quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 16


15 
     O período de vazio foi curto e Lázaro teve mais um sonho, mas não era sobre seu pai e nem sobre os ancestrais de sua mãe. Estava sobre um paredão de rocha, de onde podia ver um grande vale de plantas baixas. Ele olhou para o lado e um homem se aproximava, sorrindo. Lázaro se virou, apontou para uma pequena elevação no vale, também coberta com plantas, e disse “está bem ali, no vale. Finalmente chegamos”. Ele entregou a lente de cristal para o outro homem e seu ponto de vista passou a ser a visão do segundo homem. O segundo homem levantou o cristal na altura dos olhos e viu uma luz prateada emanando da elevação e, então, respondeu: “eu tenho certeza de que aquela luz é o cetro de Omolu”. Os dois homens continuaram a caminhada até chegarem a um declive, por onde desceram até o vale. O primeiro irmão era mais baixo, mais velho e seguia na frente segurando sua pequena faca de pedra. O segundo irmão era jovem, mais forte e carregava na mão direita duas grandes lanças com pontas de pedra. A lente de cristal estava pendurada em seu pescoço em um cordão feito de fibras de palha de palmeira como a um pingente.
     Os dois homens sentiam fome, mas preferiram continuar caminhando pelo longo caminho do paredão até a elevação para, só depois, caçarem e comerem. Com cuidado, o irmão mais velho se aproximou em posição de defesa, caso houvesse algum perigo. Pelo êxtase em estar tão perto do objeto que eles buscavam, nenhum dos dois percebeu sobre a única árvore alta perto da elevação um ser parecido com um chimpanzé, mas de pelos cinzas e alto como um homem. A criatura pulou sobre o primeiro irmão, o mordeu no ombro com muita força. Com a dor, o homem soltou a faca, e o grito de dor foi tão assustador que deixou o segundo irmão paralisado por alguns segundos.
     Quando o primeiro irmão gritou “Nlaza!” em seu único grande fôlego, o segundo irmão segurou a lança com as duas mãos e a enfiou entre as costelas da criatura. Percebendo que era possível infligir dor contra a criatura, Nlaza foi tomado por um sentimento de coragem e uma força que o possibilitou levantar o adversário por meio da lança acima da própria cabeça, apoiando a arma no chão e deixando o inimigo sem reação enquanto o seu peso fazia o trabalho de afundar-lhe mais ainda a lança dentro do peito.
     A criatura urrava de dor enquanto tentava segurar a lança, mas esta, aos poucos, atravessava sua carne até sair próximo a clavícula do outro lado. Os urros foram interrompidos por uma golfada de sangue e a criatura começou a espasmar antes mesmo da lança atravessá-lo. Após o último espasmo da criatura, Nlaza soltou a lança e foi ajudar o irmão, imóvel no chão. “Mpudi, Mpudi!”, disse Nlaza, enquanto amparava o irmão desmaiado. Temendo o pior, o homem tentou estancar o sangue do irmão, mas sem sucesso. Pensou que o cetro poderia salvar Mpudi e preferiu subir a elevação atrás do artefato.
     Na parte alta da elevação, havia uma placa de pedra no chão, no formato de um quadrado. Com sua segunda lança, Nlaza empurrou a pedra e encontrou um espaço onde havia um esqueleto em posição fetal. Entre os braços do esqueleto estava o cetro: um feixe cônico de palha preso pela parte mais grossa com uma trama de palha avermelhada e enfeitada com pequenas conchas brancas; na ponta mais fina havia uma trama de palha branca e várias pequenas esferas beges. O cadáver parecia estar ali há muitos anos, mas o artefato não tinha manchas de envelhecimento ou sujeita.
     Quando Nlaza retirou o cetro, sentiu tomar conta de seu corpo uma felicidade como nunca sentira. Era a certeza de que tudo seria resolvido e seu povo seria curado da maldição. Ele desceu a elevação e levou o objeto para Mpudi, colocando-o entre suas mãos, apoiando o objeto sobre o abdômen do homem deitado de barriga para cima. “Vai dar tudo certo, tudo certo meu irmão”, disse Nlaza. Ele não ficou aguardando para saber se haveria alguma melhora em Mpudi e já se apressou para acender uma fogueira para protegê-los dos perigos da floresta à noite. Quando estava quase acesa, ouviu o irmão dizer “Nlaza, estou melhor”. Nlaza virou-se para o irmão e sorriu. O cetro de Omolu realmente tinha poderes de cura, pois Mpudi não sangrava mais. Nlaza terminou de preparar a fogueira e eles comeram a carne da criatura. Lázaro sentia o sabor da carne, que era ruim, mas a fome deixava o sabor aceitável. Cansados, os homens se deitaram ao redor da fogueira e adormeceram. 
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