quarta-feira, 11 de março de 2020

Capítulo 1


Prefácio 
     Era noite de sexta-feira e Lázaro riscava a lousa com nomes impronunciáveis para a maioria dos jovens sentados na sala de aula. O acordo entre ele e seus alunos era simples: ninguém o atrapalhava e ele não atrapalhava ninguém. Já estavam no segundo mês do ano letivo e tudo parecia ir bem.
     “Thomas Hobbes foi um filósofo inglês autor da obra ‘O Leviatã’...” Na primeira frase escrita na lousa, Hobbes recebera ao menos mais três nomes diferentes escritos nos cadernos dos jovens desinteressados – para a maioria dos adolescentes que Lázaro conhecera até então, não fazia diferença se Hobbes se chamasse Thomas ou qualquer outro nome. Para quase todos ali, inclusive para Lázaro, a aula era um hiato na vida, pois a vida só existia fora dos muros da escola. Após soar o último sinal às vinte e três horas, os jovens normalmente voltavam ao que eles entendiam por mundo real: passear pelas ruas quase escuras, com suas luzes de vapor de sódio amareladas, e voltar para seus lares para, no dia seguinte, começarem novamente a peregrinação entre a casa, o emprego e a escola. Porém, não seria assim aquela noite: era a tão aguardada noite de sexta.
     Às sextas-feiras, muitos dos jovens do Jardim Padre Anchieta não precisavam ir diretamente para casa por não precisarem acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Assim, quando o sinal ecoou pelos corredores da escola, anunciando mais um fim de período, quem pudesse, iria se divertir noite adentro. As lanchonetes ficavam cheias até às duas ou três horas, tocando músicas da moda em seus aparelhos de som de mil e quinhentos watts de potência, enquanto alguns rapazes e algumas moças dançavam em passos ritmados e em grupo, como uma coreografia. Assim seria, exceto para Lázaro.
     Enquanto os jovens passeavam pela larga avenida próxima a escola e seguiam em direção às lanchonetes, Lázaro fazia o sentido contrário, para seu apartamento. Na manhã seguinte, precisaria acordar cedo para seu segundo emprego. Tentando fazer silêncio, subiu as escadas para o apartamento, evitando se apoiar no desgastado e barulhento corrimão. Ao chegar ao patamar do primeiro andar, com sua visão periférica, Lázaro teve certeza que olhos o encaravam pela janela do apartamento ao lado. Sem diminuir sua velocidade, ele abriu a porta e entrou. Alguns meses antes, os olhos de Andreia não o seguiam mais, mas ele tinha certeza que era ela, sua vizinha há quase dez anos.
     Os pais de Andreia, Ieda e Gerson, eram moradores daquele apartamento desde que se casaram. Gerson era metalúrgico em uma empresa da cidade e quase nunca era visto em seu apartamento. Quando não estava dormindo, estava trabalhando ou jogando truco no bar. Ieda era dona de casa e diarista esporádica. Por sua necessidade de se ausentar, ela se tornou amiga de Lázaro. Quando Andreia ainda era muito pequena, Ieda precisara sair para um serviço de faxina e a vizinha, que sempre cuidava da menina, não estava em casa. Lázaro estava acordado em casa naquele momento e se ofereceu para cuidar da criança. Explicou que cuidou de sua prima Sara quando era adolescente e jurou que sabia direitinho. Seguindo sua infalível capacidade de pressentir coisas boas e ruins, Ieda aceitou o favor e Lázaro ficou a tarde toda brincando com a menina no patamar do andar deles. Depois daquele dia, Andreia tentou convencê-lo a brincar mais vezes, mas Ieda a proibiu. “Lázaro tem outras obrigações”, dizia a mulher para a filha, apesar de optar em deixar a menina com ele em outras ocasiões, consolidando entre eles uma relação de respeito.
     Andreia cresceu falando que um dia Lázaro seria o marido dela e ele sempre respondia que era marido de mentirinha”, mas a garota pareceu não aprender essa regra. Por vezes, Lázaro ouvira as más línguas dizendo que ele só estava esperando a menina crescer um pouco mais para, assim, deixar a conversa de ser uma relação de mentira de lado. Porém, muitos não sabiam que ele nunca mais teve interesse em ninguém desde Beatriz, sua ex-colega de faculdade. Quando uma colega de trabalho, com tantas qualidades quanto Beatriz, o chamou para sair certa vez, ele respondeu “não, obrigado”. Outras professoras diziam para ele que lhe arrumariam uma namorada. Longe de seus ouvidos, outros diziam que ele deveria ser gay, ou algo do tipo. Contudo, metade dos boatos cessaram quando uma professora o enfrentou, perguntando abertamente se ele não buscava uma namorada por ser gay. Lázaro, não se abalou e respondeu que não estava procurando nem homens e nem mulheres e que cada um cuidasse da própria vida, encerrando uma parte dos debates e das falsas amizades.
     Desde as primeiras brincadeiras com Andreia até aquele momento, passaram-se anos. A garota cresceu, deixou de brincar e passou a forçar encontros na escada com Lázaro para conversar com ele. Com assédios frequentes, Lázaro conversou com Ieda e pediu para que a mulher fizesse algo, se não, ele iria embora do prédio. A mulher concordou com o vizinho e bateu na filha, pois era assim que acreditava fazer Andreia parar de perturbar. Daquele dia em diante a garota ficou na janela, olhando os movimentos do vizinho. Na escola, fizera brincadeiras irritantes durante as aulas dele pelos três anos que ela esteve no ensino médio. A paixão da garota pareceu ter se extinguido no fim do ano anterior, quando ela finalmente começara a se envolver com Marcio, que estudava com ela e que também insistira por meses até conseguir alguma afeição. Quando Andreia faltou em uma aula do ano anterior, Lázaro conversou com Marcio e lhe deu todo apoio para que conseguisse ter um relacionamento mais sério, mas ele sabia que Andreia estava enganando o rapaz, dizendo para ele que o vizinho iria contar para Ieda e o namoro era perigoso.
     Alguns dias depois, Andreia se afastou do rapaz e passou a ficar todo o tempo que tinha com uma garota nova na sala chamada Anahí, uma garota muito retraída e que provavelmente encontrara em Andreia, uma amiga que falaria por ambas. Lázaro não deu importância às escolhas da garota, contanto que tivesse paz.
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