzou os dedos das mãos sobre o corpo, enquanto a profusão de ideias ia desaparecendo até sobrar apenas uma: ele vira um monstro e não sabia do que aquilo era capaz. Pensou se estaria sentenciado à mesma morte do pai, se não conseguiria fazer nada a respeito e se o pai poderia ter deixado alguma informação valiosa para protegê-lo, mas o modo de enxergar o mundo levou Lázaro a trilhar por pensamentos que não traziam esperança. Eram perguntas que Lázaro tinha certeza que ninguém teria as respostas e, ao mesmo tempo, eram sobre o pior tipo de perigo para ele: o do desconhecido.
Lázaro acordou na manhã de sábado sentindo ainda a experiência de ser Nlaza. Tinha a certeza de que tudo realmente acontecera em algum momento no passado, como no sonho-memória de um antepassado seu sobre o anel e o seu próprio sonho sobre a primeira vez que vira a Bússola. Eram todos sonhos que pareciam ter sido vividos novamente durante a noite.
Quando estava totalmente consciente de que estava em sua cama, percebeu que a lupa ainda estava em sua mão. Era o seu segundo sonho com os objetos que Isaac afirmou serem místicos, só que Lázaro usava o anel de Ruth há quase quinze anos e não sonhara com nada desde os dezoito anos – mesmo porque, quando sonhara a primeira vez com o portador do anel da mãe, supôs que era apenas um sonho. Entendeu que foi somente após ele tocar na Bússola de Acre que as coisas ficaram estranhas e, por isso, concluiu que deveria ter sido esse evento em especial que possibilitou os sonhos vívidos. Supondo que os absurdos eram verdadeiros, a Bússola deveria ser o objeto que seria o gatilho para que Lázaro tivesse os sonhos: esta seria uma ideia sem uma resposta porque ele não tinha mais a relíquia e dificilmente saberia as experiências de Alexandre com tal objeto para comparar.
As sensações referentes ao sonho desapareceram quase por completo após um banho. Lázaro saiu enrolado em uma toalha e foi para cozinha fazer café. Bebeu o líquido preto e revigorante com se não bebesse um gole há anos, sentindo-se melhor após o primeiro copo. O celular estava sobre a mesa e era possível perceber que havia muitas ligações de Adriano perdidas desde o meio-dia do dia anterior. Ele sabia que ficou incomunicável por muitas horas e precisava dar satisfações ao amigo.
– Nossa, Lázaro! Achei que você tinha morrido. Estou te procurando desde ontem. – Adriano estava alterado ao telefone.
– Olha, eu acho que morri um pouco mesmo. Estou um pouco confuso sobre o que aconteceu ontem.
Lázaro preferiu interromper a conversa naquele instante e combinou que Adriano passasse em seu apartamento para que ambos fossem ao antiquário e conversassem durante a viagem. Ele se arrumou como se fosse trabalhar e aguardou o amigo em frente ao portão. Quando Adriano chegou, Lázaro entrou no carro e, durante a viagem, contou tudo que se lembrava: a ideia que teve de trocar a Bússola por uma cebola, o encontro com Alexandre, a fuga e o sonho. Com exceção dos eventos na igreja e do sonho, Lázaro não tinha nenhuma lembrança, porém, foi o sonho o que mais chamou a atenção de Adriano pelo teor e riqueza em detalhes. Lázaro aproveitou a situação e contou do sonho do homem segurando o anel. Ambas as histórias eram surpreendentes experiências que compartilhavam uma riqueza de detalhes e uma coerência que os sonhos nunca tinham.
– Parece que esses objetos são como disquetes e você é o computador que consegue lê-los.
– Disquetes que guardariam o quê?
– Lembranças. Você disse que a visão do sonho sempre mudava quando os objetos passavam de uma mão para outra. Deve ser isso, o objeto vê pelos olhos do seu portador e armazena o que ela viu, ouviu e sentiu.
– E a Bússola deu a capacidade de ler essas lembranças?
– Eu acho que pode ter relação com a Bússola, sim. Todas essas coisas aconteceram após o contato com ela... pensando bem, pode ser que seu pai lhe tenha escolhido como o Guardião que o substituiria por saber que você tinha essa habilidade, mas você nunca a usou e ela adormeceu.
