quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 15


14 
     Lázaro ficou ainda por muito tempo dentro da igreja. Não sabia o que pensar, não sabia para onde ir. Pouco antes da missa das doze e quinze, um senhor pediu licença para se sentar e retirou Lázaro de seu transe. Ele caminhou até a porta principal, seguiu paralelamente às paredes do prédio e subiu a rua Doutor Costa Aguiar. Fez todo o caminho de volta ao apartamento de maneira automática, atravessando esquinas sem olhar e correndo o risco de ser atropelado. Não ouviu as buzinadas e ofensas dos motoristas, mas não se importaria se tivesse ouvido. A mente de Lázaro estava totalmente focada em entender em que ele estava envolvido. Sentia que as informações que tinha até aquele momento não eram suficientes para ter o mínimo de clareza do estava acontecendo. Os dois Guardiões que passaram por sua vida não explicaram nada sobre o grupo que eles faziam parte. Pensou se os homens saberiam algo mesmo ou foram doutrinados ao ponto de não questionarem. Poderiam ser membros de uma seita apocalíptica ligada ao misticismo do ano dois mil, em que seus seguidores começavam a aceitar ideias absurdas e a ver o que não existia, assim como as visões extraordinárias e místicas de alguns antropólogos que passavam tempo demais convivendo com povos supersticiosos.
     Quanto à visão na igreja, Lázaro supôs que estava apenas cansado. Não teria nenhuma outra resposta além de estar cansado e possivelmente não aceitaria qualquer outra. Era assim que racionalizava, era assim que sempre tentou explicar suas próprias lembranças estranhas da infância: uma mente lúcida não vê monstros. Em todas as ocasiões em que ele tivera contato com a Bússola, viu a luz dourada que emanava dela, e nenhuma das três ocasiões foram momentos em que ele poderia dizer que estava mentalmente saudável ou maduro. Contudo, compartilhava com Adriano a experiência com a lupa, um objeto extraordinário que funcionava como uma lente especial que possibilita enxergar cores invisíveis. Essa era uma suposição que era compactuada com seu amigo e este defenderia com toda sua convicção que não era necessária uma gota de fé para saber que as qualidades do objeto existem e vão para além da compreensão humana.
     Lázaro desceu do ônibus e caminhou em silêncio. Ao chegar ao andar de seu apartamento, Andreia e Anahí apareceram.
     – Olha aí o mal-educado, amiga. – Andreia disse em tom de sarcasmo.
     A outra garota não respondeu. Fez apenas um muxoxo de desaprovação. Lázaro olhou para as duas, inexpressivo, e fechou a porta com força.
     – Viu, Ana? Muito grosseiro esse aí. Acho que ele quer que a gente fique com peninha dele.
     Lázaro foi até a cozinha e pôs tudo que tinha no bolso sobre a mesa. Pegou a lupa e olhou através dela para todos os lados, procurando objetos que apresentassem a luminosidade que a Bússola apresentava, mas não havia nada. Ainda com a lupa em sua mão, caminhou devagar até a própria cama, tirou os sapatos e se deitou, aproveitando para olhar, através da lupa, a luz do sol que entrava pela janela. A lupa era apenas um pedaço de vidro irregular dispersando a luz, e nada mais. Pouco a pouco, Lázaro foi perdendo a atenção, a realidade e as cores começaram a dançar na frente de seus olhos. Pouco a pouco, sua mente esvaziou e ele dormiu. 
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