Ao acordar na manhã de segunda-feira, Lázaro teve uma breve sensação de que estava deixando algo escapar. Depois lembrou que eram as aulas, mas ele estava de licença por três meses a partir daquele dia. “Que faça bom proveito quem for lecionar no meu lugar”, pensou. Logo após a morte do pai, Lázaro foi até a escola levar o atestado de óbito e aproveitou para pedir os três meses de licença que tinha direito. Queria ter mais tempo e só voltar em agosto ao trabalho, mas teria que voltar alguns dias antes do fim do segundo bimestre, quando as notas já estavam fechadas e o professor substituto já tinha feito todo o trabalho mais pesado. Não era agradável a sensação de fazer isso com alguém que, como ele, estava numa profissão que ficava cada dia mais difícil. Além disso, sonhava em alguns momentos na oportunidade de não precisar mais entrar em uma sala de aula, apesar de não ter outra coisa em mente que pudesse fazer para pagar as contas.
Apesar de estar em uma situação confortável quanto ao primeiro emprego, tinha que pensar no que fazer com o segundo. Sabia que era o que os alunos mais tinham interesse, mas o rendimento era muito aquém do desejado. Era uma situação insustentável por mais tempo e, sabendo que poderia ter a mesma renda oriunda do antiquário, preferiu pedir demissão. A ligação feita de seu novo celular foi o mais breve possível: não tinha registro em carteira, nem contrato, nada. Apenas disse que, com a morte do pai, novos parâmetros de vida seriam seguidos e, infelizmente, ele teria que deixar o emprego. Henrique, do outro lado da linha, fingiu que lamentava a perda de Lázaro e Lázaro fingiu que acreditou. Tudo certo, como esperado para a boa convivência.
No fim da tarde, Adriano visitou Lázaro e este contou partes da carta, assim como a mensagem para o Guardião. Adriano tinha como novidade sua própria demissão no emprego. O patrão tentou convencê-lo do contrário pelos anos juntos, mas Adriano explicou que era uma questão de honra assumir a loja e ajudar o amigo. O patrão acabou cedendo, garantindo que as portas da empresa estariam sempre abertas para ele e que Adriano não precisaria cumprir o aviso prévio. Em sinal de amizade, Adriano deixou o número de celular para que ligassem se alguém precisasse de informações sobre as tarefas que ele desempenhara na empresa por tantos anos. Lázaro ficou mais tranquilo com a história, entendendo que, assim, Adriano não estaria arriscando o próprio futuro.
Após uma conversa amena, Lázaro deu as orientações que considerava importantes para Adriano não precisar improvisar mentiras. Considerando que Adriano não era bom em mentir e, também, não gostava, Lázaro assumiu a missão de enganar o amigo para o próprio bem de ambos. Além disso, Lázaro omitiu partes das informações importantes de modo que, falando a verdade, Adriano acabaria dando informações imprecisas que gerariam falsas ideias em quem as ouvisse e, caso fosse necessário, ainda poderia desfazer o mal-entendido proposital.
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