quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 14


13 
     Pouco tempo depois de Adriano abrir o antiquário, um homem com cerca de vinte e cinco anos entrou. Era incomum a presença de pessoas jovens, exceto decoradores e fotógrafos querendo alugar móveis para ensaios fotográficos. A regra de Isaac sempre foi que “antiquário é loja, não é locadora”, mas alguns fotógrafos desavisados ou insistentes tentavam a todo custo alugar móveis antigos e bonitos. Porém, o visitante era diferente. Ele entrou, cumprimentou brevemente e ficou olhando os móveis, mais por curiosidade do que por interesse. 
     – Bom dia. Em que posso ajudar? – Adriano o abordou ainda em meio aos móveis. 
     – Bom dia. Eu estou apenas olhando. Obrigado. – respondeu o rapaz, de sotaque carioca. 
     – Se precisar, é só chamar.
     Naquela manhã, o jovem homem ficou perambulando pela loja. Quando Adriano começava a ficar com medo e já cogitava chamar a polícia, Luis apareceu. Cordial como sempre, foi ao encontro de Adriano para cumprimentá-lo. 
     – Bom dia, Adriano. Como você está? E a loja, tudo bem? 
     – Bom dia, Luis. Está tudo bem. E o senhor? 
     – Estaria melhor se você dissesse que encontrou o nosso Ovo. 
     – Ainda não está comigo, senhor Luis. E posso garantir que anseio muito tê-lo aqui. Claro que ainda temos a investigação da polícia porque poucas pessoas comprariam um item valioso como ele. Lázaro diz que, se foi roubado, o assaltante será capturado. 
     – Mas eu tenho certeza de que não foi roubado. Quando acharem, guardem para mim. – Luis sorriu e estendeu a mão para Adriano. 
     – Sim, senhor. Bom dia. – Adriano retribuiu o sorriso e cumprimentou.
     Luis saiu do antiquário sem perceber a presença do terceiro elemento e este caminhou até o balcão onde estava Adriano. 
     – Roubaram a loja?
      – Ah, não. Invadiram a casa do antigo dono. – Adriano respondeu, fingindo despreocupação. 
     – Nossa. Perigoso. Em um mundo assim, como um jovem manterá pura a sua vida?
     – Como? – perguntou Adriano, sem entender o que o homem dissera.
     O homem olhou para Adriano.
     – Eu disse que, em um mundo assim, como um jovem manterá pura a sua vida.
     – Ah, o salmo cento e dezenove. Você é cristão?
     – Sim, sou.
     – Eu também. – Adriano sorriu.
     Aliviado, Adriano voltou-se às listas do estoque da loja. Não percebeu que a frase era o aviso sobre quem era aquele homem, focando-se apenas em seu princípio de que se alguém se declarava cristão, provavelmente não faria maldades.
     – Então… qual é o seu nome? – Adriano desviou o olhar da tela do computador para o visitante.
     – Alexandre. – O homem se aproximou e estendeu a mão.
     – Adriano. Prazer. – disse, cumprimentando-o.
     – Então você não é o Lázaro?
     – Não. Lázaro é meu amigo. – Adriano tentou demonstrar indiferença. – Eu assumi a administração da loja por ele.
     – A loja era de Isaac Shlock?
     – Sim, ele mesmo. – Adriano ficou admirado com a informação precisa. – Você o conhecia?
     – Só de nome. E o filho dele é o Lázaro.
     – Isso mesmo.
     – Como eu faço para falar com o Lázaro?
     – Bem… Eu posso ligar para ele, só não garanto que ele falará com você.
     – Okay. Se você puder, eu agradeço.
     Adriano pensou que Lázaro estava mais recluso do que o de costume desde a leitura da carta, mas se Alexandre sabia quem era a família, poderia ser importante o que tinha para falar.
     – Alô, Lázaro. É o Adriano. Tem um cara aqui na loja chamado Alexandre querendo falar com você.
     – Alexandre? É sobre o quê?
     – Na verdade, não sei. Ele quer falar com você.
     Lázaro deu um suspiro de reprovação, mas aceitou falar com Alexandre.
     – Olá, Lázaro, meu nome é Alexandre.
     – Olá. Do que você precisa?
     – Então, eu queria dizer que “Como um jovem manterá pura a sua vida? 