Lázaro ouviu a tudo e tentava aceitar as afirmações, mas era difícil. Ele era um homem simples e cético com obrigações comuns como todos os outros seres humanos que viviam sobre a Terra: o mundo material já era bastante complicado, apesar de ser conhecido. Deixar de lado o ceticismo e se abrir a um novo mundo de possibilidades obrigaria a lidar com mistérios inexplicáveis, ou seja, seria uma atitude estúpida e inaceitável.
Ao contrário de Lázaro, Adriano aceitou tudo que estava acontecendo com muita facilidade. Era cristão, ia a uma igreja protestante, mas não assumia para si a denominação de qualquer religião. Na faculdade, conviveu com todo os tipos de grupos religiosos e participou de todos ao menos uma vez. Sua experiência com o sagrado era a mais comum possível, e o mais extraordinário de todas as suas experiências havia sido um exorcismo em um culto. O transe e as experiências de Lázaro eram mais fascinantes do que assustadoras e eram seu novo patamar do que chamava de extraordinário pela capacidade de mudar a própria percepção da realidade, como se novos espectros de luz se tornassem visíveis e sons, audíveis. Havia muito o que se desbravar nesse novo mundo que se abria na vida do amigo e Adriano queria que o amigo percebesse essa riqueza.
Ambos os homens entraram na loja e se sentaram logo na entrada – Adriano atrás do balcão e Lázaro em uma poltrona que estava ali próxima. Porém, mal se acomodaram e um carro idêntico ao de Luis estacionou do outro lado da rua. Suspeitando que era mesmo o possível assassino do pai, Lázaro foi para o fundo do antiquário e pediu para que Adriano não contasse que ele estava ali. Do fundo da loja, escondido por entre os móveis e próximo a porta aberta do depósito, Lázaro viu Luis entrando com seu habitual sorriso cordial e sua mão estendida.
– Bom dia, Adriano.
– Bom dia, senhor Luis. O que posso fazer pelo senhor?
– Infelizmente nada. – Luis fez uma pausa dramática enquanto retirava sujeirinha que estava na lapela do blazer. – Lázaro te contou o que ele fez com o falso Ovo Fabergé?
– O que ele fez? – Adriano fingiu curiosidade.
– Deu! Simplesmente deu para um qualquer! Acredita nisso?! – Luis subiu o tom da voz, aparentando estar irritado. – Eu vim tantas vezes atrás do Ovo e quando ele consegue encontrar, dá de mão beijada. Que papelão. – Luis meneava negativamente com a cabeça.
– Entendo seu incomodo, seu Luis, mas eu não tenho autoridade sobre Lázaro...
– ...mesmo porque eu não dei nada, Adriano. – Complementou Lázaro, enquanto se aproximava da entrada, de braços cruzados.
– Então está aí o bom samaritano! – Luis apontou com a mão para Lázaro, como se o apresentasse a uma plateia. – É claro que deu. E se você doa coisas caras para desconhecidos, pode doar para os conhecidos também. Que tal doar algo para mim?
– Eu não doei. Não era meu. – Lázaro mantinha a seriedade.
– Estava com você, era seu. – Luis ainda estava visivelmente alterado.
– Posse e propriedade são coisas diferentes. Eu tinha posse sobre o Ovo, mas não tinha propriedade.
– Se não era seu, era de quem?
– Não sei e não me importo em saber. A única coisa importante era fazer a vontade do meu pai e entregá-la a quem ele disse merecer.
Adriano, aturdido, ia falar, mas Lázaro sinalizou com a mão para que o amigo ficasse em silêncio e voltou a cruzar os braços.
– Meu pai deixou uma carta e estava bem claro que ele queria que o objeto fosse entregue a uma pessoa específica que ia atender a um chamado. O chamado foi dado, a pessoa apareceu e eu entreguei.
– E quem era ele? – Luis tinha malícia em sua pergunta.
– Você viu quem era, e ainda bem que nem eu e nem você sabe nada sobre ele. Desta forma eu garanto que ele não terá o mesmo fim que meu pai.
Todos ficaram em silêncio por alguns segundos. Adriano não entendia nada da discussão além do fato de Lázaro ter passado a Bússola de Acre para uma terceira pessoa que ele suspeitava ser o rapaz que estivera na manhã do dia anterior na loja. Luis mantinha um olhar fixo e crispado para Lázaro: era claro que ele queria saber o que Lázaro sabia.
– Sim, Luis. Meu pai falou tudo. Eu só preciso achar uma prova e meu pai será vingado.
