Prefácio
Era noite de sexta-feira e Lázaro riscava a lousa com nomes impronunciáveis para a maioria dos jovens sentados na sala de aula. O acordo entre ele e seus alunos era simples: ninguém o atrapalhava e ele não atrapalhava ninguém. Já estavam no segundo mês do ano letivo e tudo parecia ir bem.
Era noite de sexta-feira e Lázaro riscava a lousa com nomes impronunciáveis para a maioria dos jovens sentados na sala de aula. O acordo entre ele e seus alunos era simples: ninguém o atrapalhava e ele não atrapalhava ninguém. Já estavam no segundo mês do ano letivo e tudo parecia ir bem.
“Thomas Hobbes foi um filósofo inglês autor da obra ‘O Leviatã’...” Na
primeira frase escrita na lousa, Hobbes recebera ao menos mais três nomes
diferentes escritos nos cadernos dos jovens desinteressados – para a maioria
dos adolescentes que Lázaro conhecera até então, não fazia diferença se Hobbes
se chamasse Thomas ou qualquer outro nome. Para quase todos ali, inclusive para
Lázaro, a aula era um hiato na vida, pois a vida só existia fora dos muros da
escola. Após soar o último sinal às vinte e três horas, os jovens normalmente voltavam ao que eles
entendiam por mundo real: passear pelas ruas quase escuras, com suas luzes de
vapor de sódio amareladas, e voltar para seus lares para, no dia seguinte,
começarem novamente a peregrinação entre a casa, o emprego e a escola. Porém, não seria assim aquela
noite: era a tão aguardada noite de sexta.
Às sextas-feiras, muitos dos jovens do Jardim Padre Anchieta não precisavam
ir diretamente para casa por não precisarem acordar cedo no dia seguinte para
trabalhar. Assim, quando o sinal ecoou pelos corredores da escola, anunciando
mais um fim de período, quem pudesse, iria se divertir noite adentro. As
lanchonetes ficavam cheias até às duas ou três horas, tocando músicas da moda
em seus aparelhos de som de mil e quinhentos watts de potência, enquanto alguns rapazes
e algumas moças dançavam em passos ritmados e em grupo, como uma coreografia.
Assim seria, exceto para Lázaro.
Enquanto os jovens passeavam pela larga avenida próxima a escola e
seguiam em direção às lanchonetes, Lázaro fazia o sentido contrário, para seu
apartamento. Na manhã seguinte, precisaria acordar cedo para seu segundo
emprego. Tentando fazer silêncio, subiu as escadas para o apartamento, evitando
se apoiar no desgastado e barulhento corrimão. Ao chegar ao patamar do primeiro
andar, com sua visão periférica, Lázaro teve certeza que olhos o encaravam pela
janela do apartamento ao lado. Sem diminuir sua velocidade, ele abriu a porta e
entrou. Alguns meses antes, os olhos de Andreia não o seguiam mais, mas ele
tinha certeza que era ela, sua vizinha há quase dez anos.
Os pais de Andreia, Ieda e Gerson, eram moradores daquele apartamento desde que se casaram.
Gerson era metalúrgico em uma empresa da cidade e quase nunca era visto em seu
apartamento. Quando não estava dormindo, estava trabalhando ou jogando truco no bar. Ieda era dona de casa e
diarista esporádica. Por sua necessidade de se ausentar, ela se tornou amiga de
Lázaro. Quando Andreia ainda era muito pequena, Ieda precisara sair para um serviço de faxina e a vizinha, que sempre cuidava da
menina, não estava em casa.
Lázaro estava acordado em casa naquele momento e se ofereceu para cuidar da criança.
Explicou que cuidou de sua prima Sara quando era adolescente e jurou que sabia
direitinho. Seguindo sua infalível capacidade de pressentir coisas boas e
ruins, Ieda aceitou o favor e Lázaro ficou a tarde toda brincando com a menina
no patamar do andar deles. Depois daquele dia, Andreia tentou convencê-lo a
brincar mais vezes, mas Ieda a proibiu. “Lázaro tem outras obrigações”, dizia a
mulher para a filha, apesar de optar em deixar a menina com ele em outras
ocasiões, consolidando entre eles
uma relação de respeito.
Andreia cresceu falando que um dia Lázaro seria o marido dela e ele
sempre respondia que era “marido de mentirinha”, mas a garota pareceu não aprender essa regra. Por vezes, Lázaro
ouvira as más línguas dizendo que ele só estava esperando a menina crescer um
pouco mais para, assim, deixar a conversa de ser uma relação de mentira de
lado. Porém, muitos não sabiam que ele nunca mais teve interesse em ninguém
desde Beatriz, sua ex-colega de faculdade. Quando uma colega de trabalho, com
tantas qualidades quanto Beatriz, o chamou para sair certa vez, ele respondeu “não,
obrigado”. Outras professoras diziam para ele que lhe arrumariam uma namorada. Longe de seus ouvidos, outros diziam que ele
deveria ser gay, ou algo do tipo. Contudo, metade dos boatos cessaram quando
uma professora o enfrentou, perguntando abertamente se ele não buscava uma
namorada por ser gay. Lázaro, não se abalou e respondeu que não estava
procurando nem homens e nem mulheres e que cada um cuidasse da própria vida,
encerrando uma parte dos debates e das falsas amizades.
Desde as primeiras brincadeiras com Andreia até aquele momento, passaram-se
anos. A garota cresceu, deixou
de brincar e passou a forçar encontros na escada com Lázaro para conversar com
ele. Com assédios frequentes, Lázaro conversou com Ieda e pediu para que a
mulher fizesse algo, se não, ele iria embora do prédio. A mulher concordou com
o vizinho e bateu na filha, pois era assim que acreditava fazer Andreia parar de
perturbar. Daquele dia em diante a garota ficou na janela, olhando os movimentos do
vizinho. Na escola, fizera brincadeiras irritantes durante as aulas dele pelos
três anos que ela esteve no ensino médio. A paixão da garota pareceu ter se
extinguido no fim do ano anterior, quando ela finalmente começara a se envolver
com Marcio, que estudava com ela e que também insistira por meses até conseguir
alguma afeição. Quando Andreia faltou em uma aula do ano anterior, Lázaro conversou com
Marcio e lhe deu todo apoio para que conseguisse ter um relacionamento mais
sério, mas ele sabia que Andreia estava enganando o rapaz, dizendo para ele que
o vizinho iria contar para Ieda e o namoro era perigoso.
Alguns dias depois, Andreia se
afastou do rapaz e passou a ficar todo o tempo que tinha com uma garota nova na
sala chamada Anahí, uma garota muito
retraída e que provavelmente encontrara em Andreia, uma amiga que falaria por
ambas. Lázaro não deu importância às escolhas da garota, contanto que tivesse
paz.
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