     Lázaro ficou em silêncio alguns segundos. Adriano olhou para Alexandre, curioso com a insistência no versículo da bíblia, mas então teve o estalo e lembrou que o amigo lhe falara desse versículo e de que era o sinal do Guardião. Então, Lázaro respondeu: “Sendo fiel às palavras de deus” e, após uma curta conversa, o homem devolveu o telefone à Adriano, agradeceu e foi embora. Adriano pegou o telefone e verificou se Lázaro ainda estava na linha. 
     – Lázaro? 
     – Oi. Estou indo agora para a Catedral do centro e depois nos falamos. Até logo.
     Lázaro desligou o telefone e se arrumou rápido para ir encontrar Alexandre. Das coisas que o pai escrevera e que soavam como irreais, a existência de alguém que responderia ao chamado, um Guardião da Bússola, era a maior. Por fim, Alexandre estava lá, se identificou como o esperado e levaria para sempre o tal objeto que o pai guardara por anos sob a cristaleira. Contudo, poderia ser uma chance de entender em que o pai estava envolvido e obter mais informações para além das que estavam na carta. A vida de Isaac se tornara um mistério e Lázaro estava curioso para saber: era essa a última parte para poder enterrar o pai de verdade.
     Lázaro pegou a carteira, o celular e a valise, mas ficou olhando para ela. Não era uma sacola ou uma mochila, era um objeto chamativo demais para sair na rua. Pensou que Luis poderia estar esperando e a valise seria o primeiro alvo. Para proteger a Bússola de Acre, Lázaro retirou a peça com o pano que a encobria e a embrulhou em um pano de prato velho. No lugar da Bússola, colocou uma cebola, a embrulhou e colocou novamente na valise. A lupa foi guardada no bolso da calça. Com plena certeza de que a Bússola estaria protegida, Lázaro a colocou dentro da calça, apoiada dentro da cueca. Era desconfortável, mas tinha certeza que ninguém mexeria ali. Para compensar o tempo que gastou escondendo a Bússola, Lázaro mal trancara a porta e desceu a escada, correndo. Para seu azar, encontrou Andreia, sua vizinha, subindo as escadas. Ela sorriu e foi em sua direção para abraçá-lo. 
     – Oi Lázaro.
     Lázaro desceu alguns degraus abaixo do patamar, fez um drible com os braços totalmente encostados ao próprio corpo e saiu espremido ao guarda corpo da escada. Andreia olhou para Lázaro com os braços levemente abaixados e ficou paralisada, acompanhando com o olhar o movimento do vizinho, sem acreditar que ele estivesse agindo de maneira tão incomum.
     – Deixe o Seu Lázaro em paz, Andreia.Ieda, que vinha com o marido alguns metros atrás, gritou com a filha. 
     – Bom dia Seu Gerson e Dona Ieda. – Lázaro passou pelos vizinhos sem ao menos diminuir a velocidade.
     Lázaro caminhou na calçada a passos largos até o ponto de ônibus porque não tinha folego para correr nem cem metros. Por sorte, o ônibus chegou pouco depois dele entrar no terminal e, dali, viajou até o centro. Saiu do ônibus ansioso e andou tão rápido quanto pode até a catedral católica. Ao atravessar a porta lateral da catedral, olhou no relógio e viu que era quase onze horas. Percebeu que a igreja tinha poucas pessoas: alguns casais, mulheres e homens idosos. Em meio aos vários bancos de madeira, Lázaro percebeu um homem jovem, ajoelhado sobre o genuflexório do banco, com roupas simples e um anel chamativo de ouro no dedo anelar da mão direita. Priorizar aquele detalhe era sua melhor aposta. Se fosse aquele o guardião, ele se aproximaria ao ver a valise, o sinal dado por Lázaro ao telefone.
     Lázaro se sentou um banco a frente do homem e ficou olhando para o altar. Pouco depois, o homem se sentou ao lado dele. 
     – Você trouxe a Bússola de Acre? 
     – Você é o Alexandre? 
     – Não reconhece a voz? 
     – Acho que sim, mas não tenho certeza. 
     – Bem, sou eu. Aqui está meu anel de guardião, caso ainda suspeite.