Luis deu um sorriso que demonstrava total desdém em relação à ameaça. Apesar de Lázaro ter certeza de que Luis era o assassino de Isaac, o sorriso daquele homem diminuía a satisfação de saber que estava certo, dando lugar a uma raiva irracional em relação àquele ser pequeno e de olhar outrora amável e que, agora, era apenas desdém. Enquanto os homens se estudavam com os olhos, Adriano cruzou os braços e ficou parado, confuso.
– Prova do quê, Lázaro? De que mataram seu pai? De que invadiram a casa dele? – Luis meneou levemente a cabeça e expressou desprezo em seu olhar – Mesmo que tenha existido qualquer prova, a polícia não encontrou, é só você prestar atenção: tudo aconteceu há dias e eles não sabem de nada, não tem um suspeito sequer. E se ainda existe qualquer prova dentro da casa do seu pai, como a polícia vai coletá-la sem os equipamentos necessários e profissionais capacitados? Declare tudo isso como caso encerrado.
– Eu poderia declarar por encerrado se não soubesse o que procurar. Mas eu sei quem invadiu e quem fez do jeito certo para parecer morte por causa natural.
Apesar da raiva, Lázaro mantinha o tom de voz sério.
– E quem foi?
– Quando prendê-lo, você saberá. Não antes disso.
Lázaro crispava os olhos, mas Luis reagiu apenas com um muxoxo.
– Então me ligue quando pegá-lo.
Segurando um sorriso desdenhoso, Luis retirou um cartão de visitas do bolso do blazer e entregou para Lázaro. No momento que Lázaro pegou o cartão, encostou acidentalmente sua mão na de Luis e o mundo real foi novamente golpeado pelo sobrenatural. Por menos de meio segundo, a mesma imagem horripilante que Lázaro vira na igreja estava diante dele novamente, mas perto e frente-a-frente – Luis estava envolto por pequenos pontos pretos que o circundavam como pequenas moscas sobre carne podre, e os olhos não possuíam a natural esclera branca, mas sim uma esclera preta que começava a sobrepor também a íris de ambos os olhos. Com o pavor, Lázaro resfolegou, levando a mão a boca e recuando um passo. Luis olhou desconfiado para a reação de Lázaro, mas saiu dizendo “só pode estar maluco”.
Luis entrou no carro e foi embora, enquanto Lázaro se sentou novamente na poltrona com o rosto lívido. Adriano, sem entender nada do que ocorrera, foi até o amigo tentar ajudá-lo.
– Lázaro, você está passando mal? O que você tem?
Lázaro segurou o antebraço de Adriano enquanto olhava para o vazio – precisava de tempo para se recompor e desembaçar a visão. Enquanto isso, Adriano se desvencilhou da mão do amigo e foi até a pequena copa que tinha na loja e pegou um copo de água com açúcar. Ao voltar, Lázaro estava sentado como se tivesse cansado, apoiando os braços no encosto da poltrona e a cabeça inclinada para trás. Adriano perguntou se ele havia melhorado e Lázaro assentiu enquanto pegava o copo de água. Adriano se sentou na cadeira do balcão, esperando que o amigo dissesse algo. Lázaro terminou de beber a água e se levantou, dirigindo-se para a porta de saída.
– Lázaro! Lázaro virou-se com o grito de Adriano e, ainda aturdido, entrou novamente. Antes que ele voltasse a se sentar no sofá, Adriano o levou até o depósito. Era uma sala grande, mas abarrotada de móveis que seriam expostos futuramente. Dentre eles, uma cama com colchão deixada por Isaac para sonecas após o almoço. Adriano colocou Lázaro sentado na cama e o mandou se deitar, e ele obedeceu. Depois, mandou Lázaro não sair dali e voltou para a recepção. Lázaro ficou um tempo deitado com a barriga para cima e cruzou os dedos das mãos sobre o corpo, enquanto a profusão de ideias ia desaparecendo até sobrar apenas uma: ele vira um monstro e não sabia do que aquilo era capaz. Pensou se estaria sentenciado à mesma morte do pai, se não conseguiria fazer nada a respeito e se o pai poderia ter deixado alguma informação valiosa para protegê-lo, mas o modo de enxergar o mundo levou Lázaro a trilhar por pensamentos que não traziam esperança. Eram perguntas que Lázaro tinha certeza que ninguém teria as respostas e, ao mesmo tempo, eram sobre o pior tipo de perigo para ele: o do desconhecido.
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