     Lázaro olhou para o grande anel dourado na mão de Alexandre. Parecia com um que ele lembrava ter visto o pai usando há muitos anos. Possuía em círculo a minúscula inscrição “NON NOBIS DOMINE SED NOMINI TUO DA GLORIAM”, que significa “não a nós, senhor, mas à glória do teu nome”. No centro, um desenho em alto relevo da Bússola de Acre. De um lado havia uma cruz vermelha em um escudo e, do outro, um cordeiro. 
     – É uma ordem religiosa esse grupo que cuida da Bússola? 
     – Não. Somos um grupo antigo formado inicialmente por católicos, mas eu não sou ligado a uma religião. 
     – Mas você usa um anel com símbolos católicos. 
     – Pela tradição. Mas minha relação é com deus. 
     – Okay… é que eu não sei nada sobre vocês. 
     – Eu recebi essa missão quando meu mestre recebeu o aviso que você não seria mais o Guardião. Eu seria o mão-de-apoio, como era o meu mestre, e passei a ser o primeiro. 
     – Eu realmente não entendo nada das regras desse grupo. Queria entender melhor a respeito... 
     – Infelizmente eu não posso te explicar nada. Eu nem posso ficar aqui muito tempo. Entregue logo a Bússola e eu vou embora.
     Lázaro colocou a mão dentro da calça e entregou a Bússola à Alexandre.
     – Guarde a Bússola na calça e leve a valise também. Não tem nada de valor dentro. – disse Lázaro, passando os objetos para o homem.
     – Isso deve ser o maior pecado da minha vida – disse Alexandre, enquanto guardava a esfera.
     No instante que Alexandre fechou o zíper da calça, eles viram Luis entrando pela porta lateral, alguns metros à frente. Alexandre, que estava sentado do lado do banco próximo do corredor, disse “eu sabia”. Ele se levantou rapidamente e correu pela nave até a porta principal, ao fundo. Luis sorria, pois premeditou tudo e deixou à porta principal dois homens próximos à última fileira de bancos, bloqueando o caminho do guardião. Alexandre correu na direção deles, porém, ao chegar no penúltimo banco, tangenciou para a direita, pisou no assento e no encosto do último banco e saltou, caindo com um rolamento perfeito pelo chão. Contudo, ao se levantar, soltou a valise. Simulando preocupação, Alexandre avançou em direção a ela, mas parou quando viu um dos homens com uma faca se aproximando dele. Recuando alguns passos de costas, Alexandre girou sobre o próprio corpo e correu para a saída, se misturando ao grupo de pessoas que caminhavam na praça José Bonifácio, e desceu pela Rua Regente Feijó.
     Lázaro ficou sentado o tempo todo, virando-se um pouco de lado para ver a fuga de Alexandre. Não percebeu a aproximação de Luis pelo lado oposto, e este se sentou no mesmo banco.
     – Adiantou tudo isso, Lázaro? – Luis estava sereno enquanto recebia a valise.
     – Acho que sim. – Lázaro sorriu e virou-se para frente e passou a contemplar a imagem de Jesus crucificado atrás do altar.
     – Você poderia pedir quanto quisesse. – disse Luis, abrindo a valise – Cinco mil, dez... – Então, parou de falar.
     Dentro da valise, Luis viu a cebola parcialmente desembrulhada. O homem manteve o silêncio, suspirou e olhou para Lázaro.
     – Ele está com a esfera? – perguntou, monótono. 
     – Claro que está. – Lázaro segurava o riso.
     Luis suspirou profundamente. Era possível ver a serenidade dele sendo substituída por um ódio comedido. O olhar do homem – que até então só esboçava tranquilidadecrispava. Lázaro sentiu medo, pois lembrara que provavelmente ele era o assassino do pai. 
     – Eu deveria ter lhe dito que vender para mim era sua única opção... mas deixe estar. Em breve nos veremos de novo.
     Luis deu um breve sorriso forçado, levantou e se encaminhou para a porta. Lázaro, apesar do medo, acompanhou com o olhar o homem saindo da igreja. Devido ao movimento que fazia, Lázaro sentiu a lupa incomodando no bolso e, retirando-a, olhou através dela para o homem. Para sua surpresa, o que via não era um homem, mas algo próximo de um pesadelo ou de alguma lenda que faria as crianças não andarem sozinhas à noite. Seu corpo se arrepiou completamente e Lázaro se sentou virado para o altar novamente, tentando assimilar mais uma informação, possivelmente a mais assustadora até o momento. 